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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Relatório ‘perdido’ expõe genocídio de índios brasileiros

Atrocidades contra a tribo Cinta Larga foram expostas no relatório Figueiredo. Depois de atirar na cabeça de seu bebê, os assassinos cortaram a mãe no meio. © Survival
Atrocidades contra a tribo Cinta Larga foram expostas no relatório Figueiredo. Depois de atirar na cabeça de seu bebê, os assassinos cortaram a mãe no meio.© Survival

Um relatório chocante detalhando atrocidades horríveis cometidas contra índios brasileiros nos anos 1940, 50 e 60 ressurgiu – 45 anos depois que ele foi misteriosamente ‘destruído’ em um incêndio.
O relatório Figueiredo foi encomendado pelo Ministro do Interior em 1967 e causou um clamor internacional depois que revelou crimes contra a população indígena do Brasil nas mãos de latifundiários poderosos e do próprio departamento do governo para assuntos indígenas: o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). O relatório levou à fundação da organização de direitos indígenas Survival International, dois anos depois.
O documento de mais de 7.000 páginas, compilado pelo Procurador Jader de Figueiredo Correia, detalhou o assassinato em massa, tortura, escravidão, guerra bacteriológica, abuso sexual, roubo de terras e negligência travada contra a população indígena do Brasil. Como resultado, algumas tribos foram completamente eliminadas e muitas mais foram dizimadas.

O relatório foi recentemente redescoberto no Museu do Índio e agora será considerado pela Comissão Nacional de Verdade do Brasil, que está investigando as violações de direitos humanos ocorridas entre 1947 e 1988.
Um dos muitos exemplos horrendos no relatório descreve o ‘massacre do paralelo 11’, em que dinamite foi lançada de um pequeno avião sobre a aldeia de índios Cinta Larga. Trinta índios foram mortos – apenas dois sobreviveram para contar o ocorrido.
Xamã Umutima em 1957. Em 1969, a maior parte dos Umutima foram aniquilados por uma epidemia de gripe. © José Idoyaga/Survival
Xamã Umutima em 1957. Em 1969, a maior parte dos Umutima foram aniquilados por uma epidemia de gripe.© José Idoyaga/Survival
Outros exemplos incluem o envenenamento de centenas de índios com açúcar misturado com arsênico e métodos severos de tortura, como o esmagamento lento dos tornozelos das vítimas com um instrumento conhecido como o ‘tronco’.
As descobertas de Figueiredo levou a um clamor internacional. No artigo ‘Genocídio’ de 1969 publicado pelo Sunday Times britânico, com base no relatório, o escritor Norman Lewis escreveu: ‘Do fogo e espada ao arsênico e balas – a civilização enviou seis milhões de índios para a extinção.’ O artigo mobilizou um pequeno grupo de cidadãos preocupados a formar a Survival International no mesmo ano.
Como resultado do relatório, o Brasil lançou um inquérito judicial, e 134 funcionários foram acusados ​​de mais de 1.000 crimes. 38 funcionários foram demitidos, mas ninguém foi preso pelas atrocidades.
O SPI foi posteriormente dissolvido e substituído pela FUNAI- a Fundação Nacional do Índio do Brasil. Mas enquanto grandes extensões de terras indígenas foram demarcadas e protegidas desde então, as tribos do Brasil continuam a lutar contra a invasão e destruição de suas terras por madeireiros, fazendeiros e colonos ilegais, e a perder seu território por causa do programa de crescimento agressivo do governo que visa a construção de dezenas de grandes hidrelétricas e a autorização da mineração em grande escala em suas terras.
O Diretor da Survival International, Stephen Corry, disse hoje, ‘O relatório Figueiredo faz uma leitura horrível, mas de uma forma, nada mudou: quando se trata do assassinato de índios, reina a impunidade. Homens armados matam rotineiramente índios com a consciencia que há pouco risco de serem julgados e punidos – nenhum dos assassinos responsáveis ​​por atirar contra líderes Guarani e Makuxi foi preso por seus crimes. É difícil não suspeitar que o racismo e a ganância estão na raiz do fracasso do Brasil em defender as vidas de seus cidadãos indígenas.’

Leia sobre esta história na página da Survival na internet:
http://www.survivalinternational.org/ultimas-noticias/9197
A Survival International ajuda os povos indígenas a defender suas vidas, proteger suas terras e determinar seu próprio futuro. Fundada em 1969.

