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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Dilma: o Holocausto também se repete quando é negado

Brasília, 30/01/2013 - Presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia do Dia Internacional em memória das vítimas do Holocausto. Foto de Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Brasília, 30/01/2013 – Presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia do Dia Internacional em memória das vítimas do Holocausto. Foto de Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Na data que celebra o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a presidenta Dilma Rousseff disse que “o Holocausto também se repete quando é negado. Por isso deve-se sempre lembrar, mas ter muita responsabilidade quanto à verdade dos fatos”.
Dilma Rousseff , disse ontem (30) em seu discurso que o país também enfrentou momentos difíceis com os 300 anos escravidão e os períodos de ditadura. A presidenta reiterou diversas vezes em seu discurso que o caminho para evitar esse tipo de tragédia é o conhecimento da verdade e da história da humanidade.
Respeitando a diversidade, a liberdade de pensamento e a grande riqueza de sermos diferentes e tão iguais, tão humanos, isso não significa que podemos deixar de avaliar, de conhecer, de estudar as mais dolorosas lições do ser humano. (…) [Devemos] lembrar, sistematicamente, para evitar que isso se repita”, disse.
Para a presidenta, a ideologia que resultou no holocausto, “não chegou abruptamente”. “Sem dúvida nenhuma os guetos são uma antecipação disso. A expulsão dos judeus de Portugal [durante o período de inquisição] foi outra manifestação histórica, uma longa preparação, secular, que desembocou naquele momento terrível da história da humanidade, que foi a perseguição aos diferentes, aos judeus. E se repete sempre que foi aos judeus, porque tinha uma sistemática tentativa de descaracterizar seres humanos como humanos”, disse.
A presidenta ressaltou a criação no governo da Comissão da Verdade, que tem a finalidade de apurar graves violações de Direitos Humanos, praticadas por agentes públicos, ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.
Dilma Rousseff encerrou o evento citando o poeta do alemão Martin Niemöller. “Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse“.
A cerimônia homenageou Aracy Guimarães Rosa, mulher do escritor João Guimarães Rosa, funcionária do consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, e Luis Martins de Souza Dantas, embaixador brasileiro na França. Os dois, nas décadas de 1930 e 1940, salvaram centenas de judeus, concedendo a eles vistos para o Brasil contrariando ordens superiores.
A data lembrada ontem marca a libertação do campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, pelas tropas soviéticas em 27 de janeiro de 1945. No local, mais de 1,5 milhão de pessoas foram exterminadas.
Edição: Fábio Massalli, ABr e Henrique Cortez, EcoDebate
Matéria da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 31/01/2013
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Os vegetarianos sofrem menos doenças cardíacas, revela um amplo estudo britânico

