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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Expansão agrícola mundial pode destruir 849 milhões de hectares de terras naturais

Agência da ONU alerta que mais de 849 milhões de hectares de terras naturais serão degradados até 2050 se práticas mais sustentáveis não forem adotadas na agricultura. América Latina é uma das regiões sob maior risco.

Uma área quase do tamanho do Brasil de terrenos naturais corre o risco de ser degradada até 2050, caso práticas sustentáveis de uso da terra não sejam adotadas e a agricultura global continue se expandido na proporção dos últimos anos. O alerta é do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que destaca entre as regiões mais ameaçadas as florestas da América Latina, da Ásia e da África Subsaariana.

"O mundo nunca havia experimentado uma redução tão acentuada dos serviços e funções dos ecossistemas terrestres como nos últimos 50 anos. As florestas e zonas úmidas estão sendo convertidas em terrenos agrícolas para alimentar a crescente população", afirma Achim Steiner, diretor executivo do Pnuma.

A expansão das fronteiras agrícolas é causada, por um lado, pelo aumento na demanda por alimentos e bicombustíveis, devido ao crescimento populacional, e, por outro lado, pela degradação do solo, ocasionado pela má gestão do campo. A perda de biodiversidade e a destruição ambiental generalizada já afetam 23% do solo mundial.

 Produção de biocombustíveis impulsionou expansão agrícola

Sem uma mudança nas práticas agrícolas, mais de 849 milhões de hectares de terrenos naturais serão degradados até 2050, aponta o relatório do Pnuma divulgado na última sexta-feira (24/01).

"Ao reconhecer que a terra é um recurso finito, precisamos aumentar a nossa forma de produzir, oferecer e consumir os produtos obtidos a partir dela. Nós devemos ser capazes de definir e respeitar os limites dos quais o mundo pode funcionar com segurança para salvar milhões de hectares até 2050″, diz Steiner.

Tendência é a expansão

Atualmente a agricultura consome mais de 30% da superfície continental do planeta, e as terras cultivadas abrangem em torno de 10% do terreno mundial. Entre 1961 e 2007, a região de cultivo se expandiu em 11%. O relatório aponta a continuidade em ritmo acelerado dessa tendência de expansão.

Nos últimos 50 anos, a ampliação da fronteira agrícola ocorreu à custa de florestas tropicais. Enquanto houve um declínio da área plantada na União Europeia, especialmente em Itália e Espanha, Leste da Europa e América do Norte, ocorreu um aumento das terras cultivadas na América do Sul, principalmente em Brasil, Argentina e Paraguai, na África e na Ásia.

Desde a década de 1990, essas fronteiras estão sendo ampliadas para compensar as terras que estão se tornado improdutivas devido a práticas agrícolas não sustentáveis. A agência alerta que se o padrão de expansão desta década continuar, vai atingir principalmente as florestas da América Latina, da Ásia e da África Subsaariana.

 Consumo sustentável é essencial para o meio ambiente

Alternativas sustentáveis

O relatório aponta que a área cultivada global para suprir a demanda poderia aumentar com segurança até no máximo 1,640 milhão de hectares. Mas adverte que se as condições atuais permanecerem, em 2050 a demanda vai ultrapassar esse espaço.

A agência sugere como medidas para aumentar a produtividade nas atuais regiões agrícolas melhorias na gestão do solo, o incentivo a práticas ecológicas e sociais de produção, o monitoramento do uso da terra, investimentos na recuperação de terras degradadas e a integração conhecimentos locais e científicos – além da redução nos subsídios de culturas destinadas à fabricação de combustíveis.

Além dos fatores agrícolas, a agência aponta o consumo excessivo como um dos aspectos que levou a essa expansão. O relatório reforça que políticas para reduzir esses níveis e fomentar o consumo sustentável são essenciais para reverter a situação.

Se o mundo incentivar a agricultura sustentável, além de reduzir o consumo e a expansão agrícola, cerca de 319 milhões de hectares podem ser salvos até 2050.

Matéria de Clarissa Neher, na Agência Deutsche Welle, DW, reproduzida pelo EcoDebate, 29/01/2014

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Preservação dos polinizadores, uma questão de sobrevivência humana. Entrevista com Márcio Rosa Rodrigues de Freitas

"Do montante do resultado da produção agrícola, o custo do serviço ambiental prestado pela polinização está na ordem de R$ 17 bilhões", explica o diretor do Ibama.

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Fonte: http://www.cienciaempauta.am.gov.br/

O processo de logística – colheita e processamento – dos diversos alimentos que dispomos nas prateleiras dos supermercados é, de alguma forma, algo relativamente claro para nós, consumidores. Porém, para além dessa questão do manejo humano com os alimentos, há um importante trabalho realizado por insetos, que não cobram nada pelo trabalho que exercem e geram uma economia anual de aproximadamente R$ 17 bilhões por ano: trata-se dos polinizadores. "Eles (os polinizadores) são basicamente a base de algumas culturas agrícolas como, por exemplo, a fruticultura. Na fruticultura a importância da polinização chega a 90% das espécies cultivadas, enquanto no geral da agricultura esse número gira em torno de 70%", explica Márcio Rosa Rodrigues de Freitas, coordenador geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas e Produtos Perigosos do Ibama, em entrevista por telefone à IHU On-Line.

"Os países, na Europa, que já tentaram valorizar isso do ponto de vista financeiro, estimam um valor na ordem de 10% do total da agricultura mundial, que em 2005 foi em torno de 153 bilhões de euros. Se usarmos os mesmos dados para o Brasil, admitindo que a importância seja a mesma para a agricultura brasileira, conforme dados de 2011, cuja produção foi na ordem de R$ 176 bilhões, a economia que se gera é de R$ 17 bilhões", destaca Márcio de Freitas.

No Brasil há dois casos — em São Paulo e Minas Gerais — de eliminação de comunidades deabelhas cujas causas estão sendo estudadas, mas a suspeita está relacionada ao uso de agrotóxicos da família dos neonicotinoides. Esse novos produtos químicos foram desenvolvidos com o intuito de serem menos agressivos; no entanto, a toxicidade se comporta de uma outra maneira. "No caso dos neonicotinoides, o que se verificou foi o seguinte: eles têm uma toxicidade menor, mas, diferentemente da aguda (aquela que mata imediatamente os insetos), causam uma toxicidade crônica, ou seja, causam um efeito mais duradouro e têm um envenenamento crônico, e não agudo. Então, no caso das abelhas, isso afeta o seu sentido de orientação, o que é muito complicado, porque esse produto não mata a abelha imediatamente, mas a enfraquece, a deixa mais suscetível à infestação de doenças. Esse problema gera desorientação, fenômeno que ficou conhecido como 'colapso da colmeia'", esclarece Márcio de Freitas.