EcoDebate, 29/04/2013
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Projeto incentiva plantio de árvores nativas na Serra do Gandarela

Serra do Gandarela. Foto: Leonardo Mattos

Serra do Gandarela. Foto: Leonardo Mattos

AÇÃO DE SUSTENTABILIDADE!
“PLANTE UMA ÁRVORE” NO GANDARELA.
Consolidada no mercado dos grandes floristas mineiros, a Floricultura Ikebana Flores se encontra há mais de 25 anos na mesma região, Savassi, em Belo Horizonte. E, ultimamente está envolvida em questões ambientais envolvendo a devastação ambiental que a Serra do Gandarela está passando; por isso, está disseminando através das redes sociais a campanha “PLANTE UMA ÁRVORE” no Gandarela.
Há cerca de 40 km de Belo Horizonte e disposta em um panorama natural privilegiado, entre a Serra do Curral e a Serra do Caraça, com vegetação rupestre e cangas vinculadas a jazidas de ferro, e biomas de Mata Atlântica, a Serra do Gandalera tem uma ampla riqueza hídrica (Rio Piracicaba e Doce, Bacias do Rio das Velhas e São Francisco) aliada ao seu Quadrilátero Ferrífero que vem sendo assolada por atividades mineradas.
A campanha está em caráter experimental em relação ao plantio no Gandarela, e desde janeiro de 2013 realizou o plantio de aproximadamente 100 mudas na região. As próximas ações estão marcadas para outubro, pois os meses de tempo nublado são adequados para essa ação. “Plante uma Árvore” tem o anseio de suavizar as áreas mais assoladas do Gandarela por meio do plantio de mudas típicas da região: jacarandá, sucupira, ipê amarelo, ipê branco, tamarino, peroba, entre outras.
Alguns sites conhecidos em Minas Gerais (Cidade BH e Abraço Mundo) e a nível Brasil (Blog Fundação SOS Mata Atlântica *Guest Post) publicaram a campanha e logo contribuíram com o plantio. Todos os blogueiros ou sites que noticiarem a campanha terão uma muda plantada em seu nome na Serra do Gandarela. As atividades do plantio estão sendo publicadas no site da Ikebana Flores.
Para estimular o plantio, a Ikebana Flores está presenteando a todos que se interessarem com mudas do cerrado durante a campanha, basta comparecer de segunda a sexta-feira, no horário de 10h00 as 19h00 na Av. Getúlio Vargas, 1697 – Savassi. Belo Horizonte- MG. Telefone: (31) 3227-4802.
Participe! Gandarela precisa de você.
*Crédito:
Texto: Thaís Alessandra do Coletivo Cirandar

EcoDebate, 29/04/2013
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Síntese do efeito de diferentes aspectos na polinização por abelhas nativas em agroecossistemas

Abelha Jataí (Tetragonisca angustula). Foto: Abelhas do Brasil

Abelha Jataí (Tetragonisca angustula). Foto: Abelhas do Brasil

Estudo traz uma síntese do efeito de diferentes aspectos locais e da paisagem na polinização por abelhas nativas em agroecossistemas
[Jornal da Ciência] As abelhas são o principal grupo de polinizadores, ou seja, animais que fazem a transferência de pólen de uma flor para outra, possibilitando a fertilização dos óvulos e, consequentemente, o desenvolvimento do fruto e sementes. A dependência dos polinizadores pelas plantas é variável, desde plantas totalmente dependentes, como o maracujá, até relativamente independentes, cujo café é um exemplo, e aquelas que não dependem de polinizadores, como é o caso da banana.
Muitos estudos têm ressaltado a importância da polinização para o sucesso da produção agrícola, permitindo ganhos entre 5 e 40% em cafezais, por exemplo. Também são apresentadas novas evidências da importância da paisagem em torno das plantações para o fornecimento de um bom serviço ambiental de polinização, ou seja, para que existam abelhas ou outros polinizadores que façam a transferência de pólen entre flores, deve haver morfologias adequadas da flor e do animal, e que o fluxo de pólen seja apropriado.
Um estudo publicado recentemente, na renomada revista Ecology Letters, traz pela primeira vez uma síntese global, quantitativa, combinando composição da paisagem (se há florestas, monoculturas, policulturas), tipo de manejo das áreas agrícolas (convencional ou orgânico) e diversidade vegetal de cada sítio. O paper, que sintetiza dados de outros 39 estudos, concentrou-se nas abelhas por serem bem conhecidas e por polinizarem a maior parte das espécies vegetais, embora borboletas, aves e morcegos entre outros animais também sejam polinizadores.
O estudo, assinado por 41 autores, incluindo a Profa. Dra. Blandina Viana, da Universidade Federal da Bahia, reforçou que regiões mais diversas, tanto em relação à paisagem, como em espécies vegetais, apresentaram mais abelhas (maior abundância) de diferentes espécies (maior riqueza de espécies). Além disto, ambientes com manejo orgânico e com alta diversidade botânica (sistema agroflorestal e/ou de policultura, como hortas) também são ambientes melhores para as abelhas, isto é, fornecem recursos alimentares, basicamente néctar e pólen, e locais para fazer seus ninhos.
No extremo oposto, existem os desertos verdes, extensas áreas de monocultura com menor riqueza de espécies de abelhas e baixa densidade. Consequentemente, a eficiência da polinização é comprometida. Os pesquisadores encontraram uma relação inversa entre a proximidade de ambientes semelhantes e a presença e diversidade de abelhas. Contudo, ainda é incerta a resistência destes animais à fragmentação de ecossistemas.
O mérito do estudo está em confirmar diversas evidências já levantadas em outro trabalhos, a partir de uma extensa base de dados coletados em 5 continentes. O estudo revela que a persistência dos polinizadores dependerá tanto da manutenção do habitat de alta qualidade em torno das áreas de agricultura, assim como na adoção de práticas de gestão locais que possam compensar os impactos da monocultura intensiva. Estas práticas incluem a redução no uso de agrotóxicos e a existência de vegetação nativa no meio das monoculturas, formando corredores que funcionam como refúgios para as abelhas nativas.
Ao fazer a síntese de estudos realizados com diferentes plantas cultivadas em várias partes do mundo, o trabalho amplia as suas conclusões. Ele é uma importante contribuição para a definição de políticas públicas nacionais e internacionais para a manutenção dos serviços de polinização, assim como para a proteção das abelhas nativas.
Em comparação com o mico-leão-dourado e outras espécies bandeiras – por serem usadas para defender outras espécies menos chamativas da atenção do público -, os serviços de polinização e as abelhas podem ser usadas para defender formas de produção agrícola mais sustentáveis.
Referência
Kennedy, C. M. et al. A global quantitative synthesis of local and landscape effects on wild bee pollinators in agroecosystems. Ecology Letters. Vol. 16, nº. 5, p. 584-599, maio de 2013 (publicado primeiro on-line). Disponível em <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ele.12082/abstract >. (com acesso gratuito).
Valdir Lamim-Guedes é biólogo e mestre em ecologia pela Universidade Federal de Ouro Preto.
Artigo de Valdir Lamim-Guedes para o Jornal da Ciência
Artigo indicado pelo Autor e originalmente publicado no Jornal da Ciência / SBPC, JC e-mail 4714
EcoDebate, 29/04/2013
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sexta-feira, 26 de abril de 2013

