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terça-feira, 19 de março de 2013

Papa argentino, artigo de Montserrat Martins

artigo

[EcoDebate] A “hermanofobia”, preconceito contra nossos “hermanos” argentinos, sofreu um duro golpe com a eleição de um papa argentino, Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco. Tidos pelos países vizinhos como culturalmente autossuficientes (eufemismo para a sensação de superioridade que aparentam ter), os argentinos não são vistos com muita simpatia pelos povos com quem fazem fronteira, brasileiros e uruguaios. Paradoxalmente a tudo isso, o papa argentino escolheu o nome de Francisco, em homenagem à virtude da humildade de Francisco de Assis.
Na wikipedia argentina, o capítulo sobre o cardeal de Buenos Aires dizia que para ele casamento e adoção por casais do mesmo sexo eram “coisa do diabo”, sendo acusado de mentalidade “medieval e inquisitorial” pela presidenta Cristina Kirschner. Eleito papa, a wikipedia argentina mudou, passando a citar sua humildade, e agora só os sites de esquerda o acusam (de colaborar com o regime militar). Ninguém pode dizer que os hermanos não valorizam o próprio país ou deixam de zelar pela imagem dos seus compatriotas, como demonstram com seus ídolos no futebol. Ao contrário dos cardeais brasileiros, sem apreço por terem um conterrâneo entre os papáveis.
Há quem diga que a Igreja Católica é assim mesmo, nos termos em que a wikipedia argentina se referia ao cardeal Bergoglio (até sua eleição a Papa). Não é verdade: como toda a instituição, há várias correntes ideológicas internas. Um exemplo disso é a figura de Dom Cláudio Hummes (cardeal brasileiro que havia sido cotado para a sucessão de João Paulo II), tido como um moderado, preocupado com as questões sociais que tenta compatibilizar com a doutrina da Igreja, defensor dos direitos dos trabalhadores, tendo sido uma voz de contestação ao regime militar brasileiro. Dom Cláudio não vinha sendo citado agora, e sim Dom Odilo, mas o argentino especulado para papa também era outro, o cardeal Leonardo Sandri.
Há quem torça por uma Igreja conservadora, retrógrada, que se distancie da vida das pessoas simples a ponto destas perderem toda identidade com ela. O número de católicos no país caiu drasticamente de 91,8% em 1970 para 64,6% em 2010, ou seja, uma queda de quase 30% em quatro décadas. Em comparação, os não-religiosos no Brasil foram estimados em 8%, em 2010, um pequeno acréscimo em relação aos 7,4%.do censo de 2000. A imensa maioria dos brasileiros não está abandonando a religião em si, mas a rigidez do catolicismo que não admite práticas comuns entre as pessoas, tais como o segundo casamento ou a possibilidade dos religiosos casarem, que outras religiões já permitem.
Faz parte de tolerância e do respeito às diferenças abrir mão de “torcer contra” alguma religião – mesmo que não seja a sua, ou que você não goste de religiões – por respeito a todos para os quais isso é importante. A alternativa é torcer, então, pelas melhores tendências de cada grupo religioso – por exemplo, pelos evangélicos que protestaram contra a eleição do pastor Marco Feliciano, notoriamente preconceituoso, para o cargo incompatível com ele de presidente de uma Comissão de Direitos Humanos. Se formos mais longe, poderíamos identificar entre hinduístas e entre muçulmanos os que tem mais ou menos preconceitos de castas ou contra as mulheres, em pleno século XXI. Quer dizer, as religiões não vão deixar de existir e cada uma tem os seus problemas – alguns bem graves – a resolver.
Valores “humanistas”, no sentido do bem comum, nos fazem desejar o bem a cada pessoa no caminho – e na religião – que escolher. E que o papa se espelhe mesmo em São Francisco.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.
EcoDebate, 19/03/2013

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