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Fonte: http://www2.camara.leg.br/

 

 

Márcio Rosa Rodrigues de Freitas (foto) é coordenador geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas e Produtos Perigosos do Ibama. Possui graduação em Engenharia Civil pelaPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, especialização em Saúde Pública pelaFaculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – FSP/USP e mestrado em Meio Ambiente pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA-RS. É especialista em Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas.

 

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Cientistas do mundo todo concordam que a intoxicação dos polinizadores por agrotóxicos representa uma grave ameaça à sobrevivência humana. Por que isso acontece?

Márcio de Freitas - Na verdade, essa concordância de todos os cientistas não deixa dúvidas de que há uma relação entre o uso de agrotóxicos e o risco de desaparecimento dos polinizadores. Entretanto, não é a única causa nem a única questão com a qual nós nos deparamos hoje. É preciso esclarecer que a maior causa do desaparecimento de polinizadores ainda é a destruição dos seus hábitats, que tem a ver, também, com a expansão da fronteira agrícola, mas não necessariamente só pela questão do uso de agrotóxico. O agrotóxico é colocado hoje como terceira causa do desaparecimento das espécies de polinizadores.

Importância

A importância dos polinizadores está relacionada com o serviço ambiental que eles prestam. As estimativas que se têm é que eles (os polinizadores) são responsáveis por cerca de 73% das espécies agrícolas cultivadas atualmente no mundo, fora as espécies não cultivadas — florestas, matas nativas e a própria manutenção da biodiversidade da flora. Não há dúvida de que a extinção desses animais coloca em risco a espécie humana, porque podemos perder uma biodiversidade grande com o fim de um serviço ambiental que hoje é gratuito. Isso sem dúvida vai ameaçar a produção de alimentos, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista ambiental.

IHU On-Line – Que tipos de impactos o extermínio dos polinizadores pode trazer às nossas sociedades? Por que os polinizadores são tão importantes para a agricultura?

Márcio de Freitas - Eles são basicamente a base de algumas culturas agrícolas como, por exemplo, a fruticultura. Na fruticultura a importância da polinização chega a 90% das espécies cultivadas, enquanto no geral da agricultura esse número gira em torno de 70%.

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"Polinizadores são responsáveis por 73% das espécies agrícolas"

Os países, na Europa, que já tentaram valorizar isso do ponto de vista financeiro, estimam um valor na ordem de 10% do total da agricultura mundial, que em 2005 foi em torno de 153 bilhões de euros. Se usarmos os mesmos dados para o Brasil, admitindo que a importância seja a mesma para a agricultura brasileira, conforme dados de 2011, cuja produção foi na ordem de R$ 176 bilhões, a economia que se gera é de R$ 17 bilhões.

Realidade no Brasil

Isso significa dizer que desse montante, resultado da produção agrícola, o custo do serviço ambiental prestado pela polinização está na ordem de R$ 17 bilhões. Então nós estamos falando de um serviço ambiental que tem um valor econômico muito alto e que dificilmente conseguimos substituir. Os países que aceitaram perda de polinização significativa, como aChina, os países da Ásia, enfrentaram problemas, pois não conseguiram contornar a situação com a substituição por meio da polinização mecânica.

IHU On-Line – Do que se trata, exatamente, estes 10% relacionados à polinização?

Márcio de Freitas - É o valor do serviço ambiental. Vamos considerar o seguinte: nós plantamos e as abelhas polinizam e garantem a reprodução dessas plantas. Caso os agricultores perdessem este "serviço de polinização", de fecundação das plantas, o custo artificial dessa polinização seria (como já dito anteriormente) na ordem de R$ 17 bilhões. O que eu estou dizendo é que se pegarmos o valor da produção agrícola do Brasil em 2011 e aplicarmos esse mesmo percentual, teríamos um valor na ordem de R$ 17 bilhões. É uma estimativa grosseira, mas é para dar uma ordem da grandeza, da importância do serviço de polinização. Não podemos retomar esse dado ao pé da letra, mas podemos ter uma ideia.

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, por exemplo, onde o serviço de polinização é pago, nos últimos dez anos o valor da colmeia alugada subiu de 20 dólares (porque eles alugam a colmeia para polinizar a cultura) para 150 dólares, atualmente. Isso se deve à perda de polinização que eles tiveram, o que significa dizer que, desde a extinção dos polinizadores, o aluguel das colmeias mais que quadruplicou.

IHU On-Line – Que estratégias estão sendo realizadas no sentido de conscientizar a opinião pública (políticos, secretários de Estado, sociedade civil, etc.) com relação a este tema?

Márcio de Freitas - Nós temos discutido isso nos Fóruns em que somos chamados a participar. O papel do Ibama é o de controle ambiental, não propriamente de divulgação e de educação ambiental. Então, dentro da nossa função de controle de regulação dos agrotóxicos, nós temos tomado algumas medidas de restrição ao uso desses produtos.

Estamos fazendo uma reavaliação ambiental dos produtos que estão mais avaliados ao fenômeno de colapso das colmeias, que é o grupo químico chamado neonicotinoides. Desde 2011 estamos trabalhando nisso, a partir de 2012 começamos a reavaliação do imidacloprido e ainda esta semana devemos começar a reavaliação do tiametoxan e da clotianidina, que são outros dois ingredientes ativos de agrotóxicos. Esses três são ingredientes ativos do grupo químico dos neonicotinoides e estão associados ao fenômeno de desaparecimento das colmeias. Tais produtos estão sendo questionados no mundo inteiro, e o Ibama começou a fazer a reavaliação e a adotar as medidas de proteção antes da Europa e até mesmo dosEstados Unidos, que estão começando agora a avaliar esses produtos.

Na Europa, a proibição desses produtos foi feita a partir de 2013. Ela estabeleceu a proibição por dois anos, para fazer um estudo e verificar a relação causal entre o uso dos produtos e o desaparecimento das abelhas. Como eu comentei, ainda não há uma comprovação científica dessa relação, há uma suspeita muito forte e já se tem mais ou menos claro que não é um fenômeno isolado. Repito, não é só o uso dos agrotóxicos, mas uma série de fatores, como o estresse da colmeia, as variações climáticas, a própria perda de hábitat das abelhas, o que leva ao enfraquecimento das colônias e as deixam mais suscetíveis à incidência de doenças.

IHU On-Line – O que são os inseticidas do tipo neonicotinoides?

Márcio de Freitas - São um grupo químico de uso mais recente. Nós sempre nos referimos aos agrotóxicos como as moléculas mais novas e as moléculas mais antigas. Os neonicotinoides são moléculas mais novas. Isso significa que eles têm uma toxicidade mais específica, no sentido de serem mais específicos para os alvos que querem combater, menos genéricos, e com isso buscam trazer menor risco à saúde e ao meio ambiente, porque eles são direcionados a uma "praga específica". Então, teoricamente, eles possuem uma menor toxicidade aos organismos não alvos e, por consequência, têm um comportamento ambiental normalmente mais amigável do que as outras moléculas.

