sexta-feira, 29 de março de 2013

As paisagens distintas do Pampa gaúcho estão sendo ‘gradualmente alteradas ou simplesmente perdidas’, entrevista com Marcelo Dutra

“Precisamos reinventar a política ambiental do Rio Grande do Sul, que precisa ser menos pessoal ou menos baseada nas relações pessoais. O mérito por conhecimento precisa ter mais espaço na política ambiental dos estados, sem prejulgamento de partidos ou regulações impostas por interesses”, diz o ecologista.
Confira a entrevista. 
As paisagens distintas do Pampa gaúcho estão sendo “gradualmente alteradas ou simplesmente perdidas”, alerta Marcelo Dutra em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Apesar do predomínio da silvicultura na região, atualmente é a cultura da soja que tem preocupado os ambientalistas. Segundo ele, muitos produtores estão aproveitando a supervalorização desta commodity no mercado, e “o que se vê é soja plantada por toda parte. A soja é uma cultura antiga no Pampa, muito comum na região norte do Estado. Entretanto, nunca se viu tamanha produção. Chega a impressionar o volume de áreas convertidas”.
Na entrevista a seguir, Duarte também propõe uma nova compreensão acerca do Pampa, a partir da constatação de que este é um espaço heterogêneo e complexo. “A importância maior desse trabalho, para além do novo olhar que estaremos imprimindo sobre esse sistema, é que estaremos dizendo que o IBGE e muita gente se equivocou em definir essa grande área como um bioma, sem na verdade ser exatamente isso. Não vejo nenhum problema em considerarmos essa região um espaço de transição, pois é o que realmente parece ser, um ‘Espaço de Transição’”. E dispara: “Podemos chamar de ‘Zona de Tensão’, ou de ‘Grande Ecótono’, ou de ‘Complexo Vegetacional’, ou, ou, ou… Mas o que não dá para chamar é de bioma”.
Marcelo Dutra é graduado em Ecologia, mestre e doutor em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Agronomia, da Universidade Federal de Pelotas. É professor da Universidade Federal do Rio Grande – FURG.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como descreve as macrofisionomias e paisagens que compõem o bioma Pampa? 
Marcelo Dutra da Silva – A Região dos Pampas compreende um complexo de fisionomias, com paisagens distintas, que vêm sendo gradualmente alteradas ou simplesmente perdidas frente aos usos e formas de uso da terra, as quais variam e avançam sobre os espaços naturais remanescentes. O Pampa apresenta valores significativos de áreas naturais perdidas, compondo um mosaico que mistura diferentes tipologias de uso rural em meio a um vasto espaço natural.
Inúmeras áreas desse bioma foram reconhecidas pelo Ministério do Meio Ambiente como prioritárias à conservação, com base na riqueza de espécies, endemismos e fatores abióticos específicos. No entanto, extensas áreas de campo natural vêm sendo convertidas em culturas anuais, como soja, trigo e arroz, além dos cultivos florestais que surgem como mais um elemento potencialmente transformador da paisagem. Marcam os aspectos fisionômicos desse bioma as feições físicas dos terrenos, as quais repercutem compondo paisagens e organizações complexas. A paisagem do Pampa apresenta quatro macrofisionomias, cada uma delas, grosso modo, ajustadas ao tipo físico dos terrenos. A fisionomia que melhor caracteriza o Pampa corresponde aos campos da campanha, na fronteira oeste, onde predomina a cobertura vegetal do tipo estepe. Composta de campos relativamente uniformes, sobre relevos suaves ou de coxilhas, nessa paisagem a pecuária se apresenta como o uso dominante e como o tipo de uso que parece melhor se ajustar, sem comprometer esse tipo fisionômico.
Na Serra do Sudeste, no centro do Pampa, predomina o mosaico campo e floresta, associado aos terrenos dobrados e rochosos, de solos rasos e pouco férteis. Essa é a fisionomia com melhor índice de conservação dentro do Pampa, talvez por conta das limitações impostas ao uso e manejo dos terrenos. Na encosta da Serra do Sudeste, em terrenos rochosos, porém bem mais dobrados, o ambiente de floresta assume a cobertura dominante, ainda que bastante fragmentada e reduzida, num processo que começou no final do século XIV, quando do estabelecimento das primeiras colônias alemã e italiana no sul do estado. No litoral, sobre os terrenos planos e arenosos da Planície Costeira, volta a predominar o campo, incluindo áreas úmidas de banhado, dunas e matas de restinga. Sobre essas fisionomias predomina o cultivo do arroz associado à pecuária. Em menor extensão também está presente o cultivo do pinus, que tem despertado preocupações, uma vez que apresenta grande poder de dispersão e vem se alastrando, contaminando o espaço aberto do litoral.
IHU On-Line – Quais são as principais transformações que vêm ocorrendo no bioma?
