quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Estudioso de amianto há mais de 40 anos afirma que todas as formas da fibra são perigosas


Por indicação da Associação Brasileira de Expostos ao Amianto, Arthur Frank, membro do Collegium Ramazzini, professor patologista e pesquisador dos efeitos cancerígenos da espécie crisotila de amianto, compartilhou opiniões sobre os perigos do amianto, especialmente a crisotila, em sua apresentação realizada durante audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF). Há mais de 40 anos ele estuda os efeitos do amianto.
“O ponto mais importante que eu quero levantar é que todas as formas de amianto, inclusive o crisotila, causam uma série de doenças malígnas e não malígnas”, ressaltou. O professor disse que não falaria apenas de suas próprias opiniões, mas sobre o que organizações internacionais consideram sobre o assunto, tais como a Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, a Organização Internacional do Trabalho e a Organização Munidial da Saúde, entre outras. “Todas as formas de amianto, inclusive a crisotila, são perigosas. Chegamos a essa conclusão com base naquilo que estudos científicos nos mostram e não por conta das fontes de financiamento da origem das informações”, salientou.
“Pessoalmente, já testemunhei vítimas de amianto ao longo dos anos. Os meus estudos envolvem culturas de células, órgãos, animais e humanos e eu realizei trabalhos não apenas nos Estados Unidos, mas na China, Siri Lanka, Israel, Índia e outros países, com dezenas de publicações sobre o perigo do amianto”, disse. Segundo ele, “todos os tipos de amianto foram reconhecidos como carcinogênicos”. “Da mesma forma, há outros tipos de amianto carcinogênicos como benzeno, benzila e muitos outros”, afirmou.
De acordo com o professor, com exceção do amianto, todos esses compostos são rapidamente metabolizados pelo organismo, levando ao desenvolvimento de câncer que ocorre décadas após a exposição. “As fibras de amianto podem se movimentar no organismo, muitas delas permanecerão para sempre nos pulmões, na pleura, nos rins, em qualquer outro órgão e, com o tempo, causar o câncer, até atravessam a placenta durante a gestação dos bebês”, acrescentou.
Quanto ao uso de cimento de amianto, ele revelou que há um estudo da Noruega mostrando um aumento de câncer gastrointestinal em indivíduos que consumiram água de cisternas de amianto. Apesar de apresentar muitas informações que são fontes de pesquisa em todo o mundo, Arthur Frank considerou que a ausência de dados não significa ausência de doenças.
“É verdade que mais de 55 países baniram totalmente o uso do amianto em todas as suas formas e outros países adotaram restrições”, informou. “Parece haver substitutos adequados ao amianto. Não há necessidade de continuar a usar amianto nesse mundo”, ressaltou o professor.
“Esperamos que esta Corte Suprema reconheça os perigos do amianto, inclusive o da crisotila, e que o Brasil se una aos países civilizados que baniram o uso do amianto como uma das melhores e maiores ações que podem ser feitas em favor dos seus semelhantes: banir qualquer elemento contendo amianto e que possa levar ao câncer”, concluiu.
Fonte: Supremo Tribunal Federal (STF)
EcoDebate, 04/09/2012
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Estudo aponta que tomografia computadorizada é mais eficaz que cateterismo para o diagnóstico de doença coronária


Um estudo internacional, que conta com a participação do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e de instituições de outros sete países, apontou que o exame em tomografia computadorizada de 320 cortes (TC 320) pode diagnosticar com mais precisão quais as pessoas que apresentam um quadro de dor torácica, sem diagnóstico de infarto, que vão necessitar de tratamento invasivo tal como uma angioplastia cardíaca ou uma cirurgia, procedimentos utilizados para restaurar o fluxo normal de sangue para o coração comprometido por uma obstrução nas artérias do órgão.
Atualmente, segundo o Incor, esse diagnóstico é feito com a utilização de dois exames: o cateterismo, que serve para identificar a existência e grau de obstrução das artérias do coração e a cintilografia com stress, que avalia se a obstrução está impedindo a chegada de sangue ao músculo cardíaco. No entanto, esses dois exames expõe o paciente a um maior nível de exposição à radiação e a risco de complicações. A utilização da TC 320 reduz até a metade a radiação a que ele é exposto em comparação aos outros dois exames.
Em entrevista à Agência Brasil, o coordenador da pesquisa no Incor e especialista em diagnóstico por imagem do hospital, Carlos Rochitte, disse que há outras vantagens na utilização da TC 320. “Com essa técnica, é um único exame, não invasivo, de 20 minutos”, falou.
Além disso, o custo do exame feito com a TC 320 é menor. De acordo com o Incor, o custo do cateterismo gira em torno de R$ 8 mil (R$ 6 mil pelo exame e mais R$ 2 mil de honorários médicos) e, da cintilografia com estresse, R$ 1,9 mil. O custo da tomografia computadorizada de 320 cortes fica em torno de R$ 3,3 mil.
Pessoas com dor no peito, mas não estão sofrendo um ataque cardíaco, formam o perfil do paciente que poderá se beneficiar do exame com a TC 320. “O paciente (indicado para o exame), basicamente, é aquele que tem suspeita forte de doença coronária, de meia idade, com colesterol alto, que fuma”, falou.
O estudo, que teve início no final de 2009, foi realizado em 16 hospitais de oito países e tem a coordenação da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. “A importância do estudo é justamente o de poder identificar o paciente que realmente precisa ser tratado. Esperamos selecionar melhor os pacientes”, ressaltou o médico.
Rochitte não sabe estimar em quanto tempo esse exame poderá ser utilizado pelos hospitais brasileiros para diagnosticar uma doença coronária. “No Brasil, o InCor e o Einstein (Hospital Israelita Albert Einstein) têm esse equipamento e condições de fazer imediatamente. Os outros hospitais vão depender de se atualizarem ou de adotarem o protocolo para os equipamentos que contam no momento. Um dos projetos nossos para o futuro é de tentar expandir esse protocolo para os equipamentos que estão mais disponíveis como o TC 64 (que, segundo o Incor, trata-se de uma geração anterior do equipamento e está disponível praticamente em todos os hospitais de primeira linha públicos e privados do país)”, explicou.
O médico também vê uma possibilidade forte de que a realização desse exame possa ser coberta futuramente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Esperamos poder colocar isso no SUS o mais rápido possível”, disse.
Os 381 pacientes que participaram do estudo, 99 deles do Incor, vão continuar sendo acompanhados pelos pesquisadores por um prazo de cinco anos.
Reportagem de Elaine Patricia Cruz, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 04/09/2012
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Etanol e biodiesel: Brasil exporta contradições


