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quinta-feira, 19 de julho de 2012

O nascimento da geologia e o meio ambiente, artigo de Roberto Naime


[EcoDebate] Boa parte da geologia nasceu com o pioneiro James Hutton: o holomorfismo e o uniformitarismo. Raciocinar que as coisas possam ser auto-semelhantes não deixa de guardar íntima relação com o holomorfismo: as estruturas dúcteis em pequenas escalas também podem ocorrer em grandes escalas. E as rúpteis também. E o uniformitarismo: tudo que acontece agora de uma forma, acontecia antes da mesma forma, até prova em contrário.
A auto-semelhança assim como o holomorfismo, não deixa de ser uma simetria entre diferentes escalas. Significa recorrência, ou seja, um mesmo padrão se reproduzindo em tamanhos diferentes. Suas imagens ocorrem por toda parte, no reflexo infinitamente profundo de um objeto entre 2 espelhos ou na concepção quase caricatural de tantos desenhos animados, onde um peixe maior come um peixe menor e assim indefinidamente. Os naturalistas gostam de contar um aforisma sobre pulgas, onde sempre existem pulgas menores que atormentam as maiores, infinitamente.
De certa forma, as idéias da geometria fractal sempre foram sintetizadores e reuniram grupos de cientistas que nunca conseguiram encontrar em equações lineares respostas para suas ansiedades quando estas pareciam caminhar em direção a axiomas absolutos.
Os padrões de terreno encontrados pelos mais diversos tipos de geofísica, utilizadas para mapear terrenos em busca de petróleo, gás, água subterrânea ou outros tipos de materiais, sempre instigaram aos geofísicos que frequentemente enxergavam irregularidades mas com formatos repetidos que não deixavam dúvidas sobre a existência de padrões, mas que não eram convencionais.
Na metalurgia que usa muito a microscopia de diversas naturezas é conhecido que a dimensão fractal da superfície de um metal proporciona com frequência informações que são associadas com uma espécie de vigor do metal.
E os contatos entre superfícies parecem ter propriedades totalmente independentes dos materiais usados. Tal como os contatos bruscos ou gradacionais entre as rochas de qualquer tipo. Contatos bruscos indicam súbita mudança de ambiente deposicional entre rochas sedimentares, em geral associados com a ocorrência de movimentos tectônicos, que sempre são importantes, modificadores e bruscos (como vulcões e terremotos em zonas de criação entre placas tectônicas ou zonas de subsidência como a placa de Nazca sendo consumida pela placa continental Sul americana no Chile, motivo da existência dos Andes).
Contatos gradacionais nas rochas sedimentares significam mudanças lentas no ambiente deposicional, mais associadas a alterações climáticas.
Existem 3 tipos principais de grupos de rochas:ígneas que podem ser plutônicas, quando intrudidas e resfriadas em profundidade ou vulcânicas, quando extrudidas e resfriadas em superfície. Rochas sedimentares que podem ser pelíticas, quando formadas por litotipos de granulometria fina e psamíticas, quando formadas por rochas de granulometria grosseira. E rochas metamórficas, que podem ser de baixo grau quando sofrem aumentos de pressão e temperatura em pequena profundidade, e de alto grau quando são submetidas a elevações de pressão e temperatura em maior profundidade. Existe um tipo de rocha metamórfica denominada cataclástica, associada aos grandes fenômenos tectônicos responsáveis pela geodinâmica terrestre.
O planeta Terra é tão vivo em sua organização quanto qualquer animal ou planta. Apresenta apenas outra escala de tempo para sua existência. Se a gente pudesse perguntar para uma borboleta, animal que vive poucos dias, se uma sequóia que vive milênios, está viva, ela diria que não, pois vive toda sua vida e não vê nenhuma evidência de alteração na sequóia que indique presença de vida. Mas todos nós temos absoluta certeza de que a árvore está viva e possivelmente induzindo um grau razoável de desorganização a sua volta para manter-se nessa condição.
Se a gente perguntar a um ser humano que vive em média de 60 a 90 anos, se a Terra está viva, ele dirá que não, pois viveu toda sua vida na Terra e não viu nenhuma evidência de vida. Mas a Terra tem em torno de 4,5 a 5 bilhões de anos. Os continentes sofrem movimentos da ordem de 2 a 7 cm/ano. Estes movimentos são imperceptíveis para quem está vivendo sobre os continentes.
O meio físico representa o substrato físico do planeta, onde a vida se desenvolve. O grande diferencial no estudo do meio físico é o fator tempo. O planeta Terra tem aproximadamente 4,5 a 5 bilhões de anos. Para medir o tempo geológico são utilizados elementos radioativos contidos em certos minerais. Estes elementos são os relógios da Terra, pois sofrem um tipo especial de transformação que se processa em ritmo uniforme. Por este processo chamado radioatividade, algumas substâncias se desintegram, transformando-se em outras. Medindo as duas substâncias na rocha, podemos saber com precisão a idade.
A Terra atrai os corpos pela força da gravidade e pela força magnética. Estas forças variam de acordo com o local, devido a diferenças superficiais e profundas nos materiais que constituem a Terra. Esta análise permite interpretar o subsolo da Terra.
Pela teoria mais aceita, estima-se que a formação do sistema solar teve início há seis bilhões de anos, com a contração das nuvens gasosas da Via Láctea. A poeira e os gases desta nuvem se aglutinaram pela força da gravidade, e a cerca de 4,5 a 5 bilhões de anos atrás, formaram-se várias esferas, que giravam em torno de uma esfera maior de gás incandescente que deu origem ao sol.
As esferas menores formaram os planetas, dentre eles a Terra. Devido à força da gravidade, os elementos químicos mais pesados, como o ferro e o níquel concentraram-se no núcleo, enquanto os mais leves como o silício, o alumínio e os gases permanecerem na superfície. Estes gases foram em seguida varridos da superfície do planeta por ventos solares.
Antigamente se dizia que o meio físico não tinha vida, mas após a tectônica de placas fica sem sentido dizer que a Terra é inanimada. A Terra pode ser comparada com um ovo. Um ovo tem gema, clara e casca, enquanto a Terra tem um núcleo central equivalente à gema, uma porção intermediária denominada manto, que equivale à clara do ovo e uma última porção externa, chamada crosta, que equivale à casca do ovo.
Dr. Roberto Naime, Colunista do EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
EcoDebate, 18/07/2012

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