Marcelo Dutra da Silva – O Pampa continua sofrendo forte pressão pela agricultura, que avança sem controle sobre os remanescentes naturais, formando novas áreas de cultivo. A pecuária ainda não se reestabeleceu e não vejo sinais de que consiga num prazo curto. O desmatamento ainda é uma realidade, mas o percentual de áreas cobertas com floresta é pequeno e está associado às pressões da pequena propriedade, que tenta sobreviver do cultivo de subsistência e na exploração imposta pela produção de fumo. O plantio comercial de eucalipto continua sendo uma ameaça importante, mas a dispersão do pinus, no litoral, compreende uma das transformações espaciais mais severas do momento, que está decompondo a paisagem costeira, de forma silenciosa e quase sem ser percebida. Também no litoral, as áreas úmidas vêm sendo rapidamente suprimidas, particularmente nos centros de maior urbanização, por exemplo: na cidade de Pelotas, no extremo sul gaúcho. E para além das pressões impostas pelo uso, as espécies invasoras permanecem avançando sobre os terrenos, fragmentando habitats e expulsando espécies por competição.
IHU On-Line – O senhor menciona que além da produção de eucalipto há, no bioma, uma explosão da safra de soja. Desde quando a cultura vem sendo introduzida no bioma e quais as implicações?
Marcelo Dutra da Silva – O cultivo florestal ainda representa a maior ameaça para o sistema campestre do Pampa, formando barreiras, dividindo ou fragmentando o espaço aberto natural. Mas esse está sendo o momento especial da soja, que está supervalorizada no mercado. Muitos produtores estão tentando aproveitar esse momento e o que se vê é soja plantada por toda parte. A soja é uma cultura antiga no Pampa, muito comum na região norte do estado. Entretanto, nunca se viu tamanha produção. Chega a impressionar o volume de áreas convertidas. Lugares em que até então só se viam pastagens cultivadas ou outros tipos de cultura, agora estão cobertos por um único e contínuo tipo cultural, formando um espaço homogêneo. Sem dúvida essa simplificação da paisagem não é uma coisa boa, mesmo em áreas cultivadas. O bom da história é que não é uma conversão permanente: em seguida a soja será colhida e outras atividades começam a preencher o mosaico. Enquanto esse grão continuar valorizado, vamos ver a atividade se expandindo ano após ano. Um aspecto negativo dessas supervalorizações é que elas conduzem o investimento na direção da cultura valorizada, em detrimento das outras atividades econômicas, que enfraquecem ou perdem força, numa perigosa tendência de tudo passar a depender do sucesso de uma única cultura. Além disso, explosões de cultivos podem levar ao frenesi da ocupação de novas fronteiras agrícolas, não importando os riscos que a perda de novos espaços naturais representa para a conservação da biodiversidade.

IHU On-Line – Em que consistiria uma política de planejamento e gestão do território para definir estratégias de controle do uso dos recursos e preservação dos sistemas e da biodiversidade?
Marcelo Dutra da Silva – Pergunta difícil! O planejamento do ambiente é um ato administrativo que visa conhecer os fenômenos espaciais em todas as suas faces e que deve partir da investigação e do uso de ferramentas e métodos compatíveis com a prática. Não existe uma receita pronta para a elaboração de propostas de planejamento. Não existe o método melhor ou pior, e geralmente o processo envolve muitas pessoas da comunidade, todas com igual direito de opinar sobre as demandas, numa verdadeira explosão de ideias. Mas esse momento tem um limite, uma vez que sua construção exige conhecimento técnico e o máximo de rigor científico. Então, não há espaço para “achismos” e a qualidade de sua construção depende do emprego de fundamentos teóricos e a participação de técnicos preparados, experientes e que saibam o que estão fazendo. De boas intenções o inferno está cheio! De outra parte, o planejamento ambiental não se prende apenas aos aspectos naturais do espaço, mas também àqueles aspectos históricos, culturais, sociais e econômicos.
No fundo, o planejamento é um belo exercício de compreensão das relações homem/natureza e de como elas ocupam e transformam (e são transformadas pelo) espaço. No momento, aSecretaria Estadual de Meio Ambiente – SEMA do Rio Grande do Sul trabalha na construção do termo de referência que deverá balizar a construção do Zoneamento Ecológico Econômico do Estado  ZEE. Esse é um documento fundamental, que está fazendo muita falta. Deve ser construído o mais rapidamente possível para servir de orientação às decisões, que hoje não seguem um plano estratégico. Sem dúvida, quando o ZEE estiver pronto ele será o maior avanço na política de planejamento e controle do território gaúcho já feito. A partir dele será possível fazer gestão, será possível construir cenários e definir previsões. É preciso que se entenda que os terrenos do sul são heterogêneos, com diferentes potenciais ou capacidades de uso. Não dá para submeter todos os espaços ao mesmo tipo de uso ou à mesma intensidade de uso, pois respondem às intervenções de forma diferente. Então é preciso considerar, além das diferenças, os efeitos que essas mesmas diferenças produzem. Só espero que o RS (por meio da SEMA) envolva as pessoas certas no processo de construção do ZEE.
IHU On-Line – O senhor pode nos explicar essa suspeita de que o Pampa gaúcho talvez não passe de uma zona de transição ou um grande ecótono, entre dois grandes sistemas ou biomas (campos da campanha ou sulinos ao Sul e Mata Atlântica ao Norte)? Quais são as evidências dessa reinterpretação?
