quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Reciclagem de Entulho na Construção Civil, por Adailson Parente, Eduardo Ferreira, Ronaldo Silvio Torres e Wilson Marin Garcia

Resíduos de construção civil, em usina de reciclagem

Resíduos de construção civil, em usina de reciclagem

Adailson Parente¹
Eduardo Ferreira¹
Ronaldo Silvio Torres¹
Wilson Marin Garcia¹
Amanda Rossi Mascaro²
Resumo
O presente trabalho tem por finalidade identificar soluções para melhorar a sistemática de gestão de resíduos sólidos existentes nos canteiros de obras. Com a implantação de uma Gestão Ambiental no canteiro de obras, constata-se a incorporação de benefícios como a melhora nas condições de limpeza do canteiro,diminuição dos acidentes de trabalho,redução do consumo de recursos naturais, redução da geração de resíduos no canteiro de obras,atendimento aos requisitos legais e dos programas de certificação.
O trabalho acompanha a implantação e manutenção do programa de coleta seletiva, o funcionamento do processo de reciclagem de material de demolição e sua transformação em blocos de alvenaria, e a reutilização de material no canteiro de obras. Para alcançar os objetivos do trabalho contribuindo com o desenvolvimento da área de Gestão Ambiental, onde foi empregado técnicas de funcionamento para gestão de resíduos sólidos, coleta seletiva e reciclagem.
Palavras – chave: Construção, descarte, resíduo, programa de gerenciamento de resíduos.
Abstract
The present work has for purpose to identify solutions to improve the systematic of administration of existent solid residues in the construction sites. With the implantation of an Environmental Administration in the construction site, the incorporation of benefits is verified as service to the legal requirements and of the certification programs, gets better in the conditions of cleaning of the stonemason, decrease of the work accidents,reduction of the consumption of natural resources,reduction of the generation of residues in the construction site. The work accompanies the implantation and maintenance of the program of selective collection, the operation of the process of recycling of demolition material and his/her transformation in masonry blocks, and the material reutilização in the construction site. To reach the objectives of the work contributing with the development of the area of Environmental Administration, they will be used technical of operation for administration of solid residues, it collects selective and recycling.
Keywords: construction ,disposal, waste, waste management program.
  1. Introdução
A Construção Civil é reconhecida como uma das mais importantes atividades para o desenvolvimento econômico e social, e, por outro lado, comporta-se, ainda, como grande geradora de impactos ambientais, quer seja pelo consumo de recursos naturais, pela modificação da paisagem ou pela geração de resíduos.
O setor tem um grande desafio: como conciliar uma atividade produtiva desta magnitude com as condições que conduzam a um desenvolvimento sustentável consciente, menos agressivo ao meio ambiente.
A reciclagem de resíduos pela indústria da construção civil vem se consolidando como uma prática importante para a sustentabilidade, atenuando o impacto ambiental gerado pelo setor ou reduzindo os custos.
Antes que conquistasse o prestígio e alcançasse o desenvolvimento que tem hoje, foi preciso que a construção civil percorresse um longo trajeto de seis mil anos, desde que o homem deixou as cavernas e começou a pensar numa moradia mais segura e confortável para a sua família. Já os templos, os palácios e os canais, que foram marcas registradas na Antigüidade, começaram a fazer parte da paisagem cerca de dois mil anos depois do aparecimento das primeiras habitações familiares.
Os portugueses eram hábeis com a madeira, e trabalhavam muito bem com a pedra. Na segunda década do século XVI, antes da construção de pedra, a de madeira era levantada com fechamento de frestas com barro e sambaquis (conchas diversas, arenitos, e detritos dos índios acumulados durante séculos formando pequenos montes). Os sambaquis também foram amplamente usados em calçamento e vias para as carroças transportarem mantimentos e os frutos do extrativismo de paredes de pedras eram feitos da mesma forma. Os arcos sobre as janelas só viriam com o estabelecimento das olarias (locais com formas e fornos para assar tijolos de argilas). Isso, ainda no século XVI, pois logo cedo o Brasil começou a ser fornecedor de matéria prima para a Europa, principalmente de Pau Brasil e os trabalhadores portugueses precisavam de infraestrutura para trabalhar no extrativismo aqui. Toda esta movimentação ocorreu no litoral, próximo a locais que não ofereciam risco de encalhamento para os navios. Os sambaquis não são mais utilizados nas junções, ficando sinais de suas utilizações em algumas igrejas construídas no século XVIII.
Todas as estruturas mais complexas eram baseadas no arco romano, junção de pedras com determinado ângulo até formar arcos. Toras como vigas e pilares também eram muito usados, mas em situações de construções mais simples. Telhados eram de palhas, amarradas sobre tesouras de madeira. Fortes, feitorias e igrejas seguiam as estruturas de pedras descritas acima. Projetistas, marceneiros, pedreiros, ferreiros e outros especialistas faziam parte das missões.
As primeiras obras civis no Brasil começaram na transição do século XIX para o XX. Dos 510 anos do Brasil, quase 400 anos de construções foram autóctones (a própria pessoa constrói sua casa) e os últimos 100 anos foram de transformações. As técnicas utilizadas foram: taipa (barro) de mão e taipa-de-pilão (socada), sendo a mão de obra escrava e do próprio morador.
As cidades passaram a crescer vertiginosamente, numa velocidade nunca antes registrada. Vieram os altos edifícios, as pontes quilométricas, o sistema de saneamento básico, as estradas pavimentadas e o metrô (A HISTÓRIA, 2008).
Na década 90, as construtoras começaram a dar mais importância na qualificação profissional, pois a exigência de produtos finais com mais qualidade começou a difundir-se.
Em 2000 continua ser intensa a preocupação com o produto final porque, “além da sua importância relacionada aos aspectos econômicos e sociais, a construção civil tem uma interferência muito forte na natureza” (VIEIRA, 2006). E essa preocupação torna-se de extrema importância.
