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sexta-feira, 14 de junho de 2013

UTI ambiental: diagnóstico da água II, artigo de Osvaldo Ferreira Valente

[EcoDebate] As águas superficiais e subterrâneas resultam da ação de ciclos hidrológicos em bacias hidrográficas. E bacia hidrográfica é uma expressão muito lida e escutada e, em muitos casos, já anda dispensando a palavra hidrográfica, aparecendo como: bacia do Amazonas, bacia do São Francisco etc. É uma unidade geográfica, pois se refere a uma parte da superfície da terra, mas também uma unidade hidrológica, pois nela acontecem fases importantes do ciclo hidrológico. Um aspecto fundamental, entretanto, é o seu papel de receptora e processadora da água de chuva que atinge a sua superfície. Sintetizando um conceito, podemos dizer que bacia hidrográfica é uma área da superfície da terra, drenada por um determinado curso d’água. Assim, por exemplo, toda a área de terra que conduz parte da água de chuva recebida para formar o rio São Francisco, compõe a sua bacia hidrográfica.
Figura 1
Figura 1

Figura 2
Figura 2





A Figura 1 mostra duas bacias hidrográficas vizinhas. As linhas vermelhas estão unindo os pontos que as separam e demarcam na superfície e que são os divisores de águas. Para melhor entendermos o conceito de divisor de água, vamos usar o ponto 1 da Figura. Ele está sobre a linha que divide as bacias A e B, na parte mais elevada entre as duas, de tal maneira que, ao receber volumes de chuvas que provoquem enxurradas, por exemplo, seja capaz de dividi-las para a esquerda ou para a direita, ou seja, para a bacia A ou B. A figura da bacia hidrográfica está bem arraigada na legislação ambiental brasileira, sendo que a Lei Federal 9.433, que instituiu a nossa atual política de recursos hídricos e criou o sistema nacional para a sua implementação e gerenciamento, a considera como unidade territorial apropriada para a sua aplicação.
A qualificação de uma determinada superfície como bacia hidrográfica independe do tamanho da mesma, mas de sua capacidade de manter um curso d’água, ainda que um pequeno córrego. Aí surgem as grandes, as médias e as pequenas bacias; há, ainda, as sub-bacias e as microbacias. A classificação por tamanho é muito confusa, com autores diversos criando tabelas diferentes para tal. Ninguém discute que uma bacia hidrográfica de 645.000 km2, como a do rio São Francisco, seja uma grande bacia. Mas qual é o valor de área que faz com que uma bacia deixe de ser grande para virar média ou pequena, ou mesmo micro? Esta é, a meu ver, uma discussão irrelevante quando o interesse for a produção de água, pois tudo começa naquela unidade que mantém uma nascente e um córrego, ou seja, na pequena bacia. As médias e grandes são compostas da união das pequenas. Os córregos vão se juntando para formar ribeirões e rios e as respectivas pequenas bacias vão se unindo em áreas territoriais também maiores. Se a preferência for pela ordem decrescente, surgem as sub-bacias como unidades formadoras das médias e grandes.
Em lugar da classificação de tamanhos baseados nas áreas das bacias hidrográficas, é preferível uma outra classificação, com fundamentos na distribuição hierárquica dos cursos d’água que as drenam. Vejamos a hierarquização, segundo as regras de Strahler, que diz: a) o curso d’água sem ramificação é de 1a ordem ; b) dois cursos d’água de mesma ordem ao se unirem formam outro de ordem imediatamente superior; c) o curso d´água de determinada ordem mantém sua grandeza ao receber outro de ordem menor; d) A ordem do curso d’água que deixa a bacia pode ser mantida ao longo de todo o seu trecho. A Figura 2 mostra a aplicação de Strahler em uma bacia hidrográfica. A bacia hidrográfica recebe a mesma ordem do curso d’água que a drena. Tudo isso foi para dizer que, para fins de produção de água, nós consideramos pequenas bacias aquelas de até 3ordem, independente dos valores das áreas drenadas.
À primeira vista, o leitor poderá imaginar que uma grande bacia terá uma ordem elevada, mas nem tanto. O item das regras de Strahler segura o crescimento exagerado da ordem, pois ao atingir um determinado grau, o rio passa a receber, com mais frequência, cursos d’água de ordens menores. A bacia hidrográfica do rio Doce, que se desenvolve pelos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, tem 83.465 km2 de área superficial, curso principal com 853 km e é de 10ordem ( Classificação feita por Coelho, A. L. N., conforme publicação da revista on-line Caminhos da Geografia, v.8, n.22).
Sei que posso estar causando certa estranheza com a análise mais detalhada da natureza geográfica e hidrológica da bacia hidrográfica, mas não há outro jeito de entender a produção de água se não for feita uma radiografia de qualidade de tal sistema. No próximo artigo, vamos discutir como uma pequena bacia pode se comportar ao receber os volumes de água trazidos pelas chuvas. Ou seja, vamos analisar as interações das fases do ciclo hidrológico com alguns componentes físicos e biológicos da pequena bacia e como a presença humana pode interferir em tais interações. Aguardem.
Osvaldo Ferreira Valenteé engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor de dois livros recém-publicados: “Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas”e “Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia”; colaborador e articulista do EcoDebate. valente.osvaldo@gmail.com
Nota do EcoDebate: sobre o mesmo tema sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:

EcoDebate, 13/06/2013

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