 Que razões levariam o Brasil – maior produtor mundial de cana-de-açúcar, matéria prima do etanol, e segundo maior produtor da soja, utilizada na composição do biodiesel – a investir em plantações em outros países?
cortador de canaPara Sérgio Schlesinger, que realizou o estudo Cooperação e Investimentos Internacionais do Brasil: a internacionalização do etanol e do biodiesel, para o Núcleo Justiça Ambiental e Direitos da FASE, o estímulo do governo brasileiro à produção de etanol e biodiesel em outros países e regiões tem por objetivo “assegurar aos países importadores alternativas aos produtos brasileiros, desfazendo a hipótese de que possa vir a se formar um novo cartel de países produtores de combustíveis e, assim, viabilizando o reconhecimento do etanol e do biodiesel como commodities internacionais”.
Os dados surpreendem, por exemplo, ao mostrar que é pequeno o número de empresas brasileiras potencialmente beneficiárias na produção de etanol na África. As maiores interessadas, escreve Schlesinger, seriam transnacionais que operam também no Brasil e cuja participação não se dá, necessariamente, a partir de suas filiais aqui instaladas. Conclusão: o Brasil seria correia de transmissão aos interesses destas empresas em outros países do sul.
O livro apresenta um mapeamento de ações do Governo Federal e da Petrobras Biocombustíveis que mostra interesses, intenções e estratégias brasileiras no crescente papel de cooperação e investimentos internacionais no que diz respeito à produção desses combustíveis em áreas da América Latina e da África.
A preferência pelos estados africanos está relacionada à disponibilidade de terras gratuitas ou arrendadas a preços simbólicos, assim como à baixa organização social, refletida em ausência de legislação adequada para enfrentar a ocupação das terras pela monocultura. Para o autor, os investimentos em Moçambique são emblemáticos. O Brasil exporta para aquela nação políticas públicas de combate à fome e apoio à agricultura familiar assim como o modelo de agricultura que ocupa mais de dois terços do cerrado. Assim, o estudo prevê “consequências sociais e ambientais bastante conhecidas no Brasil” referindo-se a replicação dos danos causados pelo monocultivo ao cerrado brasileiro nas savanas africanas.
Saiba mais lendo o estudo completo a seguir: http://www.fase.org.br/v2/pagina.php?id=3758
* Colaboração de Lívia Duarte, FASE, para o EcoDebate, 04/09/2012
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sarandi - Triplo homicídio é registrado no interior do municípi

Por volta das 22 horas desta segunda-feira (3), equipes da polícia encontraram três vítimas de assassinato na propriedade de Augusto Paulo Baratto, 71 anos, na localidade de Ati Açu, interior de Sarandi/RS.
Triplo homicídio em propriedade rural em Sarandi foi descoberto por familiar<br /><b>Crédito: </b> tompson boniatti / norte rs / cp
Residência de Augusto onde ocorreu o triplo-homicídioOs corpos de Augusto e de Luiz Gandini, 54 anos, foram encontrados fora de casa. A esposa de Augusto Eloisa Petri Baratto, 68 anos, foi encontrado no porão da residência visto que a mesma buscou refugio mas foi atingida por um tiro no braço e um tiro fatal também de curta distância..
Todas as vítimas foram mortas a tiro de escopeta calibre 12 a curta distância.
O veículo da família, um VW Fox de cor prata, placas ILT4064 de Sarandi/RS não estava no local, sendo que, possívelmente, foi roubado pelos assassinos e ainda não foi recuperado.
A Perícia (IGP) foi acionada e compareceu ao local dos fatos. A investigação ficará a cargo da Delegacia de Polícia Civil de Sarandi/RS.
O crime ocorreou possivelmente por volta das 14 horas de segunda-feira (3). A principal suspeita da Polícia Civil é que o crime tenha sido motivado por vingança.
Os tiros a curta distância de espingarda indicam que o autor dos disparos possa ter sido de confiança de Augusto.
Visto que Augusto mantinha fama de “valentão” e desconfiado. Sendo que na época das disputas políticas e por terra, Augusto foi responsável por proteger e dar cobertura a pessoas envolvidas.
Não está descartada a possibilidade de latrocínio - roubo seguido de morte.
Fonte: 14ª Delegacia PRF - Posto de Seberi - RS / Polícia Civil / NorteRS
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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Estudo aponta que 3,7 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola no Brasil

