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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Bahia: MPF e MP celebram acordo para diagnosticar pessoas contaminadas por amianto em três municípios

exploração de amianto

Foto: Correio Braziliense

Acordo visa promover diagnóstico conclusivo das pessoas potencialmente expostas ao amianto nos municípios de Poções, Bom Jesus da Serra e Caetanos, no interior da Bahia.
O Ministério Público Federal (MPF) em Vitória da Conquista (BA) e o Ministério Público do Estado da Bahia (MP/BA) celebraram um acordo com o estado da Bahia e os municípios de Poções (BA), Bom Jesus da Serra (BA) e Caetanos (BA) para que promovam um diagnóstico conclusivo das pessoas potencialmente expostas ao amianto, em razão da exploração do mineral pela empresa Sama S/A Minerações Associadas, no município de Bom Jesus da Serra. No documento, as partes se comprometeram a cumprir o acordo no prazo de um ano.
Em 2009, o MPF ajuizou uma ação civil pública (2009.33.07.000988-3), requerendo que o estado da Bahia e União constituíssem uma junta médica para realização de diagnóstico conclusivo, bem como arcassem com todas as despesas para realização de exames radiológicos, tomografia computadorizada, exame espirométrico, medição de volume pulmonar, medida ventilatória e oxigenação do sangue arterial em repouso e no exercício, exame anátomo-patológico e todos os que se fizerem necessários para concluir pela existência (ou inexistência) de alguma das doenças inerentes ao contato com amianto, além de se responsabilizar pelo deslocamento e estadia dos pacientes. Foi pedido que as despesas com tratamento, bem como danos morais e materiais, entretanto, corressem por conta da Sama S/A Minerações Associadas.
Em função da urgência do assunto e visando dar celeridade ao processo de diagnóstico dos pacientes, o MPF e o MP/BA celebraram o acordo, em agosto deste ano, no qual o estado da Bahia será responsável por prescrever o tratamento adequado, além de realizar todos os exames que a junta médica apontar como necessários. Além disso, os municípios se comprometeram, cada um, a constituir uma junta de assistência social, cujos membros ficarão à disposição do estado para auxílio dos trabalhos. Os municípios serão responsáveis, ainda, por encaminhar os pacientes, em fluxo ajustado com o estado, nas datas, horários e para o local por este indicado, para realização dos exames, sendo responsáveis também por arcar com os custos de alimentação e estadia.
O MPF e o MP/BA ressaltaram a postura colaborativa do Estado da Bahia e dos Municípios de Poções, Bom Jesus da Serra e Caetanos, interessados em solucionar o grave problema, em benefício dos cidadãos locais.
O acordo foi assinado pelo procurador da República Mário Alves Medeiros, pela promotora de Justiça Maria Jued Moisés, pelo procurador-geral do Estado da Bahia, Rui Moraes Cruz e pelos prefeitos de Poções, Caetanos e Bom Jesus da Serra, Otto Wagner de Magalhães, Roberto de Valdívio e Welton Andrade, respectivamente. Também teve importante articulação na negociação, a procuradora do Estado da Bahia Dâmia Bulos.
Danos ambientais – O MPF já havia ajuizado uma outra ação (2009.33.07.000238.-7), também em 2009, a fim de reparar os danos ambientais causados pela empresa Sama S/A Minerações Associadas no município de Bom Jesus da Serra. A ação resultou em uma liminar, na qual a Justiça determinou que a empresa realizasse estudos técnicos para a elaboração de um Plano de Recuperação de Área Degrada (PRAD) e a adoção de medidas emergenciais de segurança no local, como o isolamento da área da antiga mineradora e a sinalização com placas informando que o amianto é cancerígeno e pneumoconiótico.
Número para consulta na Justiça Federal: 2009.33.07.000988-3 – Subseção de Vitória da Conquista
Fonte: Ministério Público Federal na Bahia
EcoDebate, 25/09/2013
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Redução das colônias de abelhas representa ameaça aos seres vivos

abelha

Sob ameaça: polinização das abelhas é vital

Nairóbi sedia debate sobre polinização para agricultura sustentável
As abelhas estão entre os principais polinizadores do planeta. Sua extinção pode ameaçar também a sobrevivência do homem. Em algumas partes do mundo, estudiosos do assunto já confirmam a redução de colônias entre 30% e 70%, indício de que todas as espécies estão ameaçadas. Cientistas classificam o fenômeno da redução dessas populações de desordem de colapso da colônia (colony collapse disorder), significando sérios prejuízos para a biodiversidade, a produção de alimentos e a economia em geral.
Polinizadores, como as abelhas e outros insetos e animais, representam um dos mecanismos essenciais à manutenção e promoção da biodiversidade no planeta, pois é somente após a polinização que as plantas formam frutos e sementes, fontes da sua própria reprodução. A importância desses polinizadores será o tema do V Seminário de Política destinadas a Resolver as Carências de Polinização (Fifth Policy Workshop on Addressing Pollination Deficits), que acontecerá em Nairóbi, Quênia, de 23 a 25 de setembro de 2013.
DEPENDÊNCIA
De acordo com pesquisadores, mais de 75% das espécies agricultáveis que alimentam o mundo e muitas das plantas utilizadas pela indústria farmacêutica dependem da polinização para produzir frutos e sementes. Além disso, a manutenção da diversidade de polinizadores contribui para a manutenção da diversidade de alimentos e a qualidade de vida, em todos os seus estágios.
De acordo com a gerente de Projeto do Departamento de Conservação da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Daniela América Oliveira, a reunião de trabalho, denominada "Fifth Policy Workshop on Addressing Pollination Deficits", será realizada no âmbito Programa das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) outros organismos multilaterais. O objetivo do seminário é avaliar a aplicação do protocolo sobre conservação e manejo de polinizadores para uma agricultura sustentável, numa abordagem ecossistêmica, que integra o Projeto Global de Polinização, atualmente em execução em sete países – Brasil, Gana, Índia, Quênia, Nepal, Paquistão e África do Sul.
CAPACIDADES
A oficina no país africano reunirá um pequeno grupo de pessoas envolvidas tanto na aplicação do protocolo de déficit de polinização quanto na tomada de decisão política dos países participantes, pessoas que trabalham com os povos indígenas, especialistas internacionais e em política. O seminário visa melhorar a interface ciência, política e conhecimento em serviços de polinização para ajudar os países executores do Projeto Global de Polinização, visando a aplicação de um protocolo que permita avaliar os déficits de polinização, desenvolvam capacidades para detectar tendências e indicações de déficits de polinização e facilitem a identificação, mapeamento, modelagem e análise de opções de ação em zonas atingidas por tais déficits.
O trabalho proposto permitirá a construção de capacidades de avaliação da interface ciência e política para um serviço ecossistêmico específico de relevância para o futuro trabalho do recém criado Painel Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES). "Pretende-se, com este esforço, extrair lições aprendidas com a construção de uma interface ciência e política relacionada com serviços ecossistêmicos e acordos de cooperação entre instituições e países", afirma Daniela Oliveira.
A Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) estabeleceu a Iniciativa Internacional para Conservação e Uso Sustentável de Polinizadores com a finalidade de promover uma ação mundial coordenada. Entre os princípios estão objetivos como monitorar o declínio de polinizadores, sua causa e seu impacto sobre os serviços de polinização; suprir a falta de informações taxonômicas sobre polinizadores; avaliar os valores econômicos da polinização e do impacto do declínio dos serviços de polinização; e promover a conservação, restauração e uso sustentável da diversidade de polinizadores na agricultura e ecossistemas relacionados.
As iniciativas estão em andamento nos sete países selecionados pela FAO desde março de 2010, terá duração de cinco anos e um orçamento total de US$ 12 milhões (cerca de R$ 26,4 milhões), sendo US$ 3,5 milhões destinados ao Brasil para apoiar projetos de pesquisa em polinização e polinizadores de sete culturas agrícolas (algodão, caju, canola, castanha do Brasil, maçã, melão e tomate), com intensiva coleta de dados em campo, seguindo o protocolo déficit de polinização e de monitoramento de polinizadores definidos para o projeto global e adaptados localmente.
Texto de Luciene de Assis, do MMA, publicado pelo EcoDebate, 24/09/2013
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Pesquisa analisa geração energia por sistema híbrido eólico-fotovoltaico de pequeno porte