SUV – Stupid Utility Vehicle, por Marcelo Rubens Paiva


SUVs
SUVs – Foto no Blog ContaGiros

O SUV, Sport Utility Vehicle, domina a paisagem das grandes cidades.
O homem comum se cerca de lata, borracha e combustível.
Potência, força e altura.
Como uma armadura medieval, o SUV dá a sensação de grandeza e poder à pequenice humana.
É fabricado para aqueles que vivem em áreas rurais e trafegam eventualmente por vias urbanas e rodovias.
Carregam feno, animais, ferramentas.
Têm habilidades off-road, fora da estrada, e tração nas 4 rodas.
Sem preocupações aerodinâmicas, gastam mais.
Pesam 3 vezes mais que um carro comum, gastam mais combustível, borracha.
Alguns vêm a diesel, o tóxico combustível de caminhão.
Degradam 3 vezes mais os asfaltos das ruas do seu bairro, ocupam duas vezes mais o espaço em garagens, estacionamentos ou vagas nas ruas. Para carregarem compras, sacolas de supermercado e ração para gratos.
O SUV veio da guerra, dos Jeep [americanos] e Lan Rovers [ingleses].
Para o psicólogo Gladwell Rapaille, consultor dos fabricantes, os usuários do utilitário e sentem mais confiante e seguros. “Quando você olha as pessoas de cima, você sente que domina os outros”. O problema, para Rapaille, é que quando o condutor se sente mais seguro, seu veículo fica menos seguro.
O National Highway Traffic Safety Administration soltou um estudo que indica que motoristas de SUV tem 11% mais chances de morrer em acidente do que pessoas em carros comuns.
É um risco maior no trânsito para pedestres, veículos menores e motos. Acidentes com eles são mais letais. Em 2004, estiveram envolvidos nos EUA em acidentes com vítimas fatais 3 vezes mais do que carros normais de passageiros.
Conclui-se que aquele que usa um SUV para circular numa cidade como Rio e São Paulo não pensa no meio ambiente, no bolso, na segurança alheia e na própria.
Mas tem poder de fogo nas mãos.
Cuidado. O grupo de ambientalistas sueco, Asfaltsdjungelns indianer [The Indians  of The Asphalt Jungle], que acha que donos de SUV não têm direito de usar seus carros pesados e poluentes às custas dos outros, chegava a furar pneus dos utilitários em protesto.
Só no primeiro ano, furou 300 pneus e inspirou outros grupos.
Poluição: comparação entre Toyota Corolla e Land Cruiser.
VehicleFuel, city
cycle L/100km
CO2(g/km)CO (g/km)PM10(g/km)NOx(g/km)Noise (dB)
L’ Cruiser Petrol21.53872.0N/A0.0972
L’ Cruiser Diesel11.5-15.8250-3400.70.059-0.0780.52-0.5773-75
Corolla Petrol8.4-11.1159-1980.45-0.47N/A0.02-0.0869-71
Corolla Diesel7.2-7.91530.19-0.240.032-0.0370.39-0.4571-72

Opinião originalmente publicada no Estadão/Blogs.