Marcelo Dutra da Silva – Essa imagem do Pampa, de um espaço heterogêneo e complexo, que reúne e mistura, pelo menos, duas grandes “coisas”, em forte competição, não me sai da cabeça, me perturba e tira o sono. O Pampa vai além do espaço brasileiro, mas olhando apenas para essa porção territorial, do centro ao sul do Rio Grande do Sul, percebe-se uma enorme heterogeneidade, tanto na sua composição litológica quanto nos sistemas que sobre essas se estabeleceram e evoluíram, incluindo as paisagens formadas no processo de ocupação e uso humano. Assim, estou vendo, de um lado (ao norte), o bioma Mata Atlântica, de florestas densas e muito verdes e, de outro, já no Uruguai e na Argentina (ao sul e a oeste), uma extensa área campestre, que ainda se mantém e continua sendo fortemente influenciada pelo clima. E, se estou vendo assim, sobra entre elas um espaço que, a meu ver, é uma grande zona de competição entre sistemas e/ou fisionomias. Podemos chamar de “Zona de Tensão”, ou de “Grande Ecótono”, ou de “Complexo Vegetacional”, ou, ou, ou… Mas o que não dá para chamar é de bioma.
Tenho refletido bastante sobre esse limite. A importância maior desse trabalho, para além do novo olhar que imprimiríamos sobre esse sistema, é que estaremos dizendo que o IBGE e muita gente se equivocou em definir essa grande área como um bioma, sem na verdade ser exatamente isso. Na verdade, não vejo nenhum problema em considerarmos essa região um espaço de transição, pois é o que realmente parece ser: um “Espaço de Transição”.
De qualquer forma, é preciso investigar melhor e ir a fundo nos conceitos. Será preciso um grande trabalho de reunião de evidência e talvez essa hipótese leve um tempo razoável, até que seja aceita e comprovada, quebrando o paradigma vigente. Vale lembrar que esse exercício que estou tentando fazer só está sendo possível porque não estou preso na escala dos organismos e sim num plano mais geográfico, atribuindo atenção para os padrões de heterogeneidade que compõem as grandezas do espaço.
Ao mesmo tempo, com igual importância na consideração, as paisagens formadas nesse espaço parecem fazer parte desse processo de competição entre as fisionomias. Alguns trabalhos mostram que o campo resiste “aí” e ainda não foi superado pelo “mato” porque o nosso esforço sobre áreas abertas permanece vivo e muito forte na identidade do gaúcho, com cultivos e a presença de grandes pastadores no nosso tempo, representados pelo gado.
IHU On-Line – Como o senhor avalia a atuação do governo gaúcho frente às questões ambientais nos ecossistemas regionais?
Marcelo Dutra da Silva – Fraca. Temos boas leis, mas carecemos de controle e fiscalização. O estado não tem o aparelho técnico necessário para conter o avanço da degradação. A nossa política de ação ainda é muito modesta, as informações estão soltas e pouca coisa se encontra sistematizada. Também o estado e os municípios fazem pouco uso das universidades, que por outro lado são pouco estimuladas a desenvolver soluções frente aos problemas.
Precisamos reinventar a política ambiental do Rio Grande do Sul, que precisa ser menos pessoal ou menos baseada nas relações pessoais. O mérito por conhecimento precisa ter mais espaço na política ambiental dos estados, sem prejulgamento de partidos ou regulações impostas por interesses às vezes escusos. Afinal, o ambiente é de todos e a coisa pública deve ser tratada com respeito.
(Ecodebate, 27/03/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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Diminuição significativa da biodiversidade pode aumentar chances de doenças

desmatamento na Amazônia
Mapa elaborado pelo Imazon

A relação entre biodiversidade e transmissão de doenças vem sendo debatida por especialistas em todo o mundo. Com as constantes mudanças climáticas e a diminuição significativa da biodiversidade, principalmente nos grandes centros urbanos, uma questão muito abordada é como as alterações na biodiversidade podem afetar a transmissão de doenças. A Fiocruz – por meio do Projeto Nacional de Ações Integradas Público-Privadas para a Biodiversidade (Probio), que faz parte do Programa Institucional Biodiversidade & Saúde da Vice-Presidência de Pesquisa e Laboratórios de Referência – tem trabalhado nessa temática, com intuito de alertar que a biodiversidade equilibrada é uma excelente aliada na prevenção da transmissão de agentes etiológicos de doenças, especialmente daqueles que demandam vetores para completar o ciclo biológico.
Coordenado pela pesquisadora Márcia Chame, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), o Probio está em sua segunda edição e conta com a subcoordenação de Norma Labarthe, também pesquisadora da Fiocruz. Em entrevista ao Informe Ensp, falou sobre a relação entre biodiversidade e transmissão de doenças. Segundo ela, a inclusão do conhecimento científico disponível nos dispositivos legais e criação de guias de vigilância seriam ações governamentais possíveis para reduzir a disseminação de doenças tendo a natureza como aliada. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
Qual é a relação entre biodiversidade e disseminação de doenças por vetores, como carrapatos, mosquitos, roedores e outros animais?
