segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ministério da Saúde recomenda eliminação do uso de amianto crisotila no país



Caixa d’água fabricada com amianto, material condenado por estudos científicos e defendido em outros. Efeitos sobre os trabalhadores são tema de portaria do Ministério da Saúde, questionada na Justiça por grupo de fabricantes. Foto: Wilson Dias/ABr

Caixa d'água fabricada com amianto, material condenado por estudos científicos e defendido em outros. Efeitos sobre os trabalhadores são tema de portaria do Ministério da Saúde, questionada na Justiça por grupo de fabricantes. Foto: Wilson Dias/ABr“O Ministério da Saúde recomenda a eliminação de qualquer forma de uso do amianto crisotila em todo o território nacional”, disse nesta sexta-feira (24) o diretor do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador na Secretaria de Vigilância da Saúde, vinculada ao Ministério da Saúde, Guilherme Franco Netto, durante audiência pública promovida pelo Supremo Tribunal Federal para debater com especialistas de diversos setores a utilização do amianto na indústria brasileira. Segundo ele, está provado cientificamente que o produto é cancerígeno e que o Brasil tem tecnologia e matérias-primas para substituí-lo totalmente em seu território.
Franco Netto, que participou do evento representando o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse também que o Ministério da Saúde recomenda, ainda, a adequada gestão ambiental dos resíduos do amianto e a identificação e o acompanhamento rigoroso da população a ele exposta.
Ele apresentou dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo os quais atualmente 125 milhões de trabalhadores em todo o mundo estão expostos aos efeitos maléficos do asbesto-amianto (ou amianto crisotila), e um terço dos cânceres ocupacionais são causados pela inalação de fibras de amianto. Ainda segundo ele, a OMS estima 100 mil mortes causadas pelo amianto. Nos Estados Unidos, a estimativa é de 67 mil óbitos por ano. E tais cânceres, de acordo com o especialista, apresentam morbidade de 80% a 90%, conforme dados levantados nos primeiros 12 anos de seu diagnóstico.
Risco
Trata-se, segundo ele, de fibras mais finas que um cabelo humano, que se espalham a longas distâncias e penetram facilmente no sistema respiratório humano. E seus efeitos maléficos só aparecem ao longo do tempo, podendo o câncer por ele causado aparecer somente 30 a 40 anos depois da inalação.
Ele esclareceu que as pessoas mais expostas ao amianto crisotila são, além dos próprios trabalhadores que lidam diretamente com o produto, seus familiares – que têm contato com ele, seus objetos e suas roupas –, pessoas que residem próximas de indústrias e locais de extração do produto ou que tenham alguma relação com sua extração, utilização, manipulação e transporte.
Franco Netto citou dados segundo os quais, somente no Sistema Único de Saúde (SUS) foram registrados, entre 2008 e 2011, 25.093 casos de cânceres provocados pelo amianto e, no período de 2000 a 2011, 2.400 óbitos. Os casos de óbitos, segundo ele, seguem a curva do aumento do uso do produto.
Sob o aspecto econômico, ele apresentou dados que indicam que, somente no SUS, foram gastos, em 2011 e 2012, R$ 291,871 milhões com o tratamento quimioterápíco, cirurgias oncológicas, internações em unidades de terapia intensiva (UTIs) e leitos, sem incluir tratamentos ambulatoriais. E esses gastos poderiam ser evitados se o Brasil utilizar sucedâneos do amianto crisotila, ressaltou.
Dificuldades
Franco Netto admitiu que há uma fragilidade no controle da doença por parte do Ministério da Saúde, uma vez que uma liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ), concedida em mandado de segurança, impede o cumprimento da Portaria 1.851/96 do Ministério, que obriga as empresas que lidam com amianto a encaminharam listagens de trabalhadores expostos aos riscos do amianto.
Fonte: STF
EcoDebate, 27/08/2012
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Ainda que tardia, artigo Montserrat Martins


[EcoDebate] 351 detentos receberão atendimento adequado à dependência química na prisão, cumprindo a finalidade legal de reabilitação dos apenados. Esse é o mote do Centro de Referência para Privados de Liberdade Usuários de Álcool e Outras Drogas a ser criado no RS, num projeto pioneiro no país, a de um presídio com essa especificidade, com 351 vagas. Uma manifestação veiculada no rádio já levantou um questionamento, dizendo que só depois de presos os dependentes terão acesso ao atendimento à saúde. Mas essa iniciativa, na área da Segurança Pública, não impede que a Secretaria da Saúde desenvolva melhores programas de tratamento e prevenção à dependência química, pelo contrário, pode e deve servir como estímulo para que esse problema seja melhor enfrentado em todas esferas públicas.
Não se esperem consensos em matéria de políticas públicas, mas os profissionais que atendem nessa área e os próprios pacientes serão os primeiros a reconhecer a importância dessa medida tão necessária e corajosa, por parte do governo. É o enfrentamento, mesmo que tardio, de um dos principais problemas que afetam a saúde e também a segurança públicas. Cerca de metade dos acidentes de trânsito, assim como dos acidentes de trabalho e dos episódios de violência, tem relação com o uso de substâncias. Isso afeta a todos porque, além dos serviços demandados em saúde e segurança, o Estado também arca com os ônus não só do atendimento quanto da previdência social, em relação às vítimas de todas essas ocorrências.
O que nem todos sabem é que existem abordagens que podem ser promissoras, como se constata hoje no mundo todo em grupos de entre-ajuda tais como Alcoólicos Anônimos (A.A.) e Narcóticos Anônimos (N.A.), além dos grupos análogos frequentados pelos familiares destes. Os melhores serviços de saúde incluem, entre os profissionais, também a figura do consultor que é um membro dos próprios grupos de entre-ajuda e contribui muito – com sua experiência vivencial – na abordagem com os pacientes, principalmente no momento inicial que é o da negação do problema.
Ao longo do século XX, com o desenvolvimento de várias correntes de pensamento científicas, as mais diversas estratégias médicas, psicológicas e sociais foram criadas e testadas para atendimento nessa área. Muitas são válidas e úteis, mas nenhuma representa alguma forma de “cura” absoluta ou definitiva, sendo que na média os índices de “recuperação” – ou melhor, dos pacientes que seguem em abstinência – após 5 anos, giram em torno de 20% das pessoas atendidas. Pois os resultados dos grupos de entre-ajuda (que além de tudo são absolutamente gratuitos e independentes dos governos) estão sempre entre os melhores, em qualquer parte do mundo, seja em Cuba ou na Inglaterra.
A compreensão de que estas pessoas requerem uma abordagem própria, que inclui os companheiros de vivência no seu atendimento, começou há mais de cinquenta anos, na metade do século XX, quando dois alcoolistas se reuniram e começaram a criar os A.A. como um modo de enfrentarem a própria dependência. O reconhecimento da importância dessa abordagem, pelo Estado, está chegando agora em nossa sociedade, portanto, meio século depois. Mas, como no lema que precedeu à Independência, “libertas quae sera tamen” (e assim como no caso da volta do interesse do país pelas ferrovias), saudemos as boas iniciativas, ainda que tardias.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.
EcoDebate, 27/08/2012
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Consumo e Consumismo: nem sei se posso, mas quero comprar

