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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cresce oposição à extração de gás de xisto pelo processo de fratura hidráulica (fracking)

Infográfico no Greenvana Style


Infográfico no Greenvana Style
De todas as pessoas que se opõem à controvertida prática de fraturar rochas em solo profundo para a extração de gás natural, a princesa Brianna Caradja pode ser a única que alega ser descendente de Vlad, o Empalador.
Mesmo assim, essa ancestralidade apavorante não a impediu de ser jogada em um camburão da polícia durante uma manifestação ocorrida em Bucareste em março contra os planos do governo de levar o processo de fratura hidráulica (“fracking”) para a sua Romênia. A prisão foi parar nas manchetes dos jornais, o que segundo a princesa foi algo que “ajudou bastante”. Por Pilita Clark, do Financial Times, no Valor Econômico, socializado pelo ClippingMP.
Uma semana depois, do outro lado do mundo, ônibus lotados de fazendeiros australianos gritando palavras de ordem circularam pelas ruas de Brisbane para desafiar as companhias de gás que pretendem perfurar suas terras. Na semana seguinte, manifestantes marcharam pela Cidade do Cabo contra o fracking no árido platô de Karoo, na África do Sul – um plano que vem enfrentando a oposição de outra aristocrata, a princesa Irene da Holanda, dona de terras no país, e de Jonathan Rupert, o bilionário de Richemont do setor de artigos de luxo. Assim vem sendo a reação contra a disseminação global do fracking na exploração do gás de xisto e outros recursos naturais não convencionais.
Seu uso transformou o cenário energético dos Estados Unidos e acabou com décadas em que o pensamento convencional era de que os suprimentos de gás e petróleo estavam diminuindo. Mas o setor chegou a um ponto crítico. Antes de cumprir sua promessa de energia mais barata e limpa em todas as partes do mundo, ele terá que contornar a oposição popular que, segundo temem alguns, poderá sufocá-lo no nascimento.
“Se o gás de xisto se mostrar farto ao redor do mundo, como é nos Estados Unidos, ele poderá não só substituir o carvão, a energia eólica e o urânio, dominando a geração de energia no mundo, como também substituir o petróleo como principal combustível para os veículos de transporte”, afirma Shai Hill, analista da Macquarie Securities especializado no setor de energia. “Os benefícios econômicos de uma queda nos preços da energia poderiam ser enormes; as ramificações geopolíticas da queda da demanda por petróleo, ainda maiores. Mas o mundo ainda precisa ser totalmente convencido de que a fratura hidráulica é completamente segura do ponto de vista ambiental.”
Opositores alegam que método pode envenenar reservas subterrâneas de água e até provocar terremotos
Até agora, o fracking foi banido na França e na Bulgária; suspenso ou voluntariamente paralisado em Reino Unido, África do Sul, Québec, partes da Alemanha e Austrália; e condenado do norte da Espanha até Nova York. Em muitos países, um impasse surgiu entre os oponentes, que alegam que o fracking vai envenenar a água potável, explodir torneiras de cozinha, provocar terremotos e afetar as energias renováveis, e um setor que insiste que ele é seguro se feito da maneira adequada.
Contribuindo para agravar a situação está a carência de evidências científicas definitivas para muitas das questões mais contestadas. “Ainda estamos no escuro, mesmo hoje, cinco ou seis anos após o começo do boom do xisto”, diz Avner Vengosh, professor da Duke University dos Estados Unidos e um dos poucos especialistas a publicar pesquisas de campo revisadas por colegas cientistas, desde que o boom do xisto teve início, sobre a acusação mais controvertida ao fracking: a contaminação da água.
O professor Vengosh diz que enquanto mais estudos não forem feitos, a discussão deverá permanecer num beco sem saída, com os ativistas adotando uma posição quase “religiosa” contra o fracking, enquanto as companhias de gás deverão empregar argumentos para “calar a boca” dos críticos. No meio disso estão os políticos e autoridades, que precisam encontrar um caminho entre os protestos públicos e um setor que às vezes parece, nas palavras do senador conservador australiano Bill Heffernan, “5.000 km à frente das autoridades reguladoras”.
Muitos que estão na vanguarda do fracking veem a oposição à prática como confusa. “Nosso setor vem empregando com segurança a tecnologia no processo de perfuração de mais de 1 milhão de poços desde a década de 1940″, diz a ExxonMobil em sua página na internet. Mas isso é como dizer que o iPhone está por aí desde a invenção do telefone.