Norma Labarthe: O ponto de partida dessa reflexão é: biodiversidade equilibrada é uma excelente aliada na prevenção da transmissão de agentes etiológicos de doenças, especialmente daqueles que demandam vetores para completar o ciclo biológico. A relação nem sempre é direta, mas, simplificando um sistema altamente complexo, podemos dizer que a biodiversidade conservada reduz a disseminação.
Cientistas – inclusive pesquisadores de renomadas universidades internacionais – afirmam que, quanto maior a biodiversidade de uma região, menor é a transmissão de doenças para os homens. Já é possível explicar por que isso ocorre?
Norma: O conhecimento atual mostra que a simplificação da biodiversidade desequilibra as relações inter e intraespecíficas e, nesses casos, ocorre alteração dos padrões de transmissão de patógenos. Assim, a alteração pode ser no sentido da inclusão de humanos em um ciclo que antes não os incluía. Imaginemos que, no ambiente em questão, alguns hospedeiros que serviam como fonte alimentar para os vetores desapareceram. Concomitantemente, seres humanos, que são mamíferos de grande porte e, portanto, apresentam grande superfície para que os vetores hematófagos realizem suas refeições, tornaram-se abundantes. É provável que carrapatos e mosquitos infectados passem a se alimentar de sangue humano. Esse é um exemplo de como os vetores podem aproximar os parasitos que circulam no local dos seres humanos e, assim, aumentar as chances de haver emergência ou reemergência de novas doenças.
Poderia citar um exemplo concreto de como a mudança na biodiversidade afeta a transmissão de doenças?
Norma: Um exemplo bem conhecido é a doença de Lyme, nos Estados Unidos. O agente etiológico da doença é uma bactéria transmitida por carrapatos, cujo hospedeiro é um camundongo silvestre. O carrapato alimenta-se no roedor e também em outros pequenos mamíferos e passarinhos. Naturalmente, as fontes alimentares dos carrapatos são animais de pequeno porte. Logo, tais animais não têm sangue suficiente para alimentar grandes quantidades de carrapatos.
Quando apareceu, na região, grande quantidade de cervos, que são mamíferos grandes, a oferta de sangue ampliou. Consequentemente, a população de carrapatos também aumentou. Assim, a circulação de carrapatos e de bactérias passou a ser mais intensa. Ao entrarem nesse ambiente modificado, os seres humanos passaram a ser picados por carrapatos infectados pela bactéria e contraíram o que foi descrito como doença de Lyme.
O senso comum diz que, quanto menos animais ao redor, menor é a chance de disseminação de doenças. Essa premissa é falsa?
Norma: Generalizar é muito difícil. Se eu devolver a pergunta a você, modificando-a, qual seria a resposta? De qual espécie animal você pode contrair o maior número de doenças? Provavelmente, você pensou o mesmo que eu: de nós mesmos! Tudo o que pega em seres humanos pode pegar em mim. Seguindo esse pensamento, quanto mais parecidas as espécies entre si, maior risco elas têm de contrair alguma doença. Mas precisamos lembrar que, para oferecer perigo, o outro precisa albergar um parasito e que, se houver muitas espécies diferentes no ambiente, umas serão suscetíveis a ele e outras não. Então, se pensarmos friamente, verificaremos que as espécies resistentes (refratárias ao agente etiológico em questão) funcionam como uma barreira, um filtro natural que tenderá a proteger, e não ameaçar.
Para melhor compreensão de suscetíveis e resistentes, pode-se pensar em vacinados (resistentes) e não vacinados (suscetíveis) contra uma virose. Quando há poucos vacinados em uma comunidade, o risco a que estão expostos os suscetíveis é muito maior do que o risco dos suscetíveis numa comunidade onde há 90% de vacinados.
Diante dessa relação entre biodiversidade e transmissão de doenças, que ações o governo poderia tomar para reduzir a disseminação de doenças, usando a natureza como aliada?
Norma: Incluir o conhecimento científico disponível nos dispositivos legais e criar guias de vigilância seriam ótimas e viáveis ações.
Informe Ensp / Agência Fiocruz de Notícias, publicado pelo EcoDebate, 27/03/2013
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A redução da extrema pobreza no mundo segundo o PNUD, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A redução da extrema pobreza no mundo segundo o PNUD

[EcoDebate] O Relatório de Desenvolvimento Humano 2013, apresentado, em meados de março, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), mostra, em um dos seus cenários, que o mundo pode conseguir uma rápida diminuição da extrema pobreza nas próximas décadas, dando continuidade a redução que já vinha ocorrendo.