consumo insustentável

Nem sei se posso, mas quero – O deslumbramento pelo consumo não pode durar para sempre. Em algum momento a sociedade brasileira precisará amadurecer, afirma filósofo
Sorry, brazucas… Em um breve e irônico post publicado nessa semana na revista americana Forbes, o jornalista Kenneth Rapoza endereçou críticas aos consumidores brasileiros: “Não há status em um Toyota Corolla, Honda Civic, Jeep Grand ou Dodge Durango. Definitivamente, vocês estão sendo roubados”. Matéria de Juliana Sayuri, no caderno Aliás, em O Estado de S.Paulo
Estamos? Estamos. E não só nas cifras milionárias desembolsadas para adquirir carrões e outros luxuosos mimos (sem os quais viveríamos muito bem, obrigado). “Estamos vivendo uma corrida armamentista do consumo”, critica o economista e filósofo Eduardo Giannetti*, autor de O Valor do Amanhã: Ensaio sobre a Natureza dos Juros e do best-seller Felicidade: Diálogos sobre o Bem-estar na Civilização (ambos Companhia das Letras).
Para Giannetti, nós brasileiros estamos dispostos a pagar preços estratosféricos por carros importados (luxuosos e nem tanto), pois eles nos conferem a ilusória ideia de status. São “bens posicionais”, que hierarquizam a sociedade na antiga fórmula quanto mais caro, mais exclusivo; quanto mais exclusivo, mais status. “Primeiro é um tênis de marca, depois um carro importado, um iate, um jatinho, uma viagem a Marte. A corrida sempre se renova”, diz. É o carro do ano, o look exclusivo da fashion week, o restaurante badalado, a deserta ilha paradisíaca e outras extravagâncias de gente chique. Para serem almejados, os objetos devem continuar um privilégio de poucos, fora do alcance dos plebeus. Nessa lógica, o diamante só brilha se refletir nos olhos dos outros.
Na quinta-feira, Giannetti recebeu o Aliás no seu apartamento no bairro paulistano de Vila Madalena. Ph.D. pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) de São Paulo, Giannetti costura economia e filosofia para discutir por que os ideais de beleza, poder e riqueza abalam a psique humana de uma maneira quase irracional. “Por que nos deixamos levar pelas promessas desses bens posicionais? Por que somos iludidos por eles?”, questiona. Para responder à questão, Giannetti busca na estante O Livro das Citações: Um Breviário de Ideias Replicantes, de sua autoria, com páginas marcadas por post its coloridos, e cita o poeta satírico Petrônio: “Só me interessam os bens que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-los”.
Conversamos numa sala ampla, charmosa e emoldurada por estantes e mais estantes cheias de livros. Só na biblioteca pessoal, o economista guarda mais de 5 mil títulos. “São meus bens posicionais”, diz, brincando a sério. “Todos nós temos bens posicionais. Seria uma ilusão dizer que não. Pascal tinha um pensamento interessante: ‘Os seres humanos se dividem em duas classes: os santos que se creem pecadores, e os pecadores que se creem santos.’ Prefiro estar entre os santos.”
Na Forbes dessa semana, Kenneth Rapoza ironiza os preços exorbitantes que os brasileiros pagam por carros importados. Afinal, por que aceitamos pagar tão caro?
Por um lado, porque não há alternativa. A indústria automobilística brasileira é altamente protegida. Os importados pagam uma tarifa exorbitante para entrar no País. Os carros ficam com um preço muito acima do mercado internacional, mesmo descontando os impostos. Por outro lado, os brasileiros se submetem aos preços pois os carros são “bens posicionais”. A ideia é do economista inglês Fred Hirsch. O valor do bem posicional depende justamente da “exclusividade”, isto é, do fato de que os outros não têm acesso a esses bens. Quanto mais caro, mais exclusivo. Quanto mais exclusivo, mais status. E, portanto, mais poder para impressionar os outros. O filósofo francês Nicolas Malebranche dizia que o desejo mais ardente das pessoas é conquistar um lugar de honra na mente dos seus semelhantes. Essa é a ideia do bem posicional: o proprietário pensa que as pessoas passam a respeitá-lo e admirá-lo mais porque ele pode desfilar um carrão, uma grife, um luxo.
Mas todos os bens são consumidos assim?
Há uma diferença. Um copo de leite, por exemplo, é um bem normal. Se tenho prazer em beber um copo de leite todas as manhãs, isso independe do resto da sociedade. Se amanhã todo mundo beber um copo de leite igualzinho, o meu prazer não mudará uma gota. Mas suponha que eu sou um jovem ambicioso, trabalho 12 horas no mercado financeiro, ganho meu dinheiro honestamente e decido que a coroação da minha vitória será um automóvel caríssimo. Compro meu carro dos sonhos – um BMW, um Mercedes ou um dos carros mencionados pela Forbes – e, de repente, tenho um estalo: “Eu sou especial”. As meninas vão ver um brilho diferente no meu olhar, os amigos vão me invejar, os outros vão me respeitar quando passar na rua. Volto para casa feliz da vida. Mas, na manhã seguinte, acontece uma coisa estranha: todos os carros da cidade se transformaram em BMWs idênticos ao meu. E aí? Será que esse carro ainda tem a importância e o valor que tinha aos meus olhos e aos olhos dos demais? Ou será que o poder que ele me conferia simplesmente desapareceu? Pois é, desapareceu. Uma das melhores definições dessa ideia é do satírico romano Petrônio: “Só me interessam os bens que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-los”. Isso foi dito na Roma antiga, há dois milênios. Uma passagem de Adam Smith, n’A Riqueza das Nações (1776), também ilustra isso: “Para a maior parte das pessoas ricas, a principal fruição da riqueza consiste em poder exibi-la, algo que aos seus olhos nunca se dá de modo tão completo como quando elas parecem possuir aqueles sinais definitivos de opulência que ninguém mais pode ter a não ser elas mesmas”. Essa é uma definição irretocável do bem posicional. Quer dizer, sim, compramos um sinal de opulência e de distinção, um prestígio, um brilho – embora muitas vezes sabendo que estamos sendo roubados. Mas, afinal, por quê? Beleza, poder e riqueza mexem com o psiquismo humano de uma maneira quase pré-racional. Não percebemos quão vulneráveis somos a esses apelos. Isso certamente não é de hoje. Ao longo da história, muitos pensadores se debruçaram sobre essa questão, a partir de uma perspectiva ética. Como entender o fascínio por beleza, poder e riqueza? Por que nos deixamos levar por essas promessas? Por que somos iludidos por esses bens posicionais?