Todas as crianças na escola em 2015 - Iniciativa Global pelas Crianças fora da Escola
Dado consta de estudo que UNICEF e Campanha Nacional pelo Direito à Educação lançam na última sexta (31/8)O relatório Todas as crianças na escola em 2015 – Iniciativa Global pelas Crianças fora da Escola mostra também que quase 3,8 milhões de alunos nos anos iniciais do ensino fundamental correm risco de deixar a escola.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Campanha Nacional pelo Direito à Educação lançam hoje o relatório Todas as crianças na escola em 2015 – Iniciativa global pelas crianças fora da escola.
O estudo faz uma análise do perfil das crianças e adolescentes fora da escola ou em risco de evasão no Brasil e aponta as principais barreiras que levam a essa situação. Além disso, apresenta uma análise das principais políticas públicas de enfrentamento à evasão e ao abandono escolar e faz uma série de recomendações.
A análise do relatório é baseada em estatísticas nacionais. Segundo a Pnad/2009, cerca de 3,7 milhões de crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos de idade estão fora da escola no Brasil. Desse total, 1,4 milhão tem 4 e 5 anos; 375 mil, 6 a 10 anos; 355 mil, 11 a 14 anos; e mais de 1,5 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos. O Censo 2010 confirma essa situação.
Um dos principais fatores de risco para a permanência das crianças na escola é o fracasso escolar, representado pela repetência e abandono que provocam elevadas taxas de distorção idade-série. Mais de 3,7 milhões alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental encontram-se com idade superior à recomendada para a série que frequentam. Em termos absolutos, as regiões com maior número de alunos em risco de abandono são o Nordeste (1,7 milhão de crianças) e o Sudeste (pouco mais de 1 milhão). Em termos proporcionais, as regiões com mais estudantes em risco são o Norte (18,33%) e o Nordeste (17,68%).
Os efeitos da desigualdade na educação – As maiores desigualdades se verificam quando se leva em consideração a raça ou a etnia e a renda familiar das crianças em risco de abandono. Enquanto 30,67% das crianças brancas (1,6 milhão) têm idade superior à recomendada nos anos finais do Ensino Fundamental, entre as crianças negras a taxa é de 50,43% (3,5 milhões).
O percentual de crianças de famílias com renda familiar per capita de até ¼ do salário mínimo com idade superior à recomendada chega a 62,02%. Já nas famílias com renda familiar per capita superior a dois salários mínimos, a taxa é de 11,52%.
Dos adolescentes com idade entre 15 e 17 anos, mais de 1,5 milhão estão fora da escola (14,8% dessa população). O maior contingente em termos absolutos está no Nordeste, com 524 mil adolescentes; em seguida, vem a região Sudeste, com 471 mil. Em termos proporcionais, a região com mais adolescentes de 15 a 17 anos fora da escola é a Sul (17,1%), seguida da Centro-Oeste (16,7%).
Em relação à Educação Indígena, os índices educacionais têm melhorado nos últimos anos, mas há ainda barreiras a ser superadas. Uma delas é a ampliação da oferta de Ensino Médio. As matrículas nessa etapa de ensino não chegam a 6% do total da Educação Indígena no País.
Educação na Zona Rural – Um dos maiores desafios para a universalização de toda a Educação Básica é a grande dificuldade de acesso de professores e alunos às escolas de áreas rurais, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. De acordo com dados do Censo Escolar 2009, cerca de 65% dos alunos matriculados em escolas rurais no Brasil não são atendidos por sistemas de transporte escolar público.
Além disso, muitos currículos estão desvinculados da realidade, das necessidades, dos valores e dos interesses dos estudantes residentes no campo.
As taxas de distorção idade-série nas zonas rurais das regiões Norte e Nordeste chegam a ser duas vezes maiores que as das regiões Sul e Sudeste.
Em razão desses problemas, a escolaridade da população rural é muito menor que a da população urbana. De acordo com dados da Pnad 2009, as pessoas que vivem nas cidades têm, em média, 3,9 anos de estudo a mais que aquelas que vivem nas zonas rurais.
Barreiras para o direito de aprender – A pesquisa demonstrou que o trabalho infantil e o atendimento inadequado ou inexistente às crianças e aos adolescentes com deficiência são algumas das barreiras que impedem que todas as crianças e todos os adolescentes estejam na escola e tenham assegurado o seu direito de permanecer estudando, de progredir nos estudos e de concluir a Educação Básica na idade certa.
O relatório também identificou o atraso escolar como um dos principais fatores de risco para a permanência na escola das crianças em situação de distorção idade-série decorrente de repetência e abandono. Os alunos com idade superior à recomendada para a série (dois anos ou mais de atraso) que frequentam os anos finais do Ensino Fundamental somam mais de 5 milhões, de acordo com Pnad 2009, representando 41,87% do total de alunos e alunas nesse segmento do Ensino Fundamental.
Políticas e programas existentes – No Brasil, políticas e programas vêm sendo desenvolvidos por diferentes esferas do poder público para superar as barreiras que ainda impedem o pleno atendimento das necessidades educacionais das crianças e dos adolescentes. Alguns programas são voltados para a qualidade do ensino e o financiamento, como os de formação de professores e o Fundeb. Outros, como o Bolsa Família e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), condicionam o recebimento do benefício à frequência à escola.
Recomendações do Relatório - Uma das principais constatações do relatório é a importância da intersetorialidade das políticas públicas para assegurar a universalização e a indivisibilidade dos direitos da criança. Por exemplo, somente políticas intersetoriais poderão garantir a inclusão, a permanência e a aprendizagem de crianças e adolescentes com deficiência, dos meninos e meninas egressos ou em risco de trabalho infantil, ou das crianças e adolescentes abrigadas e em medidas socioeducativas.
Além disso, é preciso eliminar da cultura escolar a naturalização da repetência, da evasão, da não alfabetização na idade certa e da não aprendizagem. Para isso, um bom caminho consiste em programar processos de atenção individualizada e de avaliação contínua.
A valorização do profissional de educação – que envolve remuneração adequada, plano de carreira e capacitação constante – é condição indispensável para a garantia da qualidade da educação.
Iniciativa Global pelas Crianças Fora da Escola - O relatório integra a Iniciativa Global Out of School Children (Pelas Crianças Fora da Escola), do UNICEF e Instituto de Estatística da UNESCO (UIS). A iniciativa analisa a exclusão e os riscos de abandono escolar em 25 países. Na América Latina e Caribe, participam Brasil, Colômbia e Bolívia. No Brasil, vem sendo desenvolvida em parceria com a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, rede da sociedade civil que atua pela efetivação do direito constitucional à educação no País.
Hoje também está sendo lançado um relatório regional com a análise da situação nos países da América Latina e do Caribe.