Toxicidade crônica

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"O maior problema são espécies nativas"

Ou seja, eles têm uma toxicidade mais dirigida, uma vida menor no ambiente. Porém, no caso dos neonicotinoides, o que se verificou foi o seguinte: eles têm uma toxicidade menor, mas, diferentemente da aguda (aquela que mata imediatamente os insetos), causam uma toxicidade crônica, ou seja, causam um efeito mais duradouro e têm um envenenamento crônico, e não agudo. Então, no caso das abelhas, isso afeta o seu sentido de orientação, o que é muito complicado, porque esse produto não mata a abelha imediatamente, mas a enfraquece, a deixa mais suscetível à infestação de doenças. Esse problema gera desorientação, fenômeno que ficou conhecido como "colapso da colmeia", porque a abelha sai e não volta para a colmeia, ela se desorienta.

IHU On-Line – Como estão os estudos do Ibama em relação aos neonicotinoides? Já existe algum resultado das pesquisas? Quais?

Márcio de Freitas - Nós submetemos o imidacloprido, que foi o primeiro neonicotinoide, ao processo de reavaliação. Para tanto, há um rito. Primeiramente, as empresas fabricantes dos produtos são instadas a apresentar o que elas têm de estudos mais recentes em relação a essas moléculas que pretendem colocar no mercado. Depois, é feita a análise dos estudos, e, se entendermos que os testes realizados não são suficientes para uma conclusão, solicitamos novos estudos — o que corresponde a atual fase dos neonicotinoides no Brasil. As empresas estão desenvolvendo estudos de campo, inclusive alguns no Rio Grande do Sul.

Testes

Nós pedimos aos fabricantes que verifiquem se o resíduo do agrotóxico aplicado no pólen, a quantidade presente nas amostras, é capaz de intoxicar a abelha ou não. Então, trata-se de um estudo de campo que demanda certo tempo para o desenvolvimento. Os testes começaram a ser desenvolvidos ainda no final de 2013 e devem continuar até o final de 2015, quando devemos estar concluindo essa reavaliação do imidacloprido.

IHU On-Line – Os primeiros resultados só devem sair ao fim da pesquisa?

Márcio de Freitas - Eles vão sendo entregues antes, vão sendo realizados e concluídos, mas nós não recebemos ainda nenhum resultado concreto. Já tivemos, em fevereiro, uma reunião com os pesquisadores envolvidos nisso, tanto brasileiros quanto europeus, e eles nos apresentaram os primeiros estudos que foram feitos nas culturas de melancia e cana-de-açúcar, mas ainda estamos em uma fase de coletar os dados, e não propriamente de interpretá-los. Ainda não temos avaliação dos resultados dos ensaios, e eles simplesmente escreveram para nós explicando como foram conduzidos os testes e os problemas que encontraram, porque realmente é uma situação nova. Nós estamos lidando com quantidades muito pequenas, pois normalmente os ensaios de resíduos são feitos para saúde humana, cujas quantidades analisadas são muito maiores do que quando estamos trabalhando com insetos. Então a escala é completamente diferente, e é um estudo novo, o qual o mundo ainda está estabelecendo metodologias e procedimento para fazer.

IHU On-Line – De que maneira fatores como a mudança climática impactam no ecossistema onde as abelhas vivem? Em que medida esta é uma explicação plausível para a mortalidade desses insetos? Que outros fatores influem?

Márcio de Freitas - O problema maior que temos hoje são com as espécies nativas, que são diferentes das abelhas africanizadas, mais comuns na apicultura. Entretanto, no Brasil, há mais de três mil espécies de abelhas nativas que contribuem para polinização e que têm uma importância ecológica muito grande. Então, nesse estudo, estamos preocupados com as abelhas nativas até mais do que com a abelha africanizada.

Abelhas nativas

No caso da nativa, essa questão levantada é mais complicada ainda, porque a abelha nativa sofre muito mais o impacto da perda do hábitat natural do que a abelha africanizada. Então o problema maior no Brasil é a perda de diversidade de algumas espécies, em alguns casos até mesmo antes de conhecê-las. E isso está relacionado com o modelo agrícola brasileiro, que é um modelo de agricultura intensiva.

Nós temos uma perda grande quando falamos de fazendas de algodão, por exemplo, noCentro-Oeste, que chega a ter nove, dez e às vezes até vinte mil hectares contínuos de monocultura. Essa perda da vegetação nativa obriga as abelhas a ir para dentro da lavoura e a sair da mata nativa, deixando-as, consequentemente, mais expostas ao agrotóxico.

Hábitat

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"A falta de hábitat é a principal causa de morte"

A falta de um hábitat me parece ser, atualmente, a principal causa de mortandade de abelhas. A segunda são as doenças, e nessa questão devemos incluir tanto a perda do hábitat quanto a mudança climática. Não me refiro à mudança climática em si, mas o que nós estamos vivendo dela, que é bem documentado nos relatórios do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], relacionados aos eventos climáticos críticos. O que nós temos vivido no Brasilmuito claramente? São secas acentuadas e cheias acentuadas. Isso está escrito no relatório do IPCC desde 2007 como sendo uma consequência já inicial das mudanças climáticas.

Variações climáticas

Este ano, por exemplo, houve secas no Sudeste e cheias no Norte. No ano passado, tivemos efeitos de cheias na região Sudeste, o que causou toda aquela tragédia de Teresópolis, na serra do Rio de Janeiro, e tivemos seca na Amazônia. Então, essas variações bruscas e extremas de condições climáticas afetam demais todos os organismos vivos e os insetos em especial. Isso também contribui para um enfraquecimento das espécies, seja por falta de alimento no caso da seca, seja por uma suscetibilidade maior a fungos e à umidade devido ao período de cheias, além da perda do hábitat de alimento.

Esses são todos fatores, do ponto de vista prático e relacionando-os com a questão dos agrotóxicos, que se somam e acabam determinando um risco maior a essa população de insetos.

IHU On-Line – Tendo em vista o trabalho do Ibama até este momento, qual o atual cenário brasileiro com respeito às comunidades de polinizadores? Vivemos um momento crítico como na Europa e na China?

Márcio de Freitas - Nós temos um problema sério no país — o qual me parece ser de conhecimento de todos —, que é a nossa dificuldade de pesquisa, pela falta de dados históricos e de levantamentos mais sistemáticos. O grande problema de qualquer um que enfrenta essas questões — principalmente ambientais — é a falta de informação sistematizada e de dados confiáveis. Por exemplo, não há um senso sobre a população de abelhas e de polinizadores, não há pesquisa, não há um levantamento confiável para que possamos dizer se ela está diminuindo ou não.