No mês passado, os brasileiros marcaram níveis históricos de inadimplência (na série do Banco Central iniciada em 2000). Vale tudo para poder adquirir esse bens?
Estamos vivendo uma corrida armamentista do consumo, pois o bem posicional sempre se renova. Isto é, no momento em que se democratiza o acesso a um bem de consumo, outros novos são inventados. É como uma corrida armamentista: sempre teremos novos e diferenciados objetos de desejo. Primeiro é um tênis de marca, depois um carro importado, um iate, um jatinho, uma viagem a Marte. A corrida armamentista sempre se renova. Não dá para desmontar totalmente as armadilhas dessa corrida, mas podemos almejar uma sociedade mais madura e marcada por uma pluralidade de valores. Assim nem todos estariam competindo na raia estreita, por um carro x ou y. Deveríamos conquistar um lugar de honra na sociedade mais pelo que somos e menos pelo que possuímos.
Há diferenças entre a sociedade de consumo de outros países e a do Brasil atual?
O que complica o Brasil é a desigualdade. Isso acirra e exacerba o poder do dinheiro, da posse, da propriedade. Quem não tem superestima o que o dinheiro pode comprar, ficando muito vulnerável a fantasias e fascínios sobre o status. Na outra ponta, o rico tem o poder superdimensionado por poder comprar o trabalho dos outros a um preço aviltado, adquirindo uma preeminência desmesurada na sociedade. Mas a novidade brasileira é a mobilidade social dos últimos dez anos. Cerca de 30 milhões de brasileiros, antes praticamente excluídos, passaram a ter acesso ao mercado de consumo. Há um momento de deslumbramento diante dessas novas possibilidades, o que é natural, pois essas pessoas tiveram uma demanda reprimida durante diversas gerações. Por isso elas vão com muita sede ao pote, que lhes foi negado por muito tempo. Mas esse deslumbramento não pode durar para sempre. Em certo momento, a sociedade precisará amadurecer. E as pessoas, principalmente dessa nova classe média, vão precisar pensar no futuro.
O que quer essa nova classe média?
É o que todos queremos saber. Mas podemos dizer que essa nova classe média tem uma demanda vigorosa por credenciais educacionais. O que até seria certo, mas a ideia de educação é que está equivocada. Educação é conhecimento, cultura, formação, habilidades, informação. E não simplesmente um diploma, um papel vazio. Um dos dados mais estarrecedores dos últimos tempos foi revelado na pesquisa feita pelo Ibope. Um dado realmente alarmante: 38% dos egressos do ensino superior no Brasil são analfabetos funcionais. Há alguma coisa muito grave e muita errada em um sistema educacional em que isso acontece. Se tiver o mínimo de seriedade e até de autorrespeito, o governo deveria se debruçar sobre essa realidade, principalmente neste momento de ascensão social.
No livro O Valor do Amanhã o sr. diz que o imediatismo impera na sociedade brasileira. Como isso se traduz no consumo?
A imaginação brasileira é muito volátil: quando as coisas vão mal, as pessoas caem em desesperança radical; quando as coisas vão bem, elas caem na euforia e na exuberância. A lâmina da sobriedade precisa cortar nas duas direções. Essa preferência pelo presente, mesmo a um custo elevado no futuro, é uma das características mais marcantes da vida brasileira, com raízes históricas desde a colonização. Atualmente, dá para notar isso em muitas dimensões: a formação de capital humano, a infraestrutura, a poupança previdenciária. Os nossos juros exorbitantemente elevados são sintomáticos dessa predileção pelo presente. Eu me inspiro num conto de Machado de Assis intitulado, não por coincidência, O Empréstimo. Machado descreve um personagem com vocação para a riqueza, mas sem vocação para o trabalho. E a resultante é: dívida. Adaptei isso para a sociedade brasileira, pois o Brasil me parece um país com vocação para o crescimento, mas sem vocação para a poupança. E a resultante disso é desequilíbrio macroeconômico.
Com a ascensão dessa classe emergente, os ricos vão querer esbanjar ainda mais para manter seu status e seus bens posicionais?
Nós temos um quadro curioso de discriminação social no Brasil: as pessoas da elite financeira e econômica se sentem diferentes do resto da sociedade e não querem ter seus privilégios ameaçados. Por outro lado, o País tem uma inconsistência estrutural interessante em diversos campos: nos transportes, na moradia, na educação. A nova classe média tem uma demanda, legítima e até natural, por automóveis, um símbolo de autonomia e status. Mas temos infraestrutura para acompanhar uma agressiva expansão da frota? O avião, por exemplo. Antes restrito, o transporte aéreo agora está recebendo muita gente (e é bom que isso aconteça), mas temos infraestrutura para ordenar esse crescimento? Não, aí o caos nos aeroportos. A mesma falha na questão habitacional: há uma imensa demanda por moradia, absolutamente legítima e muito bem-vinda, por casa própria. Minha Casa, Minha Vida é a cereja do PAC. Mas temos infra urbana de saneamento básico, por exemplo, para dar real dignidade às pessoas? Em pleno século 21, 40% dos domicílios brasileiros não têm saneamento básico, o que é gravíssimo. E a telefonia? Todo mundo tem celular atualmente, mas ninguém consegue se comunicar direito por causa das panes do sistema. Nesses exemplos e em outras situações, encontramos a mesma inconsistência. Nós fazemos a parte fácil – relacionada ao consumo imediato -, mas temos muita dificuldade para dar estrutura a essas demandas de uma maneira sustentável e ordenada. Então, a vida cotidiana é conturbada. É um pesadelo vivido pela sociedade inteira, independentemente da classe social.
* ECONOMISTA E FILÓSOFO, Ph.D. PELA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, PROFESSOR DO INSPER. É AUTOR DE O VALOR DO AMANHÃ
EcoDebate, 20/08/2012
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As más lembranças e as megaobras, artigo de Washington Novaes