Todas as crianças na escola em 2015 – Iniciativa global pelas crianças fora da escola:Relatório completo


EcoDebate, 03/09/2012
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Cientistas descobrem substância natural com ação anti-inflamatória no combate à esclerose múltipla


Planta nordestina para conter a esclerose múltipla – Cientistas descobrem substância natural com ação anti-inflamatória no combate ao mal autoimune. Em experimentos com ratos, o avanço do mal degenerativo foi contido significativamente após a administração oral do produto
Pesquisadores brasileiros publicaram na revista internacional Biochemical Pharmacology estudos que indicam o potencial terapêutico de um produto natural isolado de uma espécie típica do Nordeste brasileiro: a Euphorbia tirucalli, conhecida popularmente como avelós. O constituinte isolado é chamado euphol, e, segundo Rafael Cypriano Dutra, um dos cientistas, tem “expressiva atividade anti-inflamatória e imunomoduladora” em modelo experimental de esclerose múltipla em camundongos. Autoimune, a doença compromete o sistema nervoso central. Matéria de Elian Guimarães, no Correio Braziliense, socializada pelo ClippingMP.
A descoberta, segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, ainda é muito inicial para ser considerada uma revolução terapêutica no tratamento de pacientes, principalmente pelo fato de que o desenvolvimento de uma substância até sua transformação em medicamento vendido em farmácias demora em média de 10 a 15 anos e obedece a várias etapas.
Durante a pesquisa, ficou demonstrado que o euphol inibe significativamente o desenvolvimento da doença em camundongos quando administrado por via oral. Além disso, a substância bloqueia seletivamente as células que induzem à doença. Ou seja, o euphol foi capaz de inibir os linfócitos (glóbulos brancos do sangue), que destroem a bainha de mielina. É ela que reveste os neurônios e torna a transmissão nervosa mais eficaz e rápida, permitindo que as mensagens do cérebro cheguem ao seu destino em todo o corpo. Consequentemente, os animais tratados com o euphol não apresentaram os sinais clínicos da doença.
Um dos tipos de esclerose é a lateral amiotrófica (ELA), que afeta principalmente os neurônios motores, causando atrofia muscular por desenervação, sem a participação das células do sistema imunológico, como no caso da esclerose múltipla. Além disso, a principal causa da ELA são os fatores genéticos. “Por essa razão, para sabermos se o euphol poderá auxiliar no tratamento da esclerose lateral amiotrófica, outros estudos serão necessários”, pondera Dutra.
A esclerose múltipla — que atinge áreas do cérebro, do cerebelo, do tronco encefálico e da medula espinhal, afetadas por inflamação e posterior aparecimento de cicatrizes (escleroses) — ainda não tem cura e, como é considerada uma doença crônica e degenerativa, seu tratamento torna-se extremamente caro, o que muitas vezes dificulta a adesão dos pacientes, explica Rafael Dutra.
“Além disso, hoje existem diferentes tipos de medicamentos disponíveis no mercado para tratar os sintomas associados à esclerose múltipla, entre os quais posso destacar os interferons (IFNs), alguns anticorpos monoclonais, e, mais recentemente, os fármacos orais. No entanto, no momento, não temos como estimar um valor comercial para o euphol.”
Os interferons (IFNs), administrados por meio de injeções diárias, custam entre R$ 580 e R$ 1.056. Medicamentos como o Copaxone ou Glatirâmer, com dose subcutânea diária, custam em torno de R$ 5 mil a caixa com 28 ampolas.
Linhas de pesquisa
As pesquisas iniciais com o avelós partiram do empresário cearense Everardo Ferreira Telles, do grupo Ypioca, que decidiu investir no efeito antitumoral dos constituintes presentes no látex do avelós amplamente usado na medicina popular.
Durante os estudos iniciais, o farmacêutico Luiz Francisco Pianowski isolou os diferentes constituintes presentes no látex, entre eles o euphol.
A partir desse momento, diferentes linhas de pesquisa surgiram: investigação dos efeitos antitumorais dos constituintes isolados do látex do avelós, chamado de AM10, investigação dos efeitos analgésicos do euphol e avaliação dos efeitos anti-inflamatórios e imunomoduladores do euphol no modelo experimental de esclerose múltipla.
Rafael Cypriano Dutra, que desenvolvia projeto de doutorado no laboratório do professor João Batista Calixto, se interessou por entender os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da doença. “Isso significava um desafio pois, até aquele momento, nenhum de nós tinha experiência com o novo modelo. Porém, depois de padronizarmos o modelo experimental de esclerose múltipla em camundongos, foi possível realizarmos novas pesquisas com diferentes compostos, nesse caso o euphol”, explica Dutra.
Além de Dutra, participaram do estudo publicado na Biochemical Pharmacology João Batista Calixto, também da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e o farmacêutico Luiz Francisco Painowiski, presidente da Kyolab, em Campinas, assim como alunos de iniciação científica e de pós-graduação em farmacologia da UFSC.
A ideia inicial do projeto surgiu no primeiro semestre de 2010. Em agosto do mesmo ano, o projeto foi contemplado com uma bolsa de iniciação científica do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), cedida à acadêmica do curso de graduação em farmácia da UFSC Paula Roberta de Cezaro de Souza.
De agosto de 2010 a julho de 2011, o trabalho foi desenvolvido pela acadêmica, assim como pelos outros alunos de pós-graduação em farmacologia, sob a coordenação dos pesquisadores. Em novembro do ano passado, o manuscrito foi submetido à revista internacional Biochemical Pharmacology e em janeiro deste ano o trabalho foi aceito para a publicação.
EcoDebate, 03/09/2012
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Consumidor doméstico amplia mercado de energia eólica no país