Segundo relatório do Banco Mundial, de fevereiro de 2012, houve uma redução absoluta e relativa da extrema pobreza no mundo, sendo que, em 1981, existiam quase dois bilhões (1,938) de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 (em ppp) ao dia nos países em desenvolvimento, representando 42,7% da população mundial. Na década de 1980 houve uma ligeira queda e o número de pessoas vivendo na pobreza extrema caiu para 1,909 bilhão, em 1990 (36% da população). Na década de 1990 o declínio foi um pouco mais rápido e o número de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 ao dia, em 1999, caiu para 1,743 bilhão (29%). Mas a queda mais significativa ocorreu na primeira década do século XXI, pois a pobreza extrema no mundo caiu para 1,289 bilhão de pessoas em 2008, representando 19% da população global.
Segundo o recente relatório do PNUD a extrema pobreza caiu para 1,212 bilhão de pessoas em 2010, representando 17,6% da população mundial. Estas tendências podem continuar (se não houver uma grande crise econômica e ambiental). Isto quer dizer que a meta 1 dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (de reduzir a pobreza extrema pela metade entre 1990 e 2015) já foi alcançada. O PNUD projeta, no cenário básico, uma redução da pobreza extrema para 841 milhões de pessoas em 2020 (11% da população mundial), 627 milhões de pessoas em 2030 (7,5%), 485 milhões de pessoas em 2040 (5,5%) e 430 milhões de pobres em 2050 (4,6% da população mundial).
Num cenário mais otimista, de progresso acelerado, o número de pessoas vivendo na extrema pobreza pode cair para 96 milhões, em 2050 (cerca de 1% da população mundial). Portanto, com políticas sociais e demográficas adequadas a extrema pobreza poderá ser eliminada do mundo ainda na primeira metade do século XXI.
Na América Latina e Caribe a extrema pobreza pode cair de 34 milhões em 2010 para 13 milhões em 2050. No Brasil, o programa país sem miséria pretende acabar com a pobreza extrema até 2014, utilizando a linha de renda per capita de R$ 70,00 ao mês, que é equivalente aos US$ 1,25 ao dia. A China, com o declínio de sua população na próxima década, pode praticamente eliminar a extrema pobreza até 2030, podendo zerar o número de pessoas na miséria até 2050.
A África ao sul do Saara também pode reduzir a extrema pobreza, passando de 371 milhões em 2010 para apenas 60 milhões em 2050. Nos Estados Árabes e na Europa e Ásia Central a extrema pobreza pode ser apenas residual (de 1 milhão de pessoas). A Índia que tinha 416 milhões de pessoas na extrema pobreza em 2010 pode apresentar uma redução impressionante, tendo apenas 2 milhões em 2050.
Porém, nada garante que estas projeções otimistas sejam atingidas. O relatório do PNUD também mostra que, em um cenário pessimista, agravado por uma grave crise ambiental motivada pela degradação da natureza, o aquecimento global e pela redução dos meios de subsistência, como a agricultura e o acesso à água potável, o número de pessoas vivendo na situação de extrema pobreza pode chegar a 3,15 bilhões de pessoas em 2050.
Portanto, o futuro está aberto. Sem dúvida o cenário otimista é o mais promissor do ponto de vista do progresso humano. Todavia, no modelo atual de produção e consumo do mundo, não vai ser fácil evitar o colapso ambiental e garantir bons indicadores de desenvolvimento humano, muito menos uma saudável biodiversidade.
O mais correto seria investir na redução da pobreza e no enriquecimento dos ecossistemas, para tanto, seria preciso planejar, no longo prazo, as metas do decrescimento demo-econômico, reduzindo os impactos negativos das atividades antrópicas.
Referência:
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
EcoDebate, 27/03/2013
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Perda de peso por dietas restritivas inadequadas traz risco de transtorno alimentar

dietas restritivasHá a necessidade de educar adolescentes sobre malefícios das dietas restritivas

Entre adolescentes de São Paulo, 31,9% apresentaram práticas não saudáveis para contole do peso
Na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, pesquisa com 1.167 adolescentes da cidade de São Paulo verificou que 12,2% apresentam comportamentos de risco para transtornos alimentares e 31,9% apresentaram algum tipo de prática não saudável para controle do peso. As práticas de dieta restritiva aumentaram a chance de apresentar comportamentos de risco para transtornos alimentares 17,26 vezes no sexo masculino, e em 12,82 no sexo feminino. A nutricionista Greisse Viero da Silva Leal, autora do trabalho, recomenda que os pais e os adolescentes saibam reconhecer precocemente as atitudes que podem desencadear transtornos alimentares na busca de sua prevenção.
Foram avaliados adolescentes, com idade média de 16 anos (de 14 a 19 anos), estudantes do ensino médio de 12 Escolas Técnicas do Centro Paula Souza, no município de São Paulo. “Os jovens foram selecionados por meio de sorteio de uma sala de aula de cada ano do ensino médio em cada escola”, diz Greisse. “Para a coleta de dados utilizou-se o Questionário de Atitudes Alimentares de Adolescentes (QAAA), adaptado do questionário utilizado no EAT Project em Minnesota (Estados Unidos) em 2002, coordenado pela pesquisadora americana Dianne Neumark-Sztainer, que avalia atitudes alimentares e seus determinantes em adolescentes, acrescido de quatro questões sobre comportamentos de risco para transtornos alimentares, desenvolvidas pela pesquisadora australiana Phlippa Hay, em 1998, e adaptadas por Julia Elba de Souza Ferreira e Glória Valéria da Veiga, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, e a Escala de Silhuetas de Stunkard (1983)”. A pesquisa foi orientada pela professora Sonia Tucunduva Philippi, do Departamento de Nutrição da FSP e faz parte de tese de doutorado defendida no último dia 15 de março.