radioativo

[O Estado de S.Paulo] Há poucos dias, o 67.º aniversário da primeira bomba atômica, despejada sobre Hiroshima, provocou uma catadupa de artigos na comunicação mundial, já preocupada com as consequências que a guerra cibernética – aqui comentada na semana passada – possa a vir a ter nos destinos do planeta. Agora se começa a recordar que no final do mês será lembrado o 25.º aniversário do acidente com o césio 137 em Goiânia.
Nesse contexto da nossa fragilidade diante de elementos tão destruidores, vale a pena recordar o que disse a uma CPI da Assembleia Legislativa de Goiás o cientista Júlio Rosenthal, encarregado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) de comandar a operação de “salvamento” da capital goiana. Ele recebeu a missão por telefone na manhã de um domingo e também por telefone convocou alguns peritos em São Paulo e com eles combinou de se encontrarem no fim da noite no aeroporto de Goiânia. Consultando arquivos da CNEN, Rosenthal já verificara que havia um instituto de radiologia na cidade, dono de uma bomba de césio, que havia pouco tempo recebera uma bomba de cobalto. Por isso desativara a de césio – e a possibilidade maior de acidente era com esta última.
Com a roupa do corpo e suas malas, a equipe seguiu do aeroporto diretamente para o endereço do instituto de radiologia, onde só encontrou os restos de uma construção e, no seu interior, alguns mendigos. À luz de isqueiros, souberam por eles que as construções na área haviam sido demolidas; ficaram aqueles restos pendentes de uma decisão judicial, onde o instituto deixara a bomba de césio desativada. Ela fora dali retirada na véspera por um mecânico, que a levou para casa, despedaçou-a a marretadas e vendeu os pedaços a um ferro-velho; dentro havia uma substância azulada, com a qual começou a brincar sua filha Leide, misturada com uma fruta.
Goiânia, em pânico, soube do acidente enquanto via na televisão os técnicos da CNEN, com macacões improvisados pelo Estado, cercarem com tabiques a casa do mecânico, de onde fugiam pássaros e gatos. Só uma semana depois, indignado com o pânico que a CNEN deixara crescer, o então governador Henrique Santillo (que fora professor de Física), numa cadeia de TV, explicou a todos que o césio não se propagava pelo ar. E como os goianos tinham seus carros apedrejados em outras cidades, temerosas de contágio, conseguiu arranjar um terreno para onde foram levadas centenas de toneladas das construções afetadas. Um depósito provisório, que lá continua, teve de ser instalado acima do solo, porque o lençol freático, muito superficial, não permitia um depósito subterrâneo. E é para lá que hoje se cogita de transferir todo o lixo nuclear das usinas Angra I e II, que não tem destinação e permanece em piscinas nas próprias usinas.
Neste 25.º aniversário seria muito adequado cogitar de um monumento para a tia de Leide, Gabriela – analfabeta e sem informações -, que vendo a menina passar mal colocou numa sacola de supermercado todos os restos da bomba e do césio, pegando-os com as próprias mãos, e os levou exatamente para onde deveriam ir: a Vigilância Sanitária. Salvou a vida de muitas pessoas. E pagou com a sua própria.
Tudo isso vem à memória quando o competente físico Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do governo federal, recomenda, como fez no programa Roda Viva, da TV Cultura, que se revejam os planos de implantação da usina Angra III, ao lado de Angra I e II, porque há evidências científicas de elevação do nível do mar naquela região. Mas ali continuam sendo investidos R$ 9,5 bilhões. E ainda se pensa em mais oito usinas nucleares para o País, plano congelado neste momento, quando o mundo todo começa a desativar suas instalações nucleares.
Melhor faria o governo federal se incluísse essa área no âmbito do recém-aprovado Plano Nacional de Gestão de Riscos e Respostas a Desastres Naturais (MMA, 9/8), que terá R$ 18,8 bilhões até 2014, principalmente para “deslizamentos e enxurradas” em 851 municípios já mapeados. Mas também para secas. E aí se entra em outro capítulo de perplexidades, já que quase não merece mais atenção que a seca na Caatinga atinja 1.187 municípios em estado de emergência, onde vivem 8,35 milhões de pessoas, em oito Estados do Semiárido. Há algumas semanas se anunciou a liberação de R$ 2,7 bilhões, inclusive para implantação de cisternas de polietileno, técnica cara, inadequada (muitas já derreteram), quando o caminho já provado é de cisternas de placas de concreto (que custam metade do preço das de plásticos). Como é inadequada a transposição das águas do Rio São Francisco, que não chegará a milhões de pessoas que vivem em áreas isoladas, mas já custou R$ 4,7 bilhões e custará mais R$ 4,5 bilhões, e só ficará pronta (se ficar) em 2015.
Até lá, milhões de pessoas continuarão sofrendo com secas conhecidas há séculos e que a cada 30 anos são muito mais intensas. Sem que se tenham políticas (ou práticas) adequadas. Nesta seca as perdas de lavouras já superam R$ 12 bilhões (Estado, 23/5). E nem será surpresa se vierem estiagens ainda mais fortes nos 180 mil quilômetros quadrados de território brasileiro em processo de desertificação – principalmente no Semiárido -, como antecipam estudos que admitem uma redução de até 20% a 25% nos recursos hídricos dessa região.
É inacreditável que questões como essa e a nuclear continuem a ser tratadas como o são. Porque não se resolvem com as megaobras que são o centro do desejo de políticos e empreiteiros. No caso nuclear, igualmente o desejo é de megausinas, em lugar das chamadas “energias alternativas” e de projetos diversificados e esparsos. Contentes mesmo ficam aqueles com iniciativas tais como o Plano Nacional de Logística Integrada: dezenas de bilhões para integrar ferrovias e hidrovias a portos e aeroportos (Agência Estado, 5/8).
Washington Novaes é jornalista.
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
EcoDebate, 20/08/2012
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Não há maneira segura de usar o amianto, artigo de Fernanda Giannasi


“Campanhas em todo mundo, apoiadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), buscam o fim da chamada “catástrofe sanitária do século XX”, tal a gravidade do quadro epidêmico das doenças provocadas pelo amianto”, informa Fernanda Giannasi, engenheira, gerente do Programa Estadual do Amianto da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 18-08-2012.
Segundo ela, “Goiás é hoje o único Estado produtor do chamado amianto branco ou crisotila. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial, o segundo exportador e o quarto utilizador”. E ela lembra que “alguns dos mais proeminentes políticos pró-amianto frequentaram recentemente o noticiário, como o ex-senador Demóstenes Torres, o deputado Carlos Leréia e o governador Marconi Perillo”.
Eis o artigo.
O amianto é um mineral fibroso reconhecidamente cancerígeno para os seres humanos, segundo as mais importantes academias de ciência e entidades da área de saúde.
Uma vasta literatura médica dá sustentação à tese de que não há maneira segura de se trabalhar com ele ou utilizar produtos que o contenham, e que a melhor forma de se eliminar as doenças provocadas pela fibra mineral é o seu banimento.
Campanhas em todo mundo, apoiadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), buscam o fim da chamada “catástrofe sanitária do século XX”, tal a gravidade do quadro epidêmico das doenças provocadas pelo amianto.
A OMS estima que 125 milhões de trabalhadores em todo o mundo estão expostos ao amianto em seus locais de trabalho. Segundo essas estimativas, cerca de 107 mil trabalhadores morrem por ano pelas doenças relacionadas ao amianto.
Entre elas, o câncer de pulmão, o mesotelioma (tumor maligno raro e incurável, atribuído ao amianto, que leva ao óbito a maioria de suas vítimas menos de um ano após o diagnóstico) e a asbestose (enrijecimento do tecido pulmonar, que conduz à falta de ar acentuada e progressiva, podendo matar por asfixia). Uma em cada três mortes por câncer ocupacional está associada ao amianto.
Mas o amianto não é um problema só dos trabalhadores que se expõem às suas fibras microscópicas e letais. Pode atingir indistintamente os seus familiares, vizinhos de minerações e das instalações industriais onde se produz e manipula o amianto, e os consumidores de mais de 3.000 produtos à base deste mineral, como materiais de construção (telhas, caixas d´água, divisórias de cimento-amianto), produtos de fricção para veículos automotivos (freios, juntas de cabeçote) e para vedação e isolamento térmico.
A OMS vai além ao afirmar que milhares de mortes podem ser atribuídas anualmente à exposição ambiental ao amianto, ao qual todos nós estamos expostos devido às propriedades aerodinâmicas destas tênues fibras, que viajam quilômetros de distância e que podem atingir órgãos do nosso trato respiratório, principalmente pulmão e pleura, a membrana que reveste o pulmão.
Já são 66 os países que proíbem a produção e utilização de produtos à base de amianto, inclusive nossos vizinhos Argentina, Chile e Uruguai. No Brasil, cinco Estados e dezenas de municípios já têm leis que vetam a utilização do amianto, mas infelizmente nossas autoridades preferem fazer vistas grossas, não punindo os infratores, já que há fortes interesses políticos e econômicos envolvidos com a produção e utilização deste mineral.
Goiás é hoje o único Estado produtor do chamado amianto branco ou crisotila. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial, o segundo exportador e o quarto utilizador.
Há um forte grupo parlamentar de deputados e senadores goianos, a “bancada da crisotila”, que impede sistematicamente que o debate sobre proibir a fibra cancerígena avance no Congresso. Alguns dos mais proeminentes políticos pró-amianto frequentaram recentemente o noticiário, como o ex-senador Demóstenes Torres, o deputado Carlos Leréia e o governador Marconi Perillo.
Temos plena convicção de que o banimento do é uma emergência, pois já se domina em todo o país as tecnologias livres de amianto. Custos iniciais adicionais serão compensados pela redução das despesas de diagnóstico, tratamento e indenização das vítimas e da disposição final dos resíduos perigosos gerados.
A proibição do amianto salvará o Estado de São Paulo de demitir 10.500 trabalhadores nas 170 empresas que já se adequaram à lei de proibição e que não suportarão as consequências da concorrência desleal.
(Ecodebate, 20/07/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
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Heróis nacionais, artigo de Montserrat Martins