Segundo Vieira (2006) diz na sua introdução que “a construção civil é o setor que representa uma importância fundamental na economia brasileira. Possui uma importante participação na composição do PIB, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE representando nos últimos anos uma média percentual em torno de 6% do PIB total do País.”
Segundo o IPEA, com relação aos postos de trabalho sua participação é, em média, de 40% do total da mão de obra da indústria de transformação em geral. Comparando-se com outros setores da indústria de transformação, é o maior de todos eles” (VIEIRA, 2006).
A indústria da construção civil está dividida em três subsetores: edificações, responsável pela construção de edifícios residenciais, comerciais e industriais, públicos ou privados, realizados por empresas de grande, médio e pequeno porte; construção pesada, que objetiva a construção de infra-estrutura de transportes, energia, telecomunicações e saneamento; e montagem industrial, responsável pela montagem de estruturas metálicas nos vários setores industriais, sistemas de geração de energia, de comunicações e de exploração de recursos naturais (VIEIRA, 2006).
Portanto, sendo este o subsetor que mais emprega na construção civil, é justamente nele que o presente trabalho irá dirigir seu maior enfoque, destacando a qualificação profissional.
  1. Origem e produção do entulho
O Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, contempla que os resíduos da construção civil são os provenientes de construções, reformas, reparos e demolições de obras de construção civil, e os resultantes da preparação e da escavação de terrenos, tais como: tijolos, blocos cerâmicos, concreto em geral, solos, rochas, metais, resinas, colas, tintas, madeiras e compensados, forros, argamassa, gesso, telhas, pavimento asfáltico, vidros, plásticos, tubulações, fiação elétrica etc., comumente chamados de entulhos de obras, caliça ou metralha.
De acordo com LEVY & HELENE (1997) entulho são sobras ou rejeitos constituídos por todo material mineral oriundo do desperdício inerente ao processo construtivo adotado na obra nova ou de reformas ou demolições. Sendo que a sua ocorrência tem como definição um resíduo sólido, com constituição variável.
Ainda segundo LEVY & HELENE (1997) o mesmo pode se basicamente de três formas: novas construções, reformas e demolições.
Definindo também os resíduos gerados em novas construções como materiais cerâmicos (blocos de alvenaria, tijolos, azulejos), madeira, gesso, aço e argamassas. Surgindo então mais quatro fases de execuções básicas, que se diferem no tempo de realização da atividade e na quantidade produzida. Sendo elas: concretagem, alvenaria, revestimento e acabamento do edifício.
A quantidade de entulho gerado nas construções que são realizadas nas cidades brasileiras demonstra um desperdício irracional de material: desde a sua extração, passando pelo seu transporte e chegando à sua utilização na construção.
Os custos desta irracionalidade são distribuídos por toda a sociedade, não só pelo aumento do custo final das construções como também pelos custos de remoção e tratamento do entulho. Na maioria das vezes, o entulho é retirado da obra e disposto clandestinamente em locais como terrenos baldios, margens de rios e de ruas das periferias.
O custo social total é praticamente impossível de ser determinado, pois suas conseqüências geram a degradação da qualidade de vida urbana em aspectos como transportes, enchentes, poluição visual, proliferação de vetores de doenças.
  1. Desperdícios na construção convencional
A composição do entulho, encontrada na construção convencional, tem fator intimamente relacionado com a ocorrência de desperdícios. A tabela abaixo expõe a ocorrência de desperdícios em alguns países.
De acordo com ZORDAN(1997) este desperdício seria às perdas que permanecem na obra, e que o entulho produzido corresponde aproximadamente em apenas 50% da massa do material desperdiçado.
Podemos dizer que o surgimento do entulho ocorre nas fases de execução e utilização de um empreendimento somada com a perda por material incorporado, presente em todas as fases conforme tabela.
Os materiais presentes no entulho estão relacionados com o desperdício, e que são passíveis de reaproveitamento em técnicas de reciclagem. O desperdício físico pode não ter o mesmo significado quando analisado em termos financeiros.
Sendo assim a teoria dos três R se torna realidade (reduzir, reutilizar e reaproveitar) esta meta se torna uma necessidade no mercado da construção civil atualmente, onde nota-se um aumento de competição entre empresas e maiores exigências dos consumidores de obras de edifícios (qualidade e lucro sem desperdício).
No seguimento da busca da qualidade em uma obra desde o seu projeto inicial a organização e produção dos canteiros devem acontecer com base nos altos índices de desperdícios expostos na tabela acima e também devido a escassez de áreas urbanas para a deposição desses resíduos, o que eleva seu custo de deposição.
De acordo com informação do Sinduscon – Sindicato da Construção Civil de São Paulo, a construção civil é o setor que mais consome matérias primas naturais, e grandes consumidores de energia.
O que leva a discussão quanto à utilização de recursos naturais não renováveis, que quando escassos acarretarão a elevação do custo de uma obra. É de extrema urgência que a construção civil, se enquadre em um processo de redução de custos, minimizando o desperdício, e se possível reciclando o desperdício.
A necessidade de reduzir seus volumes de entulho, devido ao aumento de preços do transportes para aterros ou centrais de moagem de entulho cada vez mais distantes é também um dos grandes problemas enfrentados na construção civil, não apenas pelo custo, mas também pelo impacto ambiental causado.
Sendo assim, reciclando os seus volumes para evitar um custo excessivo de transporte, e um grande impacto ambiental acaba se enquadrando em normas da ISO adotadas em empresas de grande porte.
Empresas de grande porte buscam atualmente se adequar a um modelo de desenvolvimento sustentável, onde a empresa terá que satisfazer as necessidades do mercado sem comprometer a necessidades futuras.
Iniciativas como:
  • Presença de “container” para coleta de desperdícios em todo o canteiro;
  • Distribuição de pequenas caixas de desperdícios nos andares;
  • Tubo coletor de polietileno para descida do entulho;
  • Quadro para anotação da quantidade e tipo de entulho gerado na obra;
  • Colocação de equipamentos de limpeza de forma visível;
  • Limpeza permanente pelo próprio operário;
  • Premiação de equipes pela qualidade da limpeza;
Podem proporcionar a melhor qualidade do projeto com relação ao Desenvolvimento Sustentável aplicado no mesmo. Desta forma, o controle de perdas leva a uma harmonização do arranjo do entulho no canteiro.
A rede de universidades estruturada com apoio do Programa Habitare para buscar minimizar o problema de perdas de materiais e conta com pesquisa anterior, também parcialmente financiada pela Finep, e que fornece bases importantes para o novo projeto de aprimoramento da gestão de perdas de materiais nos canteiros de obras.
A pesquisa mostrou que, em relação ao teoricamente previsto no projeto, a construção civil gasta, em média, 27% a mais, em peso, de materiais como areia, cimento, pedra e cal. Considerando-se que cada metro quadrado de construção demanda uma tonelada de materiais, tem-se uma perda de 270 quilos.
O estudo mostrou também que há grandes disparidades, com construtoras em nível de excelência e outras em que o desperdício pode ser uma ameaça à sobrevivência da empresa. Por isso, agora os dados são fundamentais para o aprimoramento de metodologias de gestão.
  1. Resultados da implantação da reciclagem.
4.1. Ambientais.
Os principais resultados produzidos pela reciclagem do entulho são benefícios ambientais. A equação da qualidade de vida e da utilização não predatória dos recursos naturais é mais importante que a equação econômica.
Os benefícios são conseguidos não só por se diminuir a deposição em locais inadequados (e suas onsequências indesejáveis já  apresentadas) como também por minimizar a necessidade de extração de matéria-prima em jazidas, o que nem sempre é adequadamente fiscalizado. Reduz-se, ainda, a necessidade de destinação de  áreas públicas para a deposição dos resíduos.
4.2. Econômicos.
As experiências indicam que é vantajoso substituir a deposição irregular do entulho pela sua reciclagem. De acordo com a Limpurb do município de São Paulos o custo para a administração municipal é de US$ 10 por metro cúbico clandestinamente depositado, aproximadamente, incluindo a correção da deposição e o controle de doenças. Estima-se que o custo da reciclagem significa cerca de 25% desses custos.
A produção de agregados com base no entulho pode gerar economias de mais de 80% em relação aos preços dos agregados convencionais.
A partir deste material é possível fabricar componentes com uma economia de até 70% em relação a similares com matéria-prima não reciclada.
Esta relação pode variar, evidentemente, de acordo com a tecnologia empregada nas instalações de reciclagem, o custo dos materiais convencionais e os custos do processo de reciclagem implantado.
De qualquer forma, na grande maioria dos casos, a reciclagem de entulho possibilita o barateamento das atividades de construção.
  1. Sociais
O emprego de material reciclado em programas de habitação popular traz bons resultados. Os custos de produção da infra-estrutura das unidades podem ser reduzidos.
Como o princípio econômico que viabiliza a produção de componentes originários do entulho é o emprego de maquinaria e não o emprego de mão-de-obra intensiva, nem sempre se pode afirmar que a sua reciclagem seja geradora de empregos.
  1. Resultados de um Programa de Gestão Ambiental
A construtora e Engenharia estudada tem implantado um Programa de Gestão Ambiental (PGA), onde através de ações coordenadas conseguiu reduzir o impacto da obra no meio ambiente e da coleta seletiva, teve como resultado à certificação da NBR ISO 14001.
O investimento da empresa começa desde o canteiro de obras, que registram a disposição de coletores de resíduos (vidro, metal, plástico e papel) dispostos nos corredores do escritório, que são segregados e encaminhados às baias localizadas no interior da obra.
  1. Considerações finais
As metas para se atingir desenvolvimento sustentável empregando resíduos na construção civil devem contemplar a reciclagem que é fundamental para um mercado efetivo para os resíduos. Ao se analisar a reciclagem de resíduos na construção civil brasileira percebe-se falhas no processo de pesquisa e desenvolvimento, principalmente no tocante aos atores envolvidos no processo. Encontram-se problemas no desenvolvimento do produto, transferência de tecnologia e análise de desempenho ambiental. A reciclagem de resíduos da construção civil tenta consolidar seus processos de produção e garantia de qualidade na busca de um mercado mais diversificado e efetivo, através de ações discutidas de algumas empresas da construção, sindicatos e órgãos municipais e federais.
O desempenho ambiental na reciclagem deste resíduo é ainda negligenciado e existem problemas na etapa de caracterização do resíduo.
  1. Referências bibliográficas
HISTÓRIA da Engenharia Civil. Engenharia Civil, [S.l.:s.n.],[2008]. Disponível em:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/engenharia-civil/engenharia-civil-3.php.
HELENO, Guido. A construção civil e a edificação de um país. Revista Brasileira de Administração, Brasília, ano 20, n.75, mar./abr. 2010.
VIEIRA, Helio Flavio. Logística Aplicada à Construção Civil: como melhorar o fluxo de produção na obra. São Paulo: Pini, 2006.
Levy, Salomon Mony; Helene, Paulo R. L. – Reciclagem do entulho da Construção Civil, para utilização como agregados para argamassas e concretos. São Paulo, 1997. Dissertação (Mestrado) – Escola Politécnica, Universidade de São Paulo.
Gestão Ambiental de Resíduos da Construção Civil – A experiência do SindusCon-SP, São Paulo, 2005
ZORDAN, Sérgio Eduardo. Geração de Resíduos de Construção e Demolição. FEC – UNICAMP – Revisão da Dissertação de Mestrado. Campinas, 1997. p. 1-7.
Resolução CONAMA 307 – Gestão dos Resíduos da Construção Civil, de 5 de julho de 2002.
ARQUITETURA Moderna. Histórico e evolução da construção civil no Brasil. [S.l.:s.n.], 2008.
EcoDebate, 05/12/2012
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O lixo. Uma construção social. Entrevista com Rául Néstor Alvarez