Entre os adolescentes que apresentaram comportamento de risco para transtornos alimentares, 72,5% são do sexo feminino. “Estes comportamentos são caracterizados por compulsão alimentar (10,3%), prática de dieta restritiva (8,7%), uso de diuréticos com o objetivo de emagrecer (1,4%), uso de laxantes com o objetivo de emagrecer (0,3%) e vômito autoinduzido com o objetivo de emagrecer (0,3%)”, conta a nutricionista.
Dos jovens que apresentavam alguma prática não saudável para controle do peso, 66,8% são do sexo feminino. “Estas práticas são comer muito pouca comida com o objetivo de perder peso (20,4%); omitir refeições com o objetivo de perda de peso (20,6%); usar substitutos de refeições e alimentos com o objetivo de emagrecer (7,4%); usar remédios para emagrecer (2,1%) e fumar mais cigarros com o objetivo de emagrecer (1,6%)”.
Imagem corporal
De acordo com o estudo, a leitura de revistas sobre dieta para emagrecer aumentou em 2,87 vezes a chance de apresentar práticas não saudáveis para controle do peso, enquanto que estar satisfeita com a imagem corporal diminuiu esta chance, ou seja, satisfação corporal foi fator protetor. “O que se observa é que cada vez mais as revistas voltadas para o público feminino apresentam dietas para emagrecer e trazem corpos muito magros como ideais de beleza, as adolescentes podem sentir-se insatisfeitas com seus corpos quando comparados aos das modelos das revistas e procurar métodos não saudáveis para perder peso”, diz Greisse.
Entre os adolescentes do sexo masculino, o que mais influenciou as práticas não saudáveis para controle de peso foi o estímulo materno à prática de dietas para emagrecer e a mídia (televisão, artistas de TV e modelos), aumentando o desejo de mudar a aparência corporal. Os riscos das dietas restritivas na adolescência estão relacionados ao fato de que tais dietas são hipocalóricas, ou seja, não atendem as necessidades nutricionais e podem comprometer o crescimento e desenvolvimento adequados.
“Além disso, relacionado aos transtornos alimentares, dietas restritivas causam privação física e emocional que podem desencadear frustração, raiva, ou seja, a pessoa sente-se frustrada por não poder comer certos tipos de alimentos, o que, em algum momento, pode levar à compulsão alimentar e esta, por sua vez, ao sentimento de culpa e medo de engordar, podendo desencadear comportamentos purgativos (vômito autoinduzido, uso de laxantes e diuréticos) compensatórios”, ressalta a nutricionista.
Segundo Greisse, é necessário incentivar o consumo de uma alimentação balanceada, com horários regulares e o consumo de alimentos de todos os tipos, de forma variada e prazerosa, a prática de atividade física de acordo com a aptidão de cada um, sem que seja uma obrigação. “Promover a satisfação corporal é primordial, ressaltando para os adolescentes a existência de diversos tipos de corpos e a impossibilidade de padronização de pesos e tamanhos ou medidas corporais”, observa. “Além disso, é necessário educar os adolescentes sobre a mídia, sobre os malefícios e a ineficência das dietas restritivas presentes em revistas e na internet e sobre a utilização de recursos gráficos que mostram corpos irreais, por exemplo”.
Imagem: sxc.hu
Matéria de Júlio Bernardes, da Agência USP de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 28/03/2013
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Tráfico internacional de pessoas é crime invisível

Tráfico internacional de pessoas
Tráfico internacional de pessoas é alvo de estudo por sua complexidade
O tráfico internacional de pessoas para fim de exploração sexual foi objeto de uma dissertação de mestrado da Faculdade de Direito (FD) da USP. A advogada e editora jurídica Thaís de Camargo Rodrigues concluiu que o tráfico internacional de pessoas é um “processo delitivo”, sequência que envolve mais de uma violação, e que a lei brasileira não abrange todas as suas etapas.
A pesquisa ‘O tráfico internacional de pessoas para fim de exploração sexual e a questão do consentimento’ teve início em 2009, quando a advogada sentiu-se motivada ao cursar a disciplina de Direito Penal Sexual, no início da pós-graduação. “O tráfico internacional de pessoas foi um dos temas que me chamou bastante atenção por vários aspectos: pela grande violação dos direitos humanos e pelo pouco conhecimento sobre ele”, justifica a pesquisadora.
A pesquisa permitiu que Thaís entrasse em contato com outros profissionais que estudam o assunto, como a Promotora de Justiça Eliana Vendramini, a antropóloga Adriana Piscitelli e a jornalista Priscila Siqueira, além de examinar as legislações estrangeiras sobre o tema. Ela teve acesso a materiais com ajuda do Ministério da Justiça e do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Estado de São Paulo. Contudo, Thaís não teve contato com vítimas, pois o crime, segundo o estudo, “é invisível, porque as pessoas que sofrem muitas vezes não se veem como vítimas” e alguns processos correm em segredo de justiça para proteger vítimas e testemunhas.