Nos Estados Unidos, eles identificaram o fenômeno porque vêm fazendo estudos da população de polinizadores há mais de 50 anos, assim observaram que nos últimos dez anos houve um agravamento. Havia uma perda de cerca de 2% de colônias por ano e passaram a perder de 15% a 20%. Então isso foi claramente identificado e pôde ser lançado no sistema de alerta.

No Brasil, nós estamos começando a organizar um pouco o setor de apicultura, que sempre foi um setor informal e, portanto, temos pouca informação em relação ao número de enxames existentes. O número de colmeias existentes no país, mesmo na apicultura, sem falar nas nativas, é mais difícil ainda de mensurar. Mas, se pensarmos só na apicultura, que é uma atividade econômica e, portanto, tem uma certa gestão, nós não temos essa informação.

Dados

Se pegarmos os números da Associação de Apicultura Brasileira, os dados apontam o contrário, isto é, a produção de mel está subindo e, consequentemente, poderíamos supor que a população de abelhas não está sofrendo impacto nenhum. Mas é difícil afirmar isso porque, em grande parte dos casos, a apicultura ainda é uma atividade informal. Hoje nós temos alguns estados, como o Piauí, que já se desenvolveram muito por conta da apicultura, sendo uma alternativa econômica em termos de produção.

Essa mudança cultural de uma apicultura mais artesanal para uma mais industrial pode ser a razão para o aumento da produção de mel, e não, necessariamente, uma relação direta com a perda de colmeia. O que nós estamos tentando estabelecer é uma relação com os pesquisadores e com a própria apicultura, por isso temos tido alguns encontros com eles no sentido de que nos notifiquem a ocorrência de problemas de perdas de colmeia. No estudo que fizemos, levantamos quase uma centena de casos e, à medida que o tempo passou, recebemos mais algumas notificações. Com base nessas notificações verificamos que, de fato, havia uma ocorrência alta de mortandade e perda de colmeias relacionadas especificamente ao agrotóxico. Encontramos uma relação bastante alta que nos levou a começar os estudos lá no final de 2010 e início de 2011. Mas não temos um sistema de alerta, um sistema de monitoramento, de acompanhamento da população de abelhas no Brasil.

Colapso de Distúrbio de Colmeia

Sabemos que no Brasil não temos claramente identificado o fenômeno que ocorreu nosEstados Unidos e na Europa chamado de Colapso de Distúrbio de Colmeia – CDC, que seria justamente o fenômeno do desaparecimento das abelhas. Tivemos dois casos muito próximos disso que dão indícios de que ele pode ter ocorrido: um em São Paulo e outro em Minas Gerais. Mas não temos uma comprovação específica de que o fenômeno ocorreu no Brasil, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, onde o fenômeno está bem identificado.

Prevenção

O que estamos fazendo é mais no sentido preventivo, e sabemos que essa preocupação também existe em outros países latino-americanos. O Uruguai proibiu a aplicação de fipronil, que não é um neonicotinoide, mas também é um dos produtos cuja realização de testes estamos em via de iniciar, por ser também um inseticida desses grupos mais modernos associados à mortandade de abelhas. A Colômbia está tomando medidas de precaução e de gestão do risco do uso do imidacloprido e do tiametoxan. No Chile também existem algumas iniciativas, assim como na Argentina; então a América Latina está de uma maneira geral preocupada com a possibilidade de ocorrer um fenômeno com o nível de violência que sucedeu nos Estados Unidos. Mas não temos ainda comprovado esse fenômeno aqui. Felizmente, estamos justamente trabalhando para prevenir e aprender um pouco com a experiência negativa dos outros países antes que isso nos atinja.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Márcio de Freitas - Colocamos o Ibama à disposição dos próprios pesquisadores que estejam trabalhando com isso e queiram trocar informações conosco. Nossa intenção é, de fato, nos aproximarmos também da academia para buscar o estado da arte do ponto de vista da pesquisa com a população de abelhas e esses efeitos indesejáveis de agrotóxicos sobre a polinização. Para saber mais sobre esse assunto, basta acessar o site do Ibama, na página da Diretoria de Qualidade Ambiental.

(EcoDebate, 07/04/2014) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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Estudo indica que aumento do CO2 na atmosfera faz com que alimentos produzam menos nutrientes

Aumento de CO2 na atmosfera compromete qualidade dos alimentos

Estudo revela que, com mais CO2 na atmosfera, alimentos deixam de produzir proteínas importantes para a nutrição humana. Grãos como o trigo reduzem em 8% a produção desses nutrientes essenciais.

Além de acelerar as mudanças climáticas, a concentração de CO2 na atmosfera prejudica também a qualidade nutricional dos alimentos. Um estudo publicado neste domingo (06/04) na revista especializada Nature Climate Change revelou que o aumento dos níveis de dióxido de carbono inibe nas plantas a transformação de nitrato em proteínas.

A assimilação do nitrogênio tem um papel fundamental para o crescimento e produtividade das plantas. Nas plantações que cultivam alimentos, esse processo é especialmente importante porque o nitrogênio é utilizado para produzir proteínas essenciais para a nutrição humana. Somente o trigo, por exemplo, fornece 25% de todas as proteínas indispensáveis para o homem.

"Nós descobrimos que a qualidade dos alimentos está diminuindo com o aumento de CO2 na atmosfera. Várias explicações para esse declínio foram apresentadas, mas esse é o primeiro estudo que mostra que o aumento da concentração de dióxido de carbono inibe a conversão de nitrato em proteínas nas espécies cultivadas pela agricultura", conta Arnold Bloom, autor da pesquisa e professor do departamento de Botânica da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

A descoberta é preocupante, já que o nível dos gases do efeito estufa na atmosfera não param de subir. Segundo os dados mais recentes divulgados pela Organização Meteorológica Mundial, WMO, a concentração global de CO2 em 2012 era de 393.1 partes por milhão – 2.2 acima do valor medido em 2011.

Desde 1750, época pré-industrial, a concentração global de dióxido de carbono aumentou 141%.

Amostras de trigo

Para observar a reação a diferentes níveis de dióxido de carbono na atmosfera, os pesquisadores analisaram amostras de trigo colhidas entre 1996 e 1997. Nesse mesmo período, ar enriquecido com CO2 foi liberado sobre os campos de pesquisa em diversas concentrações, seguindo o nível de aumento esperado para as próximasdécadas. Outras plantas foram cultivadas sem receber esse tratamento.

As amostras colhidas foram colocadas imediatamente no gelo, posteriormente passaram por uma secagem ao forno e embaladas a vácuo. Foi depois de uma década que novos métodos de análise química foram desenvolvidos e possibilitaram o experimento.