A chamada “lixeirização” se estende dos materiais às pessoas. “Os mendigos ficam estigmatizados como sujos, doentes e transmissores de doença. No entanto, esta caracterização é independente de qualquer processo biológico, mas procede do desenvolvimento da construção social do lixo”, afirma o pesquisador argentino.
Para o advogado argentino Raúl Néstor Alvarez, “o lixo não é somente essa montanha de substâncias e coisas fedorentas, úmidas e amontoadas que nos causam nojo”. Na entrevista que aceitou conceder por e-mail à IHU On-Line, ele propõe pensar o lixo como uma relação social de desapropriação, “como uma relação entre partes desiguais que permite a alguns descarregar seus passivos econômicos e ambientais sobre os outros, que compõem o conjunto coletivo social”.
A seu ver, “atirar algo no lixo não consiste em um mero cálculo econômico, mas é uma ponderação subjetiva muito mais complexa na qual entram em jogo nossos desejos ocultos, nossos prazeres e nossas frustrações. Estes aspectos que negamos de nós mesmos, os descarregamos convertendo em lixo certos objetos. Por exemplo, se me sinto gordo e não me gosto assim, então me vingo atirando no lixo as calças que já não me servem. O que fica no cesto de lixo é um aspecto de mim mesmo, que eu renego. De modo que o nojo do lixo, de certo modo, é um nojo de mim mesmo que eu alieno”. E conclui: “o lixo é uma questão de empoderamento popular e cidadão. É uma questão política. Não pode ser deixado nas mãos tão somente de engenheiros e administradores de empresas”.
Advogado e licenciado em Ciências Políticas pela Universidade de Buenos Aires – UBA, Raúl Alvarez dedica boa parte de sua jornada à docência na Faculdade de Direito da UBA. Sua especialidade é a Teoria do Estado, mas a partir de uma perspectiva crítica, que questiona diretamente o direito de propriedade. Com essa bagagem começou a estudar o lixo, sua relação com o Estado e com a propriedade. Chegou a esse tema acompanhando uma organização territorial de José León Suárez, a área onde se localiza um dos aterros sanitários da Ceamse. O produto dessa pesquisa foi a sua dissertação do mestrado em Ciência Política realizado no Instituto de Altos Estudios Sociales da Universidad Nacional de San Martín – UNSAM (Argentina), que depois se tornou o livro La basura es lo más rico que hay (Buenos Aires: Dunken, 2011). Seus trabalhos podem ser lidos emwww.poderyderecho.blogspot.com.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como você define o que é lixo?
Raúl Néstor Alvarez – Penso que o lixo não é somente essa montanha de substâncias e coisas fedorentas, úmidas e amontoadas que nos causam nojo. Proponho pensar o lixo como uma relação social de desapropriação, como uma relação entre partes desiguais que permite a alguns descarregar seus passivos econômicos e ambientais sobre os outros, que compõem o conjunto coletivo social.
IHU On-Line – Qual a relação do lixo com o Estado e com a questão da propriedade?
Raúl Néstor Alvarez – O Estado é um aspecto das relações sociais de exploração, o aspecto coercitivo, que se corporiza em aparelhos, cuja função é exercer “institucionalmente” a força para reproduzir essas relações sociais desiguais que o constituem. Esse Estado, enquanto estado capitalista, garante estrategicamente a reprodução do capital. No terreno do valor positivo dos objetos, cumpre esta função conservando a propriedade privada da classe dominante. Mas quando entramos no terreno negativo de valor, quando nos encontramos com objetos e substâncias dos quais seus proprietários privados já lhe extraíram seu valor positivo, então o papel do Estado, para favorecer a acumulação do capital, passa por absorver a gestão desses materiais que provocam perdas. A lógica capitalista do lixo passa por privatizar o que dá lucro, e socializar o que dá perda. O papel do Estado, neste terreno, então, é atuar como gestor, como administrador dessas perdas (econômicas e ambientais) através da chamada “gestão de resíduos”.
IHU On-Line – Como a divisão em classes é uma estrutura social que acaba replicada no terreno do lixo?
Raúl Néstor Alvarez – Em sociedades capitalistas como a que vivemos, as relações sociais, ao serem desiguais, são antagônicas. Isso quer dizer que há exploradores e explorados, dominadores e dominados. Nesse sentido, falo de divisão em classes. Parece-me que a ideia de antagonismo permite uma concepção não substancialista da ideia de classe. Aplicar este conceito ao tecido social do lixo nos permite conceber uma rede de “lixadores” e “lixados”. Ou, mais amplamente, desde o ponto de vista ambiental, podemos falar de contaminadores e contaminados. Por “lixeirização” me refiro ao trato das pessoas ou dos objetos como se fossem lixo, como se não tivessem nenhum valor positivo. Como a estrutura de nossas sociedades capitalistas é desigual, os objetos e materiais descartados por estratos mais elevados, podem ser úteis e valiosos para pessoas situadas em níveis mais baixos. Isso é o que explica que os mais pobres considerem conveniente a coleta e recuperação de objetos misturados ao lixo. Mas pagam um preço por isso, porque a “lixeirização” dos objetos impregna imaginariamente as pessoas que trabalham com esses objetos “lixeirizados”.
IHU On-Line – Como o senhor define o preconceito cultural, de ideia normalizadora do lixo, que impede o avanço da reciclagem? 
Raúl Néstor Alvarez – O lixo funciona também como uma dimensão simbólica. Quando nos formamos como sujeitos, aprendemos um conjunto de normas, de preconceitos, de higiene e de conduta que requerem da formação de lixo para se fixarem. Tudo o que em uma mesa, em um lar, ou em um escritório gera desordem, atrapalha ou é considerado “sujo”, acaba retirado da ordem cotidiana e se destina à cesta de lixo. Ou seja, se “lixeiriza”.
Lixo é o contrário necessário da ordem e da limpeza. E esta ordem, tanto doméstica como social, necessita da ideia de lixo para poder funcionar. Daí que se atribuem ao lixo uma quantidade de características, como sujeira e “infectosidade”, que não procedem de suas propriedades físicas, mas que são atributos culturais, imaginários. Este “poder imaginário” que se atribui ao lixo se incorpora e se inscreve nos corpos como “asco”, que é uma sensação aprendida socialmente. Não é um reflexo biológico.
A partir do lixo, os setores privilegiados da sociedade capitalista são capazes de sentir asco pelo lixo. E este asco deixa à mostra a fronteira que demarcou a norma, entre o que é lixo e o que faz parte da ordem do social. Conjuga-se, além disso, outra dimensão simbólica de tipo individual, que são os sentidos inconscientes que transferimos a um objeto quando o convertemos em lixo. Atirar algo no lixo não consiste em um mero cálculo econômico, mas é uma ponderação subjetiva muito mais complexa na qual entram em jogo nossos desejos ocultos, nossos prazeres e nossas frustrações.
Estes aspectos que negamos de nós mesmos, os descarregamos convertendo em lixo certos objetos. Por exemplo, se me sinto gordo e não me gosto assim, então me vingo atirando no lixo as calças que já não me servem. O que fica no cesto de lixo é um aspecto de mim mesmo, que eu renego. De modo que o nojo do lixo, de certo modo, é um nojo de mim mesmo que eu alieno. Quando um mendigo abre meu saco de lixo, sem nojo, é porque ultrapassou essa fronteira da normalidade, fazendo desandar a construção social do lixo. E por isso fica impregnado da mesma denotação da qual o lixo é objeto.
A “lixeirização” se estende dos materiais às pessoas. Os mendigos ficam estigmatizados como sujos, doentes e transmissores de doença. No entanto, esta caracterização é independente de qualquer processo biológico, mas procede do desenvolvimento da construção social do lixo.
IHU On-Line – Em que sentido o senhor afirma que o lixo em si não existe, que se trata de um fetiche?
Raúl Néstor Alvarez – O que quero dizer é que quando se manipula o lixo não devemos nos limitar à questão dos materiais e às quantidades, mas temos que considerar o processo social desigual do qual ele procede. Os sentidos imaginários, inconscientes e desiguais que implicam no lixo são densos e explicam grande parte de nossos comportamentos a respeito. Pontualmente, um fetiche é um objeto ao qual se atribuem poderes imaginários. Mas quando se indaga no contexto em que se insere o objeto, vemos que o importante não é a materialidade dessa coisa, mas as relações sociais desiguais que se valem dela para se reproduzir. Assim como a mercadoria não equivale a seu preço, mas explica um conjunto de relações de exploração, do mesmo modo o lixo não é somente essa montanha malcheirosa que está nos aterros, mas é uma relação.
A diferença entre a mercadoria e o lixo é que o que tem valor positivo permanece no patrimônio das pessoas, sob o direito de propriedade, e o que se torna desagradável é descartado como lixo. Mas a relação social é a mesma: apropriação em um caso e desapropriação em outro. A propriedade é um direito que permite ao dominus excluir erga omnes a todo o resto da sociedade, do uso e gozo de sua coisa. Ao contrário, o lixo é uma “desapropriação” de algo que até agora tinha um dono, e uma vez que obteve seu lucro, quando sua coisa passa a ter valor negativo, descarrega esse passivo econômico ou ambiental no resto da sociedade, ou seja, no ambiente. O coletivo social se faz responsável, através do Estado, de gerir estes passivos, garantindo, desse modo, que os ativos fiquem apropriados por uma minoria.
Esta maneira de ver o lixo como relação de desapropriação, contrária e complementar à relação de propriedade, pode se estender a todas as relações de contaminação. Porque a contaminação tanto da água e do ar como da terra sempre implica a presença de resíduos que tenham sido desapropriados em um bem coletivo que é o ambiente.