orgânicos 
Ser vegetariano é melhor para saúde cardiovascular – Os vegetarianos sofrem menos doenças cardíacas, revela um amplo estudo britânico publicado esta quarta-feira, o que parece confirmar as conclusões de recentes pesquisas americanas que vinculam o consumo de carne vermelha a um risco maior de mortalidade.
No estudo britânico [Risk of hospitalization or death from ischemic heart disease among British vegetarians and nonvegetarians: results from the EPIC-Oxford cohort study] , publicado nos Estados Unidos, cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, descobriram que as pessoas que seguem a dieta vegetariana têm reduzido em 32% o risco de hospitalização e morte por doenças cardiovasculares em comparação com as que consomem carne e peixe. Matéria da AFP, no Yahoo Notícias.
“Grande parte da diferença se deve provavelmente aos efeitos do colesterol e da pressão sanguínea”, geralmente mais altos nos consumidores de carne e peixe e “mostram o importante papel da dieta na prevenção de doenças cardíacas”, disse a doutora Francesca Crowe, da Universidade de Oxford, principal autora do trabalho.
Publicado na revista American Journal of Clinical Nutrition, este é o estudo mais amplo feito até agora no Reino Unido que compara a incidência de doenças cardiovasculares entre os vegetarianos e os não vegetarianos.
A análise se concentrou em 45.000 voluntários com idades entre 50 e 70 anos na Inglaterra e na Escócia, incluídos em um estudo sobre câncer e nutrição denominado “European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC)”.
Neste grupo, 34% eram vegetarianos, um número anormalmente alto para estudos deste tipo, o que permitiu aos cientistas fazer estimativas mais precisas sobre os fatores de risco cardiovascular em ambos os grupos.
Baixo índice de massa corporal e menos casos de diabetes
“Os resultados mostram claramente que o risco de doenças cardiovasculares é inferior em cerca de um terço dos vegetarianos”, disse o professor Tim Key, diretor adjunto da Unidade de Epidemiologia do Câncer da Universidade de Oxford e co-autor do estudo.
Os cientistas levaram em conta vários fatores para calcular o risco: idade, tabagismo e consumo de álcool, prática de atividade física, nível educacional e desenvolvimento socioeconômico.
Os participantes, recrutados ao longo da década de 1990, responderam a questionários detalhados sobre sua saúde e seu estilo de vida.
Durante o período de acompanhamento, que durou quase 12 anos, em média, os autores do estudo identificaram 1.235 casos de doenças cardiovasculares nos registros hospitalares, incluindo 169 óbitos.
Eles descobriram que os vegetarianos geralmente têm pressão arterial mais baixa e registram níveis de colesterol menores do que os não vegetarianos.
Os vegetarianos também apresentavam índices de massa corporal (IMC) menores e menos casos de diabetes, ambos resultado da dieta que seguiam.
Os vegetarianos não só se beneficiaram do impacto positivo de registrar menor índice de massa corporal, como também viam reduzido em 28% o risco de sofrer de doenças cardiovasculares.
Esta pesquisa confirma os resultados de um estudo com mais de 121 mil homens e mulheres americanos, publicado em março de 2012, na revista Archives of Internal Medicine, que mostrou uma forte relação entre o consumo diário de carne vermelha e um risco de mortalidade maior por todas as causas (12%), por doenças cardiovasculares (16%) e por câncer (10%).
Citando outro estudo americano de 2009, Crowe informou à AFP, no entanto, que o risco de desenvolver câncer é similar entre os vegetarianos e os não vegetarianos.
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte nos países desenvolvidos: provocam 65 mil mortes por ano só no Reino Unido e cerca de 600 mil nos Estados Unidos, ou seja, uma em cada quatro.
Risk of hospitalization or death from ischemic heart disease among British vegetarians and nonvegetarians: results from the EPIC-Oxford cohort study
Francesca L Crowe, Paul N Appleby, Ruth C Travis, and Timothy J Key
Am J Clin Nutr March 2013 ajcn.044073; First published online January 30, 2013. doi:10.3945/ajcn.112.044073
Abstract
Background: Few previous prospective studies have examined differences in incident ischemic heart disease (IHD) risk between vegetarians and nonvegetarians.
Objective: The objective was to examine the association of a vegetarian diet with risk of incident (nonfatal and fatal) IHD.
Design: A total of 44,561 men and women living in England and Scotland who were enrolled in the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC)–Oxford study, of whom 34% consumed a vegetarian diet at baseline, were part of the analysis. Incident cases of IHD were identified through linkage with hospital records and death certificates. Serum lipids and blood pressure measurements were available for 1519 noncases, who were matched to IHD cases by sex and age. IHD risk by vegetarian status was estimated by using multivariate Cox proportional hazards models.
Results: After an average follow-up of 11.6 y, there were 1235 IHD cases (1066 hospital admissions and 169 deaths). Compared with nonvegetarians, vegetarians had a lower mean BMI [in kg/m2; −1.2 (95% CI: −1.3, −1.1)], non-HDL-cholesterol concentration [−0.45 (95% CI: −0.60, −0.30) mmol/L], and systolic blood pressure [−3.3 (95% CI: −5.9, −0.7) mm Hg]. Vegetarians had a 32% lower risk (HR: 0.68; 95% CI: 0.58, 0.81) of IHD than did nonvegetarians, which was only slightly attenuated after adjustment for BMI and did not differ materially by sex, age, BMI, smoking, or the presence of IHD risk factors.
Conclusion: Consuming a vegetarian diet was associated with lower IHD risk, a finding that is probably mediated by differences in non-HDL cholesterol, and systolic blood pressure.
EcoDebate, 31/01/2013
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Aquecimento Global: Mais uma vez, o Ártico! artigo de Alexandre Costa

 
Artigo publicano na GRL utilizou dados
de um VOR (veículo operado remotamente)
submarino,  como descrito no site do NOAA

Artigo recentemente publicado no Geophysical Research Letters (GRL) reporta um estudo bastante interessante, que quantifica um mecanismo de amplificação do aquecimento do Ártico. O artigo, de autoria de M. Nicolaus e colaboradores é intitulado “Changes in Arctic sea ice result in increasing light transmittance and absorption” (Mudanças no gelo marinho do Ártico resultam em aumento da transmitância e absorção de luz) e baseado em observações utilizando um veículo submarino operado remotamente e chega a conclusões importantes.
Além da já conhecida redução da cobertura de gelo marinho durante os verões do Ártico, existe a tendência de o gelo do Ártico se tornar menos espesso. Além disso, ele tem se tornado mais “sazonal”, isto é, é cada vez mais raro encontrar gelo marinho de vários anos de idade, por conta do derretimento mais intenso durante os verões. Como consequência, a maior parte do gelo encontrado no verão tem menos de um ano de idade, isto é, formou-se durante o inverno que o antecedeu.
Quando a luz solar incide sobre o gelo, que é um bom refletor
(maior “albedo”), grande parte da luz solar é devolvida de vol-
ta para o espaço (à direita). Quando incide sobre o oceano, que
reflete apenas uma pequena parte da luz solar (menor “albedo”),
a radiação é em grande parte absorvida, aquecendo a água. Ou
seja, quanto mais calor, menos gelo; quanto menos gelo, mais
luz absorvida; quanto mais luz absorvida, mais calor. Este é o
chamado “feedback do gelo-albedo“.

Isto traz implicações importantes para o balanço energético da região. Evidentemente, uma menor área coberta pelo gelo, permitindo que mais radiação solar atinja o oceano, já é suficiente para disparar uma retroalimentação, como mostrado na figura ao lado. Enquanto o gelo reflete a maior parte da luz que incide sobre ele, o oceano absorve a maior parte da radiação solar. Daí, se o aquecimento reduz a cobertura de gelo, mais radiação solar é absorvida pelo sistema climático (no caso, pelo oceano), causando um aquecimento ainda maior. É um círculo vicioso, como outros que também atuam na dinâmica do clima.