eólicaO crescimento do mercado de energia eólica no país e a nova resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que permite a microgeração por consumidores domésticos, estão movimentando os negócios de pequenos e médios fornecedores do setor. No Ceará, um dos Estados com grande potencial de força gerada pelos ventos, empresas como Mercurius, Satrix e Transfortech expandem a atuação para outros Estados, investem na produção de equipamentos mais potentes e na ampliação da cartela de serviços. A Satrix, com 30 funcionários, faturou R$ 2 milhões em 2011 e planeja chegar a R$ 8 milhões até o final do ano. Por Jacilio Saraiva, no Valor Econômico, socializado pelo ClippingMP.
Com sede em Fortaleza, a Mercurius Engenharia se especializou na construção de parques eólicos. Faz obras civis, acessos e vias dentro das usinas. Em 2011, faturou R$ 80 milhões e a previsão é faturar R$ 100 milhões em 2012. “Vamos ter um incremento de projetos nas carteiras de energia eólica e de incorporações”, diz o diretor Dante Bonorandi, que já entregou 18 obras em todo o país.
Para captar mais clientes no mercado de energia renovável, Bonorandi reforçou os contatos diretos com fornecedores e participa de eventos e feiras do setor. Em 2012, espera investir cerca de 5% do faturamento na compra de equipamentos, capacitação técnica dos funcionários, consultorias e na expansão da área de TI (tecnologia da informação). O valor é quase o dobro do que foi aplicado em 2011.
O empreendedor paulista José Aparecido Cardoso abriu no ano passado uma prestadora de serviços em Maracanaú (CE), de olho no crescimento dos parques eólicos do Estado. Uma das tarefas da Transfortech é realizar a troca do óleo lubrificante das caixas de engrenagem dos aerogeradores, em uma altura de quase 100 metros. Tem clientes como CPFL Renováveis, GE e Alstom.
A empresa de 22 funcionários faturou R$ 945 mil em 2011 e planeja fechar 2012 com R$ 2,5 milhões no caixa. A receita do empresário para conquistar grandes contas é executar serviços dentro dos prazos e horários estabelecidos, além de manter funcionários com experiência no setor. “Montamos uma unidade em João Câmara (RN), com investimentos de R$ 400 mil, para atender os parques de energia eólica da região, que reúnem cerca de 2,4 mil aerogeradores”.
Este ano, a empresa ainda fez parcerias com duas companhias de geradores eólicos para oferecer especialistas em torres, troca de pás e motores. Segundo Cardoso, os investimentos no negócio são, geralmente, alimentados com recursos próprios. “Somente agora estamos tentando fazer algum tipo de empréstimo, mas é sempre muito difícil. As exigências são grandes e temos de dar garantias para obter o financiamento”. Nos próximos meses, a Transfortech deve implantar novos escritórios em municípios cearenses como Aracati e Camocim, no Sul e Norte do Estado, para diminuir o tempo de atendimento aos clientes.
Segundo José Roberto Martins, sócio do Trench, Rossi e Watanabe Advogados e responsável por negócios da área de energia, as empresas de tamanho reduzido do setor também terão oportunidades na área de microgeração. “O Brasil está buscando tecnologia para a fabricação de aerogeradores de pequeno porte, com qualidade e custos competitivos”.
Em abril, a Aneel publicou a resolução normativa 482, que incentiva a microgeração de até 100 quilowatt (kW) e a minigeração de 100 kW a 1 MW de energia eólica. Agora o consumidor já pode utilizar geradores eólicos em casa. A iniciativa deve viabilizar mais investimentos em pequenos geradores, em pousadas e fazendas, dizem os especialistas. “Os consumidores que liberarem energia no sistema de distribuição ainda podem compensar o montante extra no valor faturado pela distribuidora”, explica Martins.
De olho nesse novo nicho, depois de um investimento de R$ 12 milhões, a Satrix, instalada em Eusébio, município da região metropolitana de Fortaleza, passou a entregar aerogeradores de pequeno porte, de até 50 kw, indicados para pequenas fábricas. são pouco mais de 30 equipamentos em funcionamento no Estado.
O empresário pernambucano Marcelo Tavares de Melo, um dos sócios da empresa de 30 funcionários, já pensa em expandir as vendas para Piauí, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, além de Alagoas e Maranhão. Uma torre eólica de pequeno porte, com 1,2 kW de potência, pode custar R$ 26 mil com a instalação. A Satrix faturou R$ 2 milhões em 2011 e pretende alcançar R$ 8 milhões em 2012. “Vamos iniciar a produção de novos modelos, com maior poder de geração, e chegar aos mercados da Bahia e Sergipe em 2013″. A empresa também opera com financiamento dos produtos por meio do cartão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Segundo Rob Grant, CEO global da empresa australiana de energia renovável Pacific Hydro, 80% dos fornecedores que trabalham para a empresa com desenvolvimento de projetos são pequenos e médios negócios. Fornecem torres, consultoria ambiental, análises topográficas, estudos arqueológicos, linhas de transmissão e serviços de manutenção. “Estamos em busca de inovações tecnológicas e logísticas, além de softwares e serviços de TI”. Antes de escolher os parceiros, a companhia analisa o conhecimento dos sócios no setor e planos de crescimento.
EcoDebate, 03/09/2012
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Redução de APPs compromete rios e biomas brasileiros. Entrevista com o biólogo Elvio Sérgio Medeiros


“As mudanças aprovadas no novo Código Florestal atacam dois dos biomas brasileiros mais degradados pelo homem: a Caatinga e o Cerrado”, aponta o biólogo.

Confira a entrevista. 

A aprovação da ementa do Código Florestal que põe fim às Áreas de Preservação Permanente – APPs em rios intermitentes “significa um retrocesso na legislação ambiental brasileira e representa uma ameaça para a integridade ecológica dos rios de forma geral, principalmente para o bioma da Caatinga, que concentra grande parte dos rios intermitentes brasileiros”, assinala o biólogo Elvio Sérgio Medeiros na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, a redução das APPs, além de contribuir para a degradação ambiental, agravará “o quadro socioeconômico da região, por contribuir com o aumento da escassez de água”.
Para ele, as mudanças propostas no texto do Código Florestal representam a “conjuntura econômica brasileira atual, onde a pressão por áreas cultiváveis, necessidade de lucro imediato e respostas a curto prazo para os mercados são prioridade em detrimento a opções menos imediatistas e mais sustentáveis, que permitiriam a manutenção a longo prazo dos recursos naturais e a disponibilização dos seus benefícios para gerações futuras”. E dispara: “O novo Código Florestal é um ataque e uma afronta aos biomas brasileiros, principalmente os que mais precisam de preservação, como o Cerrado Caatinga”.
Elvio Medeiros é graduado e mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal da Paraíba. Cursou o doutorado em Ciência Ambiental pela Griffith University, Austrália. Atualmente leciona Ecologia na Universidade Estadual da Paraíba.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a especificidade dos rios intermitentes? 

Elvio Sérgio Medeiros - Os rios intermitentes representam cursos de água corrente que cessam seu fluxo durante um ou mais períodos do ciclo hidrológico. De forma geral podem ser classificados como temporários ou efêmeros. No primeiro caso, os rios apresentam fluxo de água superficial durante vários meses, enquanto que no segundo o fluxo de água é normalmente limitado a alguns dias ou semanas. Em anos muito úmidos, rios efêmeros podem se tornar temporários e, em períodos de seca, rios temporários podem se tornar efêmeros. Essa variação hidrológica extrema é uma característica natural desses sistemas e tem sido reconhecida como o principal elemento influenciando a estrutura das comunidades aquáticas e o funcionamento geral dos rios intermitentes. Essas características tornam esses rios muito sensíveis à variação climática, funcionando como preditores das respostas do meio ambiente ao aquecimento climático global.

