quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Nova Casa Grande e novas Senzalas, artigo de Gilvander Luís Moreira


Nova Casa Grande e novas Senzalas.
Cidade Grande, nova Casa Grande; Periferias, novas Senzalas.
Gilvander Luís Moreira1
[EcoDebate] Em 1933, Gilberto Freyre revelou a estrutura colonial da empresa Brasil: Casa Grande e Senzala, aquela vivendo à custa dessa. Na e a partir da Casa Grande, o senhor de engenho manda. Na e a partir da Senzala muitos baixam a cabeça e obedecem, e, assim, são escravizados, mas uma minoria, como Zumbi e Dandara, levantam a cabeça, fogem e organiza quilombos como o de Palmares. Passa-se o tempo, mudam-se os rótulos, mas a lógica e a estrutura escravocrata continuam funcionando a todo vapor. Os em-pregados de hoje, quem ganha apenas salário-mínimo são, na prática, os escravos da atualidade. Sobrevivem nas periferias das regiões metropolitanas, as chamadas “cidades dormitórios”, mas, na realidade, são as novas Senzalas que movimentam a nova Casa Grande, a Cidade Grande.
Dia 30 de setembro de 2012, celebramos missa na Comunidade Santa Teresinha, em Justinópolis, Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, com a igreja lotada. Após a missa, pedi que levantasse a mão quem trabalhava em Belo Horizonte. 95% dos jovens e adultos levantaram a mão. “A que hora vocês saem de casa para ir trabalhar?”, indaguei. “Às 4,5 horas”, uns gritaram. “Às 5 horas”, disse a maioria quase em coro. “A que horas vocês chegam de volta do trabalho? “Às 20:00h”, disseram uns. “Às 20:30h”, outros. “Vocês vão dormir a que hora?” “Às 11 da noite.” Outros: “À meia noite.” “Como é a viagem nos ônibus para ir trabalhar e para voltar?” “Os ônibus estão sempre superlotados. As passagens são muito caras. Demora muito a viagem. Deveria ter mais ônibus. É uma canseira danada ter que enfrentar a ida e a volta para trabalhar”, diziam todos.
Ribeirão das Neves é uma das 31 cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, cidade com 350 mil habitantes, a “cidade das prisões”, pois há cerca de 6 mil presos em grandes complexos penitenciários. “Basta de construir prisões aqui na nossa cidade!”, gritam os nevenses indignados.
Pedi para levantar a mão quem tinha nascido na roça, no campo. 80% dos adultos levantaram a mão. É só fazer memória das coisas boas da roça que todos brilham os olhos. Sinal de que o povo sai da roça, mas a roça não sai do povo.
Onde vocês trabalham em Belo Horizonte e o que fazem?”, perguntei. Ouvi uma lista enorme de profissões e serviços: doméstica, cuidadora de idosos, servente de construção, pedreiro, motorista, motoboy, vigia, secretária. “E o salário?” Uns ganham salário-mínimo; outros 1,5 salário; No máximo, 2 salários mínimos. “Vocês têm casa própria?” Uma minoria disse que sim. A maioria sobrevive em favelas, ou na cruz do aluguel ou ainda na humilhação do sobreviver de favor em casa de parentes. Alguns disseram que trabalham em Belo Horizonte a semana toda, dormem nas ruas e voltam para casa na região metropolitana somente nos finais de semana.
Os pobres da cidade e do campo são os que constroem a cidade e o campo. O povo das ocupações urbanas da capital mineira – Comunidades Camilo Torres, Dandara, Irmã Dorothy, Zilah Sposito-Helena Greco e Eliana Silva – cerca de 1.900 famílias, exceto os desempregados e os que estão na economia informal, trabalha nas indústrias, nas empresas, no comércio, nos órgãos públicos do Estado e nas residências das classes média e alta, geralmente em trabalhos manuais, os considerados indignos para quem estudou. Eu conheço mulheres de ocupações urbanas sendo: a) copeiras na UFMG; b) cuidadoras de idosos no Belvedere; c) doméstica no bairro Mangabeiras – bairro mais enriquecido – em casa com 2 pessoas e 32 quartos; d) lavadeiras de ônibus; e) rejuntadora de piso de apartamentos; f) Pedreiros, inclusive, um que, com braço quebrado, estava na ocupação Eliana Silva. Ele me disse: “Há 25 anos ajudo a construir casas e apartamentos para empresas e outras pessoas, mas não consegui ainda adquirir minha casa própria.”; g) Serventes, como o que encontrei chorando na UPA2 de Venda Nova, em BH. Ele já caiu várias vezes de escadas, enquanto trabalhava em construções, porque há 3 anos está numa via sacra de hospital em hospital, de UPA em UPA, precisando fazer uma cirurgia do ouvido que dói constantemente e está todo purulento. Por isso é já está surdo de um ouvido e ouvindo pouco do outro.
O grau máximo dessa violência se dá quando não se reconhece a humanidade do outro. Mais além: O projeto dominante de cidade, hoje, busca alargar cada vez mais os espaços privados e, por isso, reduz os espaços públicos. Exemplos disso não faltam. No Mangabeiras, um dos bairros nobres de Belo Horizonte, em 1 Km2 vivem folgadamente mil pessoas, enquanto no bairro, ao lado, na Serra, onde há o Complexo das favelas da Serra, em 1 Km2 sobrevivem arrochadas cerca de 40 mil pessoas, isso segundo dados do IBGE.
Nesse contexto de nova Casa Grande e novas Senzalas, enquanto o prefeito de BH, o governador de Minas e a presidenta Dilma Rousseff não construíram nenhuma casa pelo Programa Minha Casa Minha Vida para famílias de zero a três salários mínimos na capital mineira, sob a liderança de movimentos sociais populares – como as Brigadas Populares3e o MLB4 – que empoderam os pobres, o povo das Ocupações urbanas de Belo Horizonte está construindo mais de 2.400 casas de alvenaria. Isso em cinco anos de luta. A Comunidade Camilo Torres, já construiu (ou está em construção) 142 casas; Dandara, mil casas; Irmã Dorothy, 137 casas; Zilah Sposito-Helena Greco, 140 casas; Novo Lagedo, cerca de 1.000 casas. Total: 2.419 casas.
