quinta-feira, 10 de março de 2016

Usina - José Lins do Rego

Titulo: Usina
Autor: José Lins do Rego
Editora: Livraria José Olympio
Paginas: 236
Resenha: Usina, de José Lins do Rego, possui narrativa descritiva do meio de vida nos engenhos de açúcar e nas plantações de cana do Nordeste. Em 1936, após a publicação dessa obra, José Lins do Rego decretou o fim do "ciclo da cana-de-açúcar".

A obra é excessivamente descritiva, parecendo mais uma aula de economia do que uma obra ficcional. Neste último romance, José Lins retrata a decadência dos engenhos por força do processo industrial das usinas, que suplantam a produção artesanal.

Enredo

Usina retoma a história do Moleque Ricardo, a partir de sua prisão com os companheiros grevistas em Fernando de Noronha até o seu retorno ao engenho.

Com pouco mais de estariam no velho Santa Rosa, que Ricardo deixara há oito anos, fugido, como de um presídio, de uma ilha de trabalhos forçados. escapara de lá para não ser alugado e fora pior que isso. Tivera dores que os alugados não sofriam nunca.

É na segunda parte do livro que começa propriamenteUsina, quando são narrados os acontecimentos que envolvem o Santa Rosa depois que Carlos Melo, fugindo dos problemas que envolviam o engenho, entrega seu patrimônio a parentes.

O Santa Rosa transforma-se na Usina Bom Jesus. O Dr. Juca sonha com o prestígio, negociando com Zé Marreira, proprietário da Fazenda São Félix, deixa-se levar pela ambição e faz a sua primeira operação desastrosa. As hipotecas contraídas e a pressão da Usina São Félix, na figura do Dr. Luís, terminam por forçar a venda. A enchente do Rio Paraíba, destruindo a antiga propriedade, simboliza o fim de um ciclo. O usineiro retira-se com a família em meio à destruição física dos seus antigos domínios.
Fonte: Passeiweb
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quarta-feira, 9 de março de 2016

É Tarde para Saber - Josué Guimarães

Titulo: É Tarde para Saber
Autor: Josué Guimarães
Editora: LPM
Paginas: 144
Resenha:No Rio de Janeiro do década de 1970, Mariana e Cássio vivem uma grande paixão. Mas ela é filha de um rico empresário simpatizante da ditadura militar, e ele, um rapaz de origem humilde. No período mais repressivo do regime, quando todas as manifestações intelectuais e artísticas eram duramente censuradas, quando informantes do governo infiltravam-se entre os jovens nas salas de aula do país e a vida política nada mais era do que um jogo de cartas marcadas, a triste realidade faz divergir o caminho dos dois jovens. Mariana prossegue com a sua protegida existência pequeno-burguesa, enquanto Cássio envolve-se cada vez mais numa aura de mistério.
Escrito em 1976, É tarde para saber é o quinto romance do escritor e jornalista Josué Guimarães (1921-1986), um dos combatentes intelectuais da segunda metade do século XX no Brasil, autor, entre outros, de A ferro e fogo, Tambores silenciosos, Camilo Mortágua e Garibaldi & Manoela – uma história de amor. Com sua prosa lírica e sensível, Josué Guimarães mostra, em É tarde para saber, as dificuldades das escolhas dos jovens que se tornaram adultos durante os anos de chumbo do regime militar.
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terça-feira, 8 de março de 2016

Os ratos - Dyonélio Machado

Titulo: Os ratos
Autor: Dyonélio Machado
Editora: Atica
Paginas: 454
Resenha: Publicado em 1935, Os Ratos, do escritor gaúcho Dyonélio Machado, tornou-se uma das obras mais influentes da 2ª geração do Modernismo, além de ter sido homenageada com o prêmio Machado de Assis.

Sua narrativa é apresentada numa linguagem simples, direta, rápida, com um tal domínio da expectativa do leitor que lembra o trabalho de Camilo Castelo Branco em Amor de Perdição. A preocupação com a boa linguagem não afasta o escritor da realidade urbana. Assim, os diálogos entre as personagens retratam a língua coloquial, sem preocupação de formalidade. Cada um dos 28 capítulos tem sua própria célula de suspense, que será resolvida no máximo no seguinte, em que obrigatoriamente surgirá outra.

Há na obra uma cruel crítica à maneira como o dinheiro acabou se tornando a mola propulsora das relações sociais, comandando a respeitabilidade, a ética, a dignidade e até injusta e facilmente, quando não arbitrária e despoticamente, degradando-as, detonando-as. Em suma, todos esses aspectos fazem deOs Ratos uma das obras mais nobres de nossa literatura.

O título Os Ratos é uma referência ao drama psicológico de Naziazeno Barbosa, protagonista da história, depois de ter conseguido o dinheiro para saldar a dívida com o leiteiro. Naziazeno, meio dormindo, tem o seguinte pesadelo: os ratos estão roendo o dinheiro que ele deixara à disposição do leiteiro sobre a mesa da cozinha.

Os ratos, ganhando a possibilidade de roerem dinheiro, simbolizam o consumismo da cidade grande, o câncer que aniquila os sonhos dos proletários, a desvalorização da solidariedade em função de padrões materiais que elevam o dinheiro à condição meta principal a ser alcançada.O desenrolar do drama do funcionário público endividado e ainda com vergonha de olhar os credores que passam no cotidiano atravessa os capítulos e nos traspassa de angústia. O dinheiro do leite, a doença do menino, a fome do protagonista... Enfim, um empréstimo. Percebemos, na vida de Naziazeno, que ter conseguido o dinheiro para quitar a conta do leite é apenas o início de uma nova dívida, a expectativa de mais um dia caminhando em busca de uma solução.

O livro Os ratos inicia com a advertência do leiteiro de que cortará o fornecimento de leite caso não receba o pagamento até o dia seguinte. Apenas vinte e quatro horas... Naziazeno sente o desespero da mulher, a vergonha diante dos olhares da vizinhança que presenciam o ultimato.

O leitor é invadido pela espiral das angústias do fim do romance. O descanso de Naziazeno não é verdadeiro e não convence. Sabemos que amanhecerão novas inquietações e dívidas para o funcionário, novas cobranças para o chefe de família e novos olhares reprovadores.

A mediocridade do papel do protagonista no mundo se contrasta com a forma brilhante como Dyonélio Machado desenvolve a trama e nos envolve no drama do protagonista com diretas reflexões inseridas em nossas rotinas. A reviravolta na narrativa ocorre quando, ao anoitecer, pensamos que o caso está encerrado e percebemos que as vivências ecoam e retornam em ousadas lembranças dos movimentos do dia sob novos olhares. Sentimos com força a angústia de ser e de permanecer próximo do protagonista do escrito literário.