O que o artigo da GRL traz de novidade é que as propriedades do gelo “jovem” (com menos de um ano) são diferentes das do gelo “velho” (com vários anos). Essas diferençasamplificam o feedback do gelo-albedo!
Diagrama mostrando a quantidade maior de energia transmi-
tida (11% contra 4%) e absorvida (52% contra 34%) na ca-
mada de gelo do Ártico, por Alfred Wegener. Fonte:
http://thinkprogress.org/climate/2013/01/27/1501201/
arctic-death-spiral-feedback-melt-ponds-sea-ice/

Os resultados apontam que mais radiação solar atravessa o gelo jovem (11%) do que o gelo velho (apenas 4%), o que está fortemente relacionado com a presença de mais poças d’água na camada de gelo mais recente (as estimativas do artigo são de 42% para o gelo jovem versus 23% para o gelo mais velho). A quantidade de energia absorvida sobre a camada de gelo jovem também é 50% maior do que aquela no gelo mais antigo. Os autores alertam que a maior penetração de radiação solar pode ter, além do impacto climático (um feedback do gelo-albedo amplificado), efeitos também sobre o ecossistema marinho.

O fato é que, possivelmente por não entendermos ainda por completo os mecanismos de retroalimentação que envolvem os oceanos e o gelo marinho, os modelos utilizados nas projeções de degelo não tem conseguido reproduzir a realidade. Sistematicamente, os modelos subestimam o ritmo de  perda de gelo marinho, como temos sempre alertado.
Comparação entre degelo observado no Ártico e projeções
dos modelos do CMIP3 (Coupled Model Intercomparison
Project, Phase 
3), projeto que subsidiou a elaboração do
IPCC AR4 (4° relatório de avaliação do IPCC).
 
A figura ao lado mostra isso muito bem. O nível de degelo atingido em 2012, segundo a média dos modelos, só seria esperado após 2065! Mesmo considerando o modelo mais “pessimistas”, nada parecido com o que se viu este ano era esperado para antes de 2030!
Ora o trabalho, publicado por Nicolaus e co-autores, pode ter dado uma contribuição importante para entendermos o porque dessa discrepância. Quem sabe, incorporando o efeito das diferentes propriedades entre camadas de gelo jovem e gelo velho nos modelos, estes se aproximem da verdade observada. O que assusta, porém, é que mais uma vez se percebe que a realidade é mais grave do que se imaginava há alguns anos, que o aquecimento do sistema climático terrestre é mais acelerado do que o que se supunha.

É de causar indignação que, em tal situação, a negação dessa realidade ainda esteja tão presente, sendo alimentada por indivíduos que ou são inescrupulosos ou, na melhor das hipóteses, são levianos e irresponsáveis.
Eu percebo que a maioria das pessoas, por não conseguir diferenciar o que é ciência de verdade e o que é embromação, anticiência e pseudo-ciência revestida com linguagem supostamente técnica, fica confusa. Como separar joio do trigo, então? Uma dica é procurar saber o que pertence ao domínio da literatura publicada com revisão, como a Science, aNature, a GRL e outros periódicos de nossa área; identificar fontes confiáveis (como órgãos de pesquisa como NASA, NOAA, UK Meteorological Office e outros). Outra dica é não dar crédito a teorias de conspiração, pois estas sempre resultam, ao serem melhor exploradas, em disparates. Por fim, dar um voto de confiança ao conjunto dos cientistas que se dedicam, em sua maioria, a trabalhos que levam tempo para gerar resultados significativos, como os que mostramos aqui e que, em geral, compõem os painéis científicos sobre clima (internacionalmente, o IPCC e, no Brasil, o PBMC) e ser cético quanto aos “céticos” (que de céticos, ou seja, portadores de dúvidas sinceras nada têm, consistindo em negadores, isto é, indivíduos que se recusam a aceitar uma realidade, por maior que seja o volume de evidências).

Alexandre Costa, Fortaleza, Ceará, Brazil, é Ph.D. em Ciências Atmosféricas, Professor Titular da Universidade Estadual do Ceará.
Artigo indicado pelo Autor e originalmente publicado em seu blogue pessoal [O que você faria se soubesse o que eu sei?] e republicado pelo EcoDebate, 31/01/2013
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O livro ‘Gestão de áreas de riscos e desastres ambientais’ está disponível para leitura ou download gratuito