E mais: não tem sido só a construção de casas, mas a construção de pessoas, de valores que contrapõem os valores da sociedade capitalista, como a colaboração, a solidariedade, o reaproveitamento, o trabalho coletivo e em mutirão, a produção de alimentos sem agrotóxicos, a troca, a amizade e o cuidado.
É luta por direitos humanos para sair da cruz do aluguel e do sobreviver de favor. Essas conquistas se tornam possíveis graças à conjugação de muitas forças vivas da sociedade, tais como: a) A construção de movimentos sociais populares idôneos e realmente comprometidos com a luta dos injustiçados; b) Organização dos pobres; c) Constituição de uma Rede de Apoio externo que aglutina as melhores forças vivas da sociedade; d) Busca incessante de conhecimento crítico; e) Clareza sobre o projeto de cidade e de campo que queremos; f) Cultivo de místicas libertadoras; g) Solidariedade mútua; h) Trabalho coletivo.
Assim, como resistência à violência da nova Casa Grande, a Cidade Grande, novos “Quilombos” estão sendo construídos. Lutamos por uma cidade que caiba todos, numa convivência multicultural. Buscamos conviver respeitando e aprendendo a admirar e amar o outro, mas de forma diferente. Se aliando ao outro que está na horizontalidade, mas lutando para retirar as armas do outro que está na verticalidade, em uma posição opressora. Na verticalidade, em luta de classe, estão latifundiário X sem-terra, empresas especuladoras na cidade X sem-casa, políticos profissionais X eleitores etc. Na horizontalidade estão os sem-terra, os sem-casa, os indígenas, os homossexuais, os idosos, os portadores de direitos e necessidades especiais, os trabalhadores informais e os que trabalham nas associações e cooperativas e o meio ambiente, dentre outras forças vivas que estão construindo uma nova sociedade de baixo para cima e de dentro para fora, a partir do povo trabalhador, os empobrecidos.
Belo Horizonte, MG, Brasil, 01 de abril de 2012, dia de Santa Teresinha do Menino Jesus.
1Frei e padre da Ordem dos Carmelitas, licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR, bacharel em Teologia pelo Instituto Teológico São Paulo, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; assessor do CEBI, SAB, CEBs, CPT e Via Campesina. Cf. www.gilvander.org.br No facebook: Gilvander Moreira
2Unidade de Pronto Atendimento.
4  Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas. Cf. WWW.ocupacaoelianasilva.blogspot.com
EcoDebate, 03/10/2012
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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Pesquisa coleta dados, para entender como as queimadas na Amazônia estão alterando o clima local e de todo o planeta


Cientistas brasileiros e britânicos sobrevoam a região para descobrir a composição química e as propriedades físicas da fumaça, além de seu impacto sobre o clima (Nasa)

Cientistas brasileiros e britânicos sobrevoam a região para descobrir a composição química e as propriedades físicas da fumaça, além de seu impacto sobre o clima (Nasa)Pesquisa coleta dados sobre emissões de queimadas na Amazônia – Para entender como as emissões de queimadas na Amazônia estão alterando o clima local e de todo o planeta, um grupo de pesquisadores brasileiros e britânicos tem sobrevoado a região desde o dia 12 de setembro.
Com o auxílio de equipamentos de ponta, os cientistas coletam dados sobre a composição química e as propriedades físicas da fumaça emitida. Verificam ainda de que forma os gases e as partículas sólidas lançados no ar modificam a composição das nuvens, alteram a química da atmosfera e interagem com a radiação solar.
“Foram realizadas 35 horas de voo até o momento. Nossa meta é chegar entre 60 e 70 horas até 5 de outubro, quando termina a fase de coleta de dados”, disse Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos coordenadores do projeto South American Biomass Burning Analysis (SAMBBA).
O SAMBBA, resultado de uma parceria entre a USP, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Universidade de Manchester, no Reino Unido, e o serviço meteorológico britânico, conhecido como UK-Met-Office, foi destaque esta semana na sessão de notícias do site da revista Nature.
¬A iniciativa conta com apoio do Natural Environment Research Council (Nerc), da Inglaterra, que ajudou a financiar a aeronave. Os equipamentos usados na coleta de dados foram cedidos por diversas universidades britânicas.
No Brasil, os experimentos estão sendo financiados pela FAPESP, por meio de dois projetos de Auxílio à Pesquisa – Regular, um coordenado por Artaxo e outro por Karla Longo, do Inpe.
“O projeto teve origem em uma cooperação já existente há vários anos entre Inpe e UK-Met-Office para o desenvolvimento de modelos de previsão climática”, contou Longo.
Tanto os pesquisadores britânicos como os brasileiros, acrescentou Longo, sentiam a necessidade de melhorar a previsibilidade dos modelos para a região amazônica. “Ainda não é bem conhecido o impacto das queimadas na previsão do clima”, disse.
Ben Johnson, do Met Office do Reino Unido, destaca que a Amazônia está entre as quatro maiores regiões do globo em termos de queima de biomassa. “Realizamos experimentos semelhantes em países como Canadá e África do Sul. As previsões de nosso serviço de meteorologia abrangem todo o globo e esperamos, com esses dados da América do Sul, melhorar a qualidade das previsões”, disse à Agência FAPESP.
Planejamento
Uma grande equipe de cientistas participa do planejamento das missões de coleta de dados, que abrangem a maior parte da Bacia Amazônica, contou Artaxo.
Para isso, são analisados dados de satélites, projeções feitas pelos modelos climáticos já existentes e informações da Aerosol Robotic Network (Aeronet) – uma rede que, em parceria da USP com a Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, faz medições frequentes da coluna de aerossóis, as partículas sólidas da fumaça, sobre a Amazônia.
“Combinamos todas essas informações para decidir aonde voar e que tipo de voo fazer. Podemos fazer medições a 150 metros de altitude, para analisar as propriedades da fumaça recentemente emitida, ou a 12 quilômetros de altitude, para ver as alterações físico-químicas sofridas pela fumaça envelhecida e transportada pela convecção”, explicou Artaxo.