Os Ratos se enquadram, dentro do movimento modernista brasileiro, no chamado Romance de 30: denominação dada a um conjunto de obras de ficção produzidas no Brasil a partir de 1928, ano de publicação de A Bagaceira, de José Américo de Almeida.

A obra é um romance social por excelência. O drama urbano da classe média baixa encontra protótipo perfeito em Naziazeno Barbosa, o herói fragilizado pela preocupação de cumprir um papel social no caos urbano em que vive.

Tempo

Tempo cronólogico - Em Os Ratos, as ações dos personagens acontecem no tempo cronológico ou linear, marcado pela passagem das horas, durante um dia de peregrinação de Naziazeno. O passar das horas é uma preocupação cruciante para o herói que não pode voltar para casa sem o dinheiro do leiteiro.

Tempo Psicológico - O tempo psicológico (interior, aquele que transcorre dentro dos personagens, marcado pela ação da memória, das reflexões) é valorizado principalmente nos últimos capítulos do livro.

O romance de Dyonélio provoca logo a sensação, se colocado no seu contexto histórico, de excesso ou até, deslocando a observação, de insuficiência. Digamos que o autor, ao lançar mão à tarefa compositiva, dispunha objetivamente de duas formas romanescas dominantes: por um lado, o romance documentário, em pleno auge na época de envolvimento intelectual com a realidade do País, e pelo outro o romance psicológico, tributário da revisão intuicionista da categoria temporal, descentrando o enfoque narrativo de fora para dentro do sujeito. O narrador dominante focaliza do externo os acontecimentos, fornecendo uma impressão de materialidade real, histórica dos fatos: seu discurso é seco, objetivo, documentário. Seu posicionamento é o de um cronista das desventuras do modesto funcionário e, como bom cronista, remete quase obsessivamente para a categoria do tempo, um tempo inexorável cuja transposição discursiva gera e dilata o sentimento de ansiedade do personagem: O dia continuou... O dia não parou (OR8, p.65): a representação do dia de Naziazeno é assim marcada por referências diretas a inúmeros relógios que fornecem indicações temporais. É importante notar sempre o jogo de contrastes: o protagonista não tem relógio (já o empenhou) e a partir dessas indicações às vezes vagas - outras vezes empíricas, como a passagem de um bonde etc. - ele depreende uma sua noção aproximativa de tempo. Desse recorte também se delineiam dois mundos a confronto, um dominado pelo tempo externo, convencional dos relógios que se impõe definitivamente como emblema técnico, do moderno e urbano a partir das últimas décadas do século XIX (e é o de que o narrador dá conta), outro que é o tempo interno à variabilidade dos estados psicológicos que é uma projeção imperfeita (do ponto de vista do artifício) e humana do primeiro (e é o tempo vivencial de Naziazeno).

Cenário

O cenário de Os Ratos é Porto Alegre.

Foco narrativo

O romance Os Ratos é narrado na terceira pessoa (narrador onisciente). O narrador (o próprio autor) relata as ações de todas as personagens, concentrando suas observações no íntimo do herói, revelando ao leitor as suas angústias interiores e psicológicas.

Temática

Luta por dinheiro - O tema principal de Os Ratos é a luta desesperada de Naziazeno para conseguir, em um dia, dentro de uma cidade grande e insensível, dinheiro para saldar uma dívida com o leiteiro. Mistura-se a essa luta a ansiedade, o desespero, a sensação de fragilidade e inutilidade do ser humano que não tem recursos sequer para garantir o sustento digno da família.

Lembrança do passado - O passado, principalmente a infância, mistura-se ao presente de Naziazeno Barbosa. O enredo é arquitetado numa superposição de planos: os pensamentos e reminiscências do herói em confronto com a crueza da realidade citadina. Presente e passado alternam-se na composição da história.

Drama

O drama principal do romance não se concentra no leiteiro, nem nos ratos ou no dinheiro: concentra-se na dificuldade para conseguir a quantia desejada, respeitando-se o limite de tempo e espaço.

Personagens

As personagens criadas por Dyonélio Machado são esféricas, densas. Não há preocupação com aspectos exteriores, aflorando o lado íntimo ou psicológico.

Naziazeno é um herói impotente diante de uma situação aparentemente simples: conseguir dinheiro para garantir o bem-estar da família (principalmente do filho pequeno). É o homem comum rebaixado à condição de miserável, exposto à humilhação e ao anonimato que caracterizam o viver das aglomerações urbanas.

Naziazeno Barbosa - Modesto funcionário público, Naziazeno é o herói da história. Fragilizado pela condição de penúria material, atormentado pela necessidade de saldar uma dívida com o leiteiro.

Adelaide - Dona de casa, esposa de Naziazeno. Convive, diariamente, com as dificuldades de um orçamento familiar minguado, insuficiente para o sustento digno da família.

Mainho - Filho de Naziazeno e Adelaide.

Dr. Romeiro - Diretor da repartição pública onde Naziazeno trabalha. Há suspeitas de corrupção sobre ele. Certa vez, emprestou dinheiro a Naziazeno.

Otávio Conti - Advogado.

Dr. Mondina - Falso advogado; bajulado por conta do dinheiro de que dispõe. Foi quem desembolsou o dinheiro para o grupo (Naziazeno, Alcides e Duque), permitindo ao herói voltar para casa com a quantia devida ao leiteiro.

Rocco - Agiota para quem Alcides já deve uma grana. Nega-se a fazer novo empréstimo.

Fernandes - Agiota que se nega a emprestar dinheiro (cem mil réis) a Duque.

Assunção - Agiota da Rua Nova. Nega-se a emprestar dinheiro.

Alcides - Amigo de Naziazeno, solidário com ele na pobreza e nas dificuldades, fazendo tudo para ajudá-lo.

Duque - Amigo de Naziazeno e de Alcides. Inspira confiança porque tem sempre uma solução para os problemas que envolvem dinheiro.

Fraga - Vizinho de Naziazeno. Parece ter uma vida bem arrumada, não precisando passar pelos vexames financeiros por que passa o protagonista.

Costa Miranda - Amigo de Naziazeno; emprestou-lhe, na rua, cinco mil réis para o almoço.

Martinez - Dono da loja de penhores onde o anel de Alcides estava guardado. Mostrou boa vontade e foi, à noite, abrir a loja para devolver a jóia.