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Capa do Livro “Gestão de Áreas de Riscos e Desastres Ambientais”
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Título: Gestão de Áreas de Riscos e Desastres Ambientais
- Agradecimentos;
- Prefácio;
- Apresentação;
Risco ambiental à luz dos princípios da precaução e da prevenção – Ivan Fortunato; José Fortunato Neto;
- Identificação de riscos ambientais e proteção da água: uma aproximação necessária – Salvador Carpi Junior;
- Cartografia de síntese de riscos ambientais na bacia hidrográfica do Ribeirão das Anhumas, Campinas, São Paulo – Ricardo De Sampaio Dagnino; Fernando Marques Baroni; Estéfano Seneme Gobbi; Marcelo Da Silva Gigliotti;
- O uso da cartografia na análise da percepção de riscos de contaminação em áreas de nascentes: o caso do Residencial Tarumã em Maringá, Paraná (PR) – Marilda Aparecida de Oliveira; Deise Regina Elias Queiroz; Manoel Luiz dos Santos;
- A percepção ambiental em planos de emergência: uma proposta para os estudos de sensibilidade ambiental a derrames de óleo – Marcelo Pereira Matos; Solange T. de Lima-Guimarães;
- Percepção e gestão de risco em instalação de repositório de rejeitos nucleares – Afonso Rodrigues de Aquino; Lilian de Oliveira Bueno; Martha Marques Ferreira Vieira; Ivan Pedro Salati de Almeida;
- Desastres ambientais causados por acidentes nucleares: subsídios à gestão de áreas contaminadas – Gerson Antônio Santarine; Adriano Bressane;
- APELL: a preparação da comunidade para emergências ambientais – Antônio Carlos Rossin; Icaro Aronovich da Cunha; Raquel Dalledone Siqueira da Cunha;
- Mudanças ambientais na interface floresta-cidade e riscos associados: uma análise a partir dos sistemas dissipativos – Adriano Severo Figueiró;
- Desafios metodológicos no planejamento ambiental: costa sul do estado da Bahia e Baixada Santista no estado de São Paulo – Regina Célia de Oliveira
- Mapeamento e gestão de riscos de escorregamentos em áreas de assentamentos precários – Leandro Eugenio da Silva Cerri; Fernando Rocha Nogueira
- Princípios básicos para a modelagem de cheias em bacias hidrográficas urbanizadas -Rodrigo Braga Moruzzi; Cenira Maria Lupinacci da Cunha; Fabiano Tomazini da Conceição;
- Riscos e danos ambientais no contexto da geomorfologia fluvial – Márcio Henrique de Campos Zancopé;
- Los ciclones tropicales y su impacto en la cuenca del Caribe – Maira Celeiro Chaple; José Manuel Mateo Rodríguez;
- Desastres naturais de origem atmosférica e seus impactos em Moçambique – Cleusa Aparecida Gonçalves Pereira Zamparoni; Lucí Hidalgo Nunes
Informe da Unesp, publicado pelo EcoDebate, 31/01/2013
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Aumento de produtividade agropecuária do Brasil daria lucro sem desmate

pecuária na Amazônia

Pesquisadores afirmam que mudança em 24% dos pastos geraria 16% de lucro até 2022
Nos últimos anos, ficou notória a discussão entre ruralistas e ambientalistas sobre o que fazer para aumentar a produção agropecuária do Brasil. Enquanto os primeiros dizem que em algum momento será necessário abrir mais áreas para aumentar a produção, os segundos afirmam que a área existente em pastagem degradada é mais do que suficiente para promover esse aumento. Matéria de Giovana Girardi, em O Estado de S.Paulo.
Vários pesquisadores calcularam o tamanho desse passivo e o potencial que ele tem para ser ocupado, mas as associações de produtores costumam argumentar que o custo seria muito alto.
Agora, um grupo de pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) calculou que, se fosse aumentada a produtividade em apenas cerca de 24% do pasto existente em 2007 com potencial agronômico para a intensificação da pecuária, até 2022 seria possível aumentar o valor da produção do setor em cerca de R$ 4 bilhões – 16% em relação ao valor de 2010 -, sem desmatar.
Ao promover um aumento da média de produtividade, que é hoje de 80 kg de carne por hectare por ano, para 300 kg/ha/ano, seria possível atender à demanda de carne projetada para 2022.
Por outro lado, dizem os pesquisadores, liderados pelo engenheiro florestal Paulo Barreto, se nada for feito, o aumento da produção para atender à demanda acabaria levando a um desmatamento de cerca de 12,7 milhões de hectares – com uma média anual 3,4 vezes maior que a meta estabelecida pelo governo federal até 2020 (380 mil hectares).
Pelos cálculos, o esforço dependeria de um investimento de até R$ 1 bilhão por ano até aquela data. Recurso que, analisam os pesquisadores, é totalmente compatível com o que o bioma já recebe por ano em crédito rural – equivale a 70% de quanto a pecuária da região amazônica recebeu em média entre 2005 e 2009.
“Percebemos que dinheiro não falta e desmatar mais não faz o menor sentido, mas a verdade é que, apesar de as taxas estarem caindo, ele (o desmatamento) continua acontecendo, principalmente de modo especulativo, para ampliar a fronteira agrícola em busca de mais patrimônio”, afirma Barreto. É a famosa ação de desmatar para tentar consolidar a propriedade.
Não sendo dinheiro o problema, por que então pouca gente investe em aumentar sua propriedade? Os pesquisadores defendem que algumas frentes deveriam ser atacadas para tentar barrar a especulação e paralelamente levar conhecimento aos produtores para incentivar ações de aumento de produtividade.
Muitas vezes o produtor consegue fazer um projeto para conseguir o crédito rural, mas depois não sabe como aplicá-lo. “É preciso ter gente especializada localmente, ter centros de referência em cada região, espalhar fazendas-modelo para que os proprietários possam conhecer na prática como funciona”, propõe o pesquisador. “O crédito poderia ter um componente de desempenho atrelado”, diz.
Antiespeculação. Mas é com uma “frente antiespeculação”, como apelidou Barreto, que seria possível fazer a diferença. Ele se refere ao gargalo da parte fiscal. Os pesquisadores citam como exemplo a pouca eficiência da cobrança do Imposto Territorial Rural (ITR). Em teoria ele foi criado para evitar o desperdício das terras – são previstas taxas mais altas para imóveis com baixo grau de utilização.
O imposto, se bem aplicado, pode chegar a 20% do valor do imóvel por ano. Mas, na prática, como são os proprietários que informam sobre o uso da terra e não há fiscalização, ninguém acaba pagando o valor correto por ter uma terra improdutiva. Há até uma campanha para que haja um ITR sem mentira.
“É preciso ter uma estratégia semelhante à que vem sendo feita com o desmatamento, de aumentar o combate justamente onde o problema está concentrado. Neste caso, o ideal é focar a fiscalização nos municípios onde há mais terras desmatadas não utilizadas”, afirma. “Ou o proprietário vai passar a produzir ou vai vender a terra. Isso seria uma revolução produtiva com efeito ambiental.”
EcoDebate, 31/01/2013
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Resíduos sólidos não aproveitados dão prejuízo de R$ 10 bilhões anuais ao país

