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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Especismo e ecocídio: a destruição da Amazônia, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Especismo e ecocídio: a destruição da Amazônia

[EcoDebate] Em 500 anos, o Brasil já destruiu 93% da Mata Atlântica e a maior parte das florestas de Araucária. Em cerca de 50 anos, especialmente depois da construção de Brasília e de estradas como a transbrasiliana, destruiu mais da metade do Cerrado. No século XXI, caminha a passos largos para destruir a Amazônia. Os cálculos indicam que o país já eliminou 20% da floresta e a destruição continua acelerada com o desmatamento, os grandes projetos de construção de usinas hidrelétricas, a expansão da pecuária e da soja, o crescimento das cidades e a difusão das madeireiras, da mineração e do garimpo.
Infelizmente o governo não tem nenhum plano para salvar a Amazônia. Ao contrário, o que existe são precários planos para reduzir o desmatamento, paralelamente ao incremento dos grandes projetos desenvolvimentistas (ou seja, na visão governamental, a destruição vai ser um pouco mais lenta).
Um relatório de janeiro de 2013, do Imazon, instituição que monitora o desmatamento por meio de imagens de satélite, mostrou que a destruição da floresta subiu em dezembro pelo quarto mês consecutivo. Após anos de razoáveis avanços no combate ao desmatamento, tudo indica que o problema voltou a se agravar, refletindo a expansão de fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e construtores para áreas antes inexploradas (inclusive áreas indígenas). Nos últimos cinco meses de 2012, o Imazon detectou a eliminação de 1.288 km2 (quilômetros quadrados) de matas, mais do que o dobro da área devastada no mesmo período de 2011.
A Amazônia sofre dois tipos de ameaças: 1) uma gestada internamente, em decorrência da ideologia desenvolvimentista; 2) e outra, vinda majoritariamente de fora, como resultado do aquecimento global e das mudanças climáticas.
Para exemplificar a primeira ameaça, basta olhar os projetos econômicos existentes. Além de Belo Monte e outras cinco usinas hidrelétricas em construção, o governo desenvolvimentista brasileiro planeja instalar pelo menos 23 novas hidrelétricas na Amazônia. Ao todo, essas 29 hidrelétricas devem gerar 38.292 MW, quase metade dos 78.909 MW produzidos pelas 201 usinas hidrelétricas em operação hoje no país. Sete delas, como as das bacias do Tapajós e do Jamanxim, serão feitas no coração da Amazônia, em áreas de floresta contínua praticamente intocadas. Outras estão em áreas remanescentes importantes de floresta amazônica, como o conjunto de sete hidrelétricas planejadas nos rios Aripuanã e Roosevelt, no Mosaico de Apuí, com impacto direto em 12 unidades de conservação de proteção integral e terras indígenas.
A Amazônia é o novo Eldorado das forças produtivas e do empreendedorismo que, de maneira despudorada, desejam ampliar a dominação humana sobre a natureza. Com energia hidrelétrica virão a ampliação das cidades, das estradas, das fábricas, do comércio, dos carros e da expansão da pecuária e da agricultura. Para os políticos e/ou empresários, a Amazônia é a bola da vez. Eles falam em desenvolvimento não predatório, mas só faltou explicar como fazer este milagre.
Para exemplificar as ameaças advindas das mudanças climáticas, um estudo da Agência Espacial Americana (Nasa) revelou que uma área da floresta amazônica (equivalente a duas vezes o tamanho da Califórnia – 800 mil quilômetros quadrados) continuou sofrendo os efeitos de uma grande seca que começou em 2005. A pesquisa sugere que a floresta tropical amazônica pode estar mostrando os primeiros sinais de degradação em larga escala devido às mudanças climáticas. Durante o verão de 2005, mais de 700 mil quilômetros quadrados de floresta no sudoeste da Amazônia enfrentaram uma extensa e severa seca. A super seca provocou danos generalizados na cobertura florestal, com a morte de galhos e quedas de árvores, reduzindo o habitat para a fauna local.
O estudo mostra que embora os níveis de chuva tenham voltado ao normal nos anos seguintes, os prejuízos continuaram durante a segunda extensa seca que começou em 2010. Os pesquisadores acreditam que a região sul e oeste da Amazônia já está sofrendo os efeitos do aquecimento global. Esta situação pode indicar um círculo vicioso, pois enquanto as mudanças climáticas ajudam a destruir a Amazônia, a redução da floresta vai fazer aumentar o aquecimento global.
Por enquanto a Amazônia é nossa. Mas daqui a algumas décadas a Amazônia não será de ninguém, pois vai deixar de existir como uma floresta integral e deve se tornar uma região de ilhas de mata, cercadas pela destruição humana por todos os lados. O novo Código Florestal brasileiro não vai interromper a destruição das espécies e o crime de ecocídio. Queimadas, mineração, hidrelétricas, pecuária, crescimento das cidades, rodovias, etc, tudo isto, em conjunto, está destruindo a maior floresta tropical do mundo, para o beneplácito da espécie homo sapiens.
O que a Amazônia precisa não é de mais desenvolvimento, mas, talvez, de des-desenvolvimento. Quanto menos atividades antrópicas melhor. Há quem diga que o ideal é que a Amazônia fosse transformada em um grande parque natural (livre de toda exploração econômica), para a tristeza e raiva daqueles que defendem a extração das riquezas da biodiversidade amazônica em função e desfrute do progresso egoístico dos seres humanos nacionais e internacionais.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
EcoDebate, 01/02/2013

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