Dupasquier - Dono de uma joalheria. Examina o anel de Alcides e oferece trezentos e cinqüenta mil réis. Quando descobre que a proposta é de penhor, desiste do negócio.

Enredo

PARTE I


Capítulos 1 e 2 - Através do diálogo entre Naziazeno Barbosa e sua esposa, Adelaide, o autor mostra a situação da família: por falta de pagamento, já suspenderam o fornecimento de manteiga e, agora, o leiteiro ameaça não trazer o leite das crianças. Enquanto a mulher argumenta que é possível viver sem gelo e sem manteiga, mas sem o leite das crianças, não, Naziazeno acha que a situação é de considerar o leite como supérfluo.

Aparece o vizinho Fraga. Naziazeno tem a impressão de que ele possui uma vida bem arrumada. O leiteiro, o padeiro, depois de fazerem a distribuição dos seus produtos, ainda conversam um pouco com o Fraga. Ainda no meio do mês, ele já propõe pagamento aos dois, como se não tivesse problemas financeiros.

Pensamentos e recordações de Naziazeno enquanto perfaz o caminho para o trabalho, de bonde. A impressão que lhe causam os companheiros de viagem. A recordação de que a mulher, Adelaide, tem um ar de fragilidade, de fraqueza que mantém acesa a chama da voluptuosidade. Mas, na vida prática, essa fragilidade atrapalha.

O segundo capítulo encerra-se com o pensamento obsessivo de Naziazeno no leiteiro, na frase que o atormenta: "Lhe dou mais um dia".

Capítulo 3 - Naziazeno, depois que desce do bonde, bola um plano para arranjar o dinheiro para o leiteiro. Vai pedi-lo emprestado ao diretor. Já uma vez fez isso, quando da doença do filho, para pagar os remédios. O diretor emprestou. Mas muitos riram dessa ingenuidade. Ter coragem de emprestar dinheiro para o Naziazeno? Só tinha uma explicação: era novato, não conhecia todo o pessoal. Naziazeno pagou o empréstimo, mas ainda faltaram alguns trocados que o diretor perdoou, não fez questão.

Enquanto espera, fica desanimado. Claro que o diretor não vai emprestar-lhe o dinheiro. Que história vai-lhe contar? A verdadeira, a do leiteiro? Ou outra vez a história da doença do filho?

Capítulo 4 - Naziazeno cria coragem e expõe o problema ao diretor. Ele lhe empresta o dinheiro: sessenta mil réis (deve apenas cinqüenta e três ao leiteiro). Volta para casa e entrega o dinheiro à mulher, ocultando-lhe o modo como o conseguiu.

Tudo imaginação. O diretor sequer chegou à repartição. Naziazeno não consegue trabalhar. Finalmente chegou o diretor. É o momento de pedir-lhe o empréstimo.

Capítulo 5 - A confiança de obter o empréstimo com o diretor começa a abalar-se. Enquanto o diretor demora-se na secretaria, Naziazeno vai até o centro da cidade. Vai à procura do Duque - ele tem sempre uma solução mágica para os problemas de dinheiro. Chega ao mercado e não encontra o Duque nos lugares habituais. Resolve esperar. Aparece o Alcides.

Capítulo 6 - No Café, ao lado de Alcides, enquanto espera o Duque, Naziazeno vai falando das impressões que tem das pessoas. Cansa-se de esperar o Duque no Café. Relembra um caso antigo, da infância, quando estivera doente, quase à morte. A mãe fizera uma promessa: Naziazeno teria que andar um ano vestido de Santo Antônio. Foi um vexame.

Naziazeno desiste de esperar o Duque. Vai para a repartição. O Alcides sugere uma visita aos cafés do centro. Vem-lhe a idéia de inutilidade, de falta de aptidão para ganhar dinheiro. O Duque consegue cavar, fazer um "biscate", arranjar dinheiro. Ele não. Por quê?

Alcides arma um plano: jogar no bicho. Com que dinheiro? Naziazeno deve voltar à repartição e "dar a facada" no diretor. Ele, Alcides, se encarregará do jogo.

Capítulo 7 - Enquanto espera o diretor, Naziazeno perde-se em pensamentos e recordações. Finalmente, o "homem" chega. A esperança ressurge. "O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro? Quando o seu filho esteve doente, eu o ajudei como pude. Não me peça mais nada. Não me encarregue de pagar as suas contas: já tenho as minhas".

O diretor vai embora, os funcionários debandam. Naziazeno também.

Depois de tudo, ficou-lhe aquela frase na cabeça: "Não lhe pago as dívidas". Como contar tudo aquilo ao Alcides? Este plano fracassou. Como idealizar outro? Tem uma preguiça doentia. E o pior é que o sol já vai virando para a tarde. Meio dia perdido. Urge pensar numa solução. Como conseguir sessenta mil réis? Pensa em renunciar. Mas é preciso entregar o dinheiro ao leiteiro.

Capítulo 8 - Alcides propõe que Naziazeno vá atrás do Andrade, cobrar-lhe uma dívida. É o resto de uma comissão. É ali na rua Coronel Carvalho. Naziazeno topa. O calor infernal da tarde mantém o seu corpo suado. À medida que se aproxima da casa, vai ficando gelado. Deve ser porque ainda não almoçou. Ou seria a expectativa? O número da casa do Andrade está próximo. Melhor seria não o encontrar. A rua é de gente rica. Claro que o Andrade tem cem mil réis. De repente, o número procurado. Mas é o final da rua. A casinha em que Andrade mora é humilde. A esperança de conseguir dinheiro ali diminui.

Capítulo 9 - Naziazeno bate à porta de Andrade. Ele abre. Explica tudo: não deve exatamente ao Alcides (que ele conhece como Kônrad). Há uma comissão, sim, duma transação de um automóvel, mas a parte que Andrade lhe devia já pagou. Os outros cem mil réis, Alcides tem que recebê-los de Mister Rees. Naziazeno compreende tudo. Despede-se.

Capítulo 10 - Naziazeno, enquanto volta a pé ao encontro de Alcides, vai pensando. Era mais ou menos uma hora da tarde. Se tivesse conseguido o dinheiro com o Andrade, a primeira providência teria sido almoçar. Agora, é encontrar o Alcides e ir atrás do Mister Rees, um alto funcionário bancário.

Alcides não se encontra no café. Naziazeno procura-o noutros cafés ali perto. Nada. Tem, então, uma idéia: o Banco é ali perto. Por que não dar um pulinho até lá? Com certeza, Alcides vai aprovar essa idéia. Ao entrar no banco, fica em dúvida. Teria mesmo direito de cobrar Mister Rees? E se fosse "armação" do Andrade?