Os rios intermitentes podem representar cursos de água de pequena ordem, ou seja, os riachos de cabeceira. Tradicionalmente, porém, têm sido associados a regiões secas, tanto temperadas, como é o caso nos desertos dos Estados Unidos e da Espanha, quanto em zonas tropicas, como no norte da Austrália, África e no semiárido brasileiro. No semiárido do Brasil, estes rios também estão associados a outros ambientes como lagoas temporárias naturais e os reservatórios construídos pelo homem.
Os rios intermitentes do Brasil fazem parte da paisagem da Caatinga e do dia a dia do homem do Nordeste, servindo como fonte de água, áreas de recreação, cultivo de vegetais e criação de animais. O sertanejo apresenta estratégias de sobrevivência durante os períodos de estiagem, que são resultado direto de suas percepções sobre as variações no fluxo de água desses rios. Estes ambientes fazem parte da cultura do sertanejo sendo citados em sua produção artística e por grandes escritores como Euclides da CunhaJoão Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego e Guimarães Rosa.

IHU On-Line – Como a legislação ambiental vigente aborda a preservação de Áreas de Preservação Permanente – APPs e matas ciliares nas margens dos rios intermitentes e perenes?

Elvio Sérgio Medeiros - A legislação atual não trata especificamente de diferenças entre cursos temporários ou perenes, mas rios intermitentes são mencionados e associados a nascentes. Para a legislação vigente, as florestas e demais formas de vegetação reconhecidas de utilidade às terras que revestem são consideradas APPs. É interessante notar que a concessão feita para desmatamento em rios intermitentes vai de encontro a vários artigos e parágrafos do Código Florestal que descrevem a proteção de florestas e demais formas de vegetação natural situadas ao longo dos rios ou outros cursos d’água. O próprio entendimento de APP fica comprometido porque ele inclui áreas cobertas (ou não) por vegetação, que tenham a função de preservar os recursos hídricos, a paisagem ambiental, sua biodiversidade e fluxo gênico, além de manter aspectos geomorfológicos associados à estabilidade geológica e solo. Matas ciliares de rios intermitentes contribuem com todas essas funções.

IHU On-Line – Como avalia a aprovação da ementa do Código Florestal, que põe fim às APPs em rios intermitentes? A que atribuiu a aprovação desta ementa?

Elvio Sérgio Medeiros - Essa mudança significa um retrocesso na legislação ambiental brasileira e representa uma ameaça para a integridade ecológica dos rios de forma geral (intermitentes ou não), e principalmente para o bioma da Caatinga, que concentra grande parte dos rios intermitentes brasileiros. Representa a indiferença e desrespeito do governo brasileiro com o meio ambiente e sua preservação.

IHU On-Line – Quais as implicações da redução de APPs e matas ciliares para estes rios e o entorno? Esta medida atinge que percentual dos rios brasileiros?

Elvio Sérgio Medeiros - Cerca de 40% da superfície terrestre do planeta é representada por áreas secas e essa proporção vem aumentando em função da expansão dos processos de desertificação causados por mudanças climáticas globais e destruição de florestas. No Brasil, a zona de clima semiárido, que representa o domínio dos rios intermitentes, abriga cerca de 20 milhões de brasileiros. Essa zona participa com cerca de 18% do total da área correspondente às bacias hidrográficas do Brasil, sendo sua maioria composta por cursos de água intermitentes. A redução das APPs e matas ciliares para estes rios vem contribuir para a degradação ambiental e, a médio e longo prazos, vem agravar o quadro socioeconômico da região, por contribuir com o aumento da escassez de água.

As implicações da redução ou remoção das matas ciliares para os rios intermitentes são múltiplas. Do ponto de vista geomorfológico, estas matas, através de suas raízes e cobertura do solo, contribuem para a sustentação do solo marginal diminuindo o assoreamento. Com relação à biodiversidade, estudos indicam que a mata ciliar contribui com estruturas subaquáticas, como galhos, troncos e folhas para o leito do rio, que servem de abrigo e alimento para a fauna e flora aquáticas. Por sua vez, esses sustentam outros organismos aquáticos, como peixes, anfíbios e animais terrestres como aves e pequenos mamíferos, que vêm se alimentar desses animais maiores. Estudos sobre os nutrientes que têm origem na vegetação ciliar mostram que uma parcela importante do carbono de origem ripária entra na rede alimentar aquática e sustenta parte de produção primária e secundária nos rios intermitentes. Além disso, itens alimentares originados na vegetação ciliar, como sementes e insetos terrestres, são consumidos diretamente por peixes e anfíbios. Portanto, é evidente que a destruição ou alteração da mata ciliar terá um efeito importante no funcionamento desses sistemas com consequências para a diversidade aquática.

IHU On-Line – A maioria dos rios intermitentes está no Nordeste. Em sua avaliação, a aprovação desta ementa tem alguma relação com os projetos desenvolvimentistas do governo na região?

Elvio Sérgio Medeiros – Além das implicações para as políticas de desenvolvimento para o Nordeste, este novo texto do Código Florestal representa a conjuntura econômica brasileira atual, onde a pressão por áreas cultiváveis, necessidade de lucro imediato e respostas a curto prazo para os mercados são prioridade em detrimento a opções menos imediatistas e mais sustentáveis, que permitiriam a manutenção a longo prazo dos recursos naturais e a disponibilização dos seus benefícios para gerações futuras.

IHU On-Line – A falta de proteção nos rios intermitentes pode causar impacto nos rios perenes? Alguns pesquisadores mencionam possíveis prejuízos e comprometimento da rede hidroviária. É possível?