Tradicionalmente, a geração de energia elétrica em pequenas comunidades isoladas no Brasil é feita a partir de conjuntos motores geradores, que exigem uma manutenção rotineira especializada (praticamente inexistente nesses lugares), além de suprimento constante do óleo diesel encarecido pelas longas distâncias para transporte e que emite gases de efeito estufa (GEE). Já existem localidades isoladas das redes de distribuição de eletricidade que são assistidas pela energia solar fotovoltaica e/ou eólica, com armazenamento em baterias. E, atualmente, o desenvolvimento da tecnologia de células a combustível (CaC) permite que as baterias sejam substituídas pelo vetor energético hidrogênio.
Maiana Brito de Matos é autora de uma pesquisa de doutorado cuja originalidade está em determinar a quantidade de energia elétrica gerada por um sistema híbrido eólico-fotovoltaico de pequeno porte em Fortaleza (CE) e comparar os dois tipos de armazenamento, por baterias e por hidrogênio; ela também estimou as emissões de GEE que foram evitadas com a utilização do sistema proposto. A tese de doutorado foi orientada pelo professor Ennio Peres da Silva e apresentada na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM).
"O aproveitamento em pequena escala da energia elétrica produzida por geradores que operam a partir de fontes intermitentes (sol e vento) implica no uso de bancos de baterias para armazenamento, a fim de ajustar geração e demanda", explica Maiana Matos. "Por outro lado, hoje também é possível gerar hidrogênio através da eletrólise [quebra de moléculas] da água, nos períodos em que há excedente de energia, para reconverter esse hidrogênio em eletricidade, utilizando CaC, quando a demanda ultrapassa a produção. É um sistema autônomo completo."
A pesquisadora recorda que a tese teve sua origem em um projeto de P&D elaborado pelo Laboratório de Hidrogênio (LH2) da Unicamp, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), aprovado pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). "O projeto prevê a instalação de um sistema híbrido eólico-fotovoltaico isolado, ou seja, não conectado à rede da cidade de Fortaleza, mas sua execução está suspensa por entraves burocráticos que têm caracterizado as iniciativas de interação universidade-empresa no país."
Segundo Maiana Matos, foi realizado um estudo de caso para um sistema de potência fotovoltaica instalada de 5 kWp (quilowatt-pico), potência eólica de 6 kW e CaC de 5 kW; a estimativa de energia elétrica média diária armazenada por banco de baterias foi de 36,41 kWh e, para o sistema de hidrogênio, de 22,71 kWh. "Avaliamos que 17 famílias poderiam ser atendidas pelo armazenamento por banco de baterias e 11 famílias pelo sistema de hidrogênio. Também calculamos que a substituição dos motores geradores pelo sistema eólico-fotovoltaico poderia evitar a emissão de até 18,7 toneladas anuais de gás carbônico com o armazenamento por bancos de baterias, e de 12,1 toneladas com a produção de hidrogênio para sua reconversão em energia elétrica."
A autora da tese afirma que em todos os dias do ano ocorrem o armazenamento de energia excedente e a utilização da energia armazenada, mesmo em outubro, que é o mês no qual os painéis fotovoltaicos e o aerogerador mais produzem energia elétrica – o pior mês de geração híbrida é abril. "A realização de mais pesquisas nesta área e o próprio incentivo do governo podem confluir para baratear a tecnologia. Vemos uma expansão de parques de energia eólica e também da instalação de painéis fotovoltaicos. E o Brasil também possui o Programa de Ciência, Tecnologia e Inovação para a Economia do Hidrogênio (ProH2) para a utilização do hidrogênio como vetor energético."
Os "sem luz"
Maiana Matos buscou dados na literatura demonstrando que ainda é significativo o número de pessoas sem acesso a energia elétrica no mundo. De acordo com a International Energy Agency (IEA), este número em 2010 superava 1,3 bilhão de habitantes, o correspondente a aproximadamente 20% da população mundial, sendo a maior parte vivendo em países em desenvolvimento. A estimativa da IEA para 2030 é que 1 bilhão de pessoas ainda estarão sem eletricidade, 650 milhões na Ásia; pela projeção, a América Latina já terá acesso universal, enquanto que na África o número de pessoas sem luz elétrica tende a aumentar.
Em relação ao Brasil, a pesquisadora levantou que o serviço ainda não contempla toda a população, devido principalmente à sua extensão de 851 milhões de hectares e à própria forma de ocupação do território ao longo do tempo. As famílias excluídas encontram-se majoritariamente nas localidades de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 80% delas estão no meio rural e 90% têm renda inferior a três salários mínimos, segundo os dados do programa Luz para Todos (LPT) referentes a 2010.
A autora da tese observa que, além disso, as residências do LPT normalmente ficam em lugares de difícil acesso, o que impacta no valor da tarifa de energia elétrica. Para minimizar os custos, o LPT é financiado pela Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), pela Reserva Global de Reversão (RGR) e pela Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) – a última com o objetivo de ressarcir parte do custo total de geração de energia elétrica em sistemas isolados. A CCC é proveniente de cotas arrecadadas por empresas distribuidoras, permissionárias e transmissoras a partir de valores pré-determinados pela Aneel.
 
