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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Aquecimento global e geobiossistemas, artigo de Roberto Naime


aquecimento[EcoDebate] É absolutamente certo que a contribuição antrópica com as emissões atmosféricas poluentes industriais, as queimadas e a grande emissão atmosférica patrocinada por uma quantidade gigantesca e absolutamente descontrolada de automóveis de passeio contribuem de forma decisiva para o aquecimento global. Mas quanto é contribuição deste fator e quanto é responsabilidade dos fenômenos e ciclos geológicos históricos, é tema de grandes controvérsias.
Devemos considerar que as previsões de aquecimento “catastrófico” e os modelos matemáticos usados nas extrapolações para o futuro são discutíveis, havendo a possibilidade de estarmos considerando apenas algumas das variáveis, sem considerar as condições iniciais do sistema e sem saber como aplicar o princípio das propriedades emergentes no conjunto. Estes diversos fatores interagindo certamente devem criar novos fatores ainda nem citados.
Isto nos faz monitorar apenas uma parte das flutuações do clima de nosso planeta, com certeza. Estas limitações não invalidam os resultados já alcançados, mas provocam novos e grandes desafios. O que podemos afirmar com certeza é que temos nossa parcela e devemos fazer algo a respeito; quanto a efeitos de origem natural, que nos preparemos para mitigar consequências e dissolver vulnerabilidades.
A variação das condições geológicas do planeta em função da geodinâmica ou tectônica de placas gerou uma época onde a matéria orgânica era preservada. Isto ocorre quando em ambientes pantanosos, as árvores são protegidas da decomposição aeróbica pela água e sofrem então processos de soterramento e decomposição anaeróbica. Isto produz os combustíveis fósseis hoje conhecidos (carvão e petróleo) e esta formação corresponde a fases bem determinadas da evolução geológica.
Este superávit de produção orgânica em relação a respiração é considerado uma das principais razões para períodos de decréscimo do CO2 e um aumento no teor de oxigênio até os níveis elevados dos tempos geológicos recentes, que é um indutor da vida biológica atual da forma que conhecemos, ao fornecer energia farta e de uso simples aos seres vivos.
É princípio indiscutível dentro da ecologia que os fenômenos e fatores muito eficientes para um indivíduo não são necessariamente eficientes em comunidades, onde a interação entre as espécies é vital para a seleção natural. É lógico contemplar uma analogia simples. Se a interação entre espécies é vital e todos concordamos que é, porque a interação entre fatores que controlam determinados fenômenos e que necessariamente interagem (e com isto podem até criar fatores emergentes novos) não é tão valorizada e frequentemente negligenciada.
Será por mero interesse reducionista para viabilizar as interpretações matemáticas ou estatísticas lineares. Porque neste momento não se interage com fatores reconhecidamente significativos e consensuais nas ciências naturais e que se relacionam com sistemas não lineares como a influência sensível às propriedades iniciais dos sistemas?
Toda o planeta a partir da abordagem de Ter Stepaniam sobre a introdução do conceito de tecnógeno, passa por sensíveis mudanças na natureza cibernética e estabilidade dos ecossistemas. É preciso entrar com a mente aberta nas novas portas dos desafios propostos pela complexidade que ainda são mais ampliados pela multidisciplinariedade que consensualmente as questões apresentam, e que já materializa um “trend” inquestionável.
O conceito de tecnógeno desnuda a estabilidade a resistência dos sistemas. Nitidamente, grandes dimensões físico-biológicas não tem mais a capacidade de se manterem estáveis em regimes de “stress”. E a estabilidade elástica que é capacidade de auto-recuperação dos sistemas naturais já não ocorre em várias situações, exigindo intervenções antrópicas para auxiliar na regeneração, numa área científica e comercial que muito tem se desenvolvido e atende pela denominação genérica de “recuperação de áreas degradadas”, onde os métodos biotecnológicos tem tido grande participação.
A recuperação de uma área degradada não objetiva fazer o ecossistema retornar ao estado inicial. Os ecossistemas possuem mais de um estado de equilíbrio e quando sofrem recuperação, retornam a um estado diferente depois de uma perturbação que geralmente produz novas variáveis de controle e que interagem entre si.