EcoDebate, 26/04/2013
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Avicultura colonial, também chamada de caipira, é alternativa para pobreza do Semiárido

Avicultura é alternativa para pobreza do Semiárido. Foto de João Pedro Zabaleta
Avicultura é alternativa para pobreza do Semiárido. Foto de João Pedro Zabaleta

O Plano Brasil Sem Miséria (PBSM), do Governo Federal, tem como um dos objetivos a iniciação produtiva e a minimização da pobreza extrema de mais de 16 milhões de pessoas. E a Embrapa Clima Temperado (Pelotas, RS), está envolvida nesse grande projeto nacional. A tecnologia usada pela Empresa na região de atuação está sendo empregada em outras localidades totalmente diferentes ao clima do Pampa. É o caso da avicultura colonial, coordenada pelo pesquisador João Pedro Zabaleta.
A avicultura colonial, também chamada de caipira, consiste na criação de aves em sistema extensivo (aviários e piquetes abertos) que demoram mais tempo para se desenvolver em relação ao industrial, que fica em torno de 40 dias; enquanto, a caipira é de 91, proporcionando maior bem estar animal e obtenção de ovos.
Este tipo de produção de aves é empregado atualmente com cerca de 10 agricultores familiares modelos, atendidos pela unidade de pesquisas, e agora, está sendo transferida para o Semiárido brasileiro, que faz parte do PBSM. “É um desafio para nós trabalharmos num clima totalmente diferente ao que estamos acostumados, até por que, a região está enfrentando a maior seca nos últimos 40 anos”, comenta Zabaleta. Alguns desses agricultores possuem áreas de 300 metros quadrados, considerada pequena. Além disso, a falta de alimentos ou resíduos de lavouras ocasionam desenvolvimento deficiente das aves, que apresentam longo período de crescimento para a produção de carne para o abate, com cerca de oito a 10 meses. Os casos de subnutrição resultam maior mortalidade e baixos índices de produtividade.
A área de atuação de Zabaleta no PBSM é no território do Velho Chico, às margens do Rio São Francisco, em cidades como Bom Jesus da Lapa e Riacho do Santana, no interior da Bahia. A região tem baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e sofre com a seca há pelo menos 22 meses. O projeto foi bem recebido pelos pequenos produtores e agricultores familiares. Das 800 famílias que o PBSM atende em Paratinga/BA, 600 querem trabalhar com a avicultura colonial. A carne de frango tem boa aceitação e comercialização pelos moradores do território. Um aviário modelo instalado, produz cerca de 500 frangos e gera uma renda extra de um salário mínimo no final de cada ciclo de produção.
No final do mês de março, Zabaleta, junto com os pesquisadores Helton Silveira e Marcos Farias, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, de Cruz das Almas/BA, parceiros neste projeto, participaram de uma reunião de avaliação do PBSM em Brasília. Foi discutida no encontro a situação do Plano no Semiárido e alternativas para a minimização dos problemas agravados pela seca.
Sobre o caráter social que a avicultura colonial está inserida, Zabaleta comenta a importância deste trabalho para os agricultores envolvidos e para própria Embrapa ao fornecer tecnologias para os agricultores familiares.
No PSBM, a Embrapa conta com o apoio do Ministério da Integração Nacional, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Fonte: ristiane Betemps – MTb7418RS, Embrapa Clima Temperado
EcoDebate, 26/04/2013
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Semiárido: dez anos de investimentos contraditórios. Entrevista especial com Roberto Malvezzi