IHU On-Line – Em que medida o lixo é utilizado como recurso de poder?

Raúl Néstor Alvarez – Mais do que um recurso, o lixo é poder. Porque o poder não é uma coisa que se toma ou se deixa. É um aspecto das relações sociais. E no lixo circula, entre outras coisas, relações de poder. O lixo procede do exercício desigual do poder; o reproduz. O Estado, ao gerir o lixo, garante a apropriação privada de lucro à socialização de perdas mediante a coerção. Os mendigos, por isso, geralmente têm sido perseguidos.
Aqui em Buenos Aires, o principal aterro, o Norte III da CEMASE, é custodiado pela polícia armada, como se se tratasse de um tesouro. Os catadores, ao resgatar objetos do lixo, estão rompendo a lógica de poder e da apropriação/desapropriação do lixo. Por isso são discriminados, perseguidos, reprimidos, marginalizados.
Além disso, em torno do reaproveitamento do lixo também se montam redes de aproveitamento econômico, que implicam exploração e relações de poder. Mas isso não foge às demais relações de poder que se dão no território social da marginalidade.
O uso do lixo como “recurso” de poder é nítido quando o Estado dificulta ou nega aos catadores o acesso a seu material de trabalho. Mas também a prisão usa a privação da liberdade como um recurso de poder, do mesmo modo que o fazem os demais aparatos do Estado em seu trato com os setores subalternos.

IHU On-Line – Como você chegou à conclusão de que o lixo é o que há de mais rico?
Raúl Néstor Alvarez – A frase do título do livro não é minha, mas de um catador de Villa Lanzone, Buenos Aires. Uma vez fomos com uma equipe da Universidad de General Sarmiento a uma assembleia de um projeto social de reciclagem. Ali propusemos aos catadores que em seu trabalho cotidiano, além de luvas, usassem máscara para tapar a boca e o nariz. Era uma ideia exótica, totalmente alheia ao modo de trabalho habitual dos trabalhadores do lixo, que não somente não se adoentam nem tem nojo do lixo, como também tem feito dele seu meio de vida e de alimentação. Por isso, um jovem irreverente, parado em uma montanha de lixo ao fundo do galpão onde nos reuníamos, gritou: “para que vamos usar máscara se o lixo é o que há de mais rico?”. Referia-se ao duplo caráter do lixo: é rico porque se pode comer, e dele se pode extrair valor ao recuperá-lo.
IHU On-Line – Como resolver o problema do lixo em nossas sociedades se considerarmos que o capital é regido pela lógica da escassez?
Raúl Néstor Alvarez – A pergunta excede o que posso dizer a partir da etnografia que venho realizando. Mas creio que o caminho é desandar a lógica capitalista do lixo, empregar critérios ambientais para seu manejo, avançar na reciclagem usando mão de obra intensiva de quem atualmente se ocupa dele, que são os mendigos e catadores, valendo-se de lógicas não tecnológicas, mas cidadãs, de organização e decisão. O lixo é uma questão de empoderamento popular e cidadão. É uma questão política. Não pode ser deixado nas mãos tão somente de engenheiros e administradores de empresas.
(Ecodebate, 04/12/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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Combate ao desmatamento pelo Ibama desencadeia reação violenta de madeireiros ilegais no Pará


Ibama aumenta a fiscalização na região onde houve reação violenta de madeireiros ilegais no Pará – O Ibama enviou mais agentes para a frente da operação Soberania Nacional na região de Dom Eliseu, no sudeste do Pará, onde grupos de madeireiros ilegais realizaram neste final de semana ações violentas contra servidores do instituto. O primeiro grupo de reforço, com fiscais e homens da Polícia Militar do Pará, chegou ao município na madrugada desta segunda-feira (03/12). Foram deslocados de Marabá, distante cerca de 230 Km, onde fiscalizavam carvoarias na operação Saldo Negro. “O Ibama manterá sua presença na região e promoverá ações ainda mais duras para combater essas práticas criminosas”, disse o chefe da Fiscalização do órgão no Pará, Paulo Maués.
O Ibama combate intensamente o desmatamento e a exploração ilegal de madeira na região de Dom Eliseu — que inclui Ulianópolis, Rondon do Pará e Paragominas. Apenas com a operação Soberania Nacional, iniciada em setembro, o instituto aplicou R$ 44 milhões em multas e embargou sete mil hectares de florestas irregularmente desflorestadas nestes municípios. “Estamos pressionando quem produz de forma ilegal para fora do mercado e, por isso, a reação desesperada”, explica Maués. Segundo ele, uma grande operação já está em planejamento para desarticular o setor madeireiro que se envolveu nos ataques contra o Ibama.
Ameaças em Dom Eliseu
Os conflitos começaram na manhã de sábado (01/12). Dois caminhões apreendidos pelo Ibama com madeira ilegal foram retidos por cerca de 30 homens, próximo a ponte sobre o rio Bananal, em Dom Eliseu. O grupo armado não permitiu a saída dos fiscais por cerca de três horas. Os líderes da emboscada foram os mesmos que, no dia seguinte (02/12), organizaram uma manifestação violenta no centro do município. No protesto, incendiaram pneus e ameaçaram por fogo no hotel onde se hospedavam os agentes federais. Os madeireiros queriam que o Ibama se retirasse da região. O ato começou às 8h e terminou somente às 13h, após uma reunião — entre a coordenadora da operação Soberania Nacional na região, Taíse Ribeiro, e as lideranças locais — acordar o fim da manifestação, com a promessa de assinatura do Termo de Ajustamento de Conduta que está em negociação para o setor, envolvendo Ministério Público Federal, Ibama e as secretarias de Meio Ambiente do Pará e de Dom Eliseu.
Vingança contra o cacique no Piriá
O Ibama fiscalizava explorações irregulares de madeira na Terra Indígena Alto Rio Guamá, em Nova Esperança do Piriá, a 400 km de Dom Eliseu, quando dois fiscais e o cacique Valdeci Tembé, guia da operação, também foram alvos de uma emboscada. A ação ocorreu ainda no sábado, às 19h, mas patrocinada por outro grupo de madeireiros irregulares. Desta vez, foram cerca de 150 homens armados. Os fiscais rendidos haviam ficado num trecho da estrada, vigiando uma caminhonete quebrada, enquanto um grupo maior, com seis agentes e oito homens do Batalhão de Polícia Ambiental do Pará, entrou na mata para localizar uma exploração ilegal.
Com chegada do invasores, o indígena fugiu para a floresta. Os madeireiros, que usavam droga e bebiam cachaça durante o ataque, diziam que “queriam o índio”. Os dois agentes ficaram em poder dos agressores até à uma hora de domingo, quando retornou o restante da equipe do Ibama. O coordenador da ação, Norberto Neves, negociou a saída em segurança dos agentes. Nenhum servidor do Ibama ou policial ficou ferido ou sofreu agressão física. O cacique Valdeci Tembé ainda está desaparecido.
Texto de Nelson Feitosa – IBAMA
Ascom/PA
EcoDebate, 04/12/2012
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HIV/Aids: Coquetel do dia seguinte pode evitar infecção, mas estratégia é pouco difundida no país