O conceito de estabilidade em um sistema mecânico, elétrico ou aerodinâmico implica retorno ao mesmo estado de equilíbrio após uma perturbação. Num sistema biológico ou natural isto, com certeza, raramente ocorre.
O homem se tornou este poderoso organismo, organizado em sociedades complexas, capaz de relevantes intervenções nos meios físico e biológico pela notável evolução de seu sistema nervoso central. Esta evolução permite ao cérebro que com pequenas quantidades de energia, conceba e emita avaliações particulares dos estímulos externos que recebe.
Ter Stepaniam transformou este conceito na proposta de um período da evolução da humanidade, onde a hegemonia da mente humana sobre os meios físico e biológico produz a ultrapassagem dos limites de estabilidade, criando uma nova fase na história, onde sem o auxílio da própria espécie humana, responsável pelas perturbações, os sistemas não conseguem se recuperar.
Neste sentido, torna-se muito útil e operacional a técnica reducionista que transforma o planeta num mosaico de bacias e sub-bacias hidrográficas, unidades mais fáceis de recuperar pela sua dimensão física limitada, do que recuperar todo planeta ao mesmo tempo. Claro que as relações dos elementos físicos e biológicos das bacias e sub-bacias é universal, interferem obviamente realidades como a dependência sensível das quantidades iniciais e relações que produzem novos fatores emergentes, mas nem por isso a técnica deixa de ser válida.
Outra possibilidade, que é muito utilizada em substituição às bacias e sub-bacias hidrográficas é o conceito de geobiossistema, que depende fundamentalmente do uso de técnicas de sensoriamento remoto e geoprocessamento.
Os elementos dos meios físico, biológico e antrópico são associados em paisagens unificadoras, onde o uso das técnicas de sensoriamento remoto e tratamento digital de imagens de satélite, dentro de um contexto multidisciplinar, permite a transferência e a evolução de conceitos. Hoje, é disseminada a concepção do conceito de “paisagem” como expressão do agenciamento dinâmico e superficial dos conjuntos territoriais. Ou seja, não é mais apenas o solo a face mais visível do meio físico, e sim a paisagem integradora do solo com os demais fatores, a expressão conjunta das interações compreendidas ou ainda difusas.
Este agrupamento, capaz de expressar homogeneidades ou realçar diferenciações físicas espaciais e temporais no meio terrestre, origina a conceituação de “geobiossistemas” como unidades territoriais, geográficas ou cartográficas de mesma paisagem, definidas por características estatísticas do meio natural físico, biológico, hierarquizadas por um mesmo sistema de relações.
Portanto podem ser utilizadas as bacias e sub-bacias hidrográficas como menores unidades territoriais de sistemas, ou os “geobiossistemas” como elementos de unificação de unidades integradas por mesmas hierarquias entre os elementos dos meios físico, biológico (incluindo a química e bioquímica) e antrópicos ou sócio-econômicos.
As cidades, metrópoles ou regiões metropolitanas são os ecossistemas humanos cujas características são heterotróficos. Resumidamente, os materiais (nutrientes, inclusive água) e a energia são importadas para as cidades, que produzem e exportam efluentes domésticos e industriais e resíduos sólidos tanto domésticos quanto industriais.
As cidades ocupam de 1 até 5% das áreas do mundo inteiro (ODUM, 1988, pg. 48), mas alteram a natureza dos rios, florestas, campos naturais e cultivados, da atmosfera e dos oceanos em extensão que pode ser muito maior que uma determinada bacia ou sub-bacia hidrográfica e aqui reside a importância do conceito de geobiossistema. As áreas urbanizadas praticamente não produzem alimentos. Dependem totalmente da importação de materiais (água dos sistemas hídricos e alimentos do meio rural) e energia (de hidrelétricas, termelétricas, usinas nucleares, usinas eólicas ou qualquer outra fonte).
As cidades não possuem uma ecologia separada do bioma em que estão inseridas. Mas constituem um típico ecossistema urbano conforme já simplificadamente descrito.
ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
TER STEPANIAN, G. Beginning of the Technogene. Bulletin IEAG, nº 1, ago. 1970.
Dr. Roberto Naime, Colunista do EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
EcoDebate, 09/08/2012

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