O avião de pesquisa, um grande jato de quatro motores, é equipado com instrumentos como espectrômetros de massa, monitores de ozônio, gases de efeito estufa e fotômetros de absorção e espalhamento de luz. Há também o equipamento Lidar, um laser que mede a distribuição vertical de partículas de aerossóis a cada segundo.
“Os equipamentos conseguem fazer medidas extremamente precisas e em alta resolução temporal. No caso dos gases de efeito estufa (CO2, CH4, N2O), por exemplo, a margem de incerteza é de 0,1%”, disse Artaxo.
Segundo o pesquisador, estão sendo analisadas tanto as emissões resultantes do desmatamento quanto as relacionadas à prática de queimadas da agricultura e de manutenção de pastos.
“Embora esses dois tipos de queimadas se concentrem em regiões diferentes da Amazônia – desmatamento ao norte, na região do norte do Mato Grosso, e agricultura mais próximo da fronteira com o Cerrado –, as emissões estão relativamente perto e se misturam na atmosfera”, disse.
Um dos objetivos do estudo é avaliar a diferença entre esses dois tipos de emissões e a contribuição de cada um deles para o efeito estufa e as mudanças climáticas na região. “Medimos a quantidade de sulfato, de nitrato e de material orgânico na fumaça em tempo real. Também analisamos as propriedades físicas das partículas sólidas, como tamanho desde 10 nanômetros e os coeficientes de absorção e de espalhamento de radiação. Tudo isso está relacionado com o impacto das emissões sobre o clima e o balanço radiativo terrestre”, disse Artaxo.
O grupo também mede as concentrações de monóxido de carbono, de ozônio, de óxidos de nitrogênio e de compostos orgânicos voláteis. “Existe uma enorme gama de compostos orgânicos voláteis e muitos deles nunca foram medidos em queimadas no Brasil”, afirmou.
Após o término da coleta de dados, terá início o processo de análise da grande quantidade de informações e de aprimoramento dos modelos climáticos que, segundo os cientistas, deve durar cerca de quatro anos.
“Modelos climáticos são representações numéricas dos processos químicos e físicos que acontecem na atmosfera. É necessário, portanto, conhecer bem os fenômenos para construir um conjunto de equações que os representem de forma precisa”, destacou Longo.
Também participam da coordenação do SAMMBA os pesquisadores Hugh Coe e Saulo Freitas, da Universidade de Manchester e Inpe, respectivamente.
Reportagem de Karina Toledo, Agência FAPESP, publicada pelo EcoDebate, 02/10/2012
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COP11: Brasil não tem acordo em pelo menos duas metas de conservação da biodiversidade

Representantes brasileiros não conseguiram acordo em pelo menos duas das 20 Metas de Aichi – diretrizes criadas em 2010 para garantir a conservação da biodiversidade do planeta. Entre os dias 8 e 19 de outubro, o Brasil e mais de 190 países vão apresentar, durante a 11ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, a COP-11, em Hyderabad, na Índia, como estão incorporando estas orientações criadas na última convenção, que ocorreu em Nagóia, no Japão.
COP11Especialistas apostam que o Brasil se destacará no encontro da próxima semana, com resultados mais avançados na adoção e nos debates sobre as metas adotadas pelo governo e setor privado. Mas a delegação brasileira não conseguiu consenso em pontos que devem ter destaque nos debates, como, por exemplo, a definição sobre o percentual mínimo de unidades de conservação que deve ser implantada em cada bioma do país.
A ampliação do sistema de áreas protegidas no mundo deve ser um dos principais debates entre os países signatários do acordo. Pelo documento de Aichi, 17% das áreas terrestres e de águas continentais e 10% das áreas marinhas e costeiras terão de estar protegidas por sistemas de proteção até 2020.
O relatório do Departamento de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente, apresentado na última reunião da Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio), na semana passada, apontou que o país tem, hoje, 16,8% da área terrestre conservada. Mas a proteção da área marinha não ultrapassa 1,5% do total.
“Teríamos que fazer esforço muito grande para aumentar a área preservada em áreas marinhas. O que mais gera divergência é o que é considerado unidade de conservação”, disse Daniela Suarez Oliveira, diretora do Departamento de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente.
Uma das questões ainda sem solução é a abrangência das unidades de conservação divulgadas pelo governo federal. Atualmente, a lista incorpora as unidades estaduais e federais, mas o setor produtivo agrícola pede a inclusão das áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais. “Achamos que é coerente porque tem conservação. Mas existem dúvidas. Com o código [Floretal] estas APPs e reserva legal vão poder produzir espécies exóticas”, explicou Daniela Oliveira.
Mesmo diante das indefinições, o Brasil é um dos poucos países que dispõe de um Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Algumas nações sequer debatem a questão.
Os pontos nos quais o governo brasileiro conseguiu avançar foram resultados de debates abertos promovidos no último ano, com universidades, empresas, pesquisadores e ambientalistas. O Brasil adotou duas frentes de debate: uma delas em consultas públicas sobre as metas de Aichi e outra em encontros com representantes de vários segmentos da sociedade, como governos estaduais, organizações não governamentais, povos indígenas e comunidades tradicionais, entitulado Diálogos sobre Biodiversidade: construindo a estratégia brasileira para 2020.
Nestes debates ficaram indefinidas as estratégias necessárias para cumprir a primeira meta de Aichi, que estabelece que até 2020, as pessoas tenham mais conhecimento dos valores da biodiversidade e das medidas que poderão tomar para conservá-la e utilizá-la de forma sustentável.
“Mas como vamos fazer? Tem consenso sobre esta meta, mas não sobre como viabilizá-la. Em um país como o Brasil será que vamos conseguir que todos saibam [o que é a biodiversidade]?, pergunta Daniela Oliveira.
Reportagem de Carolina Gonçalves, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 02/10/2012
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COP11: Conferência na Índia retoma debates sobre a conservação da biodiversidade

O impasse entre países desenvolvidos e economias em desenvolvimento em relação às metas de preservação do meio ambiente tem novo capítulo agendado para a próxima semana. A partir do dia 8, técnicos, especialistas e autoridades de mais de 190 países retomam os debates sobre a biodiversidade, durante a 11ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP11).