Brasília, 01/12/2012 - No Parque da Cidade, secretaria de Saúde e ONGs aproveitam o Dia de Luta contra a Aids para distribuir camisinhas e folhetos explicativos sobre a doença. Foto de José Cruz/ABr
Brasília, 01/12/2012 – No Parque da Cidade, secretaria de Saúde e ONGs aproveitam o Dia de Luta contra a Aids para distribuir camisinhas e folhetos explicativos sobre a doença. Foto de José Cruz/ABr
Um tratamento disponível em serviços de atendimento especializado e em emergências de hospitais públicos de todo o país pode evitar a infecção pelo HIV em pessoas que passaram por algum tipo de situação de risco – como sexo desprotegido ou rompimento do preservativo.
A chamada profilaxia pós-exposição, também conhecida como coquetel do dia seguinte, tem como base uma combinação de três medicamentos antirretrovirais e deve ser iniciada até 72 horas após o evento considerado de risco.
O infectologista do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Ronaldo Hallal, lembra que, até 2010, o tratamento era indicado apenas para casos de acidente entre profissionais de saúde (quando há exposição ao vírus), para vítimas de violência sexual e para casais sorodiscordantes (quando apenas um dos parceiros é soropositivo).
Atualmente, o serviço está disponível para toda a população. Segundo Hallal, é preciso passar por uma avaliação de risco, feita por um profissional de saúde, antes de iniciar o uso do coquetel, que deve ser mantido por um período de quatro semanas. Os efeitos colaterais, apesar de fracos, incluem náusea, vômitos, sensação de fraqueza e cansaço.
“O papel da profilaxia é tentar evitar que a pessoa se infecte com o HIV. Além disso, ela traz alguns outros ganhos, já que acaba atraindo as pessoas aos serviços de saúde, o que permite trabalhar também o diagnóstico, o aconselhamento e as estratégias de prevenção, de redução de risco e de vulnerabilidade”, explica.
O coordenador do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) no Brasil, Pedro Chequer, avalia que o coquetel do dia seguinte é uma estratégia pouco difundida no país. “Falta informação. As pessoas não conhecem”, diz. “E, nesses casos, quanto mais rápido começar o tratamento, melhor. O ideal é que seja em menos de 48 horas”, completa.
Chequer alerta, entretanto, que a estratégia não pode se transformar em rotina e que as pessoas não podem abrir mão do preservativo. Trata-se, segundo ele, de uma medida de exceção, uma vez que não há 100% de eficácia no bloqueio ao vírus. “Não é uma vacina”, ressalta.
Dados do Unaids apontam aumento de novas infecções por HIV no Brasil entre mulheres jovens e gays jovens, sobretudo com idade entre 15 e 24 anos. Essa faixa etária, de acordo com o coordenador, precisa de uma abordagem de prevenção “continuada, objetiva e sem preconceito”, para que busquem os serviços de saúde quando houver necessidade.
“A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) recomenda que a educação sexual seja iniciada a partir dos 5 anos. No Brasil, isso acontece a partir dos 12 anos. Essa onda conservadora e forte preocupa, já que a necessidade é cada vez maior de abordarmos temas como a diversidade sexual”, destaca.
Reportagem de Paula Laboissière, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 03/12/2012
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HIV/Aids: Quatro em cada dez jovens dispensam uso de camisinha em relacionamento estável

Estudo aponta que jovens dispensam camisinha em relacionamento estável. Foto: Fernanda Mafra/Pref.Olinda / Creative Commons

Estudo aponta que jovens dispensam camisinha em relacionamento estável. Foto: Fernanda Mafra/Pref.Olinda / Creative Commons