[EcoDebate] Não foi por acaso que perdemos dois “match points” e a final, no vôlei masculino nas Olimpíadas: foi o retrato do esporte no país, onde pesa sobre os ombros dos vitoriosos o fardo de “heróis”. Na hora de definir o jogo é impossível manter a concentração, o foco, quando somos criados desde pequenos vendo matérias de TV e manchetes sensacionalistas sobre os poucos que conseguem vencer, num país carente de heróis. Em algum lugar da mente dos nossos atletas estão imagens de desfiles em carros de bombeiros, Jornal Nacional, Fantástico, capas de revistas e todas as glórias reservadas aos poucos que, com histórias de superação, preenchem o vazio nacional do heroísmo.
Em contraste com nosso país, naqueles onde o esporte é estimulado nas escolas – e estas são social, econômica e culturalmente mais valorizadas que aqui – é normal que os atletas se sintam preparados para tudo, inclusive para as vitórias, naturalmente. No Brasil de hoje, com todos avanços que já possamos ter tido em relação a nós mesmos, ainda estamos longe de formar esportistas competitivos como parte de um processo natural de aprendizado, os vitoriosos continuam sendo fruto de histórias pessoais que vão além dos limites esperados. Mas essas situações são raras, o que nos leva a outro ponto, porque somos carentes de heróis ?
Interessante um post que circula na internet: o Brasil foi o 22º colocado nas Olimpíadas apesar de sermos a 6ª economia do mundo, mas ao mesmo tempo somos o 84º país em desenvolvimento humano e o 88º no ranking da educação da Unesco. O ambiente desfavorável poderia ser propício a histórias de superação, mas estas dependem também de valores culturais. Quer dizer, falta um “caldo de cultura” no qual se embasem virtudes sólidas, estáveis, mais que impulsos corajosos esporádicos, eventuais.
Na nossa história, quem poderíamos reconhecer hoje como heróis nacionais? Lembro de Tiradentes como símbolo que precedeu à Independência. Outro candidato ao posto seria Getúlio Vargas por seu nacionalismo e a frase final dramática ‘saio da vida para entrar na História’, um personagem que comoveu multidões no século XX, apesar de não ser consenso. Não temos nenhum Prêmio Nobel e não podemos alegar injustiça nisso. Aliás, leio que o Ministério da Educação está propondo agregar 13 disciplinas em 4 no ensino médio, por exemplo física, química e biologia em “ciências da natureza”. Sempre foi assim no ensino fundamental e sinceramente, desconhecendo conhecimentos específicos em nome de uma “integração” teórica também no ensino médio, é difícil visualizar o desenvolvimento científico do país.
O mais triste nas vezes em que o Pedro Bial chamava os participantes do BBB de “meus heróis” é o fato de que isso não causava repugnância imediata em milhões de pessoas, que seguiam ouvindo babaquices como essa. Lembro disso como prova cabal da carência de heróis nacionais, de histórias de virtudes verdadeiras.
Não existem milagres, colhemos o que plantamos. Não vamos “revolucionar” a educação a golpes de caneta como esse do MEC, que pretende a integração das matérias de biologia, física e química no país que é o 88º do ranking mundial da educação. Não parece que estamos prontos a ensinar ao resto do mundo qual é o modo certo de estudar, desvalorizando nossos professores estaduais e federais e lhes impondo currículos “de vanguarda”, ao mesmo tempo.
As Olimpíadas foram importantes também por isso, nos vimos um pouco no espelho nelas, vimos o nervosismo e insegurança dos nossos atletas nas horas decisivas. O “chão” emocional de cada um não é algo fora do contexto, pois faz parte de algo mais amplo que é nossa base cultural, educacional – fora disso, só heroísmos eventuais. Até na seleção de futebol, conquistar o ouro não parecia natural, mas uma façanha, como se estivéssemos nos metendo “de Pato a Ganso”.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra
EcoDebate, 20/08/2012
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Saúde não é linha de montagem de automóveis, artigo de Paulo Romano