COP11O evento, que será realizado em Hyderabad, na Índia, até o dia 19 de outubro, terá como principal desafio a captação de recursos para a conservação das espécies ainda existentes no mundo. Os signatários da convenção defendem que as economias mais desenvolvidas contribuam financeiramente para a conservação da biodiversidade. Mas, sob alegações baseadas principalmente nos impactos provocados pela crise mundial, os países mais ricos resistem a se comprometer com esse tipo de responsabilidade.
Especialistas acreditam na possibilidade de solução do impasse caso os negociadores conduzam os debates com habilidade. A aposta justifica-se pelo fato de mais de 170 signatários da convenção terem concordado com responsabilidades comuns, mas diferenciadas, em relação à biodiversidade do planeta.
“Os países mais desenvolvidos cresceram à custa da biodiversidade. A convenção entende que eles têm responsabilidade conosco [países em desenvolvimento]”, disse Daniela Suarez Oliveira, diretora do Departamento de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente.
Os recursos captados seriam utilizados pelos países mais pobres para implantar o Plano Estratégico de Biodiversidade, orientados pelas Metas de Aichi. Essas diretrizes foram acertadas durante a Conferência das Partes (COP10), em Nagoya, no Japão, em 2010, a partir de cinco objetivos estratégicos: como envolver governo e sociedade na identificação e no combate às causas fundamentais de perda de biodiversidade, reduzir as pressões sobre a biodiversidade, promover a sustentabilidade, proteger os ecossistemas, espécies e diversidade genética e usar os benefícios de biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
“Esperamos que ajudem [os países desenvolvidos] economicamente a avançar na conservação da biodiversidade para garantir o que temos hoje. Para não chegarmos em 2020 e dizer ‘pois é, não cumprimos e perdemos mais biodiversidade’”, acrescentou Daniela Oliveira, admitindo que a negociação será “árdua”. “Eles [os países desenvolvidos] estão bastante resistentes e não temos ainda valores estabelecidos”.
Atualmente, os países signatários da convenção contribuem anualmente com valores voluntários. Essas contribuições ocorrem em acordos bilaterais em prol da biodiversidade, como o estabelecido entre o Brasil e a Alemanha, ou a partir de parcerias multilaterais que têm o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) como fonte de financiamento.
“Estamos na fase em que vamos tratar da nova entrada de recursos no GEF – quanto vai ser e em que tipo de atividade esse financiamento terá que estar mais focado em apoiar. As Metas de Aichi são ambiciosas e uma delas pede o aumento da contribuição para esse fundo”, explicou.
Na Índia, o governo brasileiro apresentará o resultado dos Diálogos sobre Biodiversidade. O mecanismo de consulta pública e de debates com setores como a indústria e as universidades resultou em uma série de orientações que devem ser seguidas pelo Poder Público e privado, até 2020, como estratégia brasileira para garantir a conservação de espécies em território nacional.
Reportagem de Carolina Gonçalves, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 02/10/2012
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A experiência da agricultura orgânica em Butão, artigo de Marcus Eduardo de Oliveira



agricultura orgânica[EcoDebate] Imaginemos um lugar no mundo em que a taxa de analfabetismo seja zero, onde não haja problemas de mendicância e nem registros de corrupção, em que suas florestas ocupando 80% do território sejam preservadas. Imaginemos um lugar em que o sistema de produção agrícola não faça uso de fertilizantes sintéticos e nem de agrotóxicos, que não use inseticidas, herbicidas, fungicidas, nematicidas ou adubos químicos, que valoriza e faça uso eficiente dos recursos naturais não renováveis, alinhando os processos biológicos à biodiversidade, respeitando o meio-ambiente, revitalizando a natureza em lugar de degradá-la, buscando qualidade de vida, preservando o habitat natural, reciclando os recursos, aplicando os princípios da agroecologia.
Imaginemos um lugar qualquer no mundo que tenha abolido a produção, o consumo público, a venda e a importação de cigarros. Imaginemos um lugar cujo sistema de trânsito seja orientado pelos princípios da boa educação e do respeito dos motoristas aos apitos dos guardas, em lugar dos semáforos. Imaginemos um ponto no mapa, mais precisamente entre as montanhas do Himalaia, entre a China e a Índia em que a medida usada nesse lugar para calcular o progresso nacional seja a Felicidade Nacional Bruta (FNB – Gross National Happiness).
Pois esse lugar existe. Trata-se do Reino de Butão, um pequeno país com uma área de pouco mais de 38 mil km² e com uma população de 700 mil habitantes cuja economia se baseia na agricultura de subsistência, no turismo e na venda de energia hidrelétrica para a vizinha Índia.
Butão tem mostrado ao mundo que é possível alcançar padrões de vida sustentáveis e saudáveis. O objetivo agora, depois do inovador método de medir a qualidade de vida por critérios holísticos e psicológicos baseada nos valores budistas é alcançar até 2020, 100% de agricultura orgânica. Para isso, desde 2007, Butão selecionou um conjunto de técnicos e especialistas para estudar métodos de difusão do cultivo orgânico (30% mais valorizada em relação a convencional) entre os agricultores, além de novas técnicas que tendem a potencializar o uso do solo objetivando a autossuficiência alimentícia.
Na essência, Butão vem demonstrando que é possível produzir valorizando a saúde humana alinhado a um profundo respeito ao meio ambiente. O outro nome disso? Desenvolvimento humano sustentável, ou se preferirem: valorização da vida!
Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba prof.marcuseduardo@bol.com.br
EcoDebate, 02/10/2012
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Agroecologia X Agronegócio: a resistência contra o poder



A agroecologia é um sistema de produção agrícola alternativa que busca a sustentabilidade da agricultura familiar resgatando práticas que permitam ao agricultor pobre produzir sem depender de insumos industriais como agrotóxicos, por exemplo. – Charge por Latuff, no Humor Político

A agroecologia é um sistema de produção agrícola alternativa que busca a sustentabilidade da agricultura familiar resgatando práticas que permitam ao agricultor pobre produzir sem depender de insumos industriais como agrotóxicos, por exemplo. – Charge por Latuff, no Humor PolíticoEm 2001, a previu que demoraria 60 anos, seguindo o ritmo atual, para acabar com a fome no mundo. O poder dominante do agronegócio vende a ideia de que está matando a fome do mundo, como se a distribuição de alimentos fosse gratuita e generalizada. O que é uma mentira histórica. As culturas de exportações, como soja, cana, café sempre acabaram com as comunidades tradicionais de agricultores familiares, parceiros, ou trabalhadores rurais.
