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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Alimentos biofortificados

feijão 

Vencedora do Prêmio Capes de Teses 2012, pesquisa desenvolvida em Minas Gerais enriquece lavouras por meio de fertilizantes diferenciados. A técnica que aperfeiçoa nutricionalmente as plantações pode melhorar produtos de consumo humano e animal»
Em nome da produtividade no campo, os níveis de nutrientes nos alimentos foram deixados de lado, prejudicando milhões de pessoas vítimas de desnutrição em todo o mundo. Na tentativa de reverter esse quadro, pesquisadores apostam alto na chamada biofortificação de alimentos, processo que pretende aumentar o teor de substâncias fundamentais para a alimentação humana e animal por meio do manejo da adubação de culturas agrícolas. Em Minas Gerais, pesquisa inovadora na área realizada por equipe de estudiosos da Universidade Federal de Lavras (Ufla) foi reconhecida pela comunidade acadêmica ao vencer o Prêmio Capes de Teses 2012. Matéria de Paula Takahashi, Correio Braziliense, socializada pelo ClippingMP.
De autoria do engenheiro agrônomo e doutor em ciência do solo Sílvio Junio Ramos, a tese Biofortificação, variação genotípica e metabolismo envolvendo selênio em alface e brócolis revela a importância de se investir na elaboração de fertilizantes enriquecidos que, além de garantir o aumento da produção agrícola, oferece maior teor de nutrientes para os alimentos. “Isso está sendo implementado nos Estados Unidos, no Canadá, na China, na Inglaterra, na Turquia, na Finlândia, na Austrália e na Índia. O desafio agora é produzir fertilizantes para a adubação das lavouras que sejam capazes de aumentar a produção agrícola e proporcionar teores suficientes de minerais essenciais nos alimentos produzidos no Brasil”, afirma o especialista.
Conhecida como biofortificação agronômica, a técnica realizada por meio de adubação deve ser complementada com procedimentos genéticos que envolvam o melhoramento vegetal. “Há parceria entre a Embrapa e a Ufla para a seleção de cultivares que tenham maior potencial de absorção dos nutrientes fornecidos por meio desses fertilizantes. Por isso, as duas linhas de pesquisa devem caminhar juntas”, pondera Sílvio. Com variedades mais propensas a extrair os nutrientes oferecidos por adubos enriquecidos, melhores serão os efeitos na alimentação humana.
Maior impacto
O pesquisador pondera que seu estudo para o doutoramento foi direcionado à alface e ao brócolis, mas outros alimentos certamente poderão ser usados com o mesmo intuito. “Esse foco tem que ser expandido para culturas agrícolas que tenham maior impacto na alimentação, como a do arroz, do feijão, do trigo, da soja e das forrageiras. Essas duas últimas principalmente para a alimentação animal”, observa. O avanço para o enriquecimento dos alimentos da cesta básica é feito pelo pesquisador em parceria com Luiz Roberto Guimarães Guilherme e Valdemar Faquin, ambos professores da Universidade Federal de Lavras.
A escolha do selênio — micronutriente mineral com poderosa ação antioxidante — também pode ser justificada. Estima-se que as deficiências nutricionais envolvendo esse nutriente atinjam 15% da população mundial. A principal causa estaria na baixa disponibilidade do elemento na maioria das terras cultiváveis, que não é fertilizada adequadamente. Solos do cerrado, onde hoje se concentra a maior parte da produção agrícola do país, em especial de grãos, já se mostraram pobres em selênio. “A cultura colhida ali também será deficiente”, garante Sílvio.
A carência do mineral está relacionada à incidência de certos tipos de câncer, a anomalias morfológicas, a doenças cardiovasculares, entre outros problemas de saúde. O pesquisador lembra que a biofortificação agronômica com selênio já é realidade na Finlândia desde 1980. O mineral foi incorporado aos fertilizantes a uma taxa de 10mg por quilo. O resultado foi uma clara redução nas taxa de doenças cardiovasculares e de certos tipos de câncer.