Bloom não participou da primeira pesquisa realizada no Arizona, que tinha outros objetivos. "Eles fizeram o estudo, mas obtiveram resultados que não entenderam na época e guardaram com muito cuidados as sementes. Eu sabia que eles haviam guardados as sementes e, como já havia pesquisado essa reação em laboratórios, eu pedi para analisar, por meio delas, a reação nos campos", relatou à DW Brasil.

No recente estudo, os pesquisadores verificaram que três níveis diferentes de assimilação de nitrato confirmaram que a concentração elevada de dióxido de carbono inibiu a conversão deste elemento em proteína.

Estudos anteriores no laboratório já haviam revelado a ligação entre CO2 e a queda na assimilação de nitrato nas folhas de grãos e espécies não leguminosas, porém essa relação ainda não havia sido comprovada nos campos. Eles também constaram que a diminuição nesse processo era de cerca de 8% em espécies como arroz, batata e outros grãos.

"Quando esse declínio é repassado à respectiva porção diária de proteína derivada desses grãos, fica claro que a quantidade de proteína disponível para o consumo humano irá cair cerca de 3% quando o nível de CO2 atingir os níveis previstos para as últimas décadas", afirma Bloom.

Segundo o pesquisador, o aumento do nível de nitrogênio em adubos poderia compensar parcialmente essa queda na qualidade de alimentos. Mas isso também teria consequências negativas, incluindo altos custos, aumento da concentração dessa substância nas águas subterrâneas e também nos gases do efeito estufa.

 

Matéria de Clarissa Neher, da Agência Deutsche Welle, DW.DE, reproduzida pelo EcoDebate, 08/04/2014

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Água, fonte vital para a Soberania Alimentar, por Evelyn Patricia Martínez

água

 

[Rebelión] A água é, sem dúvida, um elemento primordialmente vital para a vida do ser humano. Sem água, não poderia haver a produção de alimentos e, sem água e alimentos a vida simplesmente não seria possível. A água é um bem comum, um bem público, é um direito humano de todas e todos.

O capitalismo, com sua visão de dominação sobre a natureza com o uso infinito dos recursos naturais, principalmente no uso da água, tem ocasionado uma grave crise desse recurso, de modo que vivemos, atualmente, uma crise a nível nacional e mundial.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) esta crise da água se manifesta na carência e queda de sua qualidade e demonstra que estamos atravessando atualmente um stress hídrico, isto é, o planeta está ficando sem água doce. O Relatório do Desenvolvimento Humano de 2006 do PNUD intitulado "Além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água", assinala que "mais de um bilhão de pessoas estão privadas do direito a água potável e 2,6 milhões não têm acesso ao saneamento adequado. A água é desperdiçada e mal utilizada por todos os setores, em todos os países".

Isso quer dizer que 1 em cada 7 pessoas do planeta não tem água potável. O relatório também estabelece que: "a cada ano morrem cerca de 1,8 milhões de crianças como consequências direta da diarreia e outra enfermidades causadas pela água suja e pelo saneamento insuficiente". Recentemente, em outubro de 2013, a ONU advertiu que, para 2030, 40% da humanidade sofrerá escassez de água, a raiz de uma demanda que irá crescer em 40% em relação a atual (1).

Somado a esta problemática, a mudança climática está intensificando os períodos de seca e as inundações, o que afeta o abastecimento de água e se transforma em obstáculo para a produção de alimentos.

Em nosso país, frente o aumento das temperaturas, enfrentaremos as reduções na disponibilidade da água em até 79%, no ano de 2100, de acordo com estimativas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) (2). Também deve-se saber que o fluxo dos rios em El Savador diminuíram em até 80%, principalmente na zona norte, durante os últimos 30 anos, durante a época de seca (3). Cerca de 50% dos rios têm água com uma qualidade regular, 31% são de má qualidade, 7% são de péssima qualidade e somente 12% da água dos rios está qualificada como boa, de acordo com os dados do Ministério do Meio Ambiente (MARN) (4).

Em relação ao acesso a água potável em nosso país, a zona rural é onde se apresenta a maior precariedade no acesso a água. De acordo com estatísticas do próprio governo (EHPM 2011), numa média a nível nacional, 74 em cada 100 casas do país têm acesso à água potável canalizada, na área urbana são 84 casas em cada 100 e, na área rural, 53 casa em cada 100.

Frente a este cenário são as mulheres pobres as que têm menos acesso ao abastecimento e gestão da água, isto implica um maior tempo empreendido para conseguir abastecer-se com água, pois têm que dedicar mais horas de trabalho para carregá-la. Além disso, a má qualidade da água provoca doenças nos integrantes das famílias e são as mulheres aquelas que gastam maior tempo na responsabilidade de cuidar de pessoas doentes.

A água e a agricultura do agronegócio

Como sabemos a água é destinada para o consumo direto e também para a produção de alimentos. Então, a perda de água doce afeta, diretamente, a agricultura e a produção de alimentos, além disso, também provoca a perda da fertilidade dos solos. Num nível mundial, a grande agricultura do agronegócio consome 70% da água, enquanto a indústria e mineração consomem 12% e, para o consumo direto, é destinado apenas 4% (5).

No entanto, a maior parte da pequena agricultura familiar não dispõe, em muitos casos, de água para regar suas hortas caseiras para abastecer-se e para cultivar os alimentos e assim dependem da captação da água da chuva (6). Enquanto a grande agricultura do agronegócio, através do uso intensivo da água, pelo sistema de irrigação, desperdiça grandes quantidades de água. Outro agravante é que não há um monitoramento, nem proteção do recurso por parte dos governos.

A água e a soberania alimentar

Frente à situação anteriormente descrita e em resposta a agricultura convencional do agronegócio que tem sido um dos principais causadores da atual crise da água, a proposta da soberania alimentar contribuiu para proteger e preservar o vital recurso hídrico, através de diferentes tipos de práticas, como (7):

• Gestão agroecológica da água. Ao invés de utilizar agrotóxicos e pesticidas para produzir os alimentos, produzir fertilizantes e compostos (fertilizantes, repelentes e inseticidas), ou matéria orgânica, assim como promover e cultivar diferentes variedades de sementes nativas, isto permite que a água, o ar e os solos não sejam contaminados.

• Utilização de micro-irrigação por gotejamento para que se faça um uso racional da água e evitar o desperdício.

• Sistemas de armazenamento de água da chuva, para diminuir a vulnerabilidade provocada pelas secas e inundações.

• Autogestão comunitária da água por parte das e dos agricultores e não por empresas privadas. A água é considerada como um bem comum e não como uma mercadoria.

Precisamos da aprovação da Lei Geral das Águas e da Lei da Soberania Alimentar!