O artigo é de Najar Tubino e publicado por Carta Maior, 28-09-2012.
Esta é a história da luta dos novos guerreiros e guerreiras da humanidade. Não, tradicionais guerreiros armados. No caso, as armas são alimentos produzidos sem veneno, respeitando os princípios fundamentais dos sistemas naturais, não degradando o solo, aniquilando matas na beira dos rios ou no interior das terras, conservando as diversas formas de vida e, principalmente, conseguindo sobreviver. Mesmo sendo considerados os pobres do mundo. As estatísticas da ONU sempre apontam o um bilhão de pessoas que passam fome, concentradas basicamente em sete países – Bangladesch, Indonésia, Etiópia, Índia e China, os principais. Também registra as populações que não tem saneamento básico, atinge um número superior a 2,5 bilhões. Em 1974, uma comissão de pesquisadores e autoridades mundiais previa que era possível acabar com a miséria em uma década.
Em 1996, a ONU decidiu estabelecer uma meta menos ambiciosa: reduzir o número pela metade até 2015. Faltam três anos, e a percentagem dos famintos não caiu dos quase 15% da população mundial. Em 2001, a FAO, organismos da ONU para agricultura e alimentação, previu que demoraria 60 anos, seguindo o ritmo atual, para acabar com a fome no mundo. É também conhecida a política expansionista do modelo agroindustrial mundial, que prevê necessidade de aumentar a produção em até 60%, em face do aumento populacional – para nove bilhões em 2050.
Significaria, seguindo o mesmo raciocínio, um aumento de mais 120 milhões de hectares, uma área equivalente ao dobro do que os Estados Unidos plantam hoje – 64 milhões de hectares. A pergunta é óbvia: como será a expansão? No modelo industrial, seguindo o coquetel de químicos (fertilizantes), conforme a previsão dos cartéis do agronegócio a venda de fertilizantes aumentará de 120 milhões de toneladas para 180, em 2020.
Mais os agrotóxicos, conforme previsão da Syngenta, maior fabricante mundial, o mercado deverá crescer de US$70 para US$200 bilhões até 2025. O faturamento do próprio grupo deverá saltar de US$11,6 bilhões para US$17 bilhões, crescimento de 46%. Inclui semente e agrotóxico, na verdade é quase a mesma coisa. A planta já contém o veneno, não sobrevive, nem cresce, sem o outro.
Portanto, no manual das sete irmãs agroquímicas – Basf, Bayer, Dupont, Syngenta, Monsanto, entre elas -, não há nenhuma previsão de mudança em suas posturas. Muito pelo contrário, a Monsanto, líder mundial em venda de sementes transgênicas, tem comprado empresas na área de hortaliças, desde 2005. Muito menos o cartel dos processadores e compradores de grãos, reduzidos a quatro grandes grupos – ADM, Cargill, Bunge e Dreyfus, duas delas, Cargill e Dreyfus ainda sob controle dos herdeiros dos fundadores.
Claro, o mundo precisa de 2,3 bilhões de toneladas de grãos, contando milho, trigo e arroz, as três mais produzidas, e depois soja, em menor escala, usada, no modelo industrial, como ração para o gado europeu, galinhas e porcos na China. Também no Brasil, que é o segundo maior produtor mundial, e deve chegar a 80 milhões de toneladas, no próximo ano. Mas não são para a boca do bilhão de famintos, 75% vivendo na zona rural. O índice de “insegurança alimentar”, usando o termo do momento, é 9,3% no nordeste, enquanto a média no Brasil rural é 7%e a urbana 4,3%.
Na América Latina e Caribe atinge 35%, conforme o estudo recente da FAO. Não é uma coincidência: a América Latina produz metade da soja mundial, Brasil e Argentina são especialistas na produção de alimentos, mas o povo que não come, mora ao lado. Acontece que o poder dominante do agronegócio vende a ideia de que está matando a fome do mundo, como se a distribuição de alimentos fosse gratuita e generalizada. O que é uma mentira histórica. As culturas de exportações, como soja, cana, café sempre acabaram com as comunidades tradicionais de agricultores familiares, parceiros, ou trabalhadores rurais que pelo menos mantinham um quintal para plantar o feijão, milho, mandioca e algumas verduras, além da criação de pequenos animais, para o sustento da família.
O planeta tem uma área de 8,7 bilhões de hectares. Dois bilhões já foram detonados desde a segunda guerra mundial. Estão degradados por erosão, perda de solo, perda de nutrientes, perda da vegetação e, por último, perda de espécies naturais dos ecossistemas. Um hectare de terra do cerrado, por exemplo, tem 150 toneladas de micro-organismos, que se proliferam na mesma quantidade em que morrem. Não existe solo sem vida microbiana. As leguminosas, inclusive a soja, que fixam nitrogênio no solo, fazem por intermédio de microrrizas, que são associações de fungos e bactérias. O nitrogênio faz parte da atmosfera, mas a agricultura usa o nitrogênio processado do petróleo, ou do gás metano (CH4).
Por isso, o setor agrícola é citado como grande emissor de gases de efeito estufa: pela mudança no uso do solo, pelo nitrogênio liberado dos fertilizantes, pelo metano liberado pelos animais – bovinos, segundo inventário do Ministério de Ciência e Tecnologia, liberam 170 milhões de toneladas por ano. Um boi precisa comer 10% do seu peso vivo de pasto.
O Programa do Meio Ambiente da ONU (PNUMA) calcula que o solo, no planeta, armazena 2,2 trilhões de toneladas de CO2, três vezes mais do que a quantidade na atmosfera. Também já anunciou recentemente que 25% da área agrícola do mundo está degradada pelo uso intensivo da agricultura industrial.