Medidas que asseguram o acesso à eletricidade
Em sua tese de doutorado, a autora Maiana Matos relembra as várias medidas tomadas pelo governo federal visando levar energia elétrica para toda a população brasileira. A começar pelo Programa de Desenvolvimento Energético dos Estados e Municípios (Prodeem), criado em 1994 com a finalidade de permitir acesso à eletricidade pelas comunidades isoladas contemplando bombeamento de água e iluminação pública. A maioria dos sistemas do Prodeem foi instalada em escolas rurais; e a quase totalidade desses sistemas era fotovoltaico, apesar da concepção original de diferentes tipos de fontes renováveis.
O Programa Nacional de Eletrificação Rural (Pner), também conhecido como Luz no Campo, surgiu durante o mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso com objetivo similar ao do Prodeem. Em novembro de 2003, o governo lançou o programa Luz para Todos (LPT), ao qual foi incorporado o Luz no Campo, com a meta de fornecer acesso à energia elétrica para mais de 10 milhões de pessoas no meio rural até 2008.
O LPT foi estendido até 2014 através de decreto, ao se perceber que o universo de excluídos era maior do que se pensava. O programa já atendeu cerca de 3,3 milhões de famílias (aproximadamente 15 milhões de pessoas) e pretende contemplar mais 715 mil famílias de 2011 a 2014.  No caso do Ceará, em cuja capital a autora da tese realizou o estudo de caso, o Luz para Todos beneficiou 172 mil famílias (862 mil pessoas) no período de 2004 a 2012.
Foi em 2004 que a Aneel publicou resolução regulamentando os procedimentos e as condições de fornecimento através dos sistemas Individuais de Geração de Energia com Fontes Alternativas (SIGFI's) – sistemas que podem ser utilizados como alternativa para universalização dos serviços de eletricidade. Em 2012, outra resolução normativa da Aneel estabeleceu os procedimentos e as condições de fornecimento por meio de Microssistema Isolado de Geração e Distribuição de Energia Elétrica (MIGDI).
Publicação
Tese: "Análise energética do projeto de um sistema híbrido eólico-fotovoltaico com armazenamento de energia elétrica através do hidrogênio e banco de baterias"
Autora: Maiana Brito de Matos
Orientador: Ennio Peres da Silva
Unidade: Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM)
Matéria no Jornal da Unicamp Nº 576, publicada pelo EcoDebate, 25/09/2013
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RÁDIO COMUNITÁRIA LIBERDADE FM: MAIS UM ACIDENTE NA RS 324: Na tarde desta quarta feira dia 25 de setembro na RS 324 próximo ao bairro São Pedro, uma camionete amarok   com placas de Curitiba(PR)...
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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Manifestação na RS 324, em Trindade do Sul

Aconteceu hoje, terça-feira, dia 24 de setembro de 2013,em Trindade do Sul , uma manifestação de protesto com  fechamento da RS 324, a manifestação foi  pela Reabertura dos Setores Interditados do Hospital Santa Rosa de Lima, pela Construção do Trevo de Acesso ao Complexo Frigorífico Agrodanieli e por  melhorias nos trechos asfálticos, onde geram tantos acidentes devido ao mal estado que se encontram.
 Estiveram presentes os prefeitos dos municípios de Trindade do Sul, Três Palmeiras, Gramado dos Loureiros e Entre rios do Sul, entre outras autoridades. Participaram do protesto do protesto aproximadamente 450 pessoas, a pista era liberada de hora em hora. O presidente da AMZOP, Zílio Roggia, prefeito de Caiçara, o Prefeito de Trindade do Sul,  Luis da Rosa e também  o Prefeito de Três Palmeiras, Silvanio A. Dias  e  o Vice-Preito  Magal, falaram sobre esta mobilização, confira o áudio:



































Fotos: Eloidemar Guilherme


  Texto:Elisete Bohrer
Edição e postagem :Elisete Bohrer
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O impacto do carro, pago por toda a sociedade e o modelo crescimentista ancorado no automóvel

trânsito
O carro como expressão de poder, prazer, liberdade, singularidade e individualidade faz com que todos queiram o seu. O drama, porém, é que estamos nos dando conta de que se todos quiserem ter o seu carro, as cidades irão colapsar. O fantástico e maravilhoso mundo prometido pelo carro tem um outro lado menos edificante. O carro provoca o caos, confusão, barulho, estresse, poluição, perdas econômicas e, o pior, mata. E mata muito. As estatísticas dão conta que mata em média mais de 50 mil pessoas por ano.
O jornalista e ambientalista André Trigueiro complexifica o debate. Em entrevista exclusiva ao IHU, afirma que "a multiplicação de carros é uma bomba relógio".
Diz ele: "É duro ter que dizer isso. Preciso ter cuidado ao explicar isso para não ter uma visão elitista, mas o fato é que não é possível todo o brasileiro ter carro, como não é possível todo o indiano, todo o chinês ter carro. Simplesmente não dá, não é uma questão de justiça, é uma questão física. Segundo o IBGE, 83% dos brasileiros vivem em cidades. Se todos esses tiverem um carro, a vida se tornaria absolutamente insustentável, intolerável".
Um dos estudos recentes do professor André Franco Montoro Filho da USP, citado por Washington Novaes afirma "que o valor monetário de 12,5% da jornada de trabalho perdidos com uma hora nos congestionamentos de trânsito (além de uma hora, que seria 'normal') chega a R$ 62,5 bilhões anuais. E cada trabalhador, assim como cada condutor de veículos particulares, pagaria por esse 'pedágio invisível' R$ 20 por dia)".
E a questão não é só de mobilidade ou econômica, pode ser de saúde também, destaca Washington Novaes, citando Estudo de cardiologistas do Hospital do Coração de São Paulo que alertam que "a tensão gerada por fatores do cotidiano como trânsito, violência e excesso de trabalho" – todos relacionados com a mobilidade – "causa aumento da pressão arterial e a liberação de hormônios que podem comprometer seriamente a saúde cardíaca".
O carro é ainda responsável por outra lógica irracional. Quem chama a atenção é Oded Grajew, um dos idealizadores do Fórum Social Mundial. Segundo ele, "quarenta por cento da área central das grandes cidades brasileiras é ocupada pela malha viária. Os automóveis privados, apesar de transportarem cerca de 20% dos passageiros, ocupam 60% das vias públicas, e os ônibus, que transportam 70% dos passageiros, ocupam 25% do espaço", destaca.
O tempo perdido dentro do carro ou em transportes públicos superlotados e insuficientes, muitas vezes significa quase todo o tempo livre das pessoas, destaca Helio Mattar do Instituto Akatu,. Soma-se a isso, diz ele, "a má qualidade do ar e o grande número de acidentes de trânsito, que retiram energia das pessoas e conduzem a um stress crescente".
Não surpreende, assim, que a questão da mobilidade tenha ocupado a segunda posição no total de reivindicações nas 35 audiências públicas para discussão do plano de metas da atual administração da cidade de São Paulo, comenta Washington Novaes.
É essa irracionalidade que aos poucos está fazendo com que as pessoas comecem a mudar a sua visão do carro como meio privilegiado de mobilidade – o paulistano gasta hoje, em média, diariamente duas horas e quinze minutos no trânsito e 69% avaliam o trânsito da cidade ruim ou péssimo. Por isso, faixas exclusivas de ônibus já têm o apoio de 93% da população paulistana.
O número de paulistanos dispostos a não usar o carro, caso haja uma boa alternativa de transporte público, aumentou de 44%, em 2012, para 61% este ano, de acordo com a sétima pesquisa sobre Mobilidade Urbana Rede Nossa São Paulo.
Uma boa notícia é a de que a geração Y – como são chamados os jovens de 18 a 34 anos – é menos dependente de carro. Dados de uma pesquisa divulgada no início de 2013 pela empresa norte-americana de compartilhamento de carros Zipcar revelam que o perfil das novas gerações quando se trata de uso e preferência pelo carro como meio de transporte é bastante diferente das anteriores.
A pesquisa indica que "quando o assunto era a preocupação ambiental como motivo para a escolha de meios alternativos ao carro, a taxa se manteve alta, em 43%. O alto custo relacionado à posse de um automóvel também foi bastante lembrado pela maioria dos integrantes do grupo. Chama a atenção a predisposição dos jovens, em torno de 57%, em deixar de usar o carro caso houvesse outras opções de transporte disponíveis em suas proximidades".
Por outro lado, Relatório da Agência Internacional de Energia aponta que priorizar ônibus, trens e bicicletas em vez de automóveis resultaria em ganhos econômicos e em benefícios para a sociedade, o meio ambiente e o clima.
Modelo crescimentista ancorado no automóvel
A tragédia da 'civilização do automóvel' tem como um dos responsáveis as políticas do Estado que sempre foram generosas com a indústria automotiva. No caso brasileiro, o modelo de desenvolvimento ancorou nas montadoras a sua base crescimentista. Desde Juscelino Kubistchek, a indústria automotiva recebe incentivos, subsídios e isenções.
No primeiro sinal de crise, o governo reduz o IPI para carros. A redução do IPI deve-se também ao poderoso lobby das montadoras. O problema aqui, diz André Trigueiro, é que "a redução do IPI para carros não pode ser usado como um medicamento de uso contínuo. Com as vias progressivamente congestionadas, o corpo está à beira de um colapso. Está mais do que na hora dos economistas refazerem as contas enquanto o paciente respira".
Segundo ele, "por nosso país circulam oficialmente (dados consolidados de fevereiro/2013) mais de 43 milhões de automóveis (43.085.340), sendo que a maioria absoluta desses carros se concentra nas regiões metropolitanas. A situação é mais preocupante nas três principais capitais da região Sudeste, a mais rica e densamente povoada do país. São Paulo (4.858.630 de automóveis), Rio de Janeiro (1.764.089) e Belo Horizonte (1.059.307) ostentam números que devem soar como música para os economistas de plantão em Brasília, mas que representam um gigantesco obstáculo para a mobilidade urbana e para a qualidade de vida não apenas dessas, mas das principais cidades brasileiras".
De acordo com o Relatório Metrópoles em números: crescimento da frota de automóveis e motocicletas nas metrópoles brasileiras 2001/2011, do Observatório das Metrópoles, o número de automóveis em todas as 12 metrópoles do país dobrou de tamanho neste período (aumentou de 11,5 milhões para 20,5 milhões). Já as motocicletas passaram de 4,5 milhões para 18,3 milhões em apenas dez anos.
Essa política de privilegiar o carro e não o transporte coletivo teve recentemente um exemplo emblemático. Segundo Sérgio Leitão, diretor de políticas públicas do Greenpeace e Bárbara Rubim, coordenadora da campanha de clima e energia, "a Cide – Combustíveis, em junho de 2012, foi zerada". Isso significa, dizem eles, que "em outras palavras, para evitar o aumento do preço da gasolina, beneficiando usuários de transporte individual, o governo abriu mão de cerca de R$ 20 bilhões que poderiam ser destinados à infraestrutura de transporte – quantia equivalente a um terço do valor disponibilizado à mobilidade urbana por meio dos projetos da Copa e do PAC Grandes e Médias Cidades".
Destacam ainda que, no entanto, a Cide não é a única forma de se financiar melhorias no transporte coletivo: "Existem outros benefícios concedidos ao usuário do transporte individual (como IPI reduzido e estacionamento gratuito ou quase gratuito nas vias da cidade) que precisam ser revistos e direcionados aos outros meios de deslocamento" e concluem, "essa política, alimentada por constantes subsídios e incentivos fiscais, levou ao modelo de cidade que temos hoje, composta por um sistema de transporte público sucateado, congestionamentos crescentes e a marginalização de uma parcela cada vez maior da população, que, excluída do transporte coletivo – seja pela alta tarifa ou pela extensão insuficiente do sistema -, não consegue ter acesso à cidade e aos serviços essenciais que ela guarda".
Resultado dessa opção: as cidades estão parando.
A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.
(Ecodebate, 23/09/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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Estamos preparados para os riscos do pré-sal e do gás de xisto? artigo de Washington Novaes

