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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Consumidores em busca da soberania alimentar, artigo de Esther Vivas

alimentos

[EcoDebate] O que comemos? De onde vem, como ele se desenvolveu e qual o preço que pagamos por aquilo que compramos? Estas são perguntas cada vez mais frequentes entre os consumidores. Em um mundo globalizado, onde a distância entre o produtor e o consumidor cresceu até o ponto em que ambos não têm praticamente impacto algum sobre a cadeia agroalimentar, saber o que colocamos na boca importa, e muito.
Isto foi evidenciado pelas experiências de grupos e cooperativas de consumo agroecológico que nos últimos anos têm proliferado em todos os lugares de todo o Estado espanhol. Se trata de devolver a capacidade de decidir sobre a produção, a distribuição e o consumo de alimentos aos principais atores envolvidos neste processo, ao campesinato e aos consumidores. O que, em outras palavras, se chama soberania alimentar. Isso significa que, como a própria palavra indica, ser soberano, ter a capacidade de decidir, quando se diz respeito a nossa alimentação (Desmarais, 2007).
Algo que pode parecer muito simples, mas na realidade não é. Hoje, o sistema agrícola e alimentar é monopolizado por um punhado de empresas da indústria agroalimentar e de distribuição que impõem seus interesses particulares, de fazer negócios com a comida, sobre os direitos dos agricultores e as necessidades alimentares das pessoas. Só assim se pode explicar tanta comida e tanta gente sem comer. A produção de alimentos triplicou dos anos 60 até os dias atuais, enquanto a população mundial, desde então, apenas duplicou (GRAIN, 2008), mas, mesmo assim, cerca de 900 milhões de pessoas, segundo a FAO, passam fome. Claramente, algo não está funcionando.

Algumas características
Os grupos e as cooperativas de consumo representam um modelo de agricultura e alimentação antagônico ao dominante. Seu objetivo: encurtar a distância entre a produção e o consumo, eliminando intermediários e estabelecendo relações de confiança e solidariedade entre as duas pontas da cadeia, entre o campo e a cidade; apoiar uma agricultura familiar e de proximidade que cuide de nossa terra e que defenda um mundo rural vivo, com o propósito de viver com dignidade no campo; e promover uma agricultura ecológica e sazonal, que respeite e leve em conta os ciclos da terra. Além disso, nas cidades, estas experiências ajudam a fortalecer o tecido local, gerar conhecimento mútuo e promover iniciativas baseadas na autogestão e auto-organização.
De fato, a maior parte dos grupos de consumidores são encontrados nos núcleos urbanos, onde a distância e a dificuldade de contactar diretamente os produtores é maior e, portanto, as pessoas de um bairro ou de uma localidade se reúnem para realizar “outro consumo”. Existem, igualmente, vários modelos: aqueles em que o produtor serve uma cesta semanal, fechada, com frutas e verduras ou aqueles em que o consumidor pode escolher que alimentos sazonais quer consumir de uma lista de produtos oferecidos pelo agricultor ou agricultores com que trabalha. Além disso, em um nível legal, encontramos majoritariamente grupos definidos como associação e uns poucos, de experiências mais consolidadas e larga trajetória, com formato de cooperativa (Vivas, 2010).
Um pouco de história
Os primeiros grupos surgiram, no Estado espanhol, no final dos anos 80 e início dos anos 90, principalmente na Andaluzia e Catalunha, apesar de também termos encontrado alguns no País Basco e na Comunidade Valenciana, entre outros. Uma segunda onda veio nos anos 2000, quando estes experimentaram um crescimento significativo onde já existiam e apareceram pela primeira vez onde não tinham presença. Atualmente, estas iniciativas têm se consolidado e multiplicado de forma muito significativa, em um processo difícil de quantificar devido ao seu próprio caráter.
O aumento dessas experiências responde, do meu ponto de vista, a duas questões centrais. Por um lado, a crescente preocupação social sobre o que comemos, frente a proliferação de escândalos alimentares nos últimos anos, tais como a doença das vacas loucas, frangos com dioxina, a gripe suína, a E.coli, etc. Comer, e comer bem, importa novamente. E, por outro lado, a necessidade de muitos ativistas sociais de buscar alternativas na vida cotidiana, além de mobilizar contra a globalização neoliberal e seus arquitetos. A partir daqui, que, logo após o surgimento do movimento antiglobalização e antiguerra, no início dos anos 2000, uma parcela significativa das pessoas que participaram ativamente nestes espaços impulsionaram ou se tornaram parte de grupos de consumor agroecológicos, redes de intercâmbio, meios de comunicação alternativos, etc.
Comer bem versus mudança política
Assim, observamos duas sensibilidades que muitas vezes integram essas experiências. Uma que aposta, em termos gerais, em “comer bem”, dando maior peso às questões relacionadas à saúde e outra que, apesar de considerar estes elementos, enfatiza ainda mais o caráter transformador e político dessas iniciativas. Aqui está o desafio dos grupos e das cooperativas de consumo, reivindicar uma alimentação segura e saudável para todos. O que implica em não perder de vista a perspectiva política de mudança.
Se queremos uma agricultura sem agrotóxicos ou transgênicos é necessário começar exigindo a proibição de cultivos de transgênicos no Estado espanhol, porta de entrada e paraíso dos organismos geneticamente modificados em toda a Europa. Se queremos uma agricultura de proximidade, que não contamine o meio ambiente, com alimentos que viajam milhares de quilômetros de distância (Amigos de la Tierra, 2012), é essencial uma reforma agrária e um banco público de terras, que ao invés de especular com o território o torne acessível para aqueles que queiram viver para trabalhar a terra. Em suma, ou mudamos radicalmente este sistema ou “comer bem” vai se tornar um privilégio disponível apenas para aqueles que possam pagar.
Os grupos de consumo são apenas um primeiro passo na mudança em direção a “outra agricultura e outra alimentação”, mas devem ir mais além e questionar o sistema político e econômico que sustenta o atual modelo agroalimentar. A comida, como a habitação, a saúde, a educação…, não se vende, se defende.
Referências bibliográficas
Amigos de la Tierra (2012) Alimentos kilométricos en:
http://issuu.com/amigos_de_la_tierra_esp/docs/informe_alimentoskm
Desmarais, A. (2007) La Vía Campesina. La globalización y el poder del campesinado. Madrid. Editorial Popular.
GRAIN (2008) El negocio de matar de hambre en: 
http://www.grain.org/articles/?id=40
Vivas, E. (2010) “Consumo agroecológico, una opción políticas” en Viento Sur, nº 108, pp. 54-63.
*Artigo publicado originalmente na revista Ae Agricultura y Ganadería Ecológica de la Sociedad Española de Agricultura Ecológica, nº11, primavera 2013.
**Traduzido por Natasha Ísis, do Canal Ibase.
***Esther Vivas, Colaboradora Internacional do Portal EcoDebate, é ativista e pesquisadora em movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares, autora de vários livros, entre os quais “Planeta Indignado”. Esther Vivas é licenciada em jornalismo e mestre em Sociologia. Seus principais campos de pesquisa passam por analisar as alternativas apresentadas por movimentos sociais (globalização, fóruns sociais, revolta), os impactos da agricultura industrial e as alternativas que surgem a partir da soberania alimentar e do consumo crítico.
EcoDebate, 17/05/2013

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