O procedimento básico de fracking – bombear uma mistura de água, produtos químicos e areia a alta pressão em grandes profundidades no solo, para liberar gás natural preso – não é tão novo. Mas o fracking passou por uma revolução no fim da década de 1990, depois que as companhias aperfeiçoaram o processo e encontraram meios para perfurar horizontalmente grandes distâncias para extrair gás em quantidades comercialmente viáveis de formações densas de pedras de xisto.
O número de poços explorados horizontalmente que produzem gás em Barnett Shale, no Texas, a área mais desenvolvida da exploração de xisto nos Estados Unidos, passou de menos de 400 em 2004 para mais de 10 mil em 2010, e há hoje nos EUA mais de 22 mil poços de gás de xisto.
A disseminação da prática para outros recursos naturais não convencionais, como o petróleo de xisto e metano de jazidas de carvão, é a fonte dos protestos contra o fracking em países como a Austrália. “Antes, usava-se o fracking apenas se necessário”, diz Christopher Green, um consultor britânico que já trabalhou nessas operações em várias partes do mundo. “Agora, a coisa funciona assim: “mostre-me um motivo para eu não usá-lo”.”
No entanto, na medida em que o fracking se espalha pelos Estados Unidos, o mesmo acontece com as reclamações. Pessoas com poços particulares de água próximos de poços de gás explorados via fracking alegam que a água fica com uma coloração amarronzada e é contaminada por metano, o principal componente do gás de xisto. Uma casa perto de um poço explorado por fracking explodiu em Ohio em 2007, catapultando um casal de idosos de sua cama, segundo consta em uma ação judicial subsequente.
Quando algumas pessoas tentaram descobrir quais produtos químicos estavam sendo usados nos fluidos de fracking, muitas companhias disseram que isso é um segredo comercial. Isso aumentou os temores em relação ao principal ponto de preocupação do fracking: que embora o processo em si normalmente ocorra bem abaixo dos aquíferos, sob grossas camadas de rochas impermeáveis, a água do subsolo ainda pode ser contaminada pela água residual que o processo produz.
Além do fluido de fracking quimicamente reforçado, há a chamada “água produzida” – a água existente em solos profundos que é ejetada para a superfície junto com o gás, podendo ser dez vezes mais salgada que a água do mar, é naturalmente radioativa e contém altas concentrações de metais. Ambos os tipos exigem um manuseio cuidadoso.
Ao longo do tempo, regulamentações surgiram em resposta a muitas preocupações. Vários Estados americanos exigem hoje que os produtos químicos usados no processo de fracking sejam tornados públicos. A revelação voluntária é mais comum. Em Washington, a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) finalmente emitiu, em abril, padrões de poluição do ar para o fracking.
Gás é extraído com bombeamento de água, produtos químicos e areia a alta pressão em grandes profundidades
Mas a questão da contaminação da água continua sendo motivo de uma disputa acalorada. A EPA está fazendo um amplo estudo sobre o assunto, mas suas constatações iniciais não devem ser anunciadas antes do fim do ano, e as conclusões finais somente serão reveladas em 2014.
Em dezembro, a agência emitiu um estudo preliminar sobre queixas de ocorrência de água suja próximo de poços explorados por fracking na cidade de Pavillion, Wyoming, que encontrou águas subterrâneas com produtos químicos provavelmente associados ao fracking. No entanto, após muitas reclamações do setor e de autoridades estaduais, a agência concordou em realizar mais testes.
Enquanto isso, duas longas resenhas acadêmicas publicadas ao longo dos últimos 12 meses – uma do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e outra do Energy Institute da Universidade do Texas em Austin – sugerem que poços construídos de maneira adequada não devem representar um problema. “O impacto ambiental do desenvolvimento do xisto é desafiador, mas pode ser administrado”, diz o estudo do MIT. “Tudo o que vi pode ser corrigido”, diz Raymond Orbach, diretor do Energy Institute.