pré-sal

Ilustração no blogue Diário do Pré-sal

[O Estado de S.Paulo] Anuncia-se que em novembro vão a leilão áreas brasileiras onde se pretende explorar o gás de xisto, da mesma forma que estão sendo leiloadas áreas do pré-sal para exploração de petróleo no mar. Deveríamos ser prudentes nas duas direções. No pré-sal, não se conhecem suficientemente possíveis consequências de exploração em áreas profundas. No caso do xisto, em vários países já há proibições de exploração ou restrições, por causa das consequências, na sua volta à superfície, da água e de insumos químicos injetados no solo para "fraturar" as camadas de rocha onde se encontra o gás a ser liberado. Mas as razões financeiras, em ambos os casos, são muito fortes e estão prevalecendo em vários lugares, principalmente nos Estados Unidos.
No Brasil, onde a tecnologia para o fraturamento de rochas ainda vai começar a ser utilizada, há um questionamento forte da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências, que, em carta à presidente da República (5/8), manifestaram sua preocupação com esse leilão para campos de gás em bacias sedimentares. Nestas, diz a carta, agências dos EUA divulgaram que o Brasil teria reservas de 7,35 trilhões de metros cúbicos em bacias no Paraná, no Parnaíba, no Solimões, no Amazonas, no Recôncavo Baiano e no São Francisco. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) estima que as reservas podem ser o dobro disso. Mas, segundo a SBPC e a ANP, falta "conhecimento das características petrográficas, estruturais e geomecânicas" consideradas nesses cálculos, que poderão influir "decisivamente na economicidade de sua exploração".
E ainda seria preciso considerar os altos volumes de água no processo de fratura de rochas para liberar gás, "que retornam à superfície poluídos por hidrocarbonetos e por outros compostos", além de metais presentes nas rochas e "dos próprios aditivos químicos utilizados, que exigem caríssimas técnicas de purificação e de descarte dos resíduos finais". A água utilizada precisaria ser confrontada "com outros usos considerados preferenciais", como o abastecimento humano. E lembrar ainda que parte das reservas está "logo abaixo do Aquífero Guarani"; a exploração deveria "ser avaliada com muita cautela, já que há um potencial risco de contaminação das águas deste aquífero".
Diante disso, não deveria haver licitações imediatas, "excluindo a comunidade científica e os próprios órgãos reguladores do país da possibilidade de acesso e discussão das informações", que "poderão ser obtidas por meio de estudos realizados diretamente pelas universidades e institutos de pesquisa". Além do maior conhecimento científico das jazidas, os estudos poderão mostrar "consequências ambientais dessa atividade, que poderão superar amplamente seus eventuais ganhos sociais". É uma argumentação forte, que, em reunião da SBPC no Recife (22 a 27/7), levou a um pedido de que seja sustada a licitação de novembro.
Em muitos outros lugares a polêmica está acesa – como comenta o professor Luiz Fernando Scheibe, da USP, doutor em Mineração e Petrologia (12/9). Como na Grã-Bretanha, onde se argumenta que a tecnologia de fratura, entre muitos outros problemas, pode contribuir até para terremotos. A liberação de metano no processo também pode ser altamente problemática, já que tem efeitos danosos equivalentes a mais de 20 vezes os do dióxido de carbono, embora permaneça menos tempo na atmosfera. E com isso anularia as vantagens do gás de xisto para substituir o uso de carvão mineral. O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) tem argumentado que o gás de xisto pode, na verdade, aumentar as emissões de poluentes que contribuem para mudanças do clima.
Na França os protestos têm sido muitos (Le Monde, 16/7) e levado o país a restrições fortes, assim como na Bulgária. Alguns Estados norte-americanos proibiram a tecnologia em seus territórios, mas o governo dos EUA a tem aprovado, principalmente porque o gás de xisto não só é mais barato que o carvão, como reduziu substancialmente as importações de combustíveis fósseis do país, até lhe permitindo exportar carvão excedente. E a Agência Internacional de Energia está prevendo que até 2035 haverá exploração do gás de xisto em mais de 1 milhão de pontos no mundo. Nos EUA, este ano, a produção de gás de xisto estará em cerca de 250 bilhões de metros cúbicos – facilitada pela decisão governamental de liberar a Agência de Proteção Ambiental de examinar possíveis riscos no processo e pela existência de extensa rede de gasodutos (o Brasil só os tem na região leste; gás consumido aqui vem da Bolívia).
Também a China seria potencial usuária do gás, pois 70% de sua energia vem de 3 bilhões de toneladas anuais de carvão (quase 50% do consumo no mundo).Embora tenha 30 trilhões de metros cúbicos de gás de xisto – mais que os EUA -, o problema é que as jazidas se situam em região de montanhas, muito distante dos centros de consumo – o que implicaria um aumento de 50% no custo para o usuário, comparado com o carvão. Por isso mesmo, a China deverá aumentar o consumo do carvão nas próximas décadas (Michael Brooks na New Scientist, 10/8).
E assim vamos, em mais uma questão que sintetiza o dilema algumas vezes já comentado neste espaço: lógica financeira versus lógica "ambiental", da sobrevivência. Com governos, empresas, pessoas diante da opção de renunciar a certas tecnologias e ao uso de certos bens – por causa dos problemas de poluição, clima, consumo insustentável de recursos, etc. -, ou usá-los por causa das vantagens financeiras imediatas, que podem ser muito fortes.
Cada vez mais, será esse o centro das discussões mais fortes em toda parte, inclusive no Brasil – com repercussões amplas nos campos político e social. Preparemo-nos.
*Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
EcoDebate, 23/09/2013
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Civilização do automóvel dá sinais de esgotamento – A nefasta cultura do carrocentrismo