“Se continuássemos sem depósitos de água limpa, a tragédia social dessa longa estiagem teria se repetido”, declara o coordenador da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA.
Confira a entrevista.
Foto: http://blog.onhas.com
Após completar dez anos, o Programa 1 Milhão de Cisternas mudou a perspectiva de vida e convivência com o semiárido, diz Roberto Malvezzi à IHU On-Line. “Com ele deixamos de focar nas grandes obras e dirigimos o olhar para cada casa, cada caso, como uma rendeira tece sua peça ponto a ponto”. Com quase 500 mil cisternas que beneficiam 2,5 milhões de pessoas, “o programa tornou possível que grande parte das famílias tenha água no pé da casa, ao contrário de buscar lama a quilômetros de distância, ainda que nesse momento muitas cisternas tenham que ser abastecidas por pipas”, destacou Malvezziem entrevista concedida por e-mail.
Apesar das mudanças positivas em relação à distribuição da água, Malvezzi salienta que a política do governo federal em relação ao semiárido é “cheia de contradições. Ao mesmo tempo em que apoia a ASA, permitiu o contrato das cisternas de polietileno. Ao mesmo tempo em que faz algumas adutoras pela seca, continua jogando bilhões num ralo chamado transposição. O governo não tem uma política definida. Segue a reboque das pressões que sofre”, lamenta.
Roberto Malvezzi é graduado em Estudos Sociais e em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia Ciências e Letras de Lorena, em São Paulo. Também é graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo. Atualmente atua na Comissão Pastoral da Terra – CPT.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Por que o Programa 1 Milhão de Cisternas ainda não conseguiu atingir sua meta dez anos depois de ser implementado?
Foto: http://www.cebs-sul1.com.br
Roberto Malvezzi - O programa é uma revolução no semiárido. Com ele deixamos de focar nas grandes obras e dirigimos o olhar para cada casa, cada caso, como uma rendeira tece sua peça ponto a ponto. Já estamos com quase 500 mil cisternas, beneficiando aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Essa é a diferença da seca de trinta anos atrás para a de hoje. O programa tornou possível que grande parte das famílias tenha água no pé da casa, ao contrário de buscar lama a quilômetros de distância, ainda que nesse momento muitas cisternas tenham que ser abastecidas por pipas. Mas não são todas. Muitas regiões tiveram chuva e elas estão abastecidas normalmente por suas águas. A região mais crítica, sertão de Pernambuco, teve chuva nesses dias.
O problema é que não basta fazer a cisterna. Para a sociedade civil articulada na ASA, há a questão educativa junto com a obra. É feito o trabalho de debater a região, seu clima, seu regime de chuvas, sua biodiversidade. Não é um trabalho mecânico, como entendeu o governo Dilma, ao permitir a instalação de cisternas de polietileno por empresas. O resultado é que a maior parte estraga: das 300 mil contratadas apenas 50 mil chegaram ao destino, muitas vezes abandonadas ao pé das casas sem ninguém para orientar a população.
Além do mais, o fluxo do dinheiro governamental é muitas vezes interrompido por meses, o que também acaba prejudicando o andamento das construções. Finalmente, vamos a lugares onde ninguém anda, de difícil acesso, o que exige tempo e muita dedicação. Enfim, é um conjunto de fatores que faz com que o trabalho seja mais lento que o esperado.
IHU On-Line – Quais foram as principais dificuldades enfrentadas ao longo desses 10 anos? Quais os erros e acertos do Programa?
Roberto Malvezzi – Francamente, não consigo ver erros, a não ser esse do tempo demandado. Esse caminho não estava feito, ele teve que ser inventado. A costura da própriaASA é uma dificuldade em si mesma. São centenas de entidades que tiveram que se afinar para levar o projeto à frente, mesmo sendo muito diferentes entre si. Não se constrói uma articulação como essa todos os dias. Aliás, ela é única na história do semiárido com tanta abrangência, com foco, com continuidade, com uma nova lógica, que é a da convivência com o semiárido.
Os acertos são fáceis de citar: não há mais mortalidade infantil por água potável, diminuiu o sofrimento feminino de buscar água a longas distâncias, melhorou a saúde da família, com isso elevou o IDH de toda a população. Claro que outras políticas governamentais, como a distribuição de renda e a conquista da aposentadoria rural pelos trabalhadores, têm forte influência nesses índices positivos. Mas, se continuássemos sem depósitos de água limpa, a tragédia social dessa longa estiagem teria se repetido.
IHU On-Line – De acordo com notícias da imprensa, alguns moradores e prefeituras estão recusando a entrega de cisternas de polietileno. O que é feito nesses casos? Como o governo federal tem reagido diante dessas críticas?
Roberto Malvezzi – A recusa vem por parte de famílias, sindicatos, prefeituras e até mesmo de governos de estado. A responsabilidade desse contrato com cisternas de polietileno é daCompanhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco - Codevasf, subordinada ao Ministério da Integração. Portanto, obra exclusiva do ministro Fernando Coelho.
Ele é originário de uma oligarquia que domina Petrolina e o alto sertão pernambucano há praticamente um século. Foi a família dele que buscou o modelo de irrigação da Califórnia para ser implantado aqui na região. Quer ser governador do Pernambuco.
Então, buscou um jeito de tirar da sociedade civil os recursos e o mérito da construção de cisternas. Juntou-se ao empresário Carlos Slim, mexicano, dono da telefônica Claro, o homem mais rico do mundo, que fabrica essas cisternas no México. Era a tampa com o balaio. Uma cisterna de polietileno sai a um custo final de R$ 5 mil. Trezentas mil cisternas é um contrato de R$ 1,5 bilhão. É muita grana.
Porém, não contavam com a reação popular, com a reação de prefeituras e governos e, como me disse um gestor da Codevasf, o programa está um fracasso, já que a empresa distribuidora nem consegue chegar às casas mais afastadas. Estão pensando em devolver todo esse trabalho à sociedade civil, que é quem sabe fazer e tem paixão pelo que faz.