No entanto, Orbach, que já foi o principal cientista do Departamento de Energia dos EUA durante a administração George W. Bush, também afirma que executivos do setor têm feito algumas ações mal calculadas. “Eles deveriam ter revelado imediatamente os produtos químicos que usam, pois ao mantê-los em segredo viram as costas para as pessoas e isso as deixa nervosas”, diz Orbach
E nenhum dos dois estudos se concentrou em uma questão emergente envolvendo o fracking: os terremotos. Um estudo preliminar das autoridades reguladores da Ohio concluiu em março que o bombeamento de resíduos de água de fracking no subsolo provavelmente desencadeou 12 pequenos tremores de terra no Estado. Um estudo britânico divulgado em abril confirmou que o fracking provocou dois tremores perto de Blackpool, no noroeste da Inglaterra, no ano passado. Não admira que a Câmara Municipal de Christchurch, a cidade da Nova Zelândia que foi devastada por um terremoto no ano passado, tenha proibido o fracking.
Há também uma divergência considerável em relação ao grau de limpeza do gás de xisto, dada a quantidade de emissões de metano que, segundo afirmam alguns estudiosos, vazam dos poços. Em 2008, uma companhia de gás escreveu uma carta para a família de um jovem cineasta de Nova York chamado Josh Fox, oferecendo a ele quase US$ 100.000 pelo aluguel de suas terras para a exploração de gás. Fox decidiu investigar. O resultado foi “Gasland”, um documentário lançado em 2010, em que pessoas comuns reclamam de água fétida, problemas de saúde e, o que ganhou mais destaque, torneiras que soltam fogo. Na verdade, se o fracking possui um rosto, ele pertence a Mike Markham, o homem do Colorado que aparece em “Gasland” colocando fogo na água que sai da torneira da cozinha de sua casa com um isqueiro.
Isso enfureceu as autoridades reguladoras, que disseram que suas investigações iniciais sobre a água da casa de Markham detectaram metano que não é do tipo “termogênico”, ligado ao fracking, e sim do tipo “biogênico”, encontrado há anos nas águas subterrâneas locais. Mas, de lá para cá, um estudo da Duke University que tem com coautor o professor Vengosh mostrou “evidências sistemáticas de contaminação por metano da água potável, associadas à extração de gás de xisto” na Pensilvânia e em Nova York. Os níveis de metano estavam, em média, 17 vezes maiores nos poços localizados dentro de 1 km dos locais ativos de fracking, do que naqueles localizados a mais de 1 km, embora os motivos disso não tenham ficado precisamente claros.
Enquanto isso, “Gasland” ganhou notoriedade no mundo, principalmente na internet. Segundo Fox, ele já foi distribuído comercialmente em mais de 30 países, e o diretor já está trabalhando em uma sequência. Algumas companhias vêm sentindo esse efeito. A Exxon diz que perfurou vários poços de gás de xisto na Alemanha, começando em 2008. “Mas aí, “Gasland” foi lançado”, diz um diretor. “Foi um ponto crítico.” A oposição pública cresceu e a Exxon concordou em suspender as perfurações e bancar um estudo sobre os impactos do fracking.
O filme também está indo “muito bem” na Polônia, afirma Lech Kowalski, um cineasta baseado em Paris, que está trabalhando em um documentário sobre os impactos da exploração do gás de xisto sobre os agricultores poloneses. De todo modo, o governo da Polônia parece comprometido com o fracking.
Mesmo assim, a primeira coisa que as pessoas ouvem sobre o fracking em muitos países é que o processo pode fazer sair fogo de suas torneiras. Ou, conforme diz Nick Grealy, um lobista do setor no Reino Unido: “Noventa por cento das pessoas nunca ouviram falar do fracking, e 9% dos que já ouviram falar, ouviram algo ruim ou errado, ou as duas coisas”.
Isso pode ajudar a explicar o que aconteceu na Bulgária, um país pobre que depende quase que totalmente da Rússia para o gás que consome. Como tal, era de se esperar que ela desse boas-vindas à Chevron quando a companhia americana disse no ano passado que estava pronta para explorar depósitos substanciais de gás de xisto. Em vez disso, após uma onda de manifestações pelo país, em janeiro a Bulgária tornou-se o segundo país a proibir o fracking, depois da França.
Ian MacDonald, gerente-geral de desenvolvimento de negócios da Chevron, diz que “a campanha organizada de desinformação contra o gás de xisto” na Bulgária e outros países vai desaparecer assim que as pessoas entenderem melhor seus benefícios.
Veremos. Décadas atrás, a indústria nuclear prometeu uma fonte revolucionária e limpa de energia. Hoje, após o desastre em Fukushima, no Japão, essa visão está sendo testada. O gás de xisto também tem um inegável potencial global. A questão é se ele conseguirá cumpri-lo.
EcoDebate, 12/07/2012

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