Um alívio: Mister Rees está para o Rio de Janeiro. Agora, é tentar almoçar e partir para outro plano. Quem sabe o Duque esteja no Restaurante dos Operários? O problema é conseguir cinco mil réis para o almoço. Como? Talvez no escritório do Dr. Conti.

Capítulo 11 - Naziazeno, depois de tentar falar com o Dr. Otávio Conti (na verdade, nem chegou a encontrá-lo), desiste. Voltando, encontra um seu conhecido, o Costa Miranda. Foi a salvação: Costa empresta-lhe cinco mil réis para o almoço.

Capítulo 12 - Naziazeno, com os cinco mil réis no bolso, fica indeciso: vai almoçar no Restaurante dos Operários ou em frege do mercado? De repente, uma idéia nova perturba-o: e se tentasse a sorte? Por que não? Está com o estômago oco, mas não pode perder essa oportunidade. Ele vê o dinheiro multiplicando-se e, em função disso, imagina a volta feliz para casa. Com este pensamento, dirige-se à tabacaria, onde, nos fundos, há um salão de jogos. Entra, vê o guichê do "bicho" vazio, dirige-se para o salão de onde lhe chega aos ouvidos um ruído fininho de fichas.

Capítulo 13 - Naziazeno, nervosamente, tira os cinco mil réis do bolso e deposita a cédula no número 28. E o milagre acontece, tudo resolvido assim num segundo: os cinco mil réis transformaram-se em cento e setenta e cinco. Agora, é comprar mais fichas, fazer um jogo estudado. Os lances sucedem-se. Naziazeno ora ganha, ora perde. As fichas, pouco a pouco, vão sumindo das suas mãos. Tem agora duas fichas. Toma uma resolução súbita: aposta todas num único número. E perde.

Capítulo 14 - Naziazeno sai da tabacaria, ganha a rua, e dirige-se a uma grande casa atacadista. Àquela hora, o comércio está fechando as portas. Um homem com cara de preocupação está fechando o armazém. Naziazeno, então, dirige-lhe a palavra:

- Queria pedir-lhe mais um favor. Só a grande necessidade me traz aqui na sua casa, antes de resgatar aquele vale. Não tenho a quem recorrer e preciso com urgência de sessenta mil réis.

- Não me é possível.

- Assino-lhe um vale. Venho pagar no fim do mês.

- Impossível.

Naziazeno insiste. Nada. Os dois seguem pela mesma rua, e Naziazeno vai-lhe falando de dificuldades, contando-lhe coisas, insistindo no empréstimo. O outro entra no bonde e vai embora.

PARTE II

Capítulo 15 - Naziazeno caminha pela rua deserta. As casas estão todas fechadas. E assim, fechadas, crescem de importância e de mistério. Seu destino é o mercado. Enquanto anda, vai observando a rua, as casas, a escassez de automóveis, o silêncio. E a silhueta do mercado ao longe, para onde se dirige, vai-se aproximando à medida que caminha.

Capítulo 16 - Naziazeno chega ao mercado. Num dos cafés, o Alcides chama-o. Conversam sobre o que se fez naquele dia. Naziazeno conta-lhe sobre o Andrade e sobre o jogo na tabacaria. O Duque, finalmente, está ali, em outra mesa, conversando com um indivíduo velhusco.

Naziazeno fala da fome, do dia inteiro sem comer. Alcides paga-lhe um leite. Exposto o problema de Naziazeno, Duque sugere um empréstimo com um agiota - o mesmo para quem Alcides já deve uma grana. O próprio Alcides encarrega-se de ir atrás do Rocco. No relógio da Prefeitura, já são seis e vinte.

Capítulo 17 - Os três (Naziazeno, Duque e o cidadão velhusco (o "doutor" Mondina) sentam-se num café, à espera de Alcides (que foi ao agiota). O Alcides volta. O agiota suspendeu temporariamente os empréstimos.

Duque deixa Alcides e Mondina no café e sai com o Naziazeno. Seguem em silêncio. Assim andando, ao lado do amigo, Naziazeno sente-se mais confiante. Vão à casa de seu Fernandes - um agiota.

- Nós precisamos com urgência de cem mil réis.

- Impossível.

Duque arrasta o amigo a outro agiota. Eles vão agora à rua Nova, ao agiota Assunção. Nova negativa. Retornam ao café.

A idéia é abordar o próprio "dr." Mondina, o falso advogado. De início, Mondina nega-se. Mas surge a idéia de tirar um anel de Alcides (anel de bacharel) que está penhorado por um valor muito baixo. Mondina anima-se. Será que ainda dá tempo?

Capítulo 18 - Os quatro (Naziazeno, Duque, Alcides e Mondina) vão à casa de penhores. Será que já está fechada?

Estava. E agora? Alcides propõe: dará a cautela do penhor ao Mondina. No dia seguinte, ele voltará ali e recuperará o anel. Mas o dinheiro tem que ser dado agora. Mondina parece pressentir o "truque", o "golpe". Alcides tem cara de vigarista. Duque intervém: não pode ser assim. Vamos encontrar outra solução. Alcides sugere: e se fôssemos à casa de Martinez, o dono da loja de penhores? Telefonam, e o seu Martinez diz que pode recebê-los em sua casa. No percurso para a casa de Martinez, Naziazeno vai pensando. Será que o homem reconhece Alcides? E o anel? Será que se lembra do Anel? Chegam finalmente.

Capítulo 19 - Martinez, depois de ouvir Alcides sobre a proposta de resgatar o anel penhorado, pergunta pela cautela:

- O senhor trouxe a cautela aí?

Alcides anda sempre com os seus papéis. Martinez examina o papel e, depois, devolve-o. Depois de algum tempo, talvez consultando a esposa, Martinez diz que sim, que é possível ir à loja resgatar o anel.

A caminhada é feita em silêncio. Naziazeno conscientiza-se de que já é noite, embora lá em cima, no céu, ainda seja possível ver uma arzinho do dia.

Chegam. Martinez abre a porta, acende a luz. Convida-os a entrar. Com a cautela na mão, o cofre aberto, faz a procuração. Pronto. Achou o anel. Mondina já havia passado o dinheiro da penhora ao Alcides, que o passa agora ao senhor Martinez. Ele confere. Entrega, finalmente, o anel. Alcides passa-o a Mondina, que se detém a examinar a jóia.