O Brasil tem uma referência dessa degradação. A desertificação, conforme dados do Ministério do Meio Ambiente, já atinge 16% do território, atingindo 1,3 milhão de quilômetros quadrados em 1.488 municípios. E mais de 30 milhões de brasileiros. As perdas de solo alcançam mais de três bilhões de toneladas por ano. Além disso, 1.500 bacias hidrográficas precisam de intervenção. Somente nos estados de SP, PR, MG e MS foram detectadas 2.250 voçorocas (crateras no meio do campo, na beira de estradas). Uma voçoroca carrega uma tonelada de terra por ano. Em Rondonópolis (MT), a terra levada pela água para os córregos e afluentes do rio Taquari, empanturraram o rio de areia, e ele perdeu o sentido, literalmente. Espraiou e invadiu outras áreas. Rondonópolis é a sede história do Grupo Amaggi. As lavouras engoliram as matas ciliares.
Muito interessante também é o estudo que a UNESCO junto com o WorldWatch Institute apresentou na Rio + 10, num dos capítulos do livro “Estado do Mundo”, sobre agricultura: mundialmente os agricultores gastam 10 vezes mais fertilizantes hoje (2002) do que em 1950, com um aumento de três vezes na produção. Também gastam 17 vezes mais em valores com pesticidas (valores deflacionados), entretanto, as perdas na colheita em consequência de pragas continuam as mesmas. Daí a conclusão:
- “Talvez a maior comprovação da disfunção do nosso sistema alimentar seja o fato dos agricultores como grupo serem as pessoas mais pobres do planeta. Dos cerca de 1,2 bilhão ganham um dólar por dia, 75% trabalham e vivem nas áreas rurais da África, América Latina e Ásia”.
Só para acrescentar mais uma dado do estudo: das sete mil espécies de culturas foram domesticadas pela humanidade, apenas 30 espécies proporcionam 90% do consumo global de calorias, sendo que o milho, trigo e arroz são responsáveis por mais de 50%.
A História dos guerreiros
- “ A medida que avança o modelo exportador avançam também o empobrecimento das áreas rurais afetadas. As populações perdem o controle sobre os cultivos e os alimentos tradicionais. E perdem poder aquisitivo para poder comprar alimentos importados, que inundam os mercados a preços subsidiados da agricultura dos países ricos. Esse processo de neocolonização dos sistemas alimentares locais não é uma mera erosão da autossuficiência alimentar. Supõe também o desaparecimento de um modo de vida e uma cultura”. É um trecho do trabalho “Sistema Agroalimentar Globalizado”, de Manuel Delgado Cabeza, do departamento de economia aplicada da Universidade de Sevilha (Espanha).
A partir de 2003-05 terminou a época dos preços baixos dos alimentos. Chegaram a aumentar 57,1% em 2008, quando aconteceram as revoltas no Haiti, Paquistão, México, Senegal e Bangladesch. O Haiti até a década de 1970 produzia todo o arroz que consumia. Depois, em função dos empréstimos dos organismos internacionais, e a pressão pela abertura dos mercados, passou a importar arroz dos Estados Unidos, a preços subsidiados. Em 2008, o Haiti era o terceiro importador de arroz norte-americano. Acabaram com a produção interna do cereal.
No México aconteceu a mesma coisa com o Nafta e a abertura do milho transgênico americano. O país plantava 10 mil variedades de milho. Hoje em dia duas ou três empresas, sócias da Cargill e ADM, casos da Gruma e da Minsa compram todo o milho dos produtores e processam o milho importado. Como o preço subiu 50%, o povo mexicano tem que comprar pão de farinha de trigo, e não a tradicional “tortilla”. No mesmo período 1,3 milhão de camponeses deixaram suas terras. Foram para a periferia das cidades, ou trabalhar ilegalmente na Califórnia.
Manuel Cabeza também relaciona a esquizofrenia do modelo agroindustrial com os números da obesidade no mundo: 396 milhões de obesos e 937 milhões com sobrepeso, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os americanos consomem em média 3.830 calorias por dia – o recomendável é 2.500 para um adulto. Além disso, nos últimos anos o país mais poderoso do mundo enfrentou 13 casos nacionais de contaminação ou de doenças de origem animal – contaminação em alfaces, tomates, couves, pimentão enlatados, pepinos e carne. Mais produtos com resíduos tóxicos importados da China (alimentos frescos), sem contar os casos de peste suína, vaca louca, frango com dioxina, hormônios na cadeia de engorda, ocorridos na Europa.
Na América Latina aproximadamente 17 milhões de camponeses com suas unidades produtivas ocupam cerca de 60 milhões de hectares, corresponde a 34,5% da terra cultivada. São propriedades em média com 1,8 hectare. A África tem cerca de 33 milhões de pequenos produtores, representam 80% de todas as propriedades da região. Com média de dois hectares. Na Ásia são mais de 200 milhões de pequenos produtores de arroz. No Brasil, são mais de quatro milhões de unidades da agricultura familiar.
Eles produzem a maior parte do milho, do feijão, da mandioca, enfim dos alimentos básicos. É a história dos pequenos agricultores e agora agricultoras. Na Índia, cerca de 40% das famílias no interior são chefiadas por mulheres. Esses dados são do professor Miguel Altieri, da Universidade da Califórnia.
“- Pequenos incrementos nos rendimentos destes agricultores que produzem grande parte dos cultivos básicos a nível mundial têm um maior impacto sobre a disponibilidade de alimentos, em escala local e regional, do que os duvidosos incrementos previstos por corporações em grandes monoculturas manejadas com agrotóxicos e com sementes geneticamente modificadas.”
No mundo também existem 37 milhões de hectares cultivados com alimentos orgânicos, sem uso de químicos de qualquer tipo, usando apenas os ensinamentos da agroecologia, onde trabalham 6,5 milhões de pessoas. No Brasil são 7,7 milhões de hectares com mais de 90 mil estabelecimentos registrados. Esse mundo orgânico envolve negócios de US$60 bilhões.