[Valor Econômico] Não parece razoável que um país onde se trabalha cinco meses do ano para pagar impostos as pessoas continuem a arcar diretamente com mais de 50% dos gastos totais com saúde. Isso ocorre no Brasil e em apenas outras 30 nações, a maioria pobre, apontou a Organização Mundial de Saúde (OMS), em levantamento divulgado no primeiro semestre deste ano. Infelizmente, as estatísticas comparativas revelam outras distorções.
O Brasil é a sétima maior economia do mundo, mas as verbas públicas que destina ao setor de saúde equivalem a menos da metade da média anual. Ou seja, a despeito de impor aos seus contribuintes uma pesada carga tributária, de quase 30% do Produto Interno Bruto (digna das desenvolvidas nações escandinavas), o Estado brasileiro não faz os investimentos necessários no setor.
Enquanto a média mundial de gastos públicos com a saúde é de 14,3%, no Brasil ela é de ínfimos 5,9%, inferior mesmo até a média do continente africano, de 9,6%. Houve avanços, registre-se, pois em 2000 essa proporção de gastos na saúde equivalia a modestos 4,1% do orçamento público global. Mas a melhora é insignificante se considerados os desafios a enfrentar.
O escasso investimento público é o que impõe à população um maior desembolso. Essa omissão também explica uma disparidade estatística: a baixa relação entre número de leitos hospitalares e número de habitantes, uma distorção que ganha contornos de crueldade se considerarmos a enorme demanda por serviços de saúde, sobretudo nos segmentos de menor renda e as classes médias ascendentes, que também usam a saúde suplementar, e a dificuldade de acesso da grande maioria da população.
Existem no país 26 leitos para cada grupo de 10 mil pessoas, contra uma média mundial que é de 30/10 mil, sendo que, na Europa e nos Estados Unidos, a disponibilidade é mais de três vezes superior à brasileira. Nada menos do que 80 países apresentam indicadores dessa relação melhores do que o Brasil, o que não deixa de ser um dado ainda mais vergonhoso se lembrarmos que ocupamos a 7ª posição entre as economias mais ricas do planeta (medida pelo tamanho do PIB).
Os gastos públicos com saúde por habitante no Brasil – assinala a OMS – são de US$ 320,00 anuais, enquanto a média anual é de US$ 549,00 (se consideramos os países de Primeiro Mundo, mais uma vez gastos são dez vezes maiores do que os brasileiros). Um dado em que o Brasil aparece bem, melhor ao menos do que a média global, é o número de médicos por habitante.
Há 17,6 médicos para cada grupo de 10 mil pessoas no Brasil, contra 14 por 10 mil na média planetária. Mas também neste aspecto há uma distorção gritante, pois enquanto regiões mais desenvolvidas, como as principais capitais, essa relação é favorável, na maior parte dos municípios das Regiões Norte e Nordeste, ou mesmo nas periferias, onde se encontram os contingentes mais pobres da população, ela está muito aquém da média mundial.
Mesmo a taxa de 17,6 profissionais para cada grupo de 10 mil habitantes, ainda que superior à média mundial, pode ser considerada ruim, se a comparação for feita com os países da Europa Ocidental, onde a relação médico/indivíduo é o dobro da verificada aqui. A constatação óbvia é que temos um PIB de primeira, com serviços de saúde que ainda deixam muito a desejar.
Tudo isso considerado, devemos passar a ter cada vez mais cuidado com os recorrentes alertar quanto à necessidade de se melhorar a produtividade nos serviços de saúde, em especial aqueles serviços relacionados ao sistema suplementar (privado). Os ganhos em produtividade são, evidentemente, indispensáveis, e devem estar aliados a uma série de outras providências, ações e programas relacionados à gestão dos recursos (tantos os financeiros quanto os humanos).
Portanto, tem sem dúvida razão quem reclama da falta de melhor gestão nos hospitais públicos. Estão igualmente no caminho correto os gestores do sistema suplementar (rede privada) quando estabelecem modernos procedimentos, normas e parâmetros visando a agilizar o atendimento, reduzir as filas e melhorar o desempenho da organização. Mas não podemos perder de vista que os serviços de saúde, por razões inerentes ao seu objeto, têm natureza singular.
A fila de atendimento no Pronto Socorro de um hospital – seja público ou particular – não pode ser equiparada à linha de montagem de uma montadora de veículos – ainda que o objetivo dessa insólita analogia, tão divulgada na mídia recentemente por uma grande rede de hospitais privados – seja agilizar os processos. As estatísticas mostram que faltam investimentos públicos em saúde no Brasil.
A pressão sobre a rede suplementar, com aumento de filas, é resultado dessa omissão. É legítimo que, neste contexto, hospitais particulares queiram aperfeiçoar seus procedimentos – desde que não percam de vista a qualidade dos serviços e a natureza dos mesmos, onde a vida humana é a exclusiva razão de ser. Mas é igualmente legítimo que, como profissionais do ser ou meros contribuintes, passemos a cobrar do Poder Público investimentos em saúde compatíveis com os desafios que enfrentamos e com a força de nossa economia. Sem que isso signifique ignorar o relevante e imprescindível papel que o segmento privado pode e deve continuar a desempenhar.
Paulo Romano é médico e membro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Artigo originalmente publicado no Valor Econômico e socializado pelo ClippingMP
EcoDebate, 24/08/2012
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Estudo mostra danos causados pela poluição à saúde de profissionais que trabalham no trânsito



Os profissionais que trabalham diariamente no trânsito, expostos à poluição das ruas, estão mais sujeitos a doenças do que os que atuam em áreas menos poluídas. A conclusão está em um estudo feito, na capital paulista, por pesquisadores das universidades Federal de São Paulo (Unifesp), USP e Harvard (EUA).
trânsito e poluiçãoOs pesquisadores acompanharam grupos altamente vulneráveis aos gases poluentes expelidos pelos veículos: 71 taxistas e 30 funcionários da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), que são responsáveis pela fiscalização do trânsito. Para efeito de comparação, foi analisado um grupo menos vulnerável, de 20 trabalhadores do Horto Florestal, que fica na Serra da Cantareira, região da capital com menor nível de poluição.
Após quatro anos de pesquisa, os cientistas chegaram à conclusão de que o grupo exposto à poluição do trânsito sofreu vários tipos de danos no organismo. A pesquisa envolveu 90 cientistas, de especialidades como oftalmologia, clinica médica, cardiologia, pneumologia, patologia e até matemática.
O coordenador da pesquisa, o professor Paulo Saldiva, do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, disse, em entrevista à Agência Brasil, que o ar poluído provocou inflamação nos olhos e pulmão, alterações na pressão arterial e no ritmo cardíaco, distúrbio pró-coagulante, maior tendência à obesidade, conjuntivite, rinite e maior número de quebras cromossômicas, o que significa mais risco de câncer, “tanto nas mucosas expostas, quanto nas células circulantes”, disse.
Além de professor da USP, Saldiva é membro do Comitê Científico da Universidade de Harvard e fez parte do Comitê da Organização Mundial da Saúde (OMS) que definiu padrões de qualidade do ar. Ele destacou que, além do maior risco de doenças, os taxistas e controladores de tráfego apresentaram “ações adaptativas”, ou seja, quando o corpo precisa se adaptar e trabalhar no limite, devido às situações de ruído e estresse, comuns aos grandes centros urbanos. “Por exemplo, no controle da pressão arterial, o sistema que inibe que a gente aumente a pressão está ligado no máximo”, explicou.
O estudo avaliou também as variações no estado de saúde dentro do grupo mais exposto à poluição. Ficou comprovado que, à medida em que os poluentes aumentam, o organismo também piora.
As conclusões foram apresentadas ontem (23), na cidade de São Paulo, durante o Seminário Científico da Poluição Ambiental. Segundo Saldiva, os estudos ainda não estão concluídos e a apresentação de hoje trouxe uma noção geral dos resultados. Os cientistas ainda formularão um relatório que será encaminhado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que financiou a pesquisa.
Reportagem de Fernanda Cruz, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 24/08/2012
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Agrotóxicos e a poluição das águas