IHU On-Line – Qual a atual situação das pessoas que receberam cisternas de polietileno?
Roberto Malvezzi – Não dá para saber já que é caso a caso. Entretanto, muitas murcharam, outras não foram bem posicionadas em relação à casa; a empresa também nunca faz o trabalho educativo, e muitas sequer foram entregues. O problema que assusta as famílias é que quem recebe uma de polietileno não pode, depois, receber uma feita de placas de cimento, tecnologia adotada pela ASA, que envolve a mão de obra local, movimenta o comércio, gera serviços, gera emprego e renda. Enfim, as famílias têm receio de receber uma porcaria e depois ficar sem nada.
IHU On-Line – Qual a estimativa para atingir a meta do Programa 1 Milhão de Cisternas? Há alguma previsão para distribuir todas as cisternas à população?
Roberto Malvezzi – A previsão absoluta não é possível porque a ASA depende da política governamental. Novos contratos foram feitos. Vamos assim, avançando passo a passo. Quanto às de polietileno, é uma decisão que cabe ao governo.
IHU On-Line – Em que consiste o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2)?
Roberto Malvezzi – É um programa que adaptamos ao Brasil e que tem origem no semiárido chinês. O governo de lá fez uma reforma agrária no semiárido deles, deu um pedaço de terra a cada família e dois reservatórios de captação de água de chuva, sendo um para beber e outro para produzir.
Quem visitou o semiárido chinês e nos trouxe essa experiência foi João Gnadingler, um militante do semiárido que trabalha numa ONG aqui de Juazeiro chamada Irpaa. Então pensamos: por que não aqui?
Mais uma vez tivemos que fazer o caminho. Em primeiro lugar, pressupõe a terra da família. Se não tiver, tem que ter reforma agrária. Em segundo lugar, a cisterna de beber. Em terceiro lugar, um reservatório para captar água de chuva para produzir, e que seja bem maior. Normalmente estamos fazendo uma cisterna de 52 mil litros, captando água do chão, ou de terreiros. Em torno dela se faz hortas, pequenas irrigações com técnicas minuciosas de aproveitamento da água, ou se aproveita a água para pequenos animais em tempos de seca – todos os anos – como galinhas, porcos e cabras.
Nem é preciso falar que esbarramos na questão da terra. Esse para mim é o nosso ponto fraco. Apenas 10 mil famílias tiveram acesso a esse programa. Mas não deixa de ser lindo, em plena seca, canteiros verdes onde a família tira parte de seus alimentos e pode gerar renda vendendo em feiras. Aqui há ainda um longo caminho a ser percorrido.
IHU On-Line – Quais são os desafios para universalizar o acesso à água no semiárido? Além do Programa 1 Milhão de Cisternas, que outras políticas são necessárias?
Roberto Malvezzi – O semiárido urbanizou-se muito nas últimas décadas. Então, as cidades do semiárido também precisarão saber conviver com a região. A água é limitada. Sempre teremos que olhar para ela como um bem precioso, raro. Teremos que aproveitar melhor a captação da água de chuva, a reutilização da água, técnicas de irrigação por gotejamento, e assim por diante.
Mas é preciso também as adutoras para garantir a água urbana. Ali estão os serviços públicos, a educação, a saúde, a administração, além do abastecimento doméstico e da indústria.
Porém, se a política for de intensificar mais e mais o uso da água, sem pensar em seus limites, então vamos falir nossas fontes de abastecimento. É o caso exemplar do rio São Francisco. Um livro lançado agora por 100 especialistas, comandados pelo Prof. José Alves, da Universidade do Vale do São Francisco, chamado A Flora das Caatingas do São Francisco, afirma claramente que este rio está “condenado inexoravelmente à morte”. No semiárido não cabem mais loucuras, como essas transposições em andamento e outras planejadas. Mas o mundo político e econômico continua de costas para a o bom senso e até para a ciência.
IHU On-Line – Considerando os dez anos do PT na presidência da República, o que é possível ressaltar em relação às propostas para melhorar a convivência com o semiárido?
Roberto Malvezzi – É uma política cheia de contradições. Ao mesmo tempo em que apoia aASA, permitiu o contrato das cisternas de polietileno. Ao mesmo tempo em que faz algumas adutoras pela seca, continua jogando bilhões num ralo chamado transposição. O governo não tem uma política definida. Segue a reboque das pressões que sofre.
Todavia, é preciso dizer que o governo tucano de FHC não investiu um centavo no semiárido, apesar de o programa das cisternas ter começado em seu governo. Foi um recurso daAgência Nacional de ÁguasLula e Dilma investem muito mais no semiárido, ainda que de forma contraditória.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Roberto Malvezzi – A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB lançou uma nota sobre essa seca em sua última assembleia apoiando a política de convivência com o semiárido. Isso é muito importante. Mas apoiou também as “integrações de bacias”. Esse é o nome eufemístico para as transposições. Vale lembrar que existem dois eixos em construção, e que estão planejados mais um para a Bahia e outro para o Piauí. Mais à frente está planejado a ligação do rio Tocantins ao São Francisco, ou diretamente para o porto do Pecém, no Ceará. É o paraíso das empreiteiras, dos políticos, daqueles que olham a água apenas como um recurso a ser explorado.
Porém, é preciso ser honesto com a CNBB, ainda que muitos bispos apoiem essas “integrações” por boa vontade ou por desconhecer a região: insistir em políticas de altíssimo consumo de água na região semiárida é acabar com os nossos mananciais e privilegiar os interesses do agro e do hidronegócio. Essas transposições não estão na lógica da convivência com o semiárido. Pelo contrário, é a velha e predatória indústria da seca e do moderno hidronegócio.
(Ecodebate, 26/04/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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Para fórum, segurança alimentar depende do fim de agrotóxicos e transgênicos


