Parceiro

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Espécies condenadas à extinção: A ‘fatura’ da degradação ambiental na Amazônia

desmatamento

A FATURA DA DEGRADAÇÃO NA AMAZÔNIA – Pesquisadores britânicos desenvolvem fórmula para calcular os estragos da degradação ambiental na Amazônia. Pelo método, 80% das espécies prejudicadas em áreas depredadas ainda vão desaparecer
Ainda é possível salvar as espécies em extinção? Segundo pesquisadores britânicos e brasileiros, mesmo em regiões onde o desmatamento foi cruel, a resposta é sim. Em dois artigos publicados na edição de hoje da revista científica Science, especialistas do Imperial College London, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, afirmam que, após a retirada da vegetação, se inicia uma corrida contra o tempo para que as espécies animais da região não desapareçam. Os cientistas europeus, que criaram um cálculo matemático para mensurar qual o tempo entre o desmate e o sumiço dos animais, afirmam que apenas 20% das extinções locais causadas pelo desmatamento já aconteceram e que, mesmo se a retirada de árvores cessar agora, os outros 80% ainda vão desaparecer. Mas o artigo brasileiro dá uma esperança: ainda há tempo de salvar esses bichos. Matéria de Max Milliano Melo, no Correio Braziliense, socializada pelo ClippingMP.
Segundo os cientistas, quando uma região é degradada, é esperado que uma determinada quantidade de animais proporcional à região que foi desflorestada desapareça. Contudo, esse sumiço não ocorre de uma hora para outra. São necessários anos para que a fauna deixe de aparecer por causa do desmatamento de uma área. Esse saldo de espécies condenadas à extinção, mas que ainda não seguiram esse caminho é chamado pelos pesquisadores de débito de extinção. É uma espécie de dívida que a floresta contrai quando perde parte de sua integralidade.
Com posse dos dados de desmatamento na Amazônia brasileira desde a década de 1970 e o inventário de espécies de cada região do bioma, o grupo britânico conseguiu elaborar um cálculo matemático para prever quanto tempo essa dívida ambiental, paga em espécies animais, demora para ser quitada. “O nosso modelo olha o quão longe e a velocidade com que o desmatamento aconteceu. Saber sobre a história da perda de hábitat nos permite prever a taxa na qual as espécies se extinguirão”. explica Robert Ewers, do Imperial College London.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores dividiram todo o território amazônico em quadriláteros de 50 quilômetros. Com dados históricos de década a década, eles calcularam o percentual de árvores retiradas e de espécies desaparecidas de cada um desses territórios. Devido ao débito de extinção, mesmo após a retirada completa das árvores de uma determinada área, os dados do local continuaram a ser analisados, ajudando os pesquisadores a apurar quanto tempo cada região ainda mantém os animais, mesmo sem as plantas. “Atualmente, a dívida é maior em torno do chamado arco do desmatamento, que se estende em torno do Pará, de Mato Grosso e de Rondônia, estados que têm sido historicamente os locais da maior parte do desmatamento do país”, conta o líder do estudo.
Para especialistas, atualmente oito espécies de anfíbios, 15 de mamíferos, além de 20 tipos de aves estão condenadas ao desaparecimento em pelo menos uma das áreas analisadas. O número, contudo, considera apenas as extinções causadas pelo desmatamento feito até hoje. Como mesmo em ritmo menos acelerado as árvores amazônicas continuam a ser retiradas, esse saldo negativo continua a crescer. “No futuro, os hotspots da dívida vão avançar para o interior da Amazônia, ao longo das principais rodovias, como a BR-319″ , relata Robert Ewers.
Reversão
Para o pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) Thiago Rangel, autor de um segundo artigo publicado na Science no qual comenta a pesquisa britânica, descobrir o tempo entre o desmatamento e a perda de espécies pode significar uma oportunidade importante de reverter o processo. “Trata-se de uma janela de oportunidade para que o governo e a sociedade ajam e deem um “calote” no débito de extinção”, afirma o pesquisador brasileiro. “Existem uma série de ações que podem ser postas em prática, como a reinserção de espécies, além da recuperação das áreas já degradadas, uma ação que é pouco utilizada no Brasil”, aponta Rangel.
Quando abandonada, uma região que foi desmatada para dar lugar a pastagens, por exemplo, consegue em 10 anos recuperar até 50% da sua fauna original. “O ambiente tem a capacidade de se recuperar sozinho. Mas esse tempo depende de algumas variáveis, como a existência de áreas preservadas nas proximidades, a implantação de corredores ecológicos e trabalhos de reflorestamento”, afirma o especialista brasileiro. “Essa chance pode ser perdida se os governos não se sensibilizarem que, além de preservar as áreas intocadas, é importante dar atenção às regiões que já foram agredidas, o que raramente é feito no Brasil”, lamenta.
Essa é a mesma opinião dos especialistas britânicos que elaboraram o cálculo. “O fato de as espécies não serem extintas imediatamente dá uma oportunidade de salvá-los”, afirma Robert Ewers, que também lembra que o chamado calote na dívida de extinção só seria possível com ações focadas em zonas já desmatadas. “Será necessário investir na restauração do hábitat e na promoção da regeneração da floresta para evitar o pagamento da dívida extinção”, completa.
“A dívida é maior em torno do chamado arco do desmatamento, que se estende em torno do Pará, de Mato Grosso e de Rondônia, estados que têm sido historicamente os locais da maior parte do desmatamento no país” Robert Ewers, líder da pesquisa
43
Quantidade de espécies de animais em extinção nas áreas da Amazônia analisadas pelos pesquisadores
EcoDebate, 16/07/2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Parceiros

Parceiros