reciclagem

O Brasil joga no lixo, a cada ano, cerca de R$ 10 bilhões por falta de reciclagem e destinação adequada de resíduos sólidos, e de uma política de logística reversa que gerencie o retorno de embalagens e outros materiais descartados de volta à indústria. É esta realidade que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) pretende transformar com a implantação, em todo o país, da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), tema de oficina realizada no início da tarde desta quinta-feira, 30/1, último dia do II Encontro Nacional de Prefeitos e Prefeitas, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.
Dentro da PNRS, a meta do governo federal é eliminar os lixões de todos os municípios brasileiros até o final de 2014, explicou o secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano (SRHU) do MMA, Pedro Wilson Guimarães. Os governos estaduais e municipais deverão providenciar a substituição dos lixões por aterros sanitários, pois, a partir de 2014, a liberação de recursos da União estará condicionada à existência de planos estaduais e municipais de gestão de resíduos sólidos e de saneamento básico. De acordo com anúncio feito pela presidenta Dilma Rousseff, na segunda-feira, durante a abertura do encontro, os prefeitos terão, em 2013, R$ 35.5 bilhões para investir em obras de saneamento, pavimentação e mobilidade urbana selecionadas no final de 2012.
DESPERDÍCIO
“Os lixões são um problema sério que precisa ser enfrentado por todos os gestores”, disse o analista de Infraestrutura da SRHU, Eduardo Rocha Dias Santos. Ele afirmou que os prejuízos são enormes para o meio ambiente, com queda na qualidade de vida, no bem estar e na saúde pública, além de gerar desperdícios econômicos e impactos sociais significativos. A proposta é não gerar resíduos sólidos, mas reduzir, reutilizar e reciclar, tratando e dando destinação adequada.
Santos salientou que apenas a Lei 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, não é suficiente para implantar o que se deseja. “Mas já é um começo”, admitiu. A lei define o compartilhamento de responsabilidades entre as três esferas de governo, o planejamento de ações de gestão e a implantação de infraestrutura adequada, priorizando-se a educação ambiental e a cobrança pela prestação desse serviço público com o objetivo de dar sustentação financeira à PNRS.
Matéria de Luciene de Assis, do MMA, publicada pelo EcoDebate, 31/01/2013
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Dossiê da Abrasco reúne pesquisas e relatos de comunidades diretamente atingidas pelos agrotóxicos