Elvio Sérgio Medeiros - Sim. Os rios intermitentes são parte de bacias hidrográficas do Nordeste e também da maioria dos sistemas aquáticos continentais. Seu comprometimento pode alterar, a médio e longo prazos, a dinâmica hidrológica e geomorfológica da bacia como um todo, agravando assoreamento, qualidade da água, dinâmica de nutrientes, limites de variação hidrográfica, entre outros fatores.

IHU On-Line – Qual é a situação dos rios intermitentes do semiárido e da Caatinga? Qual a importância deles na preservação dos ecossistemas?

Elvio Sérgio Medeiros - Os rios intermitentes do semiárido brasileiro são importantes do ponto de vista econômico (como fonte de água e alimento), científico e cultural. Eles fazem parte do ciclo global da água e são ainda sítios de biodiversidade e endemismos.

Dentre os elementos mais importantes para a conservação dos rios intermitentes destaca-se a necessidade de seu reconhecimento como sítios importantes de biodiversidade e que essa biodiversidade está associada aos padrões naturais de variação no fluxo de água. Sem o entendimento de como esses processos atuam na fauna aquática, e com o agravamento do risco ambiental desses rios legitimado pelo governo brasileiro, as estratégias de conservação para o bioma Caatinga serão pouco efetivas.
Muito embora importantes medidas para a conservação do bioma da Caatinga têm sido tomadas, como a criação de áreas de preservação e delineamento de áreas prioritárias para conservação e para pesquisas científicas, o comprometimento das matas ciliares acontece em detrimento ao argumento de que a conservação dos rios intermitentes deve ser ampliada devido à natureza seca do ambiente ao seu entorno.
Estudos enfatizam a necessidade de cinco passos fundamentais a serem considerados para os planos de conservação no semiárido: (1) que estes planos sejam estabelecidos com base no conhecimento científico sobre a estrutura e funcionamento dos rios intermitentes e no papel das variações hidrológicas na biodiversidade aquática e do seu entorno; (2) que áreas de conservação incluam bacias de rios intermitentes importantes, baseado não apenas na diversidade de espécies, mas também nos processos ecológicos que sustentam essas espécies; (3) que os processos sustentando a biodiversidade sejam mantidos em múltiplas escalas da paisagem, e não apenas em escala local; (4) que a integridade natural da zona ripária (e das matas ciliares) sejam mantidas e restauradas; e (5) que, tendo em vista a história de ocupação humana no semiárido, as configurações dos ecossistemas e suas interações com os sistemas sociais humanos devem também ser levados em consideração nos planos de manejo para a região.

IHU On-Line – Quais são hoje os fatores que mais contribuem para a degradação dos rios intermitentes?

Elvio Sérgio Medeiros - Principalmente a partir do século passado, a expansão dos projetos de manejo de águas no Nordeste tem representado uma ameaça à integridade do fluxo de água natural desses sistemas e, consequentemente, sua rica fauna e flora. A tentativa de se mitigar possíveis danos causados por esses projetos é difícil tendo em vista o limitado conhecimento científico sobre os processos ecológicos atuando nas comunidades desses riachos.

A remoção da mata ciliar ou sua substituição por espécies exóticas (como a algaroba, por exemplo) já são ameaças antigas à integridade biológica de rios intermitentes no semiárido do Brasil. A nossa legislação agora apenas institucionaliza e fornece a legitimidade para essas práticas. A remoção e alteração da vegetação natural no semiárido não estão limitadas apenas às matas ciliares. Mudanças nas condições climáticas locais e intensificação dos processos de desertificação têm sido causados e/ou agravados pela ocupação humana, resultando na intensificação das condições de aridez e no aumento do déficit hídrico.
Estudos realizados em outros países, como a Austrália, reconhecem a importâncias das matas ciliares em rios de áreas secas e observam que mudanças na vegetação ripária estão associadas a mudanças deletérias para o funcionamento dos ecossistemas aquáticos, bem com estão associadas à diminuição da saúde dos rios e a algumas mudanças na dinâmica do carbono, elemento fundamental para a produção e manutenção dos sistemas vivos.
No Brasil, hoje inúmeras atividades humanas e práticas de uso da terra vêm alterando a integridade das matas ciliares em rios intermitentes, como a introdução de espécies exóticas de plantas, mudanças no regime de fogo e queimadas artificiais e remoção da mata ripária. Além disso, atividades como a extração de areia e minério, poluição por pesticidas e esgotos, e práticas inadequadas de irrigação também podem ser importantes para a alteração da vegetação ciliar dos rios intermitentes bem como seu regime natural de fluxo de água. Em conjunto, essas atividades aumentam a ameaça de desertificação e salinização do solo.
IHU On-Line – Além desta ementa do Código Florestal, que outros equívocos percebe no texto?

Elvio Sérgio Medeiros - As mudanças aprovadas no novo Código Florestal atacam dois dos biomas brasileiros mais degradados pelo homem: a Caatinga e o Cerrado. O Cerrado é um “hotspot” da biodiversidade mundial, mas apresenta amplas áreas desmatadas e vem sofrendo processo de degradação. Esse bioma é chamado de “caixa d’água do Brasil”, porque por ele passam ou nascem grandes sistemas hidrográficos brasileiros, como o Rio São Francisco, e bacias do Paraná e Tocantins. Apesar disso, o novo texto do Código diminui restrições para o desmatamento de APPs em algumas áreas de Cerrado.

O novo Código Florestal é um ataque e uma afronta aos biomas brasileiros, principalmente os que mais precisam de preservação, como o Cerrado Caatinga. A Caatinga é o único bioma que ocorre apenas em solo nacional, e as políticas atuais contribuem para sua destruição.
(Ecodebate, 03/09/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
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Eleições e Sociedade: Falta empatia, artigo de Montserrat Martins



