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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Ban Ki-moon tinha razão, artigo de Montserrat Martins


Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, na Rio +20
Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, na Rio +20
Nossos recursos são escassos e o tempo está acabando. A natureza não negocia com seres humanos.” (Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, na Rio +20)
[EcoDebate] De um dia para outro tive de reescrever essa coluna, que se chamaria “Ban Ki-moon tem razão”. Isso porque nosso glorioso secretário-geral das Nações Unidas desmentiu a si mesmo, o que dissera no dia anterior. Compartilho com vocês o primeiro parágrafo que eu havia escrito, originalmente:
“Ban Ki-moon foi mais sincero do que ‘político’, honrou seu cargo e compromisso com o planeta ao invés de fazer ‘média’ com seus eleitores, os governantes presentes ao Rio+20. Ao dizer com todas as letras que o texto final não representa avanço significativo em relação ao de 20 anos atrás, expôs a falta de coragem e de compromisso dos governantes com a solução da crise climática.”
Pois bem, o “fazer média com seus eleitores” acabou prevalecendo sobre a verdade, sobre a grandeza e dignidade do seu cargo, sobre a preocupação com nosso futuro comum e até sobre o respeito à nossa inteligência. Dizer agora que o texto conclusivo é “ambicioso, amplo e prático” é subestimar nossa capacidade de compreensão do que realmente está acontecendo.
O texto final do Rio+20 é decepcionante, fraco, não inclui valores claros de financiamento para políticas sustentáveis e nem a criação de um fundo específico para o desenvolvimento sustentável. Sem propostas concretas ou fontes de financiamento, é um documento vago, incapaz de enfrentar o desequilíbrio climático. Aliás, para quem não lembra, os extremos de frio não desmentem e sim confirmam o aquecimento global, que não é só o aumento das temperaturas médias, também é a maior variação de temperaturas entre máximas e mínimas, sem termos o papel de ‘ar condicionado’ que as florestas representavam antes de serem derrubadas.
O Rio +20 não teve capacidade de trazer aos seus debates líderes fundamentais para qualquer processo de mudança global consistente, como Barack Obama e Angela Merkel. O Brasil, maior potência ambiental do planeta, não consegue se diferenciar dos outros países nesta área porque, internamente, também não tem a coragem de enfrentar as pressões dos desmatadores – está aí a desfiguração do nosso Código Florestal.
A Amazônia já foi devastada em pelo menos 20% e a Mata Atlântica em 88% de suas áreas originais, até 2010. Também estamos negligenciando a saúde dos rios, do ar e portanto da própria população, é o caso do abandono do projeto Pró-Guaíba, por sucessivos governos gaúchos, assim como da ausência de políticas de prevenção da poluição do ar nos grandes centros. Aliás, está sob ameaça inclusive a ecologia do nosso mar territorial, que além dos vazamentos de petróleo também enfrenta a pesca predatória que está tentando derrubar a restrição do tamanho de redes de emalhe, atualmente em 2,5 Km, para voltar a usar mais de 20 km de redes por barco. Se devemos nos orgulhar dos milhões de brasileiros tirados da linha da pobreza, um fato, também devemos sentir vergonha dos milhões de hectares devastados nas nossas florestas, dos nossos rios e ares poluídos, do nosso mar em risco.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.
EcoDebate, 22/06/2012

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