Desde 2005 organizações sociais, reunidas no Fórum da Água, iniciaram um processo participativo para a construção do anteprojeto da Lei Geral de Águas (8), para que se possa reconhecer a água como um direito humano. A Lei propõe considerar a água como bem público, quer dizer, que se garanta a não privatização do recurso, além de se promover a participação comunitária na gestão integral da água, e a proteção necessária, assim como o aproveitamento e recuperação das bacias e micro-bacias hidrográficas do país.

A Lei Geral das Águas propõe contar com uma Política Hídrica Nacional, a qual permita:

• Assegurar que a água seja um bem público e não uma mercadoria.

• Participação cidadã na Comissão Nacional da Água (CONAGUA).

• Prevenir e reduzir as inundações.

• Não contaminar a água.

• Educação para o uso e gestão da água.

Também estabeleceu-se a criação de um Plano para as micro-bacias, no qual se garanta os usos prioritários da água que, em ordem de importância, seriam: o consumo humano doméstico, os ecossistemas, a agricultura de subsistência e, por último, a destinação para a geração de energia elétrica, a indústria e o turismo.

A proposta da Lei também exige deter os despejos de águas industriais e domiciliares contaminadas nos rios e implementar ações urgentes para a recuperação dos rios mais contaminados.

É necessário que a Assembleia Legislativa aprove o quanto antes as propostas da Lei Geral das Águas e a Lei da Soberania Alimentar, para podermos enfrentar a grave crise do recurso água que vivemos atualmente, e a crise alimentar.

A aprovação da Lei da Soberania Alimentar permitiria avançar no apoio a pequena produção familiar; o fortalecimento da produção nacional de alimentos; a promoção das práticas agroecológicas; o aceso equitativo a terra, a água e ao resgate da semente nativa; entre outros. Isto permitiria dispor de um marco legal, onde já não se permita as práticas que contaminam a água, o ar e o solo, com o uso de agrotóxicos e pesticidas, promovidos pela agricultura convencional, herdada de uma revolução verde. Avançar para um modo de produção de alimentos de maneira agroecológica contribuiria para a proteção da água, pois diminuiria o uso intensivo da água na agricultura, e também significaria um resgate da qualidade dos solos, das árvores e dos rios.

Além disso, a aprovação da Lei Geral das Águas contribuiria para a conquista da soberania alimentar. Deve-se recordar que a soberania alimentar coloca o campesinato no centro do sistema alimentar e não mais as empresas do agronegócio. A Lei da Água permitiria ter acesso, controle e autogestão da água por parte das e dos pequenos agricultores para produzirem seus alimentos e desse modo poder avançar para a soberania alimentar.

A água e a alimentação são direitos humanos!

Notas:

1 UNAM, RED DEL AGUA, "Banki-moon denuncia que mil millones de personas carecen de agua potable", 8 de octubre de 2013, disponible en:http://www.agua.unam.mx/noticias/2013/internacionales/not_inter_octubre08.html

2 Foro del Agua, Boletín Nº2 "Gotas y Notas", 2012

3 Erazo Chica, Adriana María (sf). ¿Variaciones hidroclimáticas o evidencias del cambio climático en El Salvador?, Sistema Nacional de Estudios Territoriales (SNET)

4 MARN (2012), Informe de la calidad del agua de los ríos de El Salvador, Año 2011.

5 Fernández-Jáuregui, Carlos A. (2005), El agua como fuente de conflictos: repaso de los focos de conflictos en el mundo, Fundación CIDOB.

6 PNUD El Salvador (2006). El agua, una valoración económica de los recursos hidrícos en El Salvador. Cuaderno sobre desarrollo humano Nº5

7 Ver: Revista Soberanía Alimentaria, Biodiversidad y Culturas. Agua y Soberanía Alimentaria, julio 2013, Nº14. Disponible en:http://revistasoberaniaalimentaria.wordpress.com/2013/08/02/agua-y-soberania-alimentaria-nuevo-numero-de-la-revista/

8 En marzo de 2006 el Foro del Agua presentó, a la Asamblea Legislativa, el primer anteproyecto de Ley General de Aguas. Seis años después, en marzo de 2012, se presenta un segundo anteproyecto de Ley promovido desde el Ejecutivo, en el cual recoge las propuestas sustanciales del primer anteproyecto de Ley empujado desde el Foro del Agua años antes.

* Evelyn Patricia Martínez é pesquisadora em políticas agrícolas e alimentares da Fundação REDES (Fundação salvadorenha para a reconstrução e o desenvolvimento) e traz no presente artigo alguns dados e reflexões sobre o atual contexto salvadorenho e mundial sobre um elemento vital: a água. A pesquisadora aborda a relação do recurso com a agricultura familiar e o agronegócio, assim como propostas de legislações para salvaguarda-lo.

** Artigo originalmente publicado no Rebelión e socializado pelo MST.

EcoDebate, 08/04/2014

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sábado, 19 de abril de 2014

Mudanças Climáticas: A janela está se fechando


Painel de cientistas da ONU confirma que setor de transporte contribui cada vez mais para aquecimento global; quadro pode mudar com transporte público e carros eficientes e elétricos.
 As medidas para frear as mudanças climáticas não são apenas necessárias, mas viáveis e urgentes. Porém, devem vir de todas as frentes: governos, indústrias e sociedade civil. O recado veio de centenas de cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU), que divulgaram hoje mais um relatório abordando o assunto. Dessa vez, sobre as oportunidades de mitigação para essa crise global do clima.
Um dos dados que o relatório traz, o Brasil conhece bem: nos últimos anos, o setor de transporte foi um dos que mais aumentou sua contribuição para o aquecimento global. De 1970 a 2010, suas emissões mais que dobraram. E, segundo o IPCC, se nada for feito, as emissões do setor devem crescer como nenhuma outra até 2050, puxadas principalmente pelos países emergentes. Dados nacionais reforçam esse alerta. De acordo com o Observatório do Clima, de 1990 a 2012 as emissões de transporte subiram 143% no Brasil. E continuam em frente.
"A notícia boa que o IPCC traz é que há espaço para amenizar esse quadro. Os investimentos em transporte público e em infraestrutura para as opções não motorizadas são fundamentais para essa mudança", explica Iran Magno, coordenador da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace. Só assim, ele diz, com ações concretas dos governos – do federal aos municipais –, os indivíduos poderiam fazer escolhas inteligentes em seus deslocamentos no dia a dia.
Ele acrescenta que, por outro lado, a indústria também tem sua parcela de responsabilidade. "Não adianta apenas melhorar o transporte de massa. O Brasil é o quarto maior mercado de veículos do mundo, e a estimativa é que a frota nacional continue crescendo. A recomendação expressa dos cientistas é que a indústria adote tecnologias de baixo carbono, melhorando a eficiência energética dos automóveis e abrindo caminho para a eletromobilidade", diz Magno.
Na última semana, o Greenpeace divulgou um estudo feito em parceria com a Coppe/UFRJmostrando que os veículos brasileiros poderiam reduzir substancialmente suas emissões caso a indústria investisse em tecnologias mais modernas. Segundo os dados, se os carros brasileiros fossem produzidos com a mesma meta de eficiência energética europeia, chegaríamos a 2030 emitindo 11% menos gases estufa que hoje, mesmo que a frota de carros fosse o dobro da atual.
"O desafio das mudanças climáticas já está lançado e, cada vez mais, vemos eventos climáticos extremos e tragédias ao redor do mundo" afirma Magno. "No Brasil ainda temos espaço para mudança e potencial de liderar uma guinada para uma economia de baixo carbono. Agora é uma questão de vontade e escolha".
Informe do Greenpeace, publicado pelo EcoDebate, 17/04/2014
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Pouco eficientes, carros brasileiros têm tecnologia defasada

