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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sem grana para pagar a conta de ar, morreu. Crônica de Paulo Sanda


[EcoDebate] Era o último adeus para Uóchintom.
Familiares e amigos, estavam em redor. A viúva inconsolável, os amigos chocados, um ou outro conversava sobre o resultado do jogo, no dia anterior.
A coisa não foi justa, nosso time não tinha verba para o ar, por isto não conseguiu jogar direito.
Psiuuuu! Fala baixo cara, esqueceu do Uóchintom?
Ptz, é mesmo desculpe.
Mas também, porque eles não disseram nada, se soubéssemos, faríamos uma vaquinha, sei-lá a gente tentava dar um jeito, dele continuar a respirar também.
Pois é, ele estava desempregado há muito tempo, não conseguiu pagar a conta de ar, para toda família então decidiu que ele ficaria sem. Teve que se sacrificar para sua família poder continuar a respirar.
Mas e agora? Como eles ficarão?
Tudo bem, agora a viúva e os filhos receberão a cota deles pela assistência social.
Que loucura, a que ponto chegamos!
O diálogo acima, parece surreal, afinal não precisamos pagar para respirar não é?
Bom ainda não.
O fato é que o capital só existe onde existe carência, ou seja, é preciso que não haja para todos, para que a coisa possa ter valor financeiro. Como temos ar o suficiente, então não há como cobrar por ele.
Só não posso garantir que a situação continue assim.
Não, não estou dizendo isto simplesmente pela poluição atmosférica, digo também, mas o fato é que a Rio+20 está se aproximando, e a proposta de economia verde que os poderes estão tentando nos enfiar goela abaixo, é o “esverdeamento” do mercado financeiro. Do que se trata isto talvez você esteja se perguntando.
Aliás, que bom você estar se perguntando. Eu também fiz esta pergunta quando ouvi este termo, “economia verde” a algum tempo atras.
Vou lhe contar, em palavras simples o que é esta tal economia verde.
Antes de mais nada, vamos ao slogan da Cúpula dos Povos – “Por justiça sócio-ambiental, contra a mercantilização da vida e em defesa dos bens comuns”.
Somente esta definição da Cúpula dos Povos, já é o suficiente para nos explicar o que não é a economia verde, e consequentemente a importância de haver este evento que ocorrerá paralelamente a Rio+20.
Mas vamos lá, a economia verde diz que, as coisas só podem ser preservadas, se tiverem valor.
Mas que valor? É obvio que os rios, as florestas, os animais e as aves tem valor!
Porém o valor neste caso, é o financeiro. Tem que valer dinheiro!
Era como se colocássemos tudo que existe em uma grande tabela de preços. É como, mas não é tão simples assim. Quando se fala em colocar preço, quer dizer transformar a vida em papel, para servir na jogatina do mercado financeiro.
Em última análise, pegamos o ar e emitimos bônus de ar puro, estes serão negociados no mercado financeiro, os especuladores irão comprar, vender e tirar lucro com isto. Da mesma forma que se faz com ações e empresas, moedas(cambio), índices, etc.
E sabe o que acontece com isto?
Quem não pode pagar fica de fora!
Novamente indo as últimas consequências, o pobre vai ter que deixar de respirar, ou respirar menos.
Pois a emissão dos bônus de ar, não fará com que tenhamos mais ar, muito pelo contrário, quanto menos ar limpo houver, mais valiosos serão os papeis de ar, e quanto mais valosos eles forem, mais o mercado financeiro fará dinheiro com eles.
E com o ar cada vez mais raro, adivinha quem vai ficar sem?
O pobre, é lógico!
Estou maluco? Delirando? Ou apenas falando asneiras?
Infelizmente ainda estou meio lúcido.
A vida vem sendo mercantilizada não é de hoje.
A comida um dos elementos básicos para manutenção da vida, é commoditie, ela é transformada em mercadoria, esta mercadoria em papel, e este papel é negociado nos mercados internacionais. Com isto, a comida, que deveria ser direito básico de todo ser vivo, não digo nem humanidade, mas de todo ser vivente, pois precisamos de todo o planeta vivo, para que continuemos nós também, pois bem ela, a comida, que virou commoditie, faz falta onde ela é produzida. Os que vivem a margem das grande criações de gado por exemplo, não tem acesso fácil a ela, pois o preço dela não é definido lá, onde ela é produzida, mas lá fora, nos grandes centros urbanos, no Brasil e no mundo. O mesmo acontece com a soja, o milho, enfim tudo que virou papel, para os cassinos. E não para ai, os demais alimentos, aqueles que não são commodities, tem cada vez menos espaço para seu cultivo, pois quem os produz, é a agricultura camponesa, e não a grande agroindústria. E como a terra é cada vez mais rara, os pequenos não tem vez, pois não podem concorrer com o poder do capital.
Junto com o alimento, temos a água. Esta sempre foi alvo de disputas, mas agora ela está na mira das grandes corporações, que a anos fazem campanhas para o consumo de água engarrafada. Pois a água distribuída pelas companhias de saneamento, não são de boa qualidade, pelo menos isto é o que as empresas querem que acreditemos. Para ver mais detalhes sobre isto, sugiro que assistam ao filme do História das Coisas, sobre Água Engarrafada.
E sobre o ar, na verdade a coisa já começou a acontecer há muito tempo, com a criação dos bônus de carbono, que é outra mentira deslavada. Existem grandes engodos para isto, um deles é a venda de bônus feitas por empresas que fazem um suposto reflorestamento, mas a verdade é que estas árvores serão cortadas e depois transformadas em algo, e consequentemente os carbono será novamente liberado, ou o uso de emissão de papeis, sobre florestas já existentes, não preciso dizer que isto é outra ilusão, uma vez que ela já estava lá. Tudo isto é feito para “legalizar” a poluição e movimentar o cassino.
Em todas estas mentiras, a vida é sempre deixada de lado, o que prevalece é o capital.
E ai ainda pensa que sou maluco?
Se pensa, espero que você esteja certo.
Paulo Sanda é Teólogo, chefe escoteiro, palestrante, idealista, associado da ONG RUAH e tem sido ativo participante das manifestações Belo Monte NÃO, em São Paulo.
EcoDebate, 11/06/2012

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