Martinez toma o rumo da praça, de volta para casa. Despede-se ali de Alcides, de Mondina, de Duque e de Naziazeno.

Capítulo 20 - Depois que Martinez vai embora, o grupo fica parado, sem saber o que fazer. Àquela hora, tudo está fechado. Duque sugere uma visita ao Dupasquier da joalheria. Por sorte, a vitrina está aberta. Entram. Dupasquier, meio desconfiado, ouve a proposta, analisa detidamente o anel, pergunta quanto Alcides quer por ele.

- Ele não deixa por menos de quinhentos mil réis - sugere Duque.

- Não dou nem quatrocentos.

- Quatrocentos e cinqüenta - solicita Duque.

- Não. Não dou mais do que trezentos e cinqüenta mil réis.

Aceitaram. Mas quando falaram que era penhor, Dupasquier desistiu. O grupo não sabe o que fazer. Alcides sugere um dos agiotas, Assunção e Zeferino. Duque opina:

- Vamos combinar isso num café.

A proposta do Duque é a seguinte: entregar o anel ao "dr." Mondina como garantia de mais cento e vinte mil réis. Assim, o anel está empenhado por trezentos mil. No dia seguinte, ele e Alcides irão procurar Mondina, empenharão o anel por trezentos mil réis e, então, devolverão o dinheiro.

Capítulo 21 - Naziazeno chega a casa, entra. São nove horas da noite. Adelaide estava preocupada. Todo o dia o marido ficara ausente. Ele mostra os embrulhos. Trouxera-lhe o sapato que estava no conserto. Para surpresa de Adelaide, ele trouxera também manteiga, queijo e dois leõezinhos de borracha para o filho, Mainho.

Enquanto esquenta a comida, Adelaide pergunta:

- Onde é que arranjaste o dinheiro? Conseguiste "tudo"?

Ele diz que sim. Conseguiu por intermédio do Alcides e do Duque. Cinqüenta e quatro mil e setecentos. Põe todo o dinheiro em cima da mesa. Está com sono. Separa os cinqüenta e três mil exatos do leiteiro. Guarda o resto no bolso do colete. Está com sono. São nove e meia da noite.

Capítulo 22 - Naziazeno imagina a reação do leiteiro ao receber, na manhã seguinte, o dinheiro. Vem à tona, na conversa com Adelaide, a situação do Dr. Romeiro, diretor da repartição em que Naziazeno trabalha.

Ouve-se um baque lá fora. Eles levantam a cabeça, atentos. É o portãozinho. Naziazeno vai fechá-lo. Quando volta, reclama do frio.

- Por que tu não vais deitar?

- Não quero dormir com o estômago muito cheio.

Surge a preocupação de levantar cedo no outro dia para entregar, em mãos, o dinheiro ao leiteiro.

- Porque não botava em cima da mesa da cozinha, junto com a panela do leite?

Naziazeno aprova a idéia. E fica pensando na surpresa do leiteiro ao encontrar o dinheiro.

Capítulo 23 - Adelaide acabara de pôr a panela do leite na ponta da mesa. Ao lado da panela, Naziazeno pusera o dinheiro para o leiteiro. Está preocupado. Deveria por algum peso sobre as notas?

- Tu achas necessário? Não há vento aqui dentro.

- Não, não é preciso.

Naziazeno não consegue abandonar a cozinha.

É interessante: passou-lhe o sono agora. É capaz de ler um pouco... Mas muda de idéia: não lhe apetece agora nenhuma leitura... de nenhuma daquelas coisas que poderia ler...

Naziazeno acabou indo deitar-se. A mulher dorme, mas ele fica a recordar a "maratona" por que teve de passar para conseguir o dinheiro. Está acordado. Entretanto queria dormir. "Tem necessidade de um sono longo, longo...

Fica a ouvir os barulhos da noite: o vento... o bonde passando... o bonde voltando... de novo o vento... Precisa dormir, descansar a cabeça.

Serão onze horas? Meia-noite?

Uma pancada, longe, sonora, indica uma hora.

Já lhe parece um século aquela noite e é apenas uma hora!...

Precisa dormir, precisa descansar. Tem de aproveitar esse resto de noite. É estranho: um cansaço tão grande, e não conseguir conciliar o sono...

Capítulo 24 - A falta de sono perturba Naziazeno. A esposa dorme quieta. O filho, Mainho, também. O pensamento fica divagando por várias coisas: a repartição, o seu trabalho, a luz que não o deixa dormir, o médico de Mainho, o "dr." Mondina. Pensa em Alcides, no anel que o "desapertou". "Uma providência, aquele anel". Vem-lhe, na insônia, uma superposição vaga de figuras: o Assunção... Fernandes... Martinez... Duque... Duque arrasta-o de uma lado para outro. Tem um sobressalto: um estalo para o lado da frente. O filho chega também a assustar-se. Adelaide, meio dormindo, nana-o.

"Naziazeno não quis deixar ver que estava acordado".

Capítulo 25 - A insônia continua. Naziazeno põe-se a pensar em tudo: a chegada a casa... o jantar tranqüilo, como ele sonhara... o dinheiro ali na mesa, acariciado pelo seu olhar... a idéia de deixá-lo ali, sobre a mesa, evitando o confronto direto com o leiteiro. Se houvesse o confronto, viria inimizade. Assim, continuariam amigos.

E o sono? "Ainda não dormiu! Só ele! Só ele sem dormir..."

Procura não pensar em nada, manter os olhos fechados, buscar tranqüilidade.

Capítulo 26 - A insônia persegue Naziazeno. Por estar embrulhado, o calor aumenta. "Sente que vai ficando esperto outra vez".

Pensa no bonde. A recordação passeia por cenas e pessoas relacionadas à maratona do dia: Duque, Alcides, Mondina, o jornal... os "finalmente" da transação com o Mondina. Alcides está amuado. Hesita em passar o anel para o Duque. Finalmente Mondina tira o dinheiro do bolso. Precisa trocá-lo em notas menores, primeiro no café, depois no Bolão. Pronto: transação encerrada. Duque passa-lhe o dinheiro: sessenta e cinco mil réis.

Naziazeno toma o bonde para casa. Tem de passar no sapateiro para pegar o sapato de Adelaide. Pega. A chegada, enfim, a casa. Adelaide vem até ele.

Capítulo 27 - "Outra vez um silêncio súbito". Naziazeno fica em dúvida: teria dormido? Passou toda a noite acordado? O ar tem um chiado... Fica muito tempo a ouvir esse chiado sonoro, metálico, fininho.

Agora, distingue nitidamente dois barulhos: o da respiração do filho e aquele chiado lá fora.