Greenpeace inicia campanha para que Volkswagen, Fiat e Chevrolet produzam veículos mais eficientes – como já fazem em outros mercados – e invistam em carros elétricos

Enquanto produzem carros mais limpos e eficientes em outros países, montadoras fazem veículos com tecnologia velha no Brasil.
O Greenpeace apresentou hoje, em São Paulo, o 'lançamento do ano': um carro da Idade da Pedra. Com uma tenda da Volkswagen, Fiat e Chevrolet – as montadoras que mais vendem carros no país –, ativistas vestidos com roupas daquela época convidavam pedestres a fazer um test drive. A sátira fazia parte do lançamento de uma campanha desafiando as empresas a adotarem tecnologia mais moderna em seus carros, para que eles consumam menos combustível e emitam menos gases de efeito estufa.
"A União Europeia, os Estados Unidos e vários outros países estão muito mais avançados nas discussões sobre eletromobilidade e já adotaram metas ousadas de eficiência energética para seus veículos. Estamos ficando para trás nessa corrida, colocando nas ruas carros que têm design atual, mas que ainda gastam muito combustível e contribuem largamente para o aquecimento global", diz Iran Magno, coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace.
Na última semana, o estudo "Eficiência Energética e Emissões de Gases de Efeito Estufa", feito pela Coppe/UFRJ em parceria com o Greenpeace, foi divulgado mostrando que as emissões de CO2 dos veículos brasileiros podem reduzir. Segundo os dados, caso as montadoras nacionais seguissem as mesmas metas de eficiência energética europeias, chegaríamos em 2030 com emissões mais baixas que as de hoje, mesmo que a frota de veículos do país dobre, como é estimado.
"Se por um lado precisamos que os governos ofereçam um sistema de transporte público muito melhor que o atual, a indústria de automóveis também precisa tomar medidas para amenizar sua contribuição ao aquecimento global", diz Magno. "Fiat, Volkswagen e Chevrolet, que detêm 61% do mercado brasileiro de automóveis, já estão produzindo carros mais limpos e eficientes em outros países. Portanto, um alinhamento tecnológico para os veículos produzidos no país é imprescindível. Está na hora de oferecer o mesmo para os consumidores brasileiros, que colocaram o país entre os quatro maiores mercados de carros do mundo".
O setor de transportes se tornou um dos maiores emissores de gases estufa no Brasil. De 1990 a 2012, segundo o Observatório do Clima, o salto de suas emissões foi de 143%, e continua aumentando. A tendência é global: no domingo, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou relatório mostrando que, se nada for feito, as emissões do setor são as que mais crescerão, superando todas as outras fontes, até 2050.
Os cientistas sugerem que a indústria de veículos adote tecnologias de baixo carbono, melhorando a eficiência energética de seus carros e abrindo caminho para a eletromobilidade. "O que estamos pedindo para as companhias é exatamente o que recomendam os cientistas. O Brasil é uma das maiores economias globais e temos todas as condições de avançar muito mais nessas questões", diz Magno.
A proposta do Greenpeace é que a indústria brasileira se comprometa com as mesmas metas de eficiência energética da União Europeia, até 2021. Isso significa aumentar em 41% a eficiência de seus carros, tomando como base as taxas de 2011. Além disso, a organização também pede que haja mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologia para carros elétricos. No site www.ocarroqueeuquero.org.br, lançado hoje pelo Greenpeace, os consumidores podem enviar mensagens às empresas pedindo essas mudanças.
Informe do Greenpeace, publicado pelo EcoDebate, 17/04/2014
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quarta-feira, 16 de abril de 2014

UTI ambiental: revitalização de bacias hidrográficas II, artigo de Osvaldo Ferreira Valente

[EcoDebate] O paciente enfartado, quando entra na UTI hospitalar, passa, em primeiro lugar, por uma bateria de exames e só depois, com base nos resultados é que os especialistas traçam o programa de tratamento. As pequenas bacias hidrográficas degradadas, internadas na UTI ambiental, também devem passar por etapas semelhantes para recuperarem suas saúdes hidrológicas e poderem voltar a produzir volumes de água que já estiveram produzindo no passado. Se os pacientes enfartados recebem tratamentos específicos, as pequenas bacias também devem ter planos específicos. Esta é uma conclusão elementar, mas infelizmente necessária, pois há uma enorme tendência, no Brasil, de generalizar soluções e acreditar que seja suficiente a aplicação de legislações que consideram iguais os diversificados ecossistemas que ocorrem no país.

 

 

Ao falar montar um plano ou desenvolver um projeto de conservação, o leitor vai imaginar um documento cheio de mapas, tabelas, gráficos, textos enormes com justificativas e descrição de metas e outras parafernálias semelhantes. Mas nem sempre há necessidade de tudo isso, pois o mais importante é a boa observação do fato (da pequena bacia, no caso) e trabalhar as adequações necessárias; mas, antes de tudo, possíveis dentro da realidade social e econômica da comunidade envolvida. Uma ação importante é ter um roteiro de orientação, que pode ser o seguinte: objetivo – inventário – análises das informações do inventário – geração de alternativas – seleção das alternativas e montagem do plano de manejo – execução. Vamos discutir rapidamente cada uma destas etapas.

Objetivo: Como estamos discutindo produção de água, vamos admitir que o objetivo principal seja aumentar a vaza das nascentes e do curso d'água formado e mantido pela pequena bacia ( podem existir outros objetivos secundários para casos específicos). Será sempre muito bom se pudermos colocar algumas metas acopladas ao objetivo; por exemplo, aumentar a vazão em 40%. Ou quem sabe dobrá-la em um período de cinco anos. Isso vai depender dos primeiros contatos com a bacia e de ouvir algumas histórias a respeito dela, contadas pelos que moram nela ou a exploram.