agrotóxicos

Conhecimento científico e popular na luta pela saúde – Dossiê da Abrasco reúne pesquisas e relatos de comunidades diretamente atingidas pelos agrotóxicos para denunciar impactos do agronegócio na saúde e no meio ambiente
“Trabalhava com flores em Atibaia, São Paulo. Usava muito veneno. Passava muito mal por causa disso. Sentia dor de dente, tremor nos lábios, aceleração no coração, escurecimento de vista, dor de cabeça, e não só eu, mas toda minha família. Todos os meus amigos também passavam mal. Meu amigo Nivaldo está com infecção no fígado por causa dos venenos e foi proibido de trabalhar no meio das flores. Sem falar nos animais que bebem a água que tem o veneno e morrem. Peixes na represa morrem também. Vendo isso, tomei a decisão de vir embora para o Sul de Minas Gerais. Chegando aqui, comecei a trabalhar com café, mas vi que também usava veneno. Tomei a decisão de trabalhar numa chácara. Porém na chácara também se usam o mata-mato, Roundup, glifosato e Gramossil”.
O depoimento acima foi feito pelo agricultor Domingos Rodrigues da Silva, do Sindicato dos Empregados Rurais de Eloi Mendes, de Minas Gerais, e retrata uma realidade comum a muitos produtores rurais brasileiros atingidos diretamente pelo uso intensivo de agrotóxicos. O depoimento de Domingos integra o Dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) intitulado ‘Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na Saúde’, cuja terceira e última parte foi lançada durante o 10° Congresso Nacional da entidade, realizado em Porto Alegre em novembro. Durante a cerimônia de lançamento da última parte do dossiê, Luiz Augusto Facchini, então presidente da Abrasco, ressaltou a importância do documento e os fatores que motivaram a entidade a concebê-lo. “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Gostaríamos de reverter esse quadro. Além de aumentar a dependência dos agricultores pelas multinacionais, os agrotóxicos envenenam a população e os trabalhadores brasileiros. Para fortalecer as bases de uma sociedade saudável e desenvolvida, o Brasil deve investir na agricultura familiar e na agroecologia, aumentar a escolaridade e o conhecimento técnico-científico dos agricultores, e ao mesmo tempo valorizar os seus conhecimentos tradicionais”, afirmou.
O dossiê começou a ser pensado durante o Encontro Nacional de Diálogos e Convergências, em setembro de 2011, como explica Raquel Rigotto, pesquisadora do núcleo Tramas da Universidade Federal do Ceará (UFC). “A Abrasco se organizou para participar do encontro, e construímos uma articulação entre vários grupos de trabalho. Durante o evento tivemos contato com movimentos sociais que trouxeram uma reflexão acerca das implicações para a saúde dos agrotóxicos e pensamos que a melhor forma de contribuirmos seria elaborando um dossiê”. Com um total de 469 páginas, o documento fez uma revisão bibliográfica do trabalho de pesquisadores de várias universidades e instituições públicas de pesquisa do país, incluindo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele foi lançado em três etapas, cada uma focando aspectos diferentes da temática dos agrotóxicos. A primeira foi lançada em abril deste ano, durante o World Nutrition, congresso internacional de nutrição no Rio. Por conta disso, focou na questão da segurança alimentar e nutricional. A segunda parte, intitulada ‘Agrotóxicos, saúde, ambiente e sustentabilidade’, procurou dialogar com os debates da Cúpula dos Povos, onde o documento foi lançado. “Nesse, o foco foi a questão do modelo de desenvolvimento e a sustentabilidade, para problematizar a vinculação entre a agricultura químico-dependente e os monocultivos para a exportação, que é um modelo de desenvolvimento agrícola e pecuário que vem sendo imposto pela divisão internacional do trabalho e pelo governo na medida em que o Ministério da Agricultura o incorpora, financia e apoia, assim como o legislativo”, aponta Raquel.
Intitulada ‘Agrotóxicos, conhecimento científico e popular: construindo a ecologia de saberes’, a 3ª parte procurou problematizar o modo de fazer ciência hegemônico que, segundo Raquel Rigotto, contribui para a legitimação de um modelo agrícola calcado na intensa utilização dos agrotóxicos, ao mesmo tempo em que escamoteia os agravos à saúde e ao meio ambiente causados por ele. “Focamos o próprio conhecimento e fizemos isso com uma reflexão sobre o paradigma epistemológico que norteia a ciência moderna, que se por um lado trouxe vários avanços, por outro contribuiu com o processo histórico do capital, com a dominação da natureza, a exploração da força de trabalho”, pontua. O documento também teve como preocupação central aliar conhecimento científico, saber popular e militância política. Para isso foram convidados a participar da sua elaboração membros da Campanha Permanente contra os agrotóxicos e pela Vida e de entidades de fomento à agricultura agroecológica, como a Articulação Nacional da Agroecologia (ANA). Além disso, integram o dossiê 19 depoimentos e relatos escritos por trabalhadores e comunidades que vivem diretamente os efeitos da contaminação por agrotóxicos e as que estão construindo alternativas à agricultura químico-dependente.
Teor e localização das pesquisas sobre agrotóxicos no Brasil
“A ideia do dossiê foi provocar uma reflexão crítica no campo da saúde coletiva e levantar uma bandeira, de que a produção do conhecimento não é neutra, a saúde coletiva tem de produzir conhecimento engajado que faça avançar o projeto do Sistema Único Saúde (SUS) e seus princípios”, diz André Burigo, professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/ Fiocruz), que participou da elaboração do dossiê. Para dar conta de fornecer um panorama sobre a produção científica acerca dos agrotóxicos no Brasil, a equipe do dossiê fez um levantamento, com base na Plataforma Lattes, do número de pesquisadores que possuem em seus currículos pesquisas sobre o tema, analisando também o teor da pesquisa e a localização geográfica dos estudos. Segundo o levantamento, dos mais de 158 mil currículos cadastrados na plataforma, 4.896 citaram o termo ‘agrotóxicos’ (ou variações como ‘defensivos agrícolas’ e ‘pesticidas’), o que não é pouco, como ressalta o dossiê. No entanto, o mapeamento mostra que os estudos “não têm abordado a temática saúde e ambiente, que deveria ser de grande interesse, tanto dos pesquisadores, das suas instituições e dos órgãos de fomento”. Segundo o levantamento, dos currículos que mencionaram agrotóxicos, apenas 4,6% citaram o termo toxicidade aguda e 5% citaram os efeitos crônicos na saúde humana, como a toxicidade dos agrotóxicos para o sistema nervoso, imunológico e endócrino, bem como sua capacidade de provocar más formações fetais e alterações genéticas. Para André Burigo, chama a atenção o fato de que a maioria da produção científica sobre agrotóxicos em geral não foca as áreas de saúde pública e meio ambiente, e se concentra na área da agronomia, “que de certa forma legitima o modelo de agricultura convencional, dependente de agrotóxicos”. Ele também chama atenção para a concentração sobre os estudos nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, presente em mais da metade dos currículos identificados. “É provável que esses pesquisadores também estejam estudando mais os impactos dos agrotóxicos nessas regiões. Há regiões do Brasil completamente descobertas de produção de conhecimento dos impactos dos agrotóxicos na saúde pública e no meio ambiente, como o Norte e o Nordeste. De uma forma geral, há pouca pesquisa no Brasil como um todo, mas essas regiões são muito mais descobertas, o que indica um ocultamento ainda maior dos impactos dos agrotóxicos nesses lugares”, analisa Burigo.