A conclusão obtida na dissertação de mestrado é que o tráfico internacional de pessoas não é apenas um crime, como descreve o artigo 231 do Código Penal Brasileiro. “Ele engloba o aliciamento, o transporte e a exploração que tira todos os direitos de uma pessoa”, conta. Trata-se, segundo Thaís, de um processo muito mais complexo do que descreve a lei brasileira atual.
O Protocolo de Palermo
Países como Portugal, Espanha, Alemanha e Argentina adequaram sua legislação sobre o tráfico internacional de pessoas conforme o Protocolo de Palermo, tratado feito em adição à Convenção das Nações Unidas contra o crime organizado transnacional, que define o crime e traça metas comuns de combate a ele. No estudo, a pesquisadora percebeu que esse acordo tratava do tráfico de pessoas em seus diversos fins. “O Protocolo de Palermo define o tráfico para exploração sexual, para trabalho escravo e para remoção de órgãos”, esclarece e conclui “aqui no Brasil, no entanto, não há uma legislação unificada e sistematizada que abrace tudo isso”.
Não há tráfico quando a pessoa, maior e capaz, concorda em viajar ao exterior para fins de prostituição, segundo sua interpretação do Protocolo de Palermo. “No nosso código, o consentimento é completamente ignorado, demonstrando um paternalismo exagerado”, avalia Thaís. Ela ressalta, no entanto, que para se levar em conta o consentimento do maior e capaz “é necessário comprovar se esta pessoa não está sofrendo alguma agressão ou se ela é vulnerável.”
Em sua dissertação de mestrado, Thaís escolheu dar ênfase ao tráfico internacional de pessoas para fins de exploração sexual. Ela descobriu, portanto, que nem os órgãos internacionais analisados tratam a questão do consentimento com unanimidade. “Há duas organizações não governamentais (ONGs) que tratam dessa questão da prostituição. A Aliança Global Contra o Tráfico de Mulheres (GAATW) considera a prostituição como um trabalho e as pessoas podem escolher, mas a Coalizão Contra o Tráfico de Mulheres (CATW) entende que nenhuma pessoa pode escolher ser prostituta, por ser contra a dignidade humana.”
A pesquisa foi orientada pelo professor Vicente Greco Filho e defendida em maio de 2012 na Faculdade de Direito da USP.
Imagem: Marcos Santos / USP Imagens
Matéria de Lara Deus, da Agência USP de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 28/03/2013
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Milhares de pesticidas circulam nos EUA apesar da realização de testes mínimos

aplicação de agrotóxicos
Milhares de pesticidas circulam no mercado americano apesar de não terem sido aprovados em rigorosos testes de segurança, pondo em risco a saúde de pessoas, animais e insetos polinizadores, como as abelhas, alertou nesta quarta-feira um grupo ecologista. Matéria daAFP, no UOL Notícias.
O Conselho de Defesa de Recursos Naturais culpou uma lacuna regulatória no Congresso que data de 1978 e permitiu à Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) aprovar mais de 10.000 pesticidas com a realização de testes mínimos.
Este “registro condicional” foi estabelecido para casos específicos, como o aparecimento de doenças ou crises de saúde pública, mas na prática foi aplicado em 65% dos 16.000 pesticidas do mercado.
“Um dos problemas que também descobrimos foi que o banco de dados da EPA está caótico”, afirmou Mae Wu, advogada do Conselho Nacional de Proteção Ambiental, que participou da investigação nos últimos dois anos.
“Não estavam seguindo em absoluto os procedimentos corretos de registro”, acrescentou, em declarações à imprensa, ao observar que o público nunca esteve envolvido no processo de seleção e que os pesticidas temporários ficavam relegados a “buracos negros”.
O Conselho mencionou dois produtos que chegaram ao mercado sem ser submetidos a testes de toxicidade: um bactericida conhecido como nanosilver, usado em tecidos e vestuário, e o pesticida clotianidina, que ameaça as abelhas.
O grupo pediu à EPA que revise os pesticidas registrados, revogue a aprovação do nanosilver e da clotianidina, além da formação de uma base de dados de pesticidas autorizados, acessível ao público.
Consultada pela AFP, a EPA respondeu em um comunicado que estava “trabalhando intensamente para proteger as abelhas e outros polinizadores dos pesticidas perigosos através de uma regulamentação, do trabalho de voluntários e de programas de pesquisa”.
A EPA também está “acelerando o calendário para revisar os pesticidas neonicotinoides devido às incertezas em torno destes e ao desconhecimento de seus potenciais efeitos nas abelhas”, disse.