Quatro em cada dez jovens brasileiros acham que não precisam usar camisinha em um relacionamento estável. Além disso, três em cada dez ficariam desconfiados da fidelidade do parceiro caso ele propusesse sexo seguro. A informação é da pesquisa Juventude, Comportamento e DST/Aids realizada pela Caixa Seguros com o acompanhamento do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
O estudo ouviu 1.208 jovens com idades entre 18 e 29 anos em 15 estados (Rondônia, Amazonas, Pará, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Goiás) e no Distrito Federal. As mulheres correspondem a 55% da amostra e os homens, a 45%.
O estudo foi repassado à Agência Brasil para divulgação antecipada em 01/12, Dia Mundial de Luta contra a Aids. A pesquisa será oficialmente lançada na nesta segunda-feira (3).
Ao todo, 91% dos jovens entrevistados já tiveram relação sexual; 40% não consideram o uso de camisinha um método eficaz na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST) ou gravidez; 36% não usaram preservativo na última vez que tiveram relações sexuais; e apenas 9,4% foram a um centro de saúde nos últimos 12 meses para obter informações ou tratamento para DST.
Os dados mostram que falta aos jovens brasileiros o conhecimento de algumas informações básicas, já que um em cada cinco acredita ser possível contrair o HIV utilizando os mesmos talheres ou copos de outras pessoas e 15% pensam que enfermidades como malária, dengue, hanseníase ou tuberculose são tipos de DST.
Em entrevista à Agência Brasil, o coordenador da pesquisa, Miguel Fontes, destacou que o grau de escolaridade dos jovens também influencia na adoção de atitudes e práticas responsáveis em relação ao sexo seguro. Outra constatação, segundo ele, é que ter pais ou profissionais de saúde como principais fontes de informação sobre sexo é um fator determinante para que os jovens adotem melhores práticas em relação a DST.
“Notamos que os jovens menos vulneráveis são aqueles que conversam com os pais sobre sexualidade e que têm maior escolaridade. Mas pouquíssimos conversam com os pais sobre isso e a maioria não está estudando, repetiu alguns anos na escola. Embora eles não percebam, essa vulnerabilidade em relação à aids existe e é latente”, disse.
As recomendações feitas pelo estudo incluem maiores investimentos em conteúdos de qualidade sobre sexo e aids na internet; programas sociais que tenham a juventude como público-alvo e que envolvam a família dos participantes; estreitar laços com professores que trabalham com jovens, a fim de proporcionar algum tipo de formação ou capacitação para tratar temas relacionados a DST e aids; e massificar a informação de que existe uma relação direta entre o consumo de álcool e o aumento da vulnerabilidade dos jovens em relação ao sexo seguro.
“No lugar de campanhas massivas na TV e no rádio, precisamos de canais diretos na internet. Ela age hoje como um gancho muito forte e é necessário levá-la em consideração como uma ferramenta educativa, além de reforçar o papel dos pais, fonte de educação mais confiável, e dos profissionais de saúde. Muitas vezes, os amigos são a principal fonte de informação do jovem, mas isso não implica em um melhor nível de conhecimento”, ressaltou o coordenador do estudo.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que os brasileiros com idade entre 15 e 29 anos representam 40% da população, totalizando 50 milhões de jovens. Levantamentos do Ministério da Saúde mostram uma tendência de crescimento de novas infecções pelo HIV nessa faixa etária desde 2007, chegando a 44,35 registros para cada grupo de 100 mil pessoas.
Atualmente, entre 490 mil e 530 mil pessoas vivem com HIV no Brasil. Dessas, 135 mil não sabem que têm o vírus. A incidência da aids no país, em 2011, chegou a 20,2 casos para cada 100 mil habitantes. No ano passado, foram registrados 38,8 mil novos casos da doença – a maioria nos grandes centros urbanos.
Reportagem de Paula Laboissière, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 03/12/2012
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Poluição dos oceanos é global, afirma Chris Bowler, líder de expedição francesa

Equipe do projeto Tara Expeditions [ http://oceans.taraexpeditions.org/ ], com lixo recolhido no oceano

Equipe do projeto Tara Expeditions [ http://oceans.taraexpeditions.org/ ], com lixo recolhido no oceano

Chris Bowler, que analisou ecossistemas marinhos por 2 anos, diz ter achado plástico até na Antártida
Líder de uma expedição francesa que rodou o mundo por dois anos e meio para analisar ecossistemas marítimos, Chris Bowler acredita ter encontrado a prova definitiva de que a poluição dos oceanos atingiu caráter global. A grande quantidade de plástico coletada por sua equipe em área próxima à Antártida, diz o pesquisador, mostra que nem mesmo locais mais remotos estão livres da interferência humana.
A reportagem é de Bruno Deiro e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 02-12-2012.
Em quatro pontos de observação no oceano glacial antártico e na Antártida, os cientistas da embarcação Tara Oceans registraram uma taxa de 50 mil fragmentos de plástico por quilômetro quadrado – concentração dez vezes superior à esperada por eles e comparável à média verificada em outros mares do planeta.
“Estando tão longe de áreas significativamente urbanas, achávamos que a Antártida ainda era um ambiente intocado”, afirma Bowler. “Procurávamos por fragmentos de plástico de poucos milímetros e o que achamos foram redes de pesca, sacos plásticos e até fibras sintéticas usadas em vestuários.”
Além do oceano glacial antártico, a expedição passou pelas águas do Atlântico, Pacífico e Índico para investigar os efeitos da mudança do clima em ecossistemas marinhos e biodiversidade.
“A maior parte do plástico que acaba no oceano vem de grandes centros urbanos do Hemisfério Norte, mas mesmo com as correntes oceânicas é difícil de acreditar que o material encontrado na Antártida esteja vindo de lá”, afirma o pesquisador. “É mais provável que venha de cidades ao Sul como Buenos Aires e Cape Town. Considerando que nós estamos fazendo plásticos há apenas 60 anos, eles atingiram a Antártida muito rapidamente.”
Ele admite que os efeitos na biodiversidade local ainda estão sendo estudados, mas projeta ao menos três possibilidades. Uma delas é a ingestão de plástico por peixes e aves marítimas, o que pode levar à inanição – o estômago fica tão cheio que os animais não conseguem se alimentar de verdade. Além disso, há a liberação de elementos tóxicos que se incorporam à cadeia alimentar e eventualmente podem chegar ao consumo humano. Por fim, os fragmentos interagem com plânctons e mudam a estrutura dos ecossistemas marinhos.
A quantidade de plástico encontrada na Antártida, no entanto, não foi tão diferente da média global de plástico nos oceanos ao redor do mundo – as exceções são o Pacífico Norte e o Atlântico. Uma nova expedição da Tara Oceans deve ocorrer nos próximos meses. Desta vez, segundo Bowler, a ideia será procurar por evidências da migração de plânctons entre o Pacífico e o Atlântico, algo que só se tornou possível por conta do derretimento do gelo polar. “Também esperamos encontrar novas espécies de plânctons, porque é uma área que ainda não foi muito estudada”, diz o biólogo, profissional do Centro Nacional Francês de Estudos Científicos (CNRS).
(Ecodebate, 03/12/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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Os inúteis caminhos para ‘derrotar a seca’, artigo de Washington Novaes