Contaminação da água
Segundo ele, a produção científica brasileira sobre agrotóxicos nas áreas de saúde pública e meio ambiente que abordam o tema de maneira mais crítica, embora escassas, como mostrou o levantamento na Plataforma Lattes, já dão conta de evidenciar os riscos e agravos à saúde e ao meio ambiente provocados pelos agrotóxicos e justificar uma maior fiscalização e controle do poder público sobre a questão. Burigo destaca, por exemplo, o estudo realizado no âmbito do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2011. “Contando as 20 culturas analisadas, apenas 37% das amostras não apresentaram resíduos de agrotóxicos”, conta. Dados de pesquisas realizadas em locais com intensa utilização de agrotóxicos, como a Chapada do Apodi, no Ceará, e a cidade de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, também apontaram a presença de resíduos de agrotóxicos na chuva e na água sendo utilizada para consumo humano. Em Lucas do Rio Verde, aponta o dossiê, a pulverização aérea de agrotóxicos vinha sendo feita a menos de dez metros de fontes de água potável, córregos e residências. Foram identificados resíduos de agrotóxicos em 83% dos poços de água potável das escolas, em 56% das amostras de chuva e em 25% das amostras de ar, além de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em sedimentos de lagoas, “semelhantes”, afirma o dossiê, “aos tipos de resíduos encontrados no sangue de sapos, sendo que a incidência de malformação congênita nestes animais foi quatro vezes maior do que na lagoa controle”. Em Lucas do Rio Verde também foram realizadas pesquisas que mostraram a presença de resíduos de agrotóxicos no leite materno. “Todas as amostras de leite materno de uma amostra de sessenta e duas nutrizes de Lucas do Rio Verde apresentaram contaminação com pelo menos um tipo de agrotóxico analisado. Os resultados podem ser oriundos da exposição ocupacional, ambiental e alimentar do processo produtivo da agricultura que expôs a população a 136 litros de agrotóxico por habitante na safra agrícola de 2010”.
Legalização da contaminação
Segundo o dossiê, paralelo ao aumento da contaminação do meio ambiente pelos agrotóxicos – e também por resíduos industriais -, há um movimento de legalização da contaminação pelo Estado brasileiro, como apontam, por exemplo, as mudanças feitas ao longo do tempo nas normas de potabilidade da água, que determinam a quantidade de resíduos de agrotóxicos, substâncias químicas e solventes permitida na água para consumo humano. Na primeira, de 1977, era permitida a presença de 12 tipos de agrotóxicos, de dez metais pesados, de nenhum solvente e de nenhum produto químico de desinfecção domiciliar. Ao longo dos anos, foram sendo emitidas novas portarias ampliando a quantidade permitida. Na última portaria, emitida em 2011, é permitida a presença de 27 tipos de agrotóxicos, de 15 produtos metais pesados, de 15 produtos solventes, de sete produtos químicos de desinfecção domiciliar e o uso de algicidas nos mananciais e estações de tratamentos. Isso, conclui o dossiê, reflete, ao longo do tempo, “a crescente poluição do processo produtivo industrial que utiliza metais pesados e solventes, do processo agrícola que usa dezenas de agrotóxicos e fertilizantes químicos e da poluição residencial que utiliza muitos produtos na desinfecção doméstica. Esta ampliação pode levar a uma cultura de naturalização e consequente banalização da contaminação, como se esta grave forma de poluição fosse legalizada”. Como aponta André Burigo, o dossiê “mostra que os alimentos que ingerimos estão contaminados, a água que bebemos está contaminada e até o leite materno apresenta agrotóxicos. Isso mostra que esse modelo de desenvolvimento agrícola esta colocando em xeque o conceito de alimento, porque justamente os alimentos mais importantes, cuja ingestão a saúde pública recomenda estão contaminados por agrotóxicos”.
Intoxicações por agrotóxicos
O aumento na utilização destes venenos no Brasil reflete no crescimento do número de intoxicações agudas por agrotóxicos registradas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde (MS): de 2.071 notificações em 2007, esse número passou para 3.466 em 2011, um aumento de 67,3%. Já o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) registrou, no ano de 2009, 5.253 casos de intoxicação por agrotóxicos de uso agrícola um total de 188 óbitos por estes quatro tipos de intoxicações registradas. “Há de se ressaltar que existe um grande sub-registro das intoxicações por agrotóxicos no Brasil. Esta é uma das grandes vulnerabilidades institucionais do país, entre outras relacionadas ao controle e monitoramento do uso de agrotóxicos em todo território nacional que é um aspecto a ser levado em consideração nos processos de registro e reavaliação desses produtos”, pontua o dossiê, que ainda afirma que existem muitas lacunas de conhecimento quando se trata de avaliar a multiexposição ou a exposição combinada de agrotóxicos. “A grande maioria dos modelos de avaliação de risco servem apenas para analisar a exposição a um princípio ativo ou produto formulado, enquanto que no mundo real as populações estão expostas a mistura de produtos tóxicos cujos efeitos sinérgicos (ou de potencialização) são desconhecidos ou não são levados em consideração”, mostra o estudo. Segundo o dossiê, o SUS não tem contado com estímulos políticos, técnicos e financeiros para implantar a vigilância da saúde de populações expostas aos agrotóxicos. “O Ministério da Saúde discute há cinco anos um Plano de Vigilância e Atenção a Saúde para populações Expostas a Agrotóxicos e, até o momento, não conseguiu pactuar com estados e municípios a forma e os recursos a serem direcionados para implementar o mesmo. Será que essa questão não mereceria prioridade?”, indaga.
Em sua conclusão, o dossiê cobra a elaboração de um Plano Nacional de Enfrentamento ao Uso dos Agrotóxicos e Seus Impactos na Saúde e no Ambiente, com bandeiras como: o banimento no Brasil dos agrotóxicos já banidos em outros países; a proibição da pulverização aérea; o fim das isenções fiscais para os agrotóxicos — já que as empresas que comercializam e produzem os venenos recebem isenções, inclusive de impostos que financiam a seguridade social (que inclui a Previdência Social, Saúde e Assistência Social) como o PIS/Pasep e o COFINS; o fim do crédito para os agrotóxicos; a reavaliação dos agrotóxicos autorizados; a fiscalização das condições de trabalho das populações expostas e dos danos ao meio ambiente, entre outras.
Acesse o Dossiê Abrascohttp://greco.ppgi.ufrj.br/DossieVirtual/
Reportagem de André Antunes, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), publicada pelo EcoDebate, 31/01/2013
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Especialista fala sobre sintomas, riscos e tratamento para a pneumonia química