trânsito
Muito se falou e se comentou do caráter fragmentário e da ausência de bandeiras claras nas grandes manifestações de junho de 2013. Uma delas, entretanto, funcionou como um forte elemento agregador: a mobilidade urbana – ninguém aguenta mais a dificuldade de ir e vir nas grandes cidades, particularmente aqueles que dependem do transporte coletivo.
O estopim do vagalhão das manifestações que explodiram em todo país teve a sua origem na violenta repressão contra a manifestação convocada pelo Movimento do Passe Livre – MPL no dia 13 de junho em São Paulo. A manifestação do MPL tinha uma reivindicação clara, concreta e objetiva: revogar o aumento da tarifa do transporte coletivo na capital paulista.
A consigna do MPL "Por uma vida sem catracas" que anuncia a reivindicação da bandeira "Tarifa Zero" se transformou ao longo das manifestações na consigna "Muito mais do que 0,20 centavos" – da luta pelo transporte acessível a todas e todos e como um direito universal derivou para inúmeras outras bandeiras.
O tema da mobilidade, porém, ganhou centralidade e visibilidade jamais alcançada. Ao ponto de que nos cinco pactos proposto pela presidente Dilma Rousseff para aplacar o furor das ruas, encontra-se em destaque o anúncio do "investimento de 50 bilhões de reais em mobilidade urbana para transportes, com metrô e ônibus".
Nos dias subsequentes às grandes manifestações e como que num efeito dominó, dezenas de cidades anunciaram a redução nas tarifas e investimentos no transporte coletivo. Muitas CPIs foram abertas nas Câmaras Municipais de diversas cidades com a promessa de devassa na 'caixa preta' das planilhas que definem o valor da tarifa.
O maior ganho, entretanto, é o fato incontestável de que a agenda da mobilidade urbana entrou em cheio na agenda do debate do país e deverá ganhar destaque nas eleições de 2014. Ainda mais: há um cansaço com o discurso demagógico dos políticos sobre o tema da mobilidade, exige-se menos retórica e iniciativas concretas.
É sintomático que um dos alvos da ira popular nas manifestações tenham sido as mega arenas para a Copa do Mundo como simbologia do dinheiro público gasto de forma desmedida sem a efetiva contrapartida em obras de mobilidade. O legado da Copa – a promessa de uma cidade melhor que ameaçava se esfumaçar, pode retornar pela pressão das ruas.
A grande novidade das jornadas de junho de 2013 é o anúncio de que outra cidade é possível. Uma cidade que privilegie a mobilidade coletiva em detrimento da mobilidade individual.
Uma cidade moderna destaca Uirá Felipe Lourenço, presidente da ONG Rodas da Paz, entrevistado pelo em entrevista ao IHU é aquela que "investe em transporte coletivo e no transporte não motorizado, investe em corredores exclusivos de ônibus, em integração, em moderação de tráfego, em ciclovias, ciclofaixas e calçadas contínuas e de boa qualidade".
O grande desafio é superar a cultura carrocentrista – que tem deixado um rastro desolador: poluição, congestionamentos, acidentes de trânsito, mortes, perda de produtividade, tensão, estresse, barulho, desigualdade no uso do espaço urbano e isolamento social – o carro apartando um dos outros.
A superação da cultura carrocentrista exige nova mentalidade e políticas públicas ousadas.
A nefasta cultura do carrocentrismo
Há exatos 40 anos atrás, num ensaio considerado visionário André Gorz publicou um texto intitulado 'Le Sauvage' [O Selvagem]. O ensaio, datado de 1973, é considerado pelos ambientalistas como o 'Manifesto contra o carro' por antecipar a tragédia da civilização do automóvel. No texto, Gorz afirma que "o carro fez a cidade grande inabitável, a fez fedorenta, barulhenta, sufocante, empoeirada, congestionada".
O carro instaurou uma lógica e um estilo de vida que promete liberdade, mas no lugar de ir e vir se tornou uma espécie de cárcere privado. Paradoxalmente, promete agilidade, mas proporciona a lentidão dos tempos pré-industriais. Promete ganhar tempo, mas na realidade faz perder tempo.
Eles entopem os estacionamentos das universidades privadas e públicas, dos aeroportos, dos shoppings, dos supermercados. Estacionar já se tornou um drama. Ter uma vaga cativa – e gratuita – é um privilégio que se assemelha ao da casa própria. Nos grandes centros já é mais caro estacionar do que almoçar.
O estresse no trânsito é alto, os engarrafamentos enormes, a irritação é grande, mas ninguém quer abrir mão do carro. E ainda tem mais: quanto mais potente, belo e equipado, melhor. Uma das novidades é o GPS a bordo. Todos querem. Agora, destaca um twitter de Ricardo Abramovay, as montadoras estão experimentando uma nova fórmula, num esforço de gerar novas fontes de vendas com os SUVs: "Os assentos estão em uma posição mais elevada, de comando, que faz você se sentir superior", diz J Mays, vice-presidente do grupo de design da Ford Motor Co., empresa que liderou o boom dos SUVs nos EUA na década de 90, com seus modelos relativamente grandes.
A ideia subliminar é que dirigir um SUV oferece a sensação de prazer e poder que um popular não oferece.
O sociólogo Richard Sennett, em seu livro A nova cultura do capitalismo, afirma que as pessoas se movem pela "paixão consumptiva" que assume as formas de "envolvimento em imagística e incitação pela potência", ou seja, as pessoas quando consomem não compram apenas produtos, mas prazer e poder.
O carro exerce esse fascínio. Segundo Guillermo Giucci em entrevista à IHU On-line, "o objeto automóvel ultrapassou o valor de uso" e se transformou "numa extensão protética do ser". O psicanalista Jorge Forbes, na mesma perspectiva, afirma que o carro se transforma em "prótese que possibilita a pessoa humana estender o corpo biológico às dimensões do seu desejo". "O carro é mais ou menos como a roupa. É a forma como o dono se apresenta para a sociedade. Está presente no dia a dia e revela um pouco da personalidade do proprietário", analisa Carlos Campos, consultor de montadoras.
O carro está entre os principais ícones do capitalismo que oferece ao usuário um valor distintivo. Ao volante de um deles muitos se transformam, elevam a auto-estima, sentem-se mais poderosos e livres. O "novo capitalismo", segundo Sennett, vende a ideia de que dependendo do carro, o mundo – visto pela janela – passa a ser diferente.
O desejo de consumo associa-se, portanto, a produtos que imagisticamente vendem essa sensação, mesmo que os diferentes modelos sob a perspectiva da estrutura – o chassi – sejam semelhantes. Segundo Sennett, na fabricação de automóveis – o DNA do carro é o mesmo, mas pequenas mudanças justificam preços diferenciados: "Uma diferença de 10% no conteúdo é transformada numa diferença de 100% no preço". A "magia" do capitalismo é fazer com que um produto básico vendido em todo o planeta se pareça único, obscurecendo a homogeneidade. As pessoas pagam mais para acessarem essa "experiência" e sensação.
O culto ao carro, portanto, é resultante dessa paixão consumptiva. O automóvel funciona como "cartão de visita – diz Guillermo Giucci –, seja para eventos sociais, seja para negócios, seja para paqueras, especialmente em sociedades periféricas. O carro também preservou a sua função de proporcionar ao proprietário uma elevada auto-estima. o automóvel exacerbou o individualismo", destaca.
A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.
(Ecodebate, 23/09/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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domingo, 22 de setembro de 2013

