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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Apesar dos pesares, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)


[EcoDebate] Apesar dos pesares, o Brasil está melhor. Melhorou o índice da educação. Nossa mortalidade infantil caiu de 58 por mil em 1990 para 16 por mil em 2010. A seca do Nordeste continua como pede a natureza, mas já não temos saques, migrações intensas, nem mortalidade infantil ao nível de genocídio. Uma boa parte do povo saiu da miséria. Nosso déficit habitacional caiu de sete milhões de casas para cerca de 5,5 milhões. O saneamento vai a passos de tartaruga, mas o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) se propõe a praticamente zerar as demandas de água potável, coleta e tratamento de esgoto, manejo de resíduos sólidos e drenagem pluvial até 2030 com um investimento de cerca de 420 bilhões de reais. Francamente, gostaria de ver esse dia, como gostaria de ver a chegada do primeiro ser humano a Marte, projetada para a mesma data.
Sim, até o SUS nos dá SUStos bons. Esses dias uma aluna da APAE aqui de Juazeiro precisou cuidados emergentes num braço e foi atendida em 15 minutos, com consulta, radiografia e enfaixamento. O fato é que 150 milhões de brasileiros ainda dependem do SUS, quem sabe um dia funcionando bem como esse atendimento de um caso específico.
Aqui em Juazeiro, alguns empresários e um ex-prefeito viraram caso de polícia federal por desviarem 80 milhões de reais do saneamento. A operação se chama “Boca de Lobo”, ou “Tampa de Esgoto”, o que dá na mesma. O bairro periférico de 30 mil trabalhadores da irrigação continua na lama, na miséria, mas os caras embolsaram até a última nica. Reparem, 80 milhões de um município pobre, dinheiro do saneamento, quase o dobro do montante da fraude em nível nacional do pessoal julgado no Supremo. Portanto, há sinais de que a corrupção seja mesmo combatida, desde que não seja pretexto para golpe de estado, como parece tantas vezes ser o julgamento do mensalão.
O Supremo não tem a dignidade de julgar o mérito da Transposição, de Belo Monte, etc., embora se empenhe no tal mensalão, e posando de suprema instância da ética brasileira.
Sim, a reforma agrária não anda, a reforma educacional não se qualifica, nossos índios, negros e comunidades tradicionais tem que levar nas costas o ônus do avanço do capital sobre seus territórios e bens naturais. O pior é o modelo primário, exportador, concentrador, depredador que rege a sociedade brasileira. O Código Florestal é o ícone dessa geração predadora. Esse modelo pode, sim, acabar com as poucas conquistas que fizemos.
Sei que não se faz análise das perspectivas de um país apenas listando questões em duas colunas separadas, mas estabelecendo o vínculo, possíveis confluências, sobretudo, as contradições existentes entre elas.
Mesmo assim, não somos mais os mesmos. Há esperança, enviada por esses sinais contraditórios. Vai depender da sociedade organizada. Vamos às urnas municipais, por onde passará grande parte desses recursos essenciais para o bem do povo. Não temos muitas escolhas por aqui, mas há sempre aquele “mal menor”.
Não é a revolução, mas poderemos ter cidades melhores.
Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.
EcoDebate, 27/09/2012

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