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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Última testemunha do massacre de 1951, morre a Pataxó Zabelê: Mãezinha do Brasil



Em 2010, quando iniciamos a produção do documentário sobre o território do extremo sul da Bahia, intitulado “Impressões Nativas do Descobrimento” para o projeto 26 DOC´s da TVE-Bahia, sabíamos o que queríamos fazer: ouvir, entender, ampliar as vozes das comunidades tradicionais de índios, pescadores e pequenos agricultores do extremo sul da Bahia. O que eu, pessoalmente, não poderia imaginar, era que eu faria uma singela, e grande descoberta, e que me emocionaria muito.Partimos em busca de Zabelê, que já havíamos determinado, seria o personagem principal do filme. Tratava-se da mais velha índia Pataxó, e a última testemunha do grande massacre de 1951, quando ainda pequena, presenciou a tortura e assassinato de seus pais. Estávamos diante de uma síntese brasileira: fé, amor no coração, caminhos errantes, injustiça que não se acaba…
Diante de uma história de luta incrível, eu imaginava encontrar uma pessoa arredia, amarga eendurecida, mas encontrei Zabelê, anciã nativa, mulher frágil e delicada, de grande ternura nos olhos, e uma encantadora simplicidade. De imediato, fiquei sensibilizado com a sua presença, e à partir daí, iniciamos a gravação-vivência de um testemunho impressionante, que trás à consciência, as grandes injustiças cometidas contra os índios nativos da terra do descobrimento-achamento do Brasil.
Um relato de muita emoção nos dava conta, de que, Zabelê e o seu povo, depois de andar errante durante décadas, sempre em busca de uma terra com florestas, onde pudesse salvaguadar sua cultura, havia por fim, se refugiado no Parque Nacional do Descobrimento, chamando assim, a atenção do governo brasileiro para a sua existência, desejos e sofrimento.
Tão injusto, que mais parecia uma ficção. Algo inaceitável para os dias atuais, e para um país que deseja a justiça social. Estávamos ali, ouvindo um depoimento movido a lágrimas. Era a doce Zabelê, a mais velha índia da terra do descobrimento, em pleno século XXI, ainda sem terra, e esquecida por todos. Ela chorou várias vezes ao afirmar que seu único desejo, era que o seu povo tivesse direito a uma terra, onde pudesse manter viva a sua cultura. Também repetiu várias vezes, que não conseguia viver nas cidades, e que sua sonho era voltar a morar na floresta, como os seus pais viveram.
Diante do apelo de Zabelê, o nosso documentário tornou-se importante, e estávamos empolgados em ajudar aquela comunidade, e a própria Bahia e o Brasil, a revelar, valorizar e enaltecer aquela personalidade extraordinária chamada Zabelê. Personalidade, símbolo vivo, pessoa que deveria estar sendo agraciada, homenageada,  ouvida na grande mídia, mas que estava refugiada, privada do básico, do mínimo, da dignidade de possuir uma terra, do direito de expressão cultural.
E ontem à tarde, aos 79 anos, seu coração parou de bater, e estranhamente, perdemos algo muito importante, que nem conhecemos direito, algo que deixamos de resgatar, de justificar e satisfazer. Não compreendo como uma personalidade com uma biografia de lutas como Zabelê, pode passar anônima, sem ser percebida pela grande mídia, pela grane nação que a abandonou.
Nossa mãezinha, e filhinha do Brasil, trazia em si, uma síntese de nossa culturalidade, e de nossas mazelas nacionais. Ela partiu sem ver o seu sonho realizado, as suas terras demarcadas. Chora povo Pataxó, mas não percas a esperança de que os verdadeiros brasileiros ainda hão de te dar as mãos, como assim clamou Zabelê. Não esqueçais jamais de continuar em busca da justiça, e do amparo. Ficarão na nossa memória de produtores cinematograficos, as últimas imagens de Zabelê, registradas em 15 de agosto de 2010 na procissão de Nossa Senhora da Ajuda, onde a índia, crente do Deus Tupã, delicadamente vestida como os brancos, se misturava ao povo, em louvores e fé.
A história viva partiu, sem que pudéssemos devolver a Zabelê toda a honra que ela mereceu, como missionária verdadeira de seu povo, e do Brasil justo. Temos certeza que sua lembrança os ajudará os índios Pataxós, a elevar o seu nome como bastião da luta de seu povo, e de todas as comunidades tradicionais brasileiras, vitimadas pela especulação das terras e do capital.
“Ela sempre brigou para nós usarmos o tupsai e mostrarmos nossa cultura, e não termos vergonha de ser índios”, afirmou a filha de Zabelê em entrevista há alguns anos.
Descanse em paz, mãezinha querida do Brasil!
Texto do Jornalista Paulo Paiva, enviado pelo Autor e originalmente publicado em seu blogue pessoal.
EcoDebate, 06/07/2012

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