saúde

Na madrugada de domingo (27/1), uma tragédia chocou o país: um incêndio em uma boate da cidade de Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul, provocou a morte de ao menos 231 jovens. Aos sobreviventes ainda resta o perigo de contrair a pneumonia química, uma doença perigosa que, se não tratada, pode levar à morte. Com o intuito esclarecer sobre a enfermidade, o pneumologista e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Hermano Albuquerque de Castro, concedeu entrevista à Agência Fiocruz de Notícias (AFN), na qual fala sobre os sintomas, riscos e tratamento para a doença. Castro também é o atual presidente da Comissão de Doenças Respiratórias Ambientais e Ocupacionais da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).
Quais são os principais sintomas da doença? Até quantos dias pode se manifestar a enfermidade?
Hermano Castro: Principalmente tosse e  falta de ar. Algumas pessoas podem manifestar chiado no peito. De um modo geral pode se manifestar até três dias após o acidente.
Qual o perigo da pneumonia química?
Castro: A fumaça inalada encontra-se em altas temperaturas durante o incêndio e, neste caso, ocorre sempre o dano físico ou uma agressão térmica na estrutura pulmonar. Junta-se a isso a presença dos gases tóxicos com potente poder inflamatório. Pessoas sobreviventes de incêndios costumam inalar fumaça (produtos incompletos da combustão) produzindo um dano inflamatório nas vias aéreas e isso pode ser responsável por até 70% da mortalidade em pacientes vítimas dos incêndios.
A fumaça é a mistura de gases, como o monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (NO2), dióxido de enxofre (SO2) e material particulado. Os gases e os particulados podem agir diretamente sobre as células que constituem o revestimento pulmonar produzindo o processo inflamatório. O mecanismo da ação pode ser por lesão térmica direta decorrente da temperatura da fumaça; redução da inalação do oxigênio com diminuição da fração inspirada de oxigênio, o que pode levar ao óbito; gases tóxicos que agem localmente produzindo inflamação aguda; e gases tóxicos de ação sistêmica, como o monóxido de carbono (CO) e o cianeto (o CO liga-se a hemoglobina reduzindo o transporte de oxigênio para o organismo).
Que medidas devem ser tomadas pelo indivíduo após passar por uma situação que possa desencadear a doença?
Castro: Pessoas que ficam expostas em situações onde ocorre inalação de grande quantidade de fumaça (gases tóxicos) e com elevada temperatura devem ser orientadas quanto à possibilidade de sintomas e, dependendo do caso, permanecer em observação e acompanhamento clínico. Idosos, crianças e pessoas que sabidamente são portadores de doenças pulmonares, como asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica, devem sempre ficar sob observação clínica.
Por que situações de incêndio podem desencadear a doença?
Castro: 
A fumaça inalada é a causadora da doença e a intensidade da lesão pulmonar depende do tempo de exposição aos gases e da toxicidade do gás inalado.
Além de incêndio, que outras situações são propícias para o desenvolvimento da doença?
Castro: Ambientes com a presença de gases tóxicos, solventes, vapores podem desencadear uma pneumonia química. Ambientes de trabalho com a presença de produtos químicos aumentam o risco para a doença.
Qual o tratamento utilizado para a doença?
Castro: Em primeiro lugar a manutenção da via aérea e suporte ventilatório com aporte de O2. Para redução da inflamação e edema pode ser indicado o uso de corticosteroides. O uso de antibióticos está indicado quando há indícios de infecção secundária, em geral após o terceiro dia do acidente. A clínica respiratória poderá definir o uso ou não de broncodilatadores.
Algum tipo de medida deve ser evitada nesse caso?
Castro: O mais importante é o acidentado procurar imediatamente um serviço de saúde após o acidente, mesmo que não tenha ainda a presença de sintomas imediatos, como tosse ou falta de ar. Os sintomas podem aparecer tardiamente em 24 ou até 72 horas.
Situações de incêndio podem desencadear o aparecimento de outras enfermidades além da pneumonia química?
Castro: Além das lesões pulmonares e corpóreas decorrentes da queimadura, existe sempre a possibilidade do stress pós-traumático, desencadeamento de quadros hipertensivos ou descontroles de doenças endócrinas em pessoas portadoras de patologias prévias ou latentes.
Por Danielle Monteiro e Renata Moehlecke, da Agência Fiocruz de Notícias, publicada peloEcoDebate, 30/01/2013
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