seca
[O Estado de S.Paulo] Com a cobertura mais frequente que a televisão vem dando nas últimas semanas à questão da seca no Semiárido nordestino, vai-se de espanto em espanto, diante da gravidade do panorama, da insuficiência – para não dizer ausência – de providências eficazes do governo federal e das informações sobre tudo o que se poderia fazer por caminhos competentes, mas não se faz. E tudo isso na mesma hora em que se vê a teimosia do foco oficial no projeto de transposição de águas, como se ele fosse o santo milagreiro – quando não é, já está custando quase o dobro do orçamento inicial (de R$ 4,6 bilhões para R$ 8,2 bilhões), com vários trechos parados, outros já necessitando de obras reparadoras e outros ainda, de novos “aditivos” nos orçamentos. Inacreditável.
Diz o Operador Nacional do Sistema Elétrico (Estado, 31/10) que o último mês de outubro foi o mais seco em toda a região nos últimos 83 anos. As opiniões de especialistas asseguram que se trata da mais forte estiagem entre 30 e 50 anos. Em depoimento na audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, o diretor da Secretaria Nacional de Defesa Civil do Ministério da Integração Nacional (Agência Brasil) afirmou que 10 milhões de pessoas foram atingidas em 1.317 municípios.
Só em Pernambuco, segundo o engenheiro José Artur Padilha, criador do projeto Base Zero (Estado, 19/11), são 1,18 milhão de pessoas afetadas diretamente, enquanto mais 3,67 milhões sentem os efeitos em 122 dos 184 municípios do Estado. Só nas lavouras de subsistência as perdas já chegam a 370 mil hectares. Os rebanhos pernambucanos perderão15%, entre bovinos, ovinos e caprinos (remaatlantico, 7/11). Na Paraíba estão sofrendo 2,3 milhões de pessoas, ou 70% da população, em 198 dos 223 municípios, com situação de emergência decretada em 170 cidades. Na Bahia são 250 municípios em emergência. Em Caém, a 333 quilômetros de Salvador, não chove há um ano e meio (Estado, 31/10). No Piauí são 215 dias sem chuva, 200 municípios em emergência. E muitos especialistas já dizem que as chuvas só virão em 2013.
Será todo esse quadro uma fatalidade? Nada a fazer? Na mesma audiência na Câmara dos Deputados, o professor João Abner, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, especialista em recursos hídricos que há décadas se dedica ao problema, assegura que não (Agência Brasil, novembro/2012). Segundo ele, fome, seca e perdas poderiam ser evitadas se houvesse programas de abastecimento de água como o Luz para Todos. “Tem água sobrando para consumo humano e animal”, assegura. “Tem estoques de água suficientes para atender plenamente, mesmo em época como agora. São 10 bilhões de metros cúbicos armazenados na região acima do Rio São Francisco, em grandes reservatórios.” Só que não há sistemas de abastecimento ligados aos açudes, que servem apenas aos grandes proprietários rurais. E “com menos de 20% da disponibilidade hídrica dos reservatórios” se atenderia a toda a demanda local.
Mais surpreendente ainda, diz o professor Abner que “o Semiárido brasileiro é um dos sistemas ambientais mais chuvosos no mundo, mas o acesso à água não está democratizado”. Há 60 mil açudes reservados para poucos. E 95% da água se perde na evapotranspiração (!). Um programa do tipo Água para Todos custaria menos de R$ 20 por pessoa. Menos que o custo de um carro-pipa, lembra ele; um terço do custo da transposição do São Francisco.
Não é ele apenas que tem visões dessa natureza. Na mesma ocasião, o professor João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, depois de acentuar que metade da população “sofre com seca e fome”, lembrou que 80% das secas são “no miolo da região”, por má distribuição dos recursos. Esta não atende a diretrizes já definidas há décadas, inclusive pelo Ministério do Meio Ambiente, segundo as quais é preciso ter “estratégias de convivência” com o Semiárido – e não tentativas de “combater a seca”. A propósito, há alguns anos, quando fazia um documentário para a TV Cultura sobre o tema, o autor destas linhas ouviu do consagrado e experiente escritor Ariano Suassuna (que cria cabras na região) que “tentar combater a seca no Nordeste é o mesmo que tentar impedir que caia neve sobre a Sibéria”.
Também o professor João Suassuna enfatiza o problema de manter a água estocada em reservatórios (só no Ceará, 8 mil, com capacidade para 18 bilhões de metros cúbicos), sem distribuição. Para ele, mesmo depois de concluída a transposição do São Francisco persistirá o problema das populações que vivem em pequenas comunidades isoladas, aonde não chegarão adutoras – os 12 milhões de pessoas para quem “será levada uma caneca de água”, no dizer do ex-presidente da República. Por isso, em lugar de transpor água, o governo deveria pensar nos projetos contidos desde 2006 no Atlas do Nordeste de Abastecimento de Água, coordenado pela própria Agência Nacional de Águas – e que custariam, para executar, menos de metade (R$ 3,3 bilhões) do investimento na transposição e atenderia 34 milhões de pessoas.
E há mais. Desde o final da década de 90 o engenheiro José Artur Padilha vem experimentando – e viabilizando – em Afogados da Ingazeira (PE) o sistema chamado de Base Zero. São barragens construídas em leitos de rios secos, só com pedras, em cujos interstícios, sem argamassa, se depositam na época das chuvas sedimentos e materiais orgânicos que fertilizam a área no entorno. A água infiltrada e retida nos períodos chuvosos permite o plantio na seca. E cada bacia assim fertilizada pode tornar viável o desenvolvimento adequado para 40 a 50 famílias em 2 mil hectares. No Polígono das Secas, com 800 mil quilômetros quadrados, seria possível atender por esse caminho 2 milhões de famílias. Desde 1999 (6/5) este escriba comenta o projeto neste espaço. Mas os formuladores de políticas não se comovem.
Soluções há. Sem tentar, inutilmente, derrotar a seca.
Washington Novaes é jornalista.
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
EcoDebate, 03/12/2012
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

GOVERNADOR TARSO GENRO VISITA A REGIÃO

Tarso Genro inicia nesta segunda feira um roteiro de 1,7 mil quilômetros por 14 municípios.

A primeira parada da caravana será em Campo Bom, onde serão visitadas as obras de ampliação da subestação da CEEE na cidade.

Durante os seis dias de viagem a bordo de um ônibus e acompanhado por secretários, Tarso verificará melhorias em escolas, estradas e hospitais, além de participar de atividades com empresários e moradores das localidades.

— Esse é um momento de acerto de contas. Vamos dar explicações, verificar o andamento de obras, fazer uma aproximação e mostrar que o governo trabalha de forma articulada com a sociedade — resume o governador.

Além disso, Tarso quer que a caravana abra as portas para que o Executivo tenha uma marca na sua segunda metade:

— Queremos mostrar que temos um programa de governo.

O roteiro também servirá para anúncios de investimentos nas regiões visitadas. No entanto, a ideia de transformar a Semana da Interiorização, como foi batizada pelo Piratini, em uma agenda positiva, pode ser prejudicada. Contrário ao projeto que reajusta em 28,98% o salário do magistério, o Cpers promete protestos em todas as visitas.

Na nossa região, Tarso estara em Frederico Westphalen. Confira a programaçao:

Dia 05/12 – 17:30hs – Inauguração do novo Escritório Regional da Emater que vai atender 42 Municípios dos Coredes Rio da Várzea e Médio Alto Uruguai. Local, (Avenida Luis Milani, ao lado da Cootrifred).

Dia 06/12 – 09:00hs – 22ª Interiorização do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Local, (Salão de atos da URI/FW).
                    13:30hs – Seminário dos Arranjos Produtivos Locais (APLs), com representantes das Agroindústrias do Médio Alto Uruguai, com o coordenador Estadual dos APL'S e representante da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento. Local, (sala 03 da URI/FW).

Durante o evento serão assinados convênios, anúncios, e outras atividades que serão divulgadas.

FONTE: PORTAL NONOAI
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