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segunda-feira, 18 de julho de 2016

MARCELO RUBENS PAIVA Como assim, escola sem ideologia?

Como assim, escola sem ideologia?A escola sem um professor de história de esquerda é como uma escola sem pátio, sem recreio, sem livros, sem lanchonete, sem ideias. É como um professor de educação física sem uma quadra de esportes, ou uma quadra sem redes, ou crianças sem bola. 78
Marcelo Rubens Paiva

16 Julho 2016 | 03h00

O professor de história tem que ser de esquerda. E barbudo. Tem que contestar os regimes, o sistema, sugerir o novo, o diferente. Tem que expor injustiças sociais, procurar a indignação dos seus alunos, extrair a bondade humana, o altruísmo.
Como abordar o absolutismo, a escravidão, o colonialismo, a Revolução Industrial, os levantes operários do começo do século passado, Hitler e Mussolini, as grandes guerras, a guerra fria, o liberalismo econômico, sem uma visão de esquerda?
A minha do colegial era a Zilda, inesquecível, que dava textos de Marx Webber, do mundo segmentado do trabalho. Ela era sarcástica com a disparidade econômica e a concentração de renda do Brasil. Das quais nossas famílias, da elite paulistana, eram produtoras.
Em seguida, veio o professor Beno (Benauro). Foi preso e torturado pelo DOI-Codi, na leva de repressão ao PCB de 1975, que matou Herzog e Manoel Fiel Filho. Benauro era do Partidão, como nosso professor Faro (José Salvador), também preso no colégio. Eu tinha 16 anos quando os vimos pelas janelas da escola, escoltados por agentes.
Outro professor, Luiz Roncari, de português, também fora preso. Não sei se era do PCB. Tinha um tique nos olhos. O chamávamos de Luiz Pisca-Pisca. Diziam que era sequela da tortura. Acho que era apenas um tique nervoso. Dava aulas sentado em cima da mesa. Um ato revolucionário.
Era muito bom ter professores ativistas e revolucionários me educando. Era libertador.
Não tem como fugir. O professor legal é o de esquerda, como o de biologia precisa ser divertido, darwinista e doidão, para manter sua turma ligada e ajudar a traçar um organograma genético da nossa família. A base do seu pensamento tem de ser a teoria da evolução. Ou vai dizer que Adão e Eva nos fizeram?
O de química precisa encontrar referências nos elementos que temos em casa, provar que nossa cozinha é a extensão do seu laboratório, sugerir fazer dos temperos, experiências.
O professor de física precisa explicar Newton e Einstein, o chuveiro elétrico e a teoria da relatividade e gravitacional, calcular nossas viagens de carro, trem e foguete, mostrar a insignificância humana diante do colossal universo, mostrar imagens do Hubble, buracos negros, supernovas, a relação energia e massa, o tempo curvo.
Nosso professor de física tem que ser fã de Jornada nas Estrelas. Precisa indicar como autores obrigatório Arthur Clarke, Philip Dick, George Orwell. E dar os primeiros axiomas da mecânica quântica.
O professor de filosofia precisa ensinar Platão, Sócrates e Aristóteles, ao estilo socrático, caminhando até o pátio, instalando-se debaixo de uma árvore, sem deixar de passar pela poesia de Heráclito, a teoria de tudo de Parmênides, a dialética de Zenão. Pula para Hegel e Kant, atravessa o niilismo de Nietzsche e chega na vida sem sentido dos existencialistas. Deixa Marx e Engels para o professor de história barbudo, de sandália, desleixado e apaixonante.
O professor de português precisa ser um poeta delirante, louco, que declama em grego e latim, Rimbaud e Joyce, Shakespeare e Cummings, que procura transmitir a emoção das palavras, o jogo do inconsciente com a leitura, a busca pela razão de ser, os conflitos humanos, que fala de alegria e dor, de morte e prazer, de beleza e sombra, de invenção fingimento.
O de geografia precisa falar de rios, penínsulas, lagos, mares, oceanos, polos, degelo, picos, trópicos, aquecimento, Equador, florestas, chuvas, tornados, furacões, terremotos, vulcões, ilhas, continentes, mas também de terras indígenas, garimpo ilegal, posseiros, imigração, geopolítica, fronteiras desenhadas pelos colonialistas, diferenças entre xiitas e sunitas, mostrar rotas de transação de mercadorias e comerciais, guerra pelo ouro, pelo diamante, pelo petróleo, seca, fome, campos férteis, civilização.
A missão deles é criar reflexões, comparações, provar contradições. Provocar. Espalhar as cartas de diferentes naipes ideológicos. Buscar pontos de vista.
O paradoxo do movimento Escola Sem Partido está na justificativa e seu programa: “Diante dessa realidade – conhecida por experiência direta de todos os que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 20 ou 30 anos –, entendemos que é necessário e urgente adotar medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas, e a usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”.
Mas como nasceriam as convicções dos pais que se criariam num mundo de escolas sem ideologia? E que doutrina defenderiam gerações futuras?
A escola não cria o filho, dá instrumentos. O papel dela é mostrar os pensamentos discordantes que existem entre nós. O argumento de escola sem ideologia é uma anomalia de Estado Nação.
Uma escola precisa acompanhar os avanços teóricos mundiais, o futuro, melhorar, o que deve ser reformulado. Um professor conservador proporia manter as coisas como estão. Não sairíamos nunca, então, das cavernas.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Feliz Ano Velho - Marcelo Rubens Paiva

