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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Síntese do efeito de diferentes aspectos na polinização por abelhas nativas em agroecossistemas

Abelha Jataí (Tetragonisca angustula). Foto: Abelhas do Brasil


Abelha Jataí (Tetragonisca angustula). Foto: Abelhas do Brasil

Estudo traz uma síntese do efeito de diferentes aspectos locais e da paisagem na polinização por abelhas nativas em agroecossistemas
[Jornal da Ciência] As abelhas são o principal grupo de polinizadores, ou seja, animais que fazem a transferência de pólen de uma flor para outra, possibilitando a fertilização dos óvulos e, consequentemente, o desenvolvimento do fruto e sementes. A dependência dos polinizadores pelas plantas é variável, desde plantas totalmente dependentes, como o maracujá, até relativamente independentes, cujo café é um exemplo, e aquelas que não dependem de polinizadores, como é o caso da banana.
Muitos estudos têm ressaltado a importância da polinização para o sucesso da produção agrícola, permitindo ganhos entre 5 e 40% em cafezais, por exemplo. Também são apresentadas novas evidências da importância da paisagem em torno das plantações para o fornecimento de um bom serviço ambiental de polinização, ou seja, para que existam abelhas ou outros polinizadores que façam a transferência de pólen entre flores, deve haver morfologias adequadas da flor e do animal, e que o fluxo de pólen seja apropriado.
Um estudo publicado recentemente, na renomada revista Ecology Letters, traz pela primeira vez uma síntese global, quantitativa, combinando composição da paisagem (se há florestas, monoculturas, policulturas), tipo de manejo das áreas agrícolas (convencional ou orgânico) e diversidade vegetal de cada sítio. O paper, que sintetiza dados de outros 39 estudos, concentrou-se nas abelhas por serem bem conhecidas e por polinizarem a maior parte das espécies vegetais, embora borboletas, aves e morcegos entre outros animais também sejam polinizadores.
O estudo, assinado por 41 autores, incluindo a Profa. Dra. Blandina Viana, da Universidade Federal da Bahia, reforçou que regiões mais diversas, tanto em relação à paisagem, como em espécies vegetais, apresentaram mais abelhas (maior abundância) de diferentes espécies (maior riqueza de espécies). Além disto, ambientes com manejo orgânico e com alta diversidade botânica (sistema agroflorestal e/ou de policultura, como hortas) também são ambientes melhores para as abelhas, isto é, fornecem recursos alimentares, basicamente néctar e pólen, e locais para fazer seus ninhos.
No extremo oposto, existem os desertos verdes, extensas áreas de monocultura com menor riqueza de espécies de abelhas e baixa densidade. Consequentemente, a eficiência da polinização é comprometida. Os pesquisadores encontraram uma relação inversa entre a proximidade de ambientes semelhantes e a presença e diversidade de abelhas. Contudo, ainda é incerta a resistência destes animais à fragmentação de ecossistemas.
O mérito do estudo está em confirmar diversas evidências já levantadas em outro trabalhos, a partir de uma extensa base de dados coletados em 5 continentes. O estudo revela que a persistência dos polinizadores dependerá tanto da manutenção do habitat de alta qualidade em torno das áreas de agricultura, assim como na adoção de práticas de gestão locais que possam compensar os impactos da monocultura intensiva. Estas práticas incluem a redução no uso de agrotóxicos e a existência de vegetação nativa no meio das monoculturas, formando corredores que funcionam como refúgios para as abelhas nativas.
Ao fazer a síntese de estudos realizados com diferentes plantas cultivadas em várias partes do mundo, o trabalho amplia as suas conclusões. Ele é uma importante contribuição para a definição de políticas públicas nacionais e internacionais para a manutenção dos serviços de polinização, assim como para a proteção das abelhas nativas.
Em comparação com o mico-leão-dourado e outras espécies bandeiras – por serem usadas para defender outras espécies menos chamativas da atenção do público -, os serviços de polinização e as abelhas podem ser usadas para defender formas de produção agrícola mais sustentáveis.
Referência
Kennedy, C. M. et al. A global quantitative synthesis of local and landscape effects on wild bee pollinators in agroecosystems. Ecology Letters. Vol. 16, nº. 5, p. 584-599, maio de 2013 (publicado primeiro on-line). Disponível em <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ele.12082/abstract >. (com acesso gratuito).
Valdir Lamim-Guedes é biólogo e mestre em ecologia pela Universidade Federal de Ouro Preto.
Artigo de Valdir Lamim-Guedes para o Jornal da Ciência
Artigo indicado pelo Autor e originalmente publicado no Jornal da Ciência / SBPC, JC e-mail 4714
EcoDebate, 29/04/2013

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