Até a década de 1980, a opção de produzir alimentos sem químicos, mas que envolve outros cuidados, era vista como uma alternativa, ou melhor, uma pequena alternativa. Nas últimas três décadas os projetos se multiplicaram, as experiências se reforçaram, o número de produtos aumentou consideravelmente, e a opção alternativa é uma realidade. Não se trata de produzir alimento sem veneno para quem tem dinheiro para comprar, como já é uma moda entre os países ricos e mesmo entre a classe média alta emergente.
Trata-se da realidade de pequenos agricultores e suas famílias, ou famílias chefiadas por agricultoras que traçaram uma nova etapa nos seus projetos. Principalmente: é uma realidade mundial. Pode ser no semi-árido brasileiro, como nos casos descritos num trabalho da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), citando a organização de produtores na Paraíba, em Pernambuco, na Bahia, ou em Minas Gerais. Ou o caso do MST, que em 2014 completa 30 anos, citando casos do Rio Grande do Sul em 327 assentamentos e mais de 13 mil famílias trabalhando com arroz orgânico – marca Terra Livre e fornecendo para a rede Pão de Açúcar -, sementes de hortaliças, leite, suco de uva e feijão. Produtos comercializados para o Programa de Aquisição de Alimentos ou para o Programa de Merenda Escolar.
Certamente este é um movimento que a mídia brasileira desconhece. O problema, para as elites deste país, é que este povo foi se organizando lentamente, com suas próprias forças. Nos últimos anos os canais com o governo federal foram abertos, e os dois programas citados são exemplos disso. Mas tem muito mais coisa acontecendo e que precisa evoluir. A sistematização de experiências da ANA envolve soberania e segurança alimentar. Mesmo conceito utilizado no vale do Deccan, na Índia, onde cinco mil mulheres trabalham com projetos agroecológicos e de autossuficiência.
Uma coisa é ter um, dois ou três dólares (ou reais) e comprar comida no armazém ou na bodega mais próxima. A outra é ter o alimento em casa e poder inclusive, ganhar uns trocados a mais, vendendo o excedente. Ou trocando por outros produtos. Como diz o relato do grupo de Lagoa do Pau Ferro (Ouricuri-PE):
-“As famílias têm acesso à água e aos alimentos em quantidade e qualidade em todas as épocas do ano, tendo soberania para escolher o que vão plantar e comer. O alimento, inclusive a água, é entendido como um direito básico de todas as pessoas, sendo isto maior e mais importante que o lucro advindo de sua renda como produto”.
O trabalho deles começou com 200 famílias em 2004 e hoje vendem seus produtos na Cooperativa de Produtores Agroecológicos de Araripe. Trabalham com plantas medicinais, produzem xaropes, sabonetes, e a multimistura usando ingredientes locais, ajudou a combater problemas de verminose e de visão das crianças. No Rio Grande do Sul, na região de Erechim, norte do estado, os produtores se reuniram na ECOTERRA.
“- Com esta cultura produtivista, com o passar dos anos, cada vez mais agricultores estão deixando o meio rural e indo para as cidades em busca de uma ‘vida melhor’. Ainda existe uma onda forte que só a tecnificação total das propriedades poderá levar a viabilização dos agricultores, como por exemplo, as integrações (aves e suínos), chamam de parceria. O sistema exclui a biodiversidade da propriedade levando os agricultores a não produzirem mais para sua autossustentação alimentar e passam a comprar fora sua alimentação”.
É o registro da ECOTERRA que, atualmente, comercializa os produtos em feiras diárias na cidade de Erechim e uma regional em Passo Fundo.
A pamonhada na casa da dona Nenê
É um evento no interior do nordeste, realizada em ocasiões especiais, principalmente nas festas juninas. No Polo Sindical da Borborema, envolve mais de 15 municípios no semi-árido da Paraíba, eles usam esse exemplo como encenação teatral. A pamonhada começa com o seu Chico indo buscar o milho pontinha, sementes herdadas do avô, no roçado, foi irrigado com água de cisterna, construída com o dinheiro do sistema de microcrédito comunitário. Colheram verduras na horta, irrigada com água da barragem subterrânea, cultivada usando adubos naturais, enquanto isso, cozinham a galinha de capoeira criada no terreiro, regam as plantas com água da cozinha. O vizinho elogia a diversidade de plantas no quintal e a quantidade de árvores no sítio. Podiam escolher para cozinhar no almoço feijão ou fava. Comeram doce de caju de sobremesa.
Enquanto isso, na casa do seu José Cosme, no agreste da Borborema é dia de plantio, mas não há semente. Vai comprar fora. A mulher compra água no carro pipa, a filha vai à bodega comprar cuscuz para o café da manhã. A terra da família é muito pequena, são obrigados a arrendar um pedaço de um fazendeiro. Cada ano fica mais fraca. Para pagar a bodega e a semente a família foi obrigada a vender o boi, mas antes espera pelo dinheiro da aposentadoria para comprar um novo bezerro.
A experiência da dona Nenê representa as inovações que mais de quatro mil famílias estão realizando desde o ano 2000 na região da Borborema.
Um resumo do que o povo do semi-árido reivindica: “reorientação das políticas públicas para fortalecimento da agricultura familiar, garantindo uma política agrícola que privilegie ações de convivência com o semi-árido em bases agroecológicas, apoio técnico contínuo e de qualidade, linha de crédito adequada e condições de saneamento básico, eletrificação, educação, saúde, moradia e previdência social”. Atualmente o Polo Sindical da Borborema conta com uma rede de 230 fundos já viabilizou a construção de 1.835 cisternas domésticas. Conta com 76 bancos de sementes comunitárias que beneficiam diretamente três mil famílias. Desde 2004 em parceria com a CONAB foram armazenadas 161 toneladas de variedades locais.
O MST, comemorará os 30 anos na Copa do Mundo em 2014, fez um balanço dos 327 assentamentos, em 41 municípios, onde vivem 13.535 famílias. Na região de Bagé, municípios de Candiota, Hulha Negra, além de Livramento, Viamão e as Missões, 200 famílias trabalham com a produção de sementes em 42 grupos. Na safra de inverno (2011) produziram 10 toneladas de hortaliças de 74 variedades, além de 35 toneladas de forrageiras. Na cadeia produtiva do arroz ecológico: 407 famílias, 28 grupos e quatro cooperativas em 12 municípios. Na safra 2011/12 a previsão de colheita era de 285 mil sacas.