Nova geração de transgênicos, resistentes ao agrotóxico 2,4-D, pode deixar lavouras brasileiras mais tóxicas

Brasil pode ser o terceiro a aprovar plantio de sementes resistentes ao agrotóxico 2,4-D. Especialistas alertam que o possível aval da CTNBio à soja e ao milho aumente o uso do herbicida altamente tóxico.
TO GO WITH AFP STORY BY Alina Dieste Picture taken at a soybean plantation in the farm of a 'Brasiguayo' -- a term for Paraguay's Brazilian settlers and their descendants and who are now mostly wealthy farmers who exploit the most fertile land in the landlocked South American country -- in Santa Rosa del Monday, some 360 km of Asuncion, in the department of Alto Parana, on April 14, 2013. According to official sources, there are about 400,000 Brasiguayos, who arrived in the last half-century and staged an agricultural revolution in eastern Paraguay. The region produces between 13 and 15 million tonnes of grain per year, and Paraguay is the world's fourth-largest exporter of soybeans. AFP PHOTO / Norberto DUARTE (Photo credit should read NORBERTO DUARTE/AFP/Getty Images) No Brasil, 90% dos agrotóxicos são utilizados em oito commodities agrícolas
A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) julga nesta quinta-feira (19/09) o pedido de aprovação de quatro modalidades de sementes transgênicas resistentes ao agrotóxico 2,4-D. São dois tipos de soja e dois tipos de milho.
O Brasil seria o terceiro a aprovar o plantio dessas variedades. Até o momento, o Canadá é o único que cultiva esse tipo de milho. Já essa versão de soja transgênica é aprovada, além do Canadá, também no Japão – mas a permissão no país asiático se restringe à plantação em campos isolados.
O pedido de liberação foi feito pela americana Dow AgroSciences, que também tem sede no Brasil e é uma das seis gigantes da indústria de sementes e agrotóxicos do mundo.
Segundo Leonardo Melgarejo, representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio e avaliador de uma das sementes solicitadas pela Dow, existem “riscos alarmantes” na aprovação das sementes. “Nós estamos passando agora para a possibilidade de aplicação via aérea de produtos de alta periculosidade”, afirma.
O 2,4-D é um dos componentes do chamado Agente Laranja, utilizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Ele é o terceiro agrotóxico mais utilizado no Brasil (5%), depois do glifosato (29%) e do óleo mineral (6%). De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamenta e avalia a toxicidade de agrotóxicos, o 2,4-D é classificado com o nível de toxicidade mais elevado.
Efeito reverso
Herbicide is sprayed on a soybean field in the Cerrado plains near Campo Verde, Mato Grosso state, western Brazil on January 30, 2011. The neighboring Pantanal area, a sanctuary of biodiversity, is presently at risk because of the intensive culture of soybean and the deforestation, scientists said. AFP PHOTO/Yasuyoshi CHIBA (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)Lavoura de soja no Cerrado brasileiro

