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segunda-feira, 4 de março de 2013

Italianos, artigo de Montserrat Martins


[EcoDebate] Inusitada a situação na Itália, que só terá um novo governo quando houver acordo entre duas forças políticas dentre as três mais votadas, mas que não se entendem minimamente entre si. No seu sistema de governo parlamentar, a Itália só tem duas opções: ou uma coalizão forma maioria, ou são convocadas novas eleições. Os candidatos mais votados são de centro-esquerda, de direita e de uma terceira força inusitada, Grillo, que é comediante por profissão e totalmente irreverente, chamando aos outros de “mortos” no seu blog pessoal, beppegrilo.it. Ele é contra coalizões, embora diga que o pior seria Berlusconi, o que pode levar a novas eleições. Os italianos já sabiam disso, o enigma a ser decifrado portanto é a expressiva votação do “Movimento Cinco Estrelas” de Grillo, chegando em terceiro com índices quase iguais aos dos dois maiores. Óbvio que é um voto de protesto, mas contra o que e para chegar onde?
Não encontraremos respostas no “Il blog di Beppe Grillo”, nem no seu twitter com um milhão de seguidores, só sátiras dos dois maiores grupos políticos italianos, quer dizer, “governabilidade” não é problema deles, que estão lá para protestar mesmo, suas manifestações são contra os políticos e seu sucesso decorre da sucessão de escândalos da política italiana, que ele satiriza. Sobre sua estratégia diante do impasse, ele responde que não tem estratégia, só as propostas do seu movimento.
O voto de protesto dos italianos não é um fato isolado, ao contrário, faz parte de uma tendência que fez a revista Time, em 2011, escolher como “Homem do Ano” o Manifestante, “The Protester”, em meio à ebulição política internacional, da Primavera Árabe ao “Occupy Wall Street”. Também não é uma invenção do século XXI, tem precedentes históricos e um de seus marcos simbólicos é 68, chamado de “o ano que não terminou”, em que os movimentos estudantis contestaram tanto a guerra e o imperialismo quanto o stalinismo. Os cientistas políticos poderiam buscar suas origens ainda no século XIX, por volta de 1850, quando Marx passou a considerar Proudhon um “pequeno-burguês” por propor a autogestão ao invés da ditadura do proletariado.
No último século e meio, nenhum país chegou a praticar a autogestão e raros chegaram perto de usar alguns princípios, como a Iugoslávia (antes de ser desmembrada) e o movimento polonês Solidariedade, uma decepção quando chegou ao governo. O nome “anarquista” ficou associado à mera rebeldia e inconsequência, quando não à violência ou terrorismo político, tanto que na Europa os movimentos que se pretendem libertários, recusando tanto o imperialismo quanto o totalitarismo de esquerda passaram a se dizer “autonomistas”. Um dos líderes de 68, o franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, é ainda hoje deputado da bancada verde européia.
No século XXI, os partidos estão em descrédito. No Brasil, os que lutaram contra a ditadura (o MDB durante o bipartidarismo, depois o PT, que hoje são a coalizão governista) surgiram para mudar o sistema, mas foram mudados por ele – tá aí o Renan Calheiros. O jornalista Marcos Rolim sintetizou que “quem sonhou em fazer aquilo que nunca fora feito, acabou fazendo aquilo que nunca sonhou”. A História já nos mostrou impérios intercontinentais, monarquias absolutistas, Inquisição, nazismo, stalinismo, capitalismo e ‘socialismo real’, que hoje é chinês. Os italianos estão protestando contra tudo isso. O anti-autoritarismo tem um apelo forte para os jovens no século XXI, pois as alternativas já conhecidas não são sedutoras.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.
EcoDebate, 04/03/2013

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