Maior parte dos agrotóxicos não atinge a praga alvo, contamina as águas subterrâneas e superficiais e traz graves riscos à saúde
agrotóxicos[Por Larissa Stracci, para o EcoDebate] A utilização de agrotóxicos é a 2ª maior causa de contaminação dos rios no Brasil, perdendo apenas para o esgoto doméstico, segundo dados do IBGE. Considerando que a agricultura é o setor que mais consome água doce no Brasil, cerca de 70%, segundo o Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), pode-se dizer que além de sérios problemas para a saúde, os agrotóxicos também se transformaram em um grave problema ambiental no país.
De acordo com o engenheiro agrônomo e professor da Universidade Estadual de Campinas, Mohamed Habib, “hoje o Brasil é o maior consumidor de agrotóxico do mundo, embora não seja o maior produtor”. Atualmente o Brasil utiliza 19% de todo defensivo agrícola produzido no planeta, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Além disso, mais de 99% dos venenos aplicados na lavoura não atingem a praga alvo. Então, pode-se dizer que mais de 99% dos agrotóxicos vão para os rios, para o solo, para o ar e para a água subterrânea”, afirma Habib.
Para o especialista em instrumentação ambiental e hidrológica, Mauro Banderali, “Embora a disponibilidade de água no Brasil seja imensa, é preciso garantir sua qualidade para as gerações futuras. Por isso, ao detectar o aparecimento de resíduos de agrotóxicos nas reservas de água subterrânea e superficial, é necessário tomar medidas para evitar o agravamento do problema. Quando a água é contaminada por defensivos agrícolas, sua detecção e descontaminação é mais difícil e custosa. De modo geral, esses químicos raramente são analisados ou removidos das águas, tornando-se uma ameaça à saúde de todos que a ingerem, particularmente para substâncias cumulativas”.
Consequências para a vida aquática
A água poluída com agrotóxicos irá prejudicar diretamente a fauna e a flora aquática. “A contaminação das águas pelos agrotóxicos tem efeito direto nos seres vivos que vivem na água, a biota de um modo geral. Se o veneno que chega nas águas for o herbicida, o efeito é direto e pode, por exemplo, matar as plantas aquáticas. Se o rio for contaminado por um veneno que mata animais, pode ocorrer a morte de algumas espécies de peixes menores”, explica o professor.
Além dos efeitos diretos, o carregamento de agrotóxicos pelos rios e lagos, também traz alguns efeitos indiretos para a biota aquática e para a saúde humana. “Alguns peixes armazenam os agrotóxicos no tecido adiposo e por isso, não sofrem danos diretamente. No entanto, quando nós compramos esse peixe contaminado com veneno e o ingerimos, algumas pessoas podem passar mal e sofrer algum tipo de intoxicação (envenenamento). Tem muita gente que compra peixes pequenos para dar para seu gato de estimação e o animal chega até a morrer”, alerta Habib.
Os compostos orgânicos, ao entrar em contato com a água, provocam um aumento no número de microrganismos decompositores. De acordo com o especialista Mauro Banderali, “além de estarmos criando um ambiente de restrição da vida, ainda criamos uma armadilha para as populações que se utilizam desta água, em razão de inúmeros defensivos agrícolas utilizarem em sua formulação compostos orgânicos altamente estáveis e lipossolúveis, depositando-se preferencialmente nas gorduras dos animais. Por ingestão da água ou de animais que dela dependem, estamos acumulando estes defensivos em gorduras do corpo que jamais serão eliminadas em vida”.
Ao serem carregados pelas águas superficiais, os agrotóxicos passam a fazer parte do do ciclo natural da natureza. Segundo o professor da Unicamp, “quando se trata de água corrente, o veneno vai fazer parte de um ciclo e um dia vai chegar ao oceano. Ainda hoje, análises nas geleiras polares mostram que naquele gelo existe DDT, um veneno proibido há muitos anos. Isso é pra se ter uma ideia do processo: saiu da lavoura através da chuva, passou pelos rios e mar e através das correntes marítimas, chegou às geleiras”, comenta Mohamed Habib.
O Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT) foi o primeiro veneno moderno, sintetizado em 1874 e utilizado como pesticida a partir de 1939. Após a Segunda Guerra Mundial, foi usado em larga escala para combater os mosquitos da malária. O DDT foi banido de vários países na década de 70, após estudos comprovarem sua relação com casos de câncer. No Brasil, seu uso foi proibido na agricultura em 1984, porém sua produção em larga escala, uso como medicamento e exportação foram permitidos até 2009 ,conforme lei federal nº. 11.936 de 14 de maio de 2009. De acordo com o professor Mohamed Habib, “alguns tipos de venenos como é o caso dos organoclorados, venenos utilizados antigamente por produtores rurais, apesar de serem proibidos, continuam sendo aplicados e usados ilegalmente”. Os organoclorados são os inseticidas que mais persistem no meio ambiente, chegando a permanecer por até 30 anos.
Segundo o especialista em instrumentação ambiental, Mauro Banderali, é preciso conhecer a qualidade das águas nas regiões influenciadas pela agricultura. “Uma das maneiras de avaliar os impactos dos defensivos agrícolas nos recursos hídricos consiste no monitoramento desses resíduos. Atualmente, já existem tecnologias que monitoram e mensuram parâmetros físico-químicos na água e são aplicados no monitoramento geral da sua qualidade, porém moléculas químicas específicas, se faz necessário o apoio de laboratórios especializados para sua detecção.
Problema brasileiro
Para Mohamed, o Brasil é um país sem conscientização do problema em relação aos demais. “Estamos falando de países com uma situação melhor que a nossa: Europa, América do Norte e alguns países asiáticos como o Japão. Esses países têm consumidores muito mais conscientes em relação à utilização de agrotóxicos que cobram essa postura de seus governos. Portanto, os governos também são mais conscientes, não formam lobbys como no Brasil. O setor industrial também é mais consciente, não é como o Brasil que faz de conta que não está acontecendo nada e continua abusando da utilização dos agrotóxicos”, comenta o professor.
Segundo Habib, a utilização de agrotóxicos hoje é uma prática condenada, “porque a ciência coloca à disposição vários outros métodos de produção. Basta investir. Basta a sociedade humana valorizar um pouco mais a vida, pois hoje estamos pagando muito caro pelas irresponsabilidades do passado”.
Ingestão de agrotóxicos e saúde
Pela água ou através do próprio consumo de alimentos, a ingestão de venenos agrícolas pode ocasionar diversos tipos de doenças, seja ela em grandes ou pequenas quantidades. Conforme explica o professor da Unicamp e engenheiro agrônomo, Mohamed Habib, “dependendo do tipo de veneno, os efeitos para a saúde humana são morte, envenenamento estomacal, problemas no sistema nervoso, convulsões, lesões nos rins e cânceres. Esse efeito pode ser agudo, imediato ou crônico, a curto, médio ou longo prazo. As consequências podem aparecer também nos filhos e netos dessa pessoa, principalmente quando se trata das doenças cancerígenas e tumores”.
Fonte: Redação Ag Solve, por Larissa Stracci
EcoDebate, 24/08/2012
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Uso de garrafas de Poli-Tereftalato de Etileno – PET como insumo alternativo na construção de edificações residenciais