Inventário: Precisamos de alguns dados relativos à pequena bacia, começando pela busca de informações meteorológicas. Quanto chove anualmente? Como é a distribuição das chuvas? Há grande concentração de chuvas intensas, como de 50 mm/h, por exemplo? Estas informações podem ser buscadas em sites de instituições como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmetro) e Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). Também podem ser consultadas empresas que fazem previsões de tempo e que estão presentes nos noticiários das diversas mídias. Outro dado importante é a vazão de estiagem (vazão mínima) atual e uma busca de informação sobre os valores da vazão em épocas passadas. Características ambientais da bacia: solos, vegetação, declividades de encostas e usos da terra. Características dos moradores: percepção da importância da água, capacidade de lidar com tecnologias de conservação, disposição para mudanças etc. Para distribuição e localização das características, será fundamental

a aquisição de um mapa da área. Mas, mesmo para isso, é possível trabalhar com cópias diretas do Google Earth, ou com fotografias aéreas obtidas em instituições oficiais.

Análise das informações do inventário: Apenas alguns exemplos, a seguir, para ilustração do que deve ser feito nesta fase.

1) Se o solo for muito argiloso, com baixo teor de matéria orgânica, vai ter baixa porosidade, dificultando a infiltração. Vale a pena, em muitos casos, completar o inventário, medindo a velocidade de infiltração (uma pesquisa na internet indicará métodos de medição);

2) Se houver a ocorrência de chuvas muito intensas (acima de 50 mm/h, por exemplo), já estaremos intimados a construir sistemas de retenção de enxurradas com boas capacidades de armazenamento temporário de água (terraços, caixas, barraginhas). Se a velocidade de infiltração tiver sido medida, teremos a possibilidade de confrontá-la com a intensidade da chuva, ajudando no dimensionamento futuro das estruturas de contenção de enxurradas;

3) Se há encostas com pastagens degradadas, valerá discutir com o proprietário rural, ou mais de um, a possibilidade de melhorar o estado vegetativo e fazer manejo rotacional. Até mesmo adotar sistema silvipastoril ou reflorestamento de áreas de maior declividade;

4) Pelo levantamento de percepção dos moradores, eles estão preparados para aceitar novas tecnologias? Haverá necessidade de educação ambiental e de capacitação para lidar com os novos procedimentos? Há, disponível, alguma instituição ligada à extensão rural ou alguma cooperativa de produtores que poderão ajudar na implantação ou mesmo no convencimento de um ou outro mais cético?

Outras análises deverão ser feitas, de acordo com as necessidades específicas da pequena bacia em foco.

Geração de alternativas: Também exemplos.

1) Conhecendo intensidade de chuvas e velocidades de infiltração numa encosta, poderemos sugerir, antecipadamente, duas alternativas, sendo a primeira composta de reflorestamento de uma área mais inclinada e a adoção de sistema silvipastoril para o restante. Como segunda alternativa, poderemos propor a substituição da forrageira que ora ocupa a encosta e construir terraços de base estreita. Em qualquer das alternativas, há de se propor uma divisão da pastagem para permitir o uso rotacionado;

2) Para melhorar a percepção ambiental poderemos propor conversas diretas com moradores ou uma parceria com o sistema educativo municipal. A capacitação, se necessária, poderá ser feita através de uma visita a alguma bacia já trabalhada ou em dia de campo na própria bacia, onde as tecnologias serão apresentadas e discutidas;

Para todas as alternativas, será importante um levantamento de custos para auxiliar nas escolhas da próxima etapa.

Seleção das alternativas e montagem do plano de manejo: Ainda exemplos.

1)Discutidas as alternativas para as encostas com pastagem degradada, com dois proprietários, um deles pode optar pela troca da forrageira e a construção de terraços: o outro pelo sistema silvipastoril, mas desde que adotado em toda a encosta, mesmo na área mais inclinada. Se ele for irredutível em não aceitar o reflorestamento na parte mais inclinada, melhor concordar, para não perder a colaboração. Talvez com o tempo, e vendo o aumento da capacidade de suporte da área melhorada, ele acabe mudando de opinião;

2) Quanto à educação ambiental, as alternativas, levadas à discussão com moradores e com o sistema de educação municipal, pode acabar com o município assumindo o encargo, desde que o plano formule o programa a ser desenvolvido e seja dado treinamento para os agentes encarregados da sua aplicação. Já com respeito à capacitação, pode ficar decidido que o plano incluirá o dia de campo;

3) Escolhidas as alternativas, elas serão tecnicamente planejadas, com descrições detalhadas e os custos respectivos, gerando o plano de manejo.

Execução: Limita-se à implantação do plano de manejo.

O roteiro apresentado aplica-se a pequenas bacias (mas que somadas formam as grandes) e conforme já discutimos em um dos artigos que trataram do "diagnóstico da água", dentro da série UTI ambiental, o conceito hidrológico de pequena bacia hidrográfica refere-se àquelas de 1a, 2a ou 3a ordens. Em regiões montanhosas e bem drenadas, as bacias de 1a ordem podem ter áreas de 50 a 100 hectares e as de 3apodem chegar a 1000 hectares. Depreende-se, portanto, que podemos lidar com comunidades formadas por poucos ou muitos habitantes. Bacias com áreas de 1000 hectares, dependendo da situação fundiária da região, podem envolver 20 ou mais famílias e, nesses casos, o roteiro discutido deve ser desenvolvido passo por passo. Se a bacia for de 1ordem e envolver apenas um ou dois núcleos familiares, depois do inventário e da análise dos dados dele provenientes, as demais etapas do roteiro podem ser conduzidas em conjunto, em contatos diretos com os moradores. Os planos podem ser resumidos em descrições rápidas das condições, com recomendações e receitas para execução, incluindo croquis, fotografias com câmeras comuns etc.

Em quaisquer das possibilidades de aplicação do roteiro, o hidrologista responsável, ou coordenador, vai precisar da ajuda de profissionais das áreas agronômicas e florestais, de geólogos, meteorologistas, agrimensores e outros, mesmo que seja para rápidas consultorias ou opiniões. Tudo dependendo da complexidade da pequena bacia. Não custa lembrar que manejo de bacias hidrográficas é uma atividade multidisciplinar.

Sei que muitos vão achar que estou simplista e tentando vender o elementar. Tudo bem, o respeito às opiniões contrárias é sempre devido, mas tenho a firme convicção de que plano bom é aquele que pode resolver e esteja adequado às realidades sociais e econômicas do ambiente a que se destina. E mais, que possa ser entendido e executado pelos produtores rurais, com apoio financeiro e assessoria de técnicos de campo. Gostaria muito de ver os Comitês de Bacias discutindo isso.

Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor de dois livros sobre o assunto: "Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas"e "Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia"; colaborador e articulista do EcoDebate .( valente.osvaldo@gmail.com)

 

EcoDebate, 16/04/2014

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