eleições 2012[EcoDebate] Os candidatos que conheço pessoalmente são melhores que seus programas de rádio e TV, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, pois está na moda demonizar os políticos. Mas essa rejeição tem uma lógica: a inteligência dos telespectadores está sendo subestimada pelos marqueteiros – como sabemos, são eles e não os candidatos que decidem o que é veiculado na TV. E já deu para notar que os marqueteiros da capital gaúcha decidiram apostar na ignorância do público. “Ignorante” é ofensa, mas a palavra literalmente se refere apenas a não conhecer, não estar informado, não a problema de caráter. Uso aqui a palavra no sentido literal, pois é a expressão que melhor descreve a ação dos marqueteiros nessa eleição.
Falta empatia do espectador com as pessoas que vê na telinha, porque o espectador não é tão simplista quanto imaginam. Sem empatia falta envolvimento, emoção, poesia. Meras técnicas publicitárias não parecem autênticas, é preciso haver sintonia entre candidato e mensagem. As pessoas, mesmo as mais simples, querem se sentir respeitadas e valorizadas na sua capacidade de percepção. Mesmo que sejam manipuladas muitas vezes, também se tornam mais desconfiadas dos artificialismos que lhes vendem. Querem ter esperança, querem ser bem tratadas e poder demonstrar seu reconhecimento por quem lhes trata bem, com respeito, como pessoas inteligentes.
Os candidatos individualmente são pessoas capazes de debater os problemas da cidade de modo sério, responsável. Mas algumas de suas formas de campanha estão sendo lamentáveis. Vou citar sete exemplos (democraticamente, pois há sete candidaturas majoritárias na capital), alguns que vi, outros que me contaram. Estão telefonando para residências, importunando as pessoas. Se fala de cursos no exterior sem explicar que foram de poucos dias. No rádio se critica a falta de segurança como se a prefeitura fosse a culpada. Se bate na questão dos CCs como se houvesse partido que não os usasse. Se posa ao lado de crianças de um abrigo, na TV, contrariando a legislação da infância e adolescência. Se promete salários aos professores, que não haveria caixa para cumprir. Se fala em “federalização” de professores, como se fosse o prefeito quem decidisse isso.
Espectadores bem informados precisam de argumentos melhores que estes, mas os marqueteiros já decidiram que isso não importa, porque os bem informados são minoria. Já ouvi dizer com toda a franqueza que “o voto de um ignorante vale o mesmo que o voto de um professor universitário”. Então, contando com a desinformação da grande massa, os estrategistas da propaganda política apelam ao sensacionalismo. A um mês e pouco da eleição, é compreensível a dificuldade em abrir mão destes apelos, ou ter controle sobre as estratégias de comunicação dos próprios partidos, no que querem mostrar ou omitir. Isso ocorre em todos os níveis, até nas declarações sobre doadores. Uma declaração de 450 mil reais em prol de uma candidatura tem como doador o próprio partido, o que levou um jornalista a procurar os doadores do partido, identificando 250 mil doados por uma grande construtora. Muito poucas pessoas, raras mesmo, tem acesso a esse tipo de informação.
É possível democracia com transparência, sem artimanhas, sem demagogia, sem rebaixamento da política?
Esse é um dos desafios do século XXI, de conferir à política um caráter cultural, educativo, participativo, que inclua as pessoas em processos de transformação social, ao invés de simplesmente tratá-las como “massa de manobra”. Isso só é possível se houver uma aposta na informação, uma aposta na inteligência das pessoas – inclusive dos espectadores de rádio e TV. Sem o que a eleição não é capaz de mobilizar esperanças, emoções autênticas, e se torna mais parecida com um jogo, com um Big Brother, que com um evento de vital importância para nossa sociedade.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.
EcoDebate, 03/09/2012
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sábado, 1 de setembro de 2012

Incêndio mata três irmãos em Caxias do Sul

Tragédia no Serrano abala a comunidade

Chamas se alastraram e destruíram moradias e pertences de outras 21 famílias da vila Sapo<br /><b>Crédito: </b> criSTIano becker / corpo de bombeiros / cp
Chamas se alastraram e destruíram moradias e pertences de outras 21 famílias da vila Sapo
Crédito: criSTIano becker / corpo de bombeiros / cp
Incêndio à noite mata três filhos de operária que estava no trabalho

Os irmãos Marieli Cardoso, de 3 anos, Mateus Cardoso, 12, e Maikiel Cardoso Valentim, 17, perderam a vida em um incêndio de grandes proporções que se iniciou às 23h de quinta-feira em uma casa na vila Sapo, no bairro Serrano, em Caxias do Sul. Eles estavam sozinhos na residência e foram encontrados mortos abraçados. No momento da tragédia, a mãe estava trabalhando em uma indústria metalúrgica da cidade.

O primeiro-sargento do Corpo de Bombeiros Cristiano Becker da Silva disse que o incêndio alastrou-se, atingindo outras 21 casas da vila. Ele informou ainda que a residência dos irmãos estaria desde a tarde de quinta sem energia elétrica e, dessa forma, a desconfiança é de que velas acesas para iluminar a casa podem ter provocado o incêndio. Conforme o sargento, a perícia irá apontar o que motivou o início do fogo. A investigação está a cargo da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.

Uma moradora cujos familiares perderam a residência no incêndio disse que, durante o fogo, com a movimentação dos moradores, muitas casas acabaram saqueadas. Segundo ela, foram levados, principalmente, eletrodomésticos e botijões de gás.

O fogo foi controlado por volta das 4h dessa sexta, mas, antes da chegada do Corpo de Bombeiros, vizinhos jogaram água para tentar controlar as chamas. Sete viaturas foram deslocadas ao bairro Serrano, quatro de quartéis, uma do Serviço Municipal de Água e Esgoto, uma da Marcopolo e uma da Neobus. Cristiano Becker da Silva, com 20 anos de atuação no combate a incêndio, disse que nunca viu nada parecido e que não há como não se abalar com o ocorrido.

As famílias atingidas estão sendo amparadas pela Rede de Proteção do Município, coordenada pela Fundação de Assistência Social. Os moradores foram reunidos no início da manhã de ontem, no Cras Leste, e cadastrados. Segundo o secretário executivo da Defesa Civil de Caxias, coronel José Francisco Barden, até que um novo local para realocar os moradores seja definido pela prefeitura, as famílias terão acesso ao aluguel social, no valor de um salário mínimo.

A Escola Estadual Victório Webber, onde Mateus e Maikiel estudavam, suspendeu as aulas ontem. O velório dos três irmãos se iniciou sexta-feira na Igreja Menino Deus, localizada no bairro Serrano. O sepultamento ocorrerá às 9h deste sábado, no Cemitério Nova Vincenza, município de Farroupilha.

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