EcoDebate, 28/03/2013
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Estudo mostra que pesticidas neonicotinoides e organofosfatos afetam o cérebro das abelhas

abelha
Pesticidas usados por fazendeiros para proteger cultivos e colmeias podem embaralhar os circuitos cerebrais das abelhas melíferas (produtoras de mel), afetando sua memória e sua capacidade de navegação, necessárias para encontrar comida, alertaram cientistas nesta quarta-feira. Matéria da AFP, no Yahoo Notícias, com informações adicionais do EcoDebate.
Segundo artigo [Cholinergic pesticides cause mushroom body neuronal inactivation in honeybees] publicado na revista científica Nature Communications, isso poderia ameaçar colônias de abelhas inteiras, cujas funções polinizadoras são vitais para a produção de comida para nós, humanos.
A equipe de cientistas estudou os cérebros de abelhas produtoras de mel no laboratório, expondo-as a pesticidas neonicotinoides usados em lavouras, e a organofosfatos, o grupo de inseticidas mais usado no mundo – neste caso, o coumafos -, às vezes utilizado para controlar infestações de ácaros em colmeias.
Segundo os cientistas, quando expostos a concentrações similares dos dois pesticidas encontradas no meio ambiente, os circuitos de aprendizagem nos cérebros das abelhas logo param de funcionar.
“Juntas, as duas classes de pesticidas demonstraram ter um efeito negativo maior no cérebro das abelhas e que podem inibir o aprendizado das abelhas produtoras de mel”, explicou à AFP um dos co-autores do estudo, Christopher Connolly, do Instituto de Pesquisa Médica da Universidade de Dundee.
“As polinizadoras têm comportamentos sofisticados enquanto se alimentam, que exigem que aprendam e se lembrem de tratos florais associados à comida”, acrescentou sua colega, Geraldine Wright, do Centro de Comportamento e Evolução da Universidade de Newcastle.
“A interrupção desta importante função tem implicações profundas na sobrevivência de colônias de abelhas produtoras de mel porque as abelhas que não conseguem aprender não conseguirão encontrar comida”, emendou.
A descoberta foi feita em meio a um intenso debate sobre o uso continuado de neonicotinoides.
Há duas semanas, países europeus rejeitaram uma proposta de proibição por dois anos do grupo de inseticidas que atinge o cérebro, depois da oposição da indústria agroquímica.
Apicultores (criadores de abelhas) de Europa, América do Norte e de outras partes do mundo estão preocupados com o chamado distúrbio de colapso das colônias, um fenômeno no qual abelhas adultas abruptamente desaparecem das colmeias – algo que tem sido atribuído a ácaros, vírus e fungos, pesticidas ou a uma combinação destes fatores.
As abelhas são 80% dos insetos polinizadores de plantas. Sem elas, muitos cultivos seriam incapazes de frutificar ou teriam que ser polinizados a mão.
Os cientistas afirmam que suas descobertas podem levar a uma reavaliação do uso de pesticidas.
“Nossos dados sugerem que o uso amplo de coumafos como acaricida é um risco desnecessário para a saúde das abelhas melíferas”, afirmou Connolly, que propôs o uso de ácidos orgânicos como sendo mais apropriado para o controle de ácaros nas colmeias.
Em termos de pesticidas para a proteção de cultivos, a indústria agroquímica argumenta que alternativas aos neonicotinoides seriam mais tóxicas para as abelhas.
“Uma comparação direta das alternativas parece ser o único caminho” para encontrar a opção menos nociva, afirmou o cientista.
Em um comentário do estudo, o professor de Apicultura Francis Ratnieks, da Universidade de Sussex, disse que as concentrações usadas na pesquisa pareciam altas.
“Não surpreende que altas concentrações de inseticidas sejam nocivas, mas não sabemos se os baixos níveis de inseticidas neonicotinoides no néctar e no pólen de plantas tratadas também são nocivos no mundo real”, acrescentou.
Além disso, o uso de coumafos é ilegal em grande parte da Europa e não é amplamente usado nos Estados Unidos, afirmou Ratnieks, citado pelo Science Media Centre, em Londres.
Nesta quarta-feira, apicultores franceses pediram ao Ministério da Agricultura a proibição de pesticidas neonicotinoides, enquanto a Comissão Europeia (CE) analisa a adoção de uma norma específica sobre o caso.
“A situação é catastrófica”, disse Henri Clément, porta-voz dos apicultores franceses, afirmando que a taxa de mortalidade das abelhas passou de 5% na década de 1990 para 30% atualmente, o que provocou uma redução dramática na produção de mel na França, para 16.000 toneladas.
Clément se reuniu com os legisladores, aos quais pediu apoio ao seu apelo pela proibição dos neonicotinoides, e pediu a criação de um “comitê de apoio a alternativas aos pesticidas”.
Este ano, a CE já propôs a suspensão do uso de três produtos neonicotinoides nas culturas de milho, canola, girassol e algodão, pois estes componentes contribuem para uma alta notável na mortalidade das abelhas.
Cholinergic pesticides cause mushroom body neuronal inactivation in honeybees
Nature Communications4, Article number: 1634
doi:10.1038/ncomms2648
http://www.nature.com/ncomms/journal/v4/n3/full/ncomms2648.html
EcoDebate, 28/03/2013
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