Na produção de leite, média de 35 litros por família, 4.400 famílias envolvidas, volume recolhido em Tupã foi de 5,9 milhões de litros, em Hulha Negra e Candiota mais 5,4 milhões e em Livramento outros 5,2 milhões. A comercialização dos produtos é feita para os programas PAA e PNAE. Na merenda escolar atendem 255 escolas na região metropolitana de Porto Alegre, em Livramento em 11 escolas, em Tupã, o Laticínio Santa Maria atende 200 escolas em 11 municípios. A comercialização direta é realizada em quatro feiras em Canoas, região metropolitana, cinco feiras em Porto Alegre, duas em Eldorado, duas em Nova Santa Rita e uma em Viamão. Uma cooperativa de técnicos com 127 profissionais trabalha no assessoramento, ainda mantêm quatro escolas de nível médio e 65 de ensino fundamental.
(Ecodebate, 01/10/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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Os transgênicos estão novamente no banco dos réus


Os transgênicos estão novamente no banco dos réus
Foto da AFP, no Yahoo Notícias

Um estudo francês constata um número maior de tumores e uma mortalidade mais elevada em ratos alimentados com milho geneticamente modificado da Monsanto.
A reportagem é de Marc Mennessier e está publicada no jornal francês Le Figaro, 19-09-2012. A tradução é do Cepat.
As imagens dão motivos para medo: os ratos alimentados com um milho transgênico, largamente utilizado na ração animal há ao menos 10 anos, desenvolveram tumores monstruosos, alguns do tamanho de bolas de pingue-pongue. O fígado e os rins desses infelizes roedores também apresentam graves lesões (necroses, congestões…) e sua mortalidade é duas a três vezes maior.
Estes são os resultados “alarmantes”, segundo seus autores, de um estudo que deverá ser publicado na revista Food and Chemical toxicology e também no Le Nouvel Observateur com o título: “Sim, os OGM são venenos!”. O estudo reaviva os debates sobre a periculosidade real ou presumida dos organismos geneticamente modificados, num contexto em que a França tenta, no momento sem sucesso, proibir essas cultura na Europa.
Sob a responsabilidade de Gilles-Éric Séralini, professor de biologia molecular na Universidade de Caen, os autores desse estudo acompanharam durante dois anos nada menos que 200 ratos que eles distribuíram em nove grupos de 20 indivíduos cada. O objetivo era testar os efeitos de um regime alimentar contendo três doses (11%, 22% e 33% da ração total) de milho transgênico NK603 da Monsanto, que foi tratado ou não com Roundup, herbicida também produzido pela Monsanto ao qual esse milho é resistente. Enfim, três outros grupos de roedores foram alimentados com água que continha doses de herbicidas próximas daquelas comparadas aos animais indicadores alimentados com uma variedade não transgênica, muito próxima (mas não idêntica ou isógena) do NK603 e que não recebeu Roundup.
Os resultados mostram uma taxa de mortalidade mais alta e frequente entre os animais expostos ao OGM e/ou ao herbicida. “Uma vez o período médio de sobrevivência transcorrido, as mortes foram atribuídas ao envelhecimento”, escrevem os autores. Depois deste período, 30% dos machos e 20% das fêmeas do lote indicador morreram espontaneamente”. Mas entre os animais alimentados com OGM, essas proporções chegam “até a 50% para os machos e 70% para as fêmeas”. Segundo este estudo, os tumores mamários, muito significativos, são mais frequentes em todos os grupos expostos ao milho transgênico e/ou ao herbicida, mas as diferenças não são sempre significativas no plano estatístico. Ao contrário, as lesões do fígado são muito mais comuns (de 2,5 a 5,5 vezes maiores), especialmente entres os machos, comparados ao grupo indicador. O aumento é igualmente muito acentuado, mas em proporções menores para as patologias renais.
“Em nosso estudo, os tumores se desenvolveram consideravelmente mais rápidos que no grupo controlado, mesmo se a maioria delas foi observada após 18 meses”, prosseguem os autores. O que é relativamente tardio para animais cuja esperança de vida é no máximo três anos. “Os primeiros tumores grandes detectados apareceram entre o 4 e o 7 mês, respectivamente entre os machos e as fêmeas, o que mostra a inadequação dos testes padrões de 90 dias utilizados para avaliar as culturas OGM e a toxicidade alimentares”, notam ainda os autores.
Avaliação de longo prazo
Segundo Séralini, o milho NK603 até agora só foi testado num período de três meses e é primeira vez que o Roundup é avaliado num longo prazo com seus coadjuvantes. “O crime é que isso não foi testado antes, que as autoridades sanitárias não tenham exigido testes mais longos, ao passo que os OGM já estão sendo comercializados há 15 anos no mundo”, acusa ele.
As reações evidentemente não se fazem esperar. Desde ontem ao meio-dia, os ministros da Agricultura, do Meio Ambiente e da Saúde fizeram saber, num comunicado, que eles vão acionar “imediatamente” a Agência Nacional de Segurança Sanitária (Anses) para averiguar os fatos. Segundo eles, o governo francês está próximo, “em função da opinião da Anses”, de pedir a Bruxelas para que suspenda “urgentemente a autorização de importação na União Europeia do milho NK603”. “Caso os novos fatos científicos forem demonstrados, tiraremos as consequências”, garantiu Frédéric Vincent, porta-voz da Comissão Europeia da Saúde, ao indicar que a Agência Europeia de Segurança Alimentar (Aesa) vai se apropriar do dossiê.
Por enquanto, os cientistas contatados pelo Le Figaro compartilham seu ceticismo em relação ao estudo. “Faltam dados numéricos sobre os tumores e análises bioquímicas, mas também sobre o regime alimentar e o histórico do tronco dos ratos utilizados”, nota o toxicólogo Gérard Pascal. Além disso, contrariamente ao que afirma Séralini, numerosos estudos de longo prazo foram realizados em ratos e animais de criação (vacas leiteiras, suínos, carneiros, aves…) alimentados com OGM. Nenhum deles mostrou diferenças significativas…
(Ecodebate, 01/10/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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