Atual modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos está entre os principais temas de encontro nacional que o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutrional realiza no começo de junho
Por Cida de Oliveira e Sarah Fernandes, da RBA
O sistema de produção baseado na monocultura, com uso de agrotóxicos, é combatido pelo Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar.

Um novo modelo de  produção de alimentos, baseado na agroecologia, sem o uso de sementes transgênicas, agrotóxicos e fertilizantes químicos, em pequenas propriedades familiares, e a regulação do abastecimento e distribuição são os maiores desafios para a segurança alimentar no Brasil.
“É inadmissível continuarmos líderes no ranking do consumo de agrotóxicos, financiando esse setor com a isenção de impostos e ainda termos de ouvir declarações como as da senadora Kátia Abreu, da bancada ruralista, de que o pobre  precisa comer, sim, comida com agrotóxico porque é mais barato”, disse Vanessa Schottz, técnica da ONG Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e secretária executiva do Fórum de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) .
“Em vez disso, precisamos democratizar o acesso à terra, regionalizar a distribuição de alimentos saudáveis e apoiar feiras livres, que permitem que alimentos mais frescos e baratos cheguem à mesa da população.”
Para discutir esses e outros temas relacionados aos impactos e desafios do atual sistema, integrantes do FBSSAN de todo o país, redes, movimentos sociais e outras instâncias estratégicas vão se reunir em seu sétimo encontro nacional, de 4 a 6 de junho, em Porto Alegre. A programação inclui painéis para discutir a crise alimentar, a dimensão pública do abastecimento, oficinas temáticas sobre agricultura urbana, normas sanitárias para a produção familiar e artesanal, agrotóxicos e transgênicos, além de rodas de conversa para o debate público sobre as dimensões estratégicas de luta pela comida.
“Discutir os alimentos que estamos comendo ou não é estratégico. Da mesma maneira que avançamos na construção do marco legal do Direito Humano à Alimentação e no fortalecimento e institucionalização de políticas públicas estratégicas, ainda persistem ameaças a esse direito”, disse Vanessa.
Em fevereiro de 2010, o alimento foi incluído no rol dos direitos constitucionais pela emenda constitucional 64, fruto de um abaixo-assinado liderado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), com mais de 50 mil assinaturas. Com a aprovação da proposta, a soberania alimentar e nutricional passou a ser um dever do Estado, e não mais política de governo.
Outra conquista é a Lei 11.947, de 2009, conhecida como lei da alimentação escolar, que determina a utilização de, no mínimo, 30% dos recursos repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para alimentação escolar, na compra de produtos da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações. Têm prioridade os assentamentos de reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas. A compra dos alimentos deve ser feita, sempre que possível, no mesmo município das escolas.
Segundo o Fórum, o modelo de abastecimento e distribuição de alimentos, cada vez mais controlado pelo agronegócio, pela indústria e cadeia de supermercados, acelera o processo de ‘commoditização’ e artificialização dos alimentos, de empobrecimento da base alimentar e no aumento do preço dos alimentos.
Vanessa lembra um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) segundo o qual, apesar de toda a diversidade vegetal brasileira, a base da alimentação está em três alimentos: trigo, soja e milho. “Todos são produzidos de maneira mecanizada, em grandes extensões de terra, no sistema de monocultura, com uso de agrotóxicos, e entram na industrialização da maioria dos alimentos consumidos.”
Outras grandes questões, segundo ela, é se há uma crise alimentar ou é o próprio sistema alimentar que  está em crise; quais são as causas principais, de que maneira essa crise se expressa no Brasil, se as políticas públicas respondem ou não aos desafios impostos por esse sistema. “É muito importante que a sociedade civil entenda, debata e critique os impactos do atual sistema alimentar sobre a soberania e segurança alimentar da população brasileira”, disse.
Neste mês, estão sendo realizadas as etapas estaduais, como a de Goiás, que ocorreu no último final de semana. Na avaliação da professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Goiás e presidenta do Conselho de Segurança Alimentar daquele estado, Dulce Cunha, o Brasil avançou muito no combate a fome. Mas ressalvou: “Ainda existem bolsões de pobreza onde há pessoas sem acesso à qualidade diária mínima de nutrientes. E também não avançamos no sentido de garantir a alimentação como um direito humano. Basta ver que o Brasil é o que mais consome agrotóxicos ao mesmo tempo em que a obesidade infantil vem aumentando muito”, disse.
Segundo ela, é necessário uma leitura crítica do sistema de produção e abastecimento, bem como pensar estratégias para assegurar a soberania alimentar nacional do Brasil. “A ideia é ir além da garantia de acesso de todos ao alimento. A alimentação tem de ser entendida como um direito humano, assegurando que as pessoas tenham alimentos de qualidade produzidos sem venenos e que respeitem os hábitos alimentares regionais e a idade dos indivíduos.”
O Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) foi criado em 1998. Reúne organizações, redes, movimentos sociais, instituições de pesquisa, profissionais da saúde, nutrição, direitos humanos, agroecologia, agricultura familiar, economia solidária e de educação popular na luta pelo Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e pela soberania alimentar.
EcoDebate, 26/04/2013
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Instituto da Universidade de Oxford alerta para riscos de extinção da humanidade

crise
Uma equipe internacional de cientistas, matemáticos e filósofos do Instituto do Futuro da Humanidade, da Universidade de Oxford, está investigando quais são os maiores perigos contra a humanidade.
E eles argumentam em um texto acadêmico recém-divulgado, Riscos Existenciais como Prioridade Global, que autores de políticas públicas devem atentar para os riscos que podem contribuir para o fim da espécie humana.
No ano passado, houve mais textos acadêmicos lançados a respeito de snowboarding do que sobre a extinção humana.
O diretor do instituto, o sueco Nick Bostrom, afirma que existe uma possibilidade plausível de que este venha a ser o último século da humanidade.