Título: Feliz ano velho
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Brasiliense
Gênero: Biografia
Páginas: 232
Ano: 1991 (76° edição)

14 de dezembro de 1979
17 horas
Sol em conjunção com netuno
E em oposição a Vênus

"Subi numa pedra e gritei:
— Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.
Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin.
Estava debaixo d’água, não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia:  biiiiiiin. Acabara toda a loucura, baixou o santo e me deu um estado total de lucidez: "Estou morrendo afogado." Mantive a calma, prendi a respiração, sabendo que ia precisar dela para boiar e agüentar até que alguém percebesse e me tirasse dali. "Calma, cara, tente pensar em alguma coisa." Lembrei que sempre tivera curiosidade em saber como eram os cinco segundos antes da morte, aqueles em que o bandido com vinte balas no corpo suspira...
— Sim, xerife, o $$ do banco está enterrado na montanha azul!
Por que o cara não manda todo mundo tomar no cu e morre em paz?
O fôlego tava acabando, "devem pensar que estou brincando".
Era estranho não estar mexendo nada, não sentia nenhuma dor e minha cabeça estava a mil por hora. "Como é que vai ser? Vou engolir muita água? Será que vai vir uma caveira com uma foice na mão?"
— Venha, bonecão, vamos fazer um passeio para o mundo do além, uuuaaaaaaa!!!
Será que vou pro céu? Acho que não, as últimas missas a que fui eram as de sétimo dia dos tios e avós. Depois, não sei se deus gosta de jovens que, vez em quando, dão uma bola, gostam de rock. Pelo menos não é isso o que os seus representantes na Terra demonstram. É, meu negócio vai ser com o diabo, vou ganhar chifrinhos, um rabinho em forma de flecha, e ficar peladinho, curtindo uma fogueira.
De repente estava respirando, alguém me virou.
— Você tá bem? — Era o professor Urtiga, que me carregava no colo. Sem saber o que dizer, pedi uma respiração boca a boca. Ele me olhou assustado e foi me levando pra margem fazendo a respiração. Já em chão firme, os bêbados e loucos falavam:
— Ei, Marcelo, levanta!
— Que é isso, Paiva?
— E aí, tinha muito ouro?
— Levanta, que ele fica bom logo, é só dar uma chacoalhada.
— Isso, me levanta, eu devo estar meio bêbado.
Me levantaram, mas não deu em nada. Todos ficaram impressionados, logo começaram a transar uma ida a um hospital qualquer: uma cabeça mágica arrumou uma tábua.
Deitaram-me e fomos até onde estavam os carros. Não havia dúvidas de que a Kombi era o melhor deles. Entraram Urtiga, Florência, Marcinha, Gregor e não sei mais quem. Urtiga foi cantando em castelhano, imaginei que fosse algum ritual maia, já que ele é mexicano. Gregor foi cutucando meu pé e chamou seu deus que até hoje não sei quem é, a Marcinha apelou pro Pai-Nosso e a Florência só chorava. O caminho tava demorando, mas eu nem me importava, tava gostoso ali, deitado, ouvindo o canto maia, com a certeza de que nada de grave havia acontecido. No hospital me dariam uma injeção qualquer e tudo bem. Urtiga começou a passar a mão na minha cabeça. Reparei que ele tava preocupado, olhei pra sua mão e vi que estava toda ensangüentada. Só poderia ser de algum corte da minha cabeça.
Chegando no pronto-socorro, percebi que o negócio era sério:
maca, oxigênio, enfermeiros, médicos, maca correndo, teto branco, todo mundo olhando, mesa de raio X.
— Sente aqui?
— Não.
— E aqui?
— Só acima do pescoço.
— Ih, meu deus...
Veio uma mulher: disse calmamente meu nome e pedi para avisar minha família em São Paulo.
— Ah! Avisa também o Dr. Miguel aqui em Campinas. O telefone dele é 29045.
Não sei como consegui lembrar o telefone do pai da minha ex-girl. Comecei a pensar nela, doce Lalá, faz quase dois anos e não teve outra paixão igual. Lembrei-me de que sempre a gente ia jantar fora, pedíamos vinho e ficávamos tão bêbados que todas as privadas de bares campineiros estavam registradas com meu vômito.
— Não, moça, não corte minha unha, é que eu toco violão e vou fazer uma gravação neste fim de semana.
Seria a primeira vez que ia entrar num estúdio profissional.
— Guarda esse colar, que ele é muito especial.
— Pô, meu cabelo não, é que eu sou muito vaidoso.
Me deixaram carequinha, carequinha. Apaguei."