COMPARE
Veja algumas lavouras biofortificadas e suas correspondentes convencionais
Alimento
* Convencional
** Cultivares dos projetos da rede de biofortificação no Brasil
Arroz
* – Em média, 12mg de zinco e 2mg de ferro por quilo de arroz branco polido
** – Média de 18mg de zinco e 4mg de ferro por quilo de arroz de arroz polido
Batata-doce
* – Em cultivares de polpa branca, até 10 microgramas de betacarotena por grama de raízes frescas
** – Na cultiva Beauregard, média de 115 microgramas de betacaroteno por grama de raízes frescas
Feijão
* – Em média, 50mg de ferro e 30mg de zinco por quilo de produto
** – Em média, 90mg de ferro e 50mg de zinco por quilo de cultivar BRS Pontal
Mandioca
* – Em variedades de polpa branca, não há teores expressivos de betacaroteno
** – Até 9 microgramas de betacaroteno por grama de raízes frescas
Milho
* – Em média, 4,5 microgramas de pró-vitamina A por grama de milho em base seca
** – Até 9 microgramas de pró- vitamina A por grama de milho em base seca
Rede nacional potencializa ideia
A Universidade Federal de Lavras (Ufla) mantém uma rede de pesquisas interdisciplinares de âmbito nacional, chamada de Rede Agrometais, que conta com parcerias de outras universidades e com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de Minas Gerais (Fapemig). Segundo o professor Luiz Roberto Guimarães, uma das linhas de atuação da AgroMetais está relacionada à qualidade e à segurança dos alimentos produzidos no campo, o que inclui a avaliação de elementos essenciais — como zinco, ferro e selênio — em insumos agropecuários, áreas cultivadas e produtos agrícolas.
Nessa linha de pesquisa, vem sendo realizado um trabalho em parceria com a Embrapa que prevê o enriquecimento de mandioca com zinco, ferro, selênio e pró-vitamina A. “Estamos começando a fazer a seleção das espécies. Já identificamos algumas que têm capacidade de armazenar mais os elementos”, antecipa Luiz Roberto. O próximo passo é realizar o plantio das variedades mais propensas à absorção dos nutrientes para a verificação do desempenho no campo. Em 2009, a Embrapa já havia anunciado a mandioca Jari, com maior teor de pró-vitamina A, conhecida como betacaroteno. O resultado — uma mandioca com 40 vezes mais vitamina A que a comum — foi proveniente de uma série de cruzamentos entre as variedades aipim e macaxeira.
Multiplicadores
Os avanços não param por aí. O projeto BioFORT, coordenado pela Embrapa e com objetivo de trabalhar pela biofortificação de alimentos no Brasil, tem resultados em outras variedades. A meta é produzir variedades de abóbora e milho com altos teores de carotenoides e outros precursores de vitamina A; de arroz, feijão-caupi, trigo e feijão comum com grande concentração de ferro e zinco; e de mandioca e batata-doce mais ricas em betacaroteno. Até o momento, já foram desenvolvidas 10 cultivares — sendo três de mandioca e um de batata-doce com maiores teores de betacaroteno, três de feijão-caupi e três de feijão comum mais ricos em ferro e zinco.
Para levar as mudas ao campo, está em andamento o projeto Alimentos Biofortificados, que começa a se expandir nos estados do Nordeste e do Sudeste brasileiro. Segundo informações da BioFORT, as unidades de multiplicação de mudas de batata-doce estão sendo instaladas em escolas agrícolas de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, do Espírito Santo, de Sergipe, do Maranhão e do Ceará com objetivo de formar futuros técnicos agrícolas. Eles serão multiplicadores das tecnologias da Embrapa em suas comunidades, atendendo às demandas dos produtores pelas variedades biofortificadas.
EcoDebate, 15/01/2013

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