A aprovação das sementes resistente ao 2,4-D pode levar a um efeito contrário: especialistas alertam que o uso do agrotóxico pode aumentar. Em artigo publicado na revista científicaEnvironmental Science Europe, Chuck Benbrook, da Universidade do Estado de Washington, prevê um aumento de 50% no uso do 2.4-D nos Estados Unidos caso as novas sementes sejam aprovadas neste país.
O Centro de Segurança Alimentar dos Estados Unidos prevê que o uso do herbicida isoxaflutole aumentará quatro vezes devido à aprovação nos EUA de uma modalidade de milho resistente a este herbicida.
No Brasil, Victor Pelaez, diretor do Observatório da Indústria de Agrotóxicos e professor na Universidade Federal do Paraná, lembra que, quando a primeira soja transgênica foi aprovada, umas das possíveis vantagens apresentadas seria a diminuição do uso do agrotóxico glifosato. Oito anos depois, o glifosato continua sendo o agrotóxico mais utilizado no Brasil. Pesquisas do Observatório apontam que, após a utilização da soja transgênica no Rio Grande do Sul, ainda de maneira ilegal, entre 2000 e 2004, o consumo do glifosato aumentou 162%.
Esse consumo levou ao desenvolvimento de pragas resistentes e, por consequência, à necessidade de sementes tolerantes a herbicidas mais tóxicos. “Do ponto de vista tecnológico, é um retrocesso. Seja porque se tem que utilizar mais quantidade do glifosato que é menos tóxico, seja porque tem que se usar também produtos mais tóxicos. Isso era a crônica da morte anunciada. Todo mundo da área sabia disso”, analisa Pelaez.
Segundo a Dow, não há uma relação entre o uso elevado dos agrotóxicos e o uso de transgênicos. “As taxas de uso de herbicidas está já crescendo devido à resistência ao glifosato, e irá crescer ainda mais sem a nova tecnologia para ajudar a lidar com essa situação”, afirma Garry Hilman, porta-voz da empresa. Segundo ele, as novas sementes vão permitir que as ervas daninhas não desenvolvam resistência a um tipo específico de agrotóxico.
Aos ser questionado sobre a relutância de alguns países à aprovação das sementes tolerantes ao 2,4-D, a empresa afirma que se deve aos trâmites burocráticos dos países. “Nós estamos confiantes que os legisladores nas principais nações produtoras irão reconhecer os diversos benefícios desta nova tecnologia tanto para os produtores agrícolas como para o meio ambiente.”
Para a Secretaria Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), as novas sementes não resolverão o problema do que tem se chamado de “falha tecnológica”. “Essas variedades, assim como as que as antecederam, chamadas de ‘melhoradas’, termo que não utilizo pois apenas foram selecionadas em laboratório, não melhoraram em nada a agricultura, pois causou uma grande redução na base genética das culturas alimentares”, afirma o MPA em declaração à DW Brasil.
Vier amerikanische Flugzeuge vom Typ C 123 versprühen im September 1965 Baumentlaubungsmittel über dem südvietnamesischen Dschungel nahe Tan Son Nhut. Während des Vietnamkrieges wurde in den Jahren 1962 bis 1971 ein Gebiet von insgesamt 2,5 Millionen Hektar mit Herbiziden besprüht. Zu 80 Prozent setzte das US-Militär dabei das hochgiftige, dioxinhaltige Agent Orange zur Entlaubung des Dschungels ein, um den Gegner seiner Rückzugsgebiete und Nachschubwege zu berauben. +++(c) dpa - Report+++ Passado sombrio
Operação “Mão de Fazendeiro” despejou cerca de 45 milhões de litros de Agente Laranja no Vietnã
O 2,4-D ficou mundialmente conhecido por compor o Agente Laranja, utilizado para desfolhar as florestas e expor vietnamitas ao ataque dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Milhões de pessoas morreram devido à operação conhecida como “Mão de fazendeiro” e, 30 anos depois, a substância química ainda é encontrado na terra e água do país, levando a defeitos genéticos em várias gerações.
A Dow AgroSciences, junto com três outras empresas do ramo de biotecnologia, montou a Força Tarefa 2,4-D, com o objetivo de divulgar informações sobre o herbicida. Elas afirmam que a vinculação com o Agente Laranja é um equívoco, pois os efeitos letais deste químico seriam causados pela dioxina, um resíduo da mistura dos componentes 2,4-D e 2,4,5-T da fórmula do Agente Laranja.
No entanto, especialistas apontam que a toxicidade do 2,4-D independe de sua vinculação com a dioxina. Em nome da Academia Americana de Medicina e Meio Ambiente, Robin A. Bernhoft afirma que “o 2,4-D é considerado a causa de todos os cânceres e defeitos genéticos nos filhos de ex-combatentes americanos no Vietnã e de vietnamitas causados pelo Agente Laranja”.
A questão reside também na qualidade do 2,4-D utilizado. Benbrook aponta o risco de que maior parte do 2,4-D usado no Brasil seja importado da China, com altos níveis de dioxina. “Eu concordo que o 2,4-D da Dow é muito mais limpo do que o dos 1970, mas quem pode garantir que os agricultores brasileiros irão comprar o 2,4-D mais caro e mais limpo?”, questiona.
Melgarejo aponta para o mesmo problema, devido à utilização da forma de 2,4-D conhecida como éster butílico, considerada mais perigosa por formar mini-gotículas que dispersam facilmente no meio ambiente.
“Nesse caso, o produto dança no ar, ele se desloca por grandes áreas e pode afetar muitas outras culturas. É uma formulação mais barata, porque mais perigosa”, esclarece. “As empresas afirmam que não vão vender no Brasil. Mas nada impede que entre por contrabando”, alerta Melgarejo.
Os riscos do 2,4-D-éster-butílico levaram a Autoridade Australiana para Medicina Veterinária e Agrotóxicos (APVMA) a cancelar, em agosto, a autorização do uso dessa modalidade de herbicida na Austrália alegando “riscos ambientais inaceitáveis”.
--- DW-Grafik: Peter SteinmetzAprovação
Aproximadamente 90% da soja plantada no Brasil é transgênica, segundo CIB
O Brasil já aprovou 56 organismos geneticamente modificados. Das 31 plantas, contando com sementes e algodão, 25 possuem alteração para resistir a agrotóxicos e doze são tolerantes a mais de um herbicida ou inseticida. A tolerância, em grande maioria, é aos agrotóxicos glifosato e glufosinato de amônico, ambos de baixa toxicidade.
As duas modalidades de milho e de soja foram apresentadas pela empresa Dow no ano de 2012 e 2013 para liberação comercial. Quando concedida, a liberação permite a venda das sementes transgênicas para plantação, seu consumo direto em alimentos e derivados, assim como utilização em rações animais.
Caso as sementes resistentes ao 2,4-D sejam aprovadas pela CTNBio, o processo é encaminhado ao Conselho Nacional de Segurança, que pode deferir ou indeferir a decisão da Comissão.
Matéria de Joana Brandão Tavares na Agência Deutsche Welle, DW, publicada peloEcoDebate, 20/09/2013
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Carta Pública ao Papa Francisco pela convocação de uma Assembleia Global para a defesa da vida na Terra

Caríssimo Irmão Papa Francisco,
Nós, abaixo-assinados, cristãos e membros de outras religiões, apoiamos a proposta da 5ª Semana Social Brasileira, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), enviando-lhe essa carta pública com um pedido muito especial: que o senhor convoque uma Assembleia Global para a defesa da vida na Terra.
Hoje a vida está ferida de morte pela fome (900 milhões de pessoas no mundo), pela sede (1,2 bilhões não tem água potável e 2,4 bilhões não têm saneamento básico), pelas guerras, pela destruição do meio ambiente (solos, água, biodiversidade, ar) e, sobretudo, paira sobre a humanidade e todas as formas de vida a ameaça assombrosa das mudanças climáticas, motivadas também pela ação inescrupulosa dos grandes grupos econômicos.
O Documento de Aparecida afirma que vivemos não apenas uma época de mudanças, mas uma mudança de época (cf DAp 44). Um sistema consumista e predador como o atual compromete o presente e o futuro para o conjunto da humanidade e toda a comunidade de vida que compõe o planeta.
Quando Deus criou a Terra, a confiou aos homens e mulheres para que “a cultivassem e a guardassem” (cf Gen. 2,15). Após o dilúvio, quando Noé saiu da Arca com seus familiares e todos os animais que nela estavam, Deus fez com eles uma aliança primordial, dizendo-lhes que “de minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da Terra que convosco saíram da arca” (cf Gen. 9, 9-10). O apóstolo Paulo afirma que “também a própria criação espera ser libertada da escravidão da corrupção, em vista da liberdade que é a glória dos filhos de Deus” (cf Rom. 8, 21). Deus ama tudo que criou e ordenou-nos que cuidássemos da integridade da criação.
Os povos tradicionais e originários e, ultimamente, os cientistas têm denunciado que todas as formas de vida correm risco na face da Terra. Porém, não existe uma resposta à altura a este desafio no momento da história da parte do mundo político e econômico. Como o senhor tem afirmado, não podemos aceitar passivamente essa globalização da indiferença.
Fazemos-lhe este pedido como uma forma de contribuir com a efetivação de seus gestos, os quais nos interpelam a uma postura de cuidado e proteção da vida ameaçada. Gestos estes expressos em sua ida a Lampedusa, na Jornada Mundial da Juventude no Brasil, na visita aos imigrantes na Itália, no jejum contra as guerras. Reconhecemos que o senhor tem autoridade moral e espiritual para tal convocação.
Esta iniciativa, partindo do senhor, para ouvir os especialistas de todo o mundo, assim como os povos originários impactados pela destruição de seu ambiente, os afetados e refugiados pelas mudanças climáticas, as vítimas da fome e da sede, seguramente será acolhida em todo o Planeta, abrindo caminhos novos para a superação desta situação que aflige a humanidade.
Com profundo respeito e um abraço fraterno, no espírito de São Francisco de Assis, em comunhão com todas as formas de vida e toda a humanidade, apoiamos as iniciativas nas quais o senhor tem se empenhado na defesa e promoção da vida, confirmando nosso pedido nesse abaixo-assinado.
Brasília-DF, 16 de setembro de 2013
e-mail de adesão:  ssbcomunicacao@cnbb.org.br