Boas notícias primeiro

Mas primeiro as boas notícias. Pandemias e desastres naturais podem causar uma perda de vida colossal e catastrófica, mas Bostrom acredita que a humanidade estaria propensa a sabreviver.
Isso porque nossa espécie já sobrevieu a milhares de anos de doenças, fome, enchentes, predadores, perseguições, terremotos e mudanças ambientais. Por isso, as chances ainda estão a nosso favor.
E ao longo do espaço de um século, ele afirma que o risco de extinção em decorrência do impacto de asteróides e super erupções vulcânicas permanece sendo “extremamente pequeno”.
Até mesmo as perdas sem precedentes autoimpostas no século 20, com duas guerras mundiais e epidemia de gripe espanhola, deixaram de prevenir a ascensão do crescimento da população humana global.
Uma guerra nuclear poderia causar destruição sem precedentes, mas um número suficiente de indivíduos poderia sobreviver e, assim, permitir, que a espécie continue.
Mas se existem todos esses atenuantes, com o que deveríamos estar preocupados?

Ameaças sem precedentes

Bostrom acredita que entramos em uma nova era tecnológica capaz de ameaçar nosso futuro de uma forma nunca vista antes. Estas são “ameaças que não temos qualquer registro de haver sobrevivido”.
O diretor do instituto compara as ameaças existentes a uma arma perigosa nas mãos de uma criança. Ele diz que o avanço tecnológico superou nossa capacidade de controlar as possíveis consequências.
Experimentos em áreas como biologia sintética, nanotecnologia e inteligência artificial estão avançando para dentro do território do não intencional e o imprevisível.

Pelas próprias mãos

“Este é o primeiro século na história mundial em que as maiores ameaças provêm da humanidade” – Martin Rees, Universidade de Cambridge
A biologia sintética, onde a biologia se encontra com a engenharia, promete grandes benefícios médicos, mas Bostrom teme efeitos não previstos na manipulação da biologia humana.
A nanotecnologia, se realizada a nível atômico ou molecular, poderia também ser altamente destrutiva ao ser usada para fins bélicos. Ele tem escrito que governos futuros terão um grande desafio ao controlar e restringir usos inapropriados.
Há também temores em relação à forma como a inteligência artificial ou maquinal possa interagir com o mundo externo. Esse tipo de inteligência orientada por computadores pode ser uma poderosa ferramenta na indústria, na medicina, na agricultura ou para gerenciar a economia, mas enfrenta também o risco de ser completamente indiferente a qualquer dano incidental.
Sean O’Heigeartaigh, um geneticista do instituto, traça uma analogia com o uso de algoritmos usados no mercado de ações.
Nick Bostrom (BBC)Diretor de instituto adverte que riscos são reais e não se trata só de ficção científica
Da mesma forma que essas manipulações matemáticas, argumenta, podem ter efeitos diretos e destrutitovs sobre economias reais e pessoas de verdade, tais sistemas computacionais podem “manipular o mundo verdadeiro”.
Em termos de riscos biológicos, ele se preocupa com boas intenções mal aplicadas, como experimentos visando promover modificações genéticas e desmanter e reconstruir estruturas genéticas.
Um tema recorrente entre o eclético grupo de pesquisadores é sobre a habilidade de criar computadores cada vez mais poderosos.
O pesquisador Daniel Dewey, do instituto, fala de uma “explosão de inteligência”, em que o poder de aceleração de computadores se torna menos previsível e menos controlável.
“A inteligência artificial é uma das tecnologias que deposita mais e mais poder em pacotes cada vez menores”, afirma o perito americano, um especialista em super inteligência maquinal que trabalhou anteriormente na Google.

Efeito em cadeia

Juntamente com a biotecnologia e a nanotecnologia, ele afirma que essas novas tecnologias poderiam gerar um “efeito em cadeia, de modo que, mesmo começando com escasos recursos, você pode criar projetos com potencial de afetar todo o mundo”.
O Instituto do Futuro da Humanidade em Oxford integra uma tendência centrada em pesquisar tais grantes temas. O Instituto foi uma iniciativa do Oxford Martin School, que abrange acadêmicos de diferentes áreas, com o intuito de estudar os “mais urgentes desafios globais”.
Martin Rees, ex-presidente da Sociedade Real de Astronomia britânica é um dos defensores do Centro de Estudos de Risco Existencial e afirma que “este é o primeiro século na história mundial em que as maiores ameaças provêm da humanidade”.
Nick Bostrom afrima que o risco existencial enfrentando pela humanidade “não está no radar de todo mundo”. Mas ele argumenta que os riscos virão, caso estejamos ou não preparados.
“Existe um gargalo na história da humanidade. A condição humana irá mudar. Pode ser que terminemos em uma catástrofe ou que sejamos transformados ao assumir mais controle sobre a nosa biologia. Não é ficção científica, doutrina religiosa ou conversa de bar”.
Matéria de Sean Coughlan, da BBC News / BBC Brasil, reproduzida pelo EcoDebate, 26/04/2013
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