De repente, um barulho no forro... Ratos... São ratos. Fica esperando o barulho dos ratos na cozinha. O barulho aumentou: em vários pontos, no forro, o rufar... A casa está cheia de ratos!

"O chiado desapareceu. Agora, é um silêncio e os ratos..."

Há um roer ali perto. O que estarão comendo? É isto! "Os ratos vão roer - já roeram! - todo o dinheiro!..."

Tem um grande desespero. É preciso levantar-se. Mas o barulho cessou. Há só o silêncio. Será que ratos roem dinheiro? É melhor perguntar à mulher. Absurdo. Claro que ratos não roem dinheiro! "Vê os ninhos, os papéis picados, miudinhos, picadinhos... uma poeira".

"Vai levantar". Mas onde achar forças? "Está com sono. Mas é preciso reagir". Parece ouvir a voz da mulher: "Eles roem papel. Dinheiro é um papel engraxado..."

O barulho sumiu. Cessou também o roer. Decerto os ratos já foram embora. Está amanhecendo.

Capítulo 28 - Ao redor de Naziazeno, as coisas vão ficando mais apagadas. "Depois duma trégua, os ratos voltaram a roer". Com certeza estão roendo a madeira. Seria mesmo madeira? "Talvez depois de consumido o dinheiro, eles passem a roer, a roer a tábua da mesa..."

Agora os ruídos confundem-se. "Está exausto". Precisa dormir, entregar-se.

"Não sabe que horas são".

"Mas que é isso?!... Um baque?"

"Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão... Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite...) que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro é forte, certamente vem de muito alto...) - Fecham furtivamente a porta... Escapam passos leves pelo pátio... Nem se ouve o portão bater...

E ele dorme."

Fonte: Passeiweb
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segunda-feira, 7 de março de 2016

Camilo Mortágua - Josué Guimarães

Titulo: Camilo Mortágua
Autor: Josué Guimarães
Editora: LPM
Paginas: 454
Resenha: Neste romance, Josué Guimarães nos dá um painel inédito de sua ficção, contando de maneira apaixonante a decadência de uma família de pecuaristas da fronteira gaúcha, com todas as suas misérias e grandezas. A história de Camilo Mortágua - uma velha e apascentada idéia do autor - reproduz, de certa forma, o drama de dezenas de famílias gaúchas que, baseando seus rendimentos na exploração de rebanhos na fronteira, levaram suas vidas luxuosas na capital do Estado, num fausto que fez época e que, com o passar do tempo, terminou por arruiná-las.

Através de uma elaborada técnica romanesca, Josué Guimarães traça um perfil preciso de seus personagens, mesclando fantasia e realidade. São homens e mulheres que se movimentam com independência na trama de suas vidas. Vencedores e perdedores; amores intensos e solidão; poder e miséria. Uma narrativa implacável que conduz o leitor a momentos de emoção levados pela poderosa ficção deste grande escritor brasileiro.
Outras Capas.














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domingo, 6 de março de 2016

Josué Guimarães - Vida e obra

Josué Guimarães (RS, 1921-1986) é considerado um dos grandes escritores brasileiros do século XX, tendo deixado uma obra fundamental como romancista, jornalista e autor de histórias infantis e infanto-juvenis.

Josué Marques Guimarães nasceu em São Jerônimo, no Rio Grande do Sul, em 7 de janeiro de 1921. No ano seguinte sua família mudou-se para a cidade de Rosário do Sul, na fronteira com o Uruguai, onde seu pai, um pastor da Igreja Episcopal Brasileira, exercia as funções de telegrafista. Após a Revolução de 30 sua família foi para Porto Alegre, onde Josué Guimarães prosseguiu os estudos primários, completando o curso secundário no Ginásio Cru­zeiro do Sul, mesma escola onde estudou o escritor Erico Verissimo. Ali funda o Grêmio Literário Humberto de Campos, participando ativamente na redação de artigos para o jornal da escola e, igualmente, na produção de textos teatrais que, a cada final de ano, passam a ser encenados na escola. Forma-se em 1938, no curso secundário (hoje ensino médio), prestando em seguida exames para a Faculdade de Medicina. Contudo, após as primeiras aulas de anatomia, sente-se "desestimulado" para dar continuidade àquela vocação. Sempre irrequieto, Josué buscou outros ares.

Em 1939 foi para o Rio de Janeiro onde, no Correio da Manhã, iniciou-se na profissão de jornalista, que exerceria até o final da sua vida. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, voltou para o Rio Grande, onde concluiu o curso de oficial da reserva, sendo designado para servir como aspirante no 7° R.C.I. em Santana do Livramento. Em 1940, aos dezenove anos de idade, casou-se com Zilda Marques. Desse matrimônio, nasceram quatro filhos: Marília, Elaine, Jaime e Sônia. Por ser casado, foi recusado como voluntário na FEB (Força Expedicionária Brasileira).

Em 1944, de volta à imprensa no Diário de Notícias, seguiu na carreira que o faria passar pelos principais jornais e revistas do país. É nesse jornal que o escritor manteve uma coluna assinada sob o pseudônimo de D. Xicote, a qual tinha por característica principal dar um tratamento irônico aos acontecimentos políticos da época. O próprio Josué se encarregava da elaboração das ilustrações, dos desenhos e das caricaturas da coluna. Mais tarde, a coluna D. Xicote reapareceu no jornal A Hora, de Porto Alegre, explorando modernos recursos gráficos e montagens fotográficas.

Trabalhou em inúmeras funções, de repórter a diretor de jornal, passando por secretário de redação, colunista, comentarista, cronista, edi­to­rialista, ilustrador, diagramador e repórter político. Em 1948, deixou oDiário de Notícias para exercer a função de repórter exclusivo e correspondente da revista O Cruzeiro no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Em 1949, colabora na revista Quixote nº 4, com a crônica "Sangue e Pó de Arroz". Essa publicação de Porto Alegre divulgou, por um longo período, nomes da literatura rio-grandense, renovando o cenário regional. Sempre atento aos fatos políticos, sociais e econômicos, nacionais ou internacionais, Josué criou um jornal, às próprias custas, cujo objetivo, segundo o escritor, não era ser um jornal de humor, mas igualmente não se tratava de um jornal sério, o periódico se chamava D. Xicote.

