Parceiro

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Histórias de Natal, artigo de Montserrat Martins


[EcoDebate] Tem frases que você não esquece por serem engraçadas, ou surpreendentes, ou porque fazem pensar e formam a “coleção de frases” pessoais de cada um. Lembro de uma de um dono de pousada em Natal, empresário que fugiu do estresse paulistano para o Rio Grande do Norte. Depois de se queixar que Natal era calma demais, contou que “agora quero ler o maior mito do mundo”, revelando seu plano de ler a Bíblia como uma peça de “curiosidade científica” para ele. Do ponto de vista ateu, a história de Jesus é mesmo o mito maior, análoga aos estudados pelos junguianos em obras como “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell.
Outra frase que guardei, pela graça, é de meu filho quando tinha uns 9 anos e falava em Pokemóns, quando eu lhe disse que “isso não existe, porque não brinca de dinossauros que pelo menos existiram?”. Foi quando o Marcelo me lembrou que “ora, pai, as pessoas precisam de fantasia”. Para Freud, Marx e outros taurinos céticos, religião é simplesmente isso, uma necessidade humana de fantasia.
Aí entra a frase da Dercy Furtado, mãe do Jorge, de quem tive o prazer de ouvir uma deliciosa história sobre sua relação de mãe cristã com os filhos e filhas céticos. Uma das filhas psiquiatra inclusive, para quem a Dercy disse uma vez, quando a filha lhe ligou à noite com o carro estragado na estrada: – Agora reza pra Freud, reza!
Eu pessoalmente tive fases diferentes, oscilando entre décadas de ateísmo, de agnosticismo e de cristianismo. A época de adolescência na Pastoral Universitária foi a mais difícil para minha mãe, já que eu entendia que Natal era noite de levar um mendigo da rua para a ceia com a família em casa. A Medicina me tornou um cético em que minha Bíblia era o Tratado de Medicina Interna. Levei décadas para descobrir o abismo entre os livros e as realidades subjetivas das emoções humanas, que influem tanto na saúde quanto os aspectos mais orgânicos.
Da história pessoal eclética resulta que não consigo ter preconceitos contra ateus nem crentes e tenho de buscar empatia sobre as condições em que se formaram esses ressentimentos para compreendê-los. A história da Inquisição da Igreja Católica é como aquela frase do Mário Quintana, “o passado não conhece seu lugar, ele está sempre presente”. O autoritarismo que obriga a se submeter a falsas morais e gera vítimas de preconceitos é brutal. Curiosamente, como a história dos primeiros cristãos – os originais, que levavam mendigos para comer em casa mesmo – que foram perseguidos até a morte. Ou da Marina Silva, que defende o Estado laico mas é massacrada politicamente porque pessoalmente tem fé evangélica.
Se você for ateu, tem para ler neste verão “A jornada do escritor”, de Christopher Vogler, belíssima exposição sobre o mito do herói. Para reviver os cristãos primitivos tem “Paulo e Estêvão” do Chico Xavier e tem ainda “Os Mensageiros”, do mesmo autor, se você for espiritualista.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.
EcoDebate, 21/12/2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Parceiros

Parceiros