EcoDebate, 20/09/2013
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A urgência da diversificação da matriz energética brasileira. Entrevista especial com Pedro Bara

energia solar“Em vez de olhar para o projeto de construção das hidrelétricas, é preciso olhar para a bacia hidrográfica onde se quer construí-las”, diz o engenheiro.
Foto: http://bit.ly/1eLX4yk
A possível construção de hidrelétricas pela Eletrobras na Guiana e no Suriname deve ser vista como “uma potência técnica interessante” tanto para o Brasil quanto para os países vizinhos, diz Pedro Bara à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone. Segundo ele, para o Brasil, esse “projeto tem um aspecto interessante de complementariedade hidrológica, porque o hemisfério Norte tem uma hidrologia diferente ao longo do ano”.
Para os demais países, as vantagens são econômicas e ambientais, porque eles ainda são dependentes de fontes energéticas não renováveis. “São países pobres que gastam muito, vivem importando petróleo, óleo. No momento a Guiana gasta algo em torno de 30% do PIB com importações de óleo”, informa.
Na entrevista a seguir, Bara assinala que, caso as hidrelétricas sejam construídas, é preciso adotar princípios ambientais que considerem a preservação futura. “Propomos o mesmo princípio que estamos aplicando para conservar a bacia do Tapajós no futuro, ou seja, perguntar o que queremos conservar da bacia dos Tapajós no futuro. Esse questionamento faz com que se tenha uma visão de futuro da região do ponto de vista ecológico”.
Pedro Bara é engenheiro, mestre em Ciências pela Universidade de Stanford, líder da estratégia de infraestrutura da Iniciativa Amazônica da Rede WWF. Participou da elaboração de planos nacionais e regionais de integração e desenvolvimento da Amazônia sob a liderança dos principais bancos de fomento da região, BNDES, BID e CAF.
Confira a entrevista.
Foto: http://abr.ai/15Y07CF
IHU On-Line – Como avalia a proposta da Eletrobras de construir hidrelétricas no Suriname e na Guiana? Esse projeto é viável?
Pedro Bara – Esse projeto tem um aspecto interessante de complementariedade hidrológica, porque o hemisfério Norte tem uma hidrologia diferente ao longo do ano. Um dos maiores problemas do sistema energético brasileiro é que ele é muito dependente de hidroeletricidade, porque têm épocas em que chove e épocas em que não chove. É por isso que o país tem um sistema interligado. NoSul, por exemplo, chove mais em julho, e em outras cidades do Brasil chove mais nos meses de janeiro e fevereiro. A metodologia do hemisfério Norte é parecida com a do Sul: chove mais em julho e agosto.
A possível construção de hidrelétricas nesses países é uma potência técnica interessante tanto para o Brasil quanto para eles, porque o Suriname e a Guiana ainda queimam bastante óleo. São países pobres, que gastam muito, vivem importando petróleo, óleo. No momento aGuiana gasta algo em torno de 30% do PIB com importações de óleo.
Portanto, esse projeto pode favorecer todos os países envolvidos, porque, se tiver uma hidrelétrica na Guiana, eles não vão mais precisar queimar óleo, terão acesso a uma energia mais limpa. O Suriname tem uma hidrelétrica, mas não dá conta de gerar a energia necessária para o país.
IHU On-Line – Quais as possíveis implicações desse projeto?
Pedro Bara – O que me preocupa é o fato de que quase toda a população da Guiana vive na costa, então, para construir uma hidrelétrica na floresta, é preciso fazer uma estrada de acesso e a área também poderá ser alagada. Foi isso o que aconteceu em Brasília, e aí acabou avançando para o Norte, degradando o estado do Pará. Também há uma diversidade aquática, mas não é tão grande como as do Brasil. Não sei se existem muitas espécies migratórias nos rios da região, mas é preciso verificar.
IHU On-Line – Como o senhor vê a discussão sobre hidrelétricas de reservatório e fio d’água?
Pedro Bara – Parte do problema energético brasileiro está relacionada ao fato de que se exploraram muito os rios de planalto. Nesses rios foi possível fazer reservatórios de maiores volumes de água com menos áreas alagadas, porque se trata de rios mais encaixados. NaAmazônia estão os rios menos encaixados de todos, por isso, em períodos de cheia, alaga uma área imensa, porque o território é muito plano. Então, essa mudança para a planície amazônica é complicada, porque ela dificulta muito a criação de grandes reservatórios, por isso se constroem hidrelétricas de fio d’água.
A discussão sobre qual modelo hidrelétrico é melhor parece culpa dos ambientalistas. Isso é um pouco ridículo. A questão é geográfica. Que culpa os ambientalistas têm se o potencial do planalto está se esgotando e não é tão viável economicamente construir barragens nessas áreas? Por isso é preciso diversificar a matriz energética, investindo em eólica, solar e biomassa.
IHU On-Line – Qual desses dois projetos de reservatórios é o mais adequado para a estrutura geográfica brasileira?
Pedro Bara – O Brasil não está investindo em hidrelétricas simplesmente porque quer, mas sim porque não temos outras opções. Hoje se utiliza o modelo fio d’água porque hidrelétricas com reservatórios alagam uma área grande e comprometem muitas coisas. Além do mais, a geografia dos lugares não é a mesma.
Então, uma mudança no projeto energético requer mudanças políticas. Hoje o Estado já percebeu o crescimento da energia eólica, a qual pode complementar a hidroeletricidade. Na época de seca, quando os reservatórios estão vazios e gerando menos energia, temos de ter alternativas complementares como a solar, a biomassa, a eólica. Com isso, também economizamos a água.
IHU On-Line – Qual é o investimento em energia eólica e solar no país?
Pedro Bara - A eólica está indo bem. O mercado oferece bom preço, e as empresas têm ganhado os leilões. O ideal seria que todos pudessem gerar energia de suas casas através de placas solares e pudessem vender para uma rede. Ocorre que isso ainda não tem financiamento.
IHU On-Line – Quais são os aspectos fundamentais a serem discutidos sobre esse projeto de construção de hidrelétricas no Suriname e na Guiana?
Pedro Bara – Caso essas hidrelétricas sejam construídas, propomos o mesmo princípio que estamos aplicando para conservar a bacia do Tapajós no futuro, ou seja, perguntar o que queremos conservar da bacia dos Tapajós no futuro. Esse questionamento faz com que se tenha uma visão de futuro da região do ponto de vista ecológico.
Em vez de olhar para o projeto de construção das hidrelétricas, é preciso olhar para a bacia hidrográfica onde se quer construí-las. É importante reconhecer o que deve ser preservado. Ou seja, antes de discutir o projeto, nossa proposta é aprimorar o planejamento hidrelétrico na Amazônia.
(Ecodebate, 19/09/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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