Atuou como correspondente especial no Extremo Oriente em 1952 (União Soviética e China Continental) e de 1974 a 1976 como correspondente da empresa jornalística Caldas Júnior em Portugal e África. Foi o primeiro jornalista brasileiro a ingressar na China Continental e na URSS como correspondente especial daÚltima Hora, do Rio de Janeiro, dirigido por Samuel Weiner. Ainda nessa época, Josué Guimarães escreveu o livro de viagem As muralhas de Jericó (L&PM).

No jornal Folha da Tarde, em 1954, o escritor lançou uma coluna que assinava com o pseudônimo D.Camilo. Nesse mesmo ano, passou a exercer as funções de subsecretário do jornal A Hora. Ali revolucionou o jornalismo gaúcho ao lado do então diagramador Xico Stockinger. Em 1956, trabalhou como redator da agência de propaganda MPM. Em meio a essa atividade, continuou, em momentos de recolhimento, com a produção de contos e crônicas. Em 1957, foi chamado por Assis Chateaubriand ao Rio de Janeiro para reestruturar o vespertino carioca Diário da Noite, órgão dos Diários Associados.

Como homem público foi chefe de gabinete de João Goulart na Secretaria de Justiça do Rio Grande, governo Ernesto Dornelles; foi vereador em Porto Alegre pela bancada do PTB, sendo eleito vice-presidente da Câmara. De 1961 até 1964 foi diretor da Agência Nacional, hoje Empresa Brasileira de Notícias, a convite do então presidente João Goulart. A partir de 1964, perseguido pelo regime autoritário, foi obrigado a escrever sob pseudônimo e a dar consultoria para empresas privadas nas áreas comercial e publicitária.

Josué Guimarães lançou-se tardiamente – aos 49 anos – no ofício que o consagraria como um dos maiores escritores do país. Seu primeiro livro foi Os Ladrões, reunindo contos, entre os quais o conto que dá nome ao livro, premiado no então importante Concurso de Contos do Paraná (este concurso promovido pelo Governo do Paraná foi, nas décadas de 60 e 70, o mais importante concurso literário do país, consagrando e lançando autores como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, João Antônio, além de muitos outros).

Em 1969, foi descoberto pelos órgãos de segurança da ditadura militar, respondendo a inquérito em liberdade. Retorna à capital gaúcha. Nesse mesmo período foi premiado no II Concurso de Contos do Estado do Paraná pelo conjunto de três contos "João do Rosário", "Mãos sujas de terra" e "O princípio e o fim", que posteriormente integrariam o livro Os ladrões. A essa época sua mulher e companheira é Nydia Moojem, com quem viveu até sua morte. Com ela teve dois filhos, Rodrigo e Adriana.

Sua obra – escrita em pouco menos de 20 anos – destaca-se como um acervo importante e fundamental. Democrata e humanista ferrenho, Josué Guimarães foi sistematicamente perseguido pela ditadura e os poderosos de plantão, mantendo uma admirável coerência que acabou por alijá-lo do meio cultural oficial. Depois de Erico Verissimo é, sem dúvida, o escritor mais importante da história recente do Rio Grande e um dos mais influentes e importantes do país. A ferro e fogo I (Tempo de Solidão) e A ferro e fogo II (Tempo de Guerra) – deixou o terceiro e último volume (Tempo de Angústia) inconcluso – são romances clássicos da literatura brasileira e sua obra-prima, as únicas obras de ficção realmente importantes que abordam a saga da colonização alemã no Brasil. A tão sonhada trilogia, que Josué não conseguiu concluir, é um romance de enorme dimensão artística, pela construção de seus personagens, emoção da trama e a dureza dos tempos que como poucos ele soube retratar com emocionante realismo. Dentro da vertente do romance histórico, Josué voltaria ao tema em Camilo Mortágua, fazendo um verdadeiro corte na sociedade gaúcha pós-rural, inaugurando uma trilha que mais tarde seria seguida por outros bons autores.

Seu livro Dona Anja foi traduzido para o espanhol e publicado pela Edivisión Editoriales, México, sob o título de Doña Angela.

Jousé Guimarães morreu no dia 23 de março de 1986.

Obras publicadas:

Os Ladrões – contos (Ed. Forum), 1970
A Ferro e Fogo I (Tempo de Solidão) – romance (L&PM), 1972
A Ferro e Fogo II (Tempo de Guerra) – romance (L&PM), 1973
Depois do Último Trem – novela (L&PM), 1973
Lisboa Urgente – crônicas (Civilização Brasileira), 1975
Tambores Silenciosos – romance (Ed. Globo – Prêmio Erico Verissimo de romance), 1976 – (L&PM), 1991
É Tarde Para Saber – romance (L&PM), 1977
Dona Anja – romance (L&PM), 1978
Enquanto a Noite Não Chega – romance (L&PM), 1978
O Cavalo Cego – contos (Ed. Globo), 1979, (L&PM), 1995
O Gato no Escuro – contos (L&PM), 1982
Camilo Mortágua – romance (L&PM), 1980
Um Corpo Estranho Entre Nós Dois – teatro (L&PM),1983
Amor de Perdição – romance (L&PM), 1986

Infantis (todos pela L&PM):

A Casa das Quatro Luas – 1979
Era uma Vez um Reino Encantado – 1980
Xerloque da Silva em “O Rapto da Dorotéia” – 1982
Xerloque da Silva em “Os Ladrões da Meia-Noite” – 1983
Meu Primeiro Dragão – 1983
A Última Bruxa – 1987
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sábado, 5 de março de 2016

Turbilhão - James Clavell

Titulo: Turbilhão - Supersellers 18 e 19 -  2 Volumes
Autor: James Clavell
Editora: Record
Ano: 1997
Livro 01: 619 Paginas
Livro 02: 514 Paginas

Turbilhão é uma obra de ficção histórica do escritor inglês James Clavell publicada em 1986. É o último livro da Saga Asiática, coleção de livros do autor que cobre o período de 1600 a 1976.

A trama se desenrola no Irã nos meses de fevereiro e março de 1979, tendo como pano de fundo a queda do Xá Mohammad Reza Pahlavi e a ascensão ao poder do aiatolá Khomeini. O livro descrebe as aventuras de um grupo de pilotos estrangeiros, suas famílias e iranianos ligados a eles durante o turbulento período da Revolução Islâmica do Irã. Como todas as outras novelas do autor, o livro é extenso, ficcionaliza fatos reais, analisa com detalhes aspectos da cultura onde se desenrola, possui complexas sub-tramas e um extenso elenco que inclui biografias de dezenas de personagens.