    Assim começa o livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens Paiva morto pelos militares da ditadura, em um trecho do livro ele recorda o dia em que os militares invadiram sua casa e prenderam seu pai.
    Feliz Ano Velho é um best-seller dos anos 80, onde Marcelo fala sobre o "acidente" que o deixou tetraplégico. No livro ele descreve um ano de tratamento hospitalar, todo o período que passou na UTI, a fisioterapia, as visitas de amigos e familiares, relata lembranças de acontecimentos passados em sua vida, e apesar da situação trágica em que ele se encontrava, quase tudo é contado de maneira cômica e debochada. A linguagem é popular, cheia de gírias dos anos 80 e as situações são descritas com com boa dose de humor.
    Li quando tinha 14 anos e gostei tanto que acabei lendo novamente alguns anos depois. Não foi atoa que se tornou um best-seller!
Fonte:Dica de Leitura
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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Muito mais do que 20 centavos, por Marcelo Rubens Paiva

A repórter Giuliana Vallone, da TV Folha, ferida, na calçada(*) A repórter Giuliana Vallone, da TV Folha, ferida, na calçada. Foto: O Estado de São Paulo / Diego Zanchetta


“A manifestação nesses dias em São Paulo ganhou o caráter que deveria: uma revolta coletiva contra um Estado que trata o indivíduo como um estorvo: o inimigo. Estado que, em vez de solucionar os problemas da violência, aterroriza, que gasta em estádios, não em metrô”, escreve Marcelo Rubens Paiva, escritor, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 16-06-2013.
Eis o artigo.
Se engana quem acredita que a cidade parou por apenas 20 centavos. Embora 20 centavos façam a diferença para milhões.
Na manifestação do Movimento Passe Livre de terça-feira, a unanimidade foi chamar todo cidadão que protestou de vândalo e baderneiro. As duas autoridades da cidade estavam juntas em Paris, o governador do PSDB, Geraldo Alckmin, e o prefeito do PT, Fernando Haddad, com o vice-presidente Michel Temer, do PMDB. Esqueceram as divergências para vender o Brasil a outro evento internacional.
Na França, apresentaram o projeto de São Paulo à Expo 2020, uma prova de que o poder vive num delírio megalomaníaco, ao passo que, quem leva 2h por dia para ir trabalhar, 3h para voltar, em ônibus entupidos e caros e enfrenta 200 km de congestionamento, vive a realidade.
A manifestação nesses dias em São Paulo ganhou o caráter que deveria: uma revolta coletiva contra um Estado que trata o indivíduo como um estorvo: o inimigo. Estado que, em vez de solucionar os problemas da violência, aterroriza, que gasta em estádios, não em metrô.
E, mais uma vez, a PM, o braço armado que garante o poder aos incompetentes, e os blinda contra as revoltas, faz o trabalho que nem sequer o melhor dos marqueteiros conseguiria: une a sociedade contra a violência de quem deve combatê-la e ganha para isso.
Viu-se uma PM tomar o poder. Impedir que manifestantes ocupassem a avenida, ocupando-a. Abrir fogo contra inocentes e jornalistas. Tipificar uma manifestação política como formação de quadrilha.
Não é mais o aumento da passagem a bandeira. Alguns cartazes escritos à mão deram o tom. “O povo não deve temer o governo, o governo deve temer o povo”. “Desculpe o transtorno, estamos mudando o País”. Pela TV, assistimos à anarquia militar. PMs encurralavam jovens rendidos.
Enquanto pelas redes sociais rodava a foto (*) da repórter Giuliana Vallone, da TV Folha, com o olho sangrando, de cinegrafista levando jato de spray de pimenta, a polícia ocupava a Paulista. Antônio Prata tuitou: “No próximo protesto, que se combine de antemão. A PM vai para praticar atos de vandalismo, e os manifestantes, para tentar contê-los.”
(Ecodebate, 17/06/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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