A novela é inspirada nos eventos enfrentados pela companhia Bristow Helicopters ao tentar retirar seu pessoal e investimentos do Irá devido à instabilidade após a queda do Xá. A trama reflete outros fatos reais, como a morte do embaixador norte-americanoAdolph "Spike" Dubs em Cabul em 1979. Outras companhias enfrentaram problemas semelhantes. Por exemplo, a companhiaElectronic Data Systems de Ross Perot (que foi depois candidato independente à presidência dos Estados Unidos) teve dois executivos presos em Teerã. A trama do livro On Wings of Eagles de Ken Follett é baseada no resgate desses executivos.

Contexto
Quando o tai-pan Ian Dunross toma ciência em Casa Nobre das reservas petrolíferas do Mar do Norte, Andrew Gavallan é enviado para a Escócia para iniciar um novo negócio. As plataformas de exploração de petróleo no Mar do Norte necessitam de helicópteros para transporte. Gavallan é desafiado a desenvolver as técnicas e metologias necessárias para prestar apoio às plataformas sob condições meteorológicas até então inusitadas. Essa iniciativa torna-se uma das principais atividades comerciais da Struan na década de 70, levando aos eventos descritos em Turbilhão.

Resenha da Trama
Gavallan, baseado na Escócia, gerencia a companhia S-G Helicopter que opera no Irã durante o reinado do Xá Mohammed Reza Pahlevi Quando Khomeini assume o poder, Gavallan precisa retirar seus pilotos, famílias e equipamentos do país. Um fator complicador é que Gavallan está em uma disputa com o dono da Casa Nobre. A fuga dos pilotos é o eixo principal da trama, envolvendo amantes, fanáticos, políticos, amigos e traidores. Americanos, Ingleses, Finlandeses, Iranianos, Alemães, Russos e Húngaros são todos envolvidos numa situação envolvendo fanaticismo religioso, conflagração política e conflito entre o estilo de vida ocidental e as antigas tradições iranianas. .

Equipamento
As aeronaves usadas pela S-G Helicopters incluem o Bell 212, Bell 206, Aérospatiale Alouette III e British Aerospace BAe 125.

Localidades
O ambiente da trama inclui locações reais e imaginárias. São reais as cidades our regiões de Lake Van, Teerã (inclusive as prisões de Qasr e Evin), Galeg Morghi, base aérea de Doshan Tappeh, Tabriz, as montanhas de Zagros, Lengeh, Bandar Delam, Siri, Dez Dam e ilha de Kharg no Irã, bem como as cidades de Hong Kong (China) e Aberdeen(Escócia).

São fictícias as cidades de Kowiss, Yazdek village e o emirado de Al-Shargaz (que, em árabe, significa protetor).





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sexta-feira, 4 de março de 2016

O Testamento - John Grisham

Titulo: O Testamento
Autor: John Grisham
Paginas: 440
Editora: Rocco
Resenha: O que você faria se fosse herdeiro de onze bilhões de dólares? Uma boa pergunta que tem uma eletrizante resposta em O testamento, o novo romance de John Grisham. O autor desenvolve a história da família Phelan - do patriarca, Troy Phelan, a seus estranhos herdeiros. Depois de escrever seu último testamento, o bilionário se suicida, iniciando uma batalha onde não faltam alcatéias de advogados, repórteres peçonhentos e uma família destroçada pela ambição e pelo dinheiro.

No centro da trama está Nate O'Riley, advogado, alcoólatra, que tem de mergulhar em outra selva, o Pantanal Mato-grossense, e encontrar o verdadeiro destino da fortuna de Troy Phelan. Contrapondo genialmente os canyons de concreto das grandes cidades aos alagados do rio Paraguai, John Grisham nos leva a dois mundos diferentes, cada qual com seus perigos e belezas. Mais do que uma história feita de artimanhas jurídicas e bizarros personagens, O testamentoé uma trajetória de um homem em busca de valores mais permanentes do que a embriaguez do poder.

John Grisham escreveu este romance após uma longa estada no Pantanal Mato-grossense, quando esteve em contato com missionários religiosos americanos e com a vida selvagem daquela região. "Espero não ter descrito o Pantanal como um enorme pântano repleto de perigos. Não é. É uma preciosidade ecológica que atrai muitos turistas e todos sobrevivem", escreveu Grisham. Além dos incríveis panoramas da vida natural que desenha em seu livro, o escritor retrata, com muito humor, aspectos típicos da vida do brasileiro. No capítulo 38, por exemplo, ele explica o que é o despachante: "É parte essencial da vida no Brasil. É o homem que facilita tudo. Num país onde a burocracia é antiquada e lenta, o despachante é o homem que conhece os funcionários da prefeitura, dos tribunais, os agentes da alfândega". O Brasil também esteve presente em outros de seus livros, como O sócio, no qual um americano tenta fugir de seus perseguidores em Ponta Porã.





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quinta-feira, 3 de março de 2016

O Vôo das Águias - Jack Higgins

Titulo: O Vôo das Águias
Autor: Jack Higgins
Ano: 1999
Páginas: 368
Editora: Record
Resenha: No inicio da Segunda Guerra Mundial, dois irmãos, filhos de pai americano e mãe alemã, encontram-se em lados opostos do conflito. Um é piloto da Luftwaffe e o outro da RAF. Apesar de seguirem os passos um do outro, era impossível para eles prever o reencontro. Este novo romance de Jack Higgins lança seus leitores em uma antológica intriga internacional com conseqüências imprevisíveis.






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quarta-feira, 2 de março de 2016

Reação em Cadeia - Lee Child


Titulo: Reação em Cadeia
Autor: Lee Child
Paginas: 182
Editora: Reader's Digest
Sinopse: Jack Reacher está sempre pronto a empregar as habilidades que desenvolveu na polícia do Exército para defender um amigo. Assim, ao saber que a filha de seu amigo mentor está precisando de ajuda, ele se desloca prontamente a seu lado. E ela corre grande perigo, envolvida numa trama de ganância e fraude iniciada na guerra do Vietnã.
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terça-feira, 1 de março de 2016

Blecaute - John J. Nance



Titulo: Blecaute
Autor: John J. Nance
Editora: Reader's Digest
Resenha: Depois que um clarão ofuscante irrompeu bruscamente no céu, um avião cheio de passageiros despencou das alturas como uma pedra, espatifando-se no mar ao largo da costa de Hong Kong. Teria sido a tragédia causada por um míssil disparado de um misterioso jato comercial que voava por perto? E por que alguém dentro do governo está tentando ocultar a verdade?
John J. Nance, um dos mestres mundiais dos chamados "suspenses de avião", vai conduzir você por essa aventura arrepiante através dos céus do Pacífico.
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