alli B.; Ikehara P. M.; Magina C. ; Menezes R.; Perez P. F.; Tomazelli A.; Ueno H. Y.; Mascaro, A.R; Lima, R. P.; Costa, C. M.M
Centro Universitário Estácio Radial de São Paulo
Av. Jabaquara, 1870 – Saúde – CEP 04046-300 – São Paulo/SP.
Resumo: O presente trabalho apresenta uma alternativa de reutilização de garrafas de poli-tereftalato de etileno (PET) na substituição dos blocos e tijolos da alvenaria tradicional, podendo auxiliar no incremento dos índices de reciclagem desse material e possibilitando a produção de edificações residenciais de baixo custo.
Palavras-chave: Reciclagem, PET, PET em construção civil
INTRODUÇÃO
PET – Poli (Tereftalato de Etileno) – polímero desenvolvido em 1941 pelos ingleses Winfield e Dickson. Seu potencial de aplicação inicial era como fibra, e posteriormente passou a ter grande aceitação no armazenamento de alimentos. Em 1973, a Dupont introduziu o PET na aplicação como garrafas e revolucionou o mercado de embalagens, principalmente o de bebidas carbonatadas [2].
No Brasil, em 2008, foram produzidos 461,7 kton [1] de embalagens de PET e um dos piores problemas originados no descarte de materiais plásticos é o espaço que ocupam nos aterros sanitários, sem contar que é um material de difícil decomposição[2].
No início dos anos 80, EUA e Canadá iniciaram a reciclagem das garrafas PET, utilizando-as como enchimentos de almofadas. Com a melhoria da qualidade do PET reciclado, surgiram aplicações importantes como tecidos, lâminas e embalagens para produtos não alimentícios. No Brasil, segundo o 5º Censo de Reciclagem de PET da ABIPET, a taxa de recuperação desse material iniciou em 1994 com 18,8% e passou em 2008 para 54,8%.
Em geral, a reciclagem do PET pode ocorrer de três diferentes maneiras: (i) Reciclagem Química – onde os componentes das matérias-primas do PET são separados; (ii) Reciclagem Energética – onde o calor da queima do resíduo pode ser aproveitado para a geração de energia elétrica (centrais termelétricas); (iii) Reciclagem Mecânica – onde é realizada a coleta seletiva, a produção de flocos e a reutilização do material para a produção de outros produtos, inclusive embalagens, mas para fins não alimentícios [1].
Nesta última forma de reciclagem estão as tentativas de utilização das garrafas de PET na construção civil, sempre com o intuito de minimizar os custos, criando alternativas para uma construção mais acessível às pessoas de baixa renda, uma vez que 90,7% do déficit habitacional brasileiro, de 7,94 milhões de unidades, são para as famílias que possuem renda de até 3 salários mínimos [3].
Diversos experimentos estão sendo realizados: a Universidade Federal do Pará criou um tijolo à base de cimento e garrafas PET e que se enquadra como blocos de vedação segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, a utilização de garrafas PET para constituir superfícies refletoras para ambientes enclausurados [4][5], e na substituição de blocos convencionais na produção de lajes nervuradas como proposto pela Universidade Estadual Vale do Acaraú – CE.
Assim, o objetivo deste trabalho é reproduzir, em pequena escala, uma parede como proposta pela professora Ingrid Vaca Diez, na Bolívia, na construção de casas artesanais à base de garrafas PET preenchidas com materiais descartáveis como papel, sacolas plásticas, areia e terra, para populações de baixa renda. Que, segundo o Jornal O Globo, diz ser é possível erguer uma moradia de 50m² com R$ 15 mil, não incluindo a mão de obra.
MATERIAIS E MÉTODOS
Garrafa de Poli-Tereftalato de Etileno (PET): Possui alta resistência mecânica e química, é excelente barreira para gases e odores, e por seu peso ser muito menor que as embalagens tradicionais (vidro), tornou-se o recipiente ideal para as indústrias de bebidas, reduzindo custos de transporte e produção [7].
Resíduos de Construção Civil: de classificação A, segundo a Resolução Conama n. 307/2002, deve ser triturado e utilizado no preenchimento das garrafas para que elas apresentem maior resistência à compressão.
Arame: utilizado para estruturar as garrafas na formação da parede.
Argamassa: mistura de cimento, areia e água, e tem a função unir solidamente as unidades e ajudá-las a resistir os esforços laterais, distribuir uniformemente as cargas atuantes, absorver as deformações naturais e selar as juntas contra a penetração água de chuva [6].
As paredes são moldadas dentro de fôrmas de madeira. As garrafas são preenchidas com areia ou entulho e assentadas em camadas intercaladas com argamassa e os acabamentos de reboco e pintura podem ser realizados logo em seguida.
O entulho utilizado para o preenchimento das garrafas foi triturado com pilão de concreto e peneirado em peneira de comum de obra.
Figura 01 – Esquema de montagem – vista frontalFigura 02 – Esquema de montagem – vista superior.

Neste trabalho, a parede utilizada pela professora Ingrid Vaca Diez na construção de casas para a população de baixa renda foi reproduzida em pequena escala (0,154 m²) em uma base de madeira para facilitar o transporte à exposição.

Figura 03 – Preparação da baseFigura 04 – Preenchimento das garrafas PET com areia ou resíduos de construção civil.
Figura 05 – Preparação da argamassaFigura 06 – Garrafas preenchidas e estruturadas com arame.
Figura 07 – Iniciação da montagem.Figura 08 – Montagem em camadas alternadas de argamassa e garrafas.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
O protótipo foi desenvolvido com 40 horas de trabalho e foram utilizados os materiais conforme a Tabela 1, assim, o custo com materiais por metro quadrado de parede levantada gira em torno de R$ 32,79 com o acabamento em massa corrida. Sem o acabamento o custo fica em R$ 10,06.
Tabela 1. Quantidades e Valores para Execução da Parede Protótipo (0,154m²)
ItemDescriçãoUnidQuantR$ UnitR$ Total
1Areiakg25,000,051,25
2Cimentokg5,000,060,30
3Aramekg0,500,000,00
4Massa corrida industrializadagl0,2514,003,50
5Garrafas PET 600mlun240,000,00
Valor Total5,05
A Secretaria de Infraestrutura e Obras do Município de São Paulo – SIURB disponibiliza na internet uma tabela de referência de custos da construção civil, e nela podemos verificar que para a execução de 1m² de parede de alvenaria tradicional em blocos de concreto vazado são necessários R$ 31,70 somente de material.
Assim, para uma construção de uma residência simples com 35,64m²: 2 dormitórios, sala, cozinha e banheiro; onde seriam necessário aproximadamente 90m² de paredes de alvenaria, conforme Figura 11, em sistema tradicional o custo aproximado para execução dessa alvenaria seria de R$ 2.853,00 e no sistema proposto R$ 905,40.
Figura 11 – Planta Padrão de Edificação Residencial: 35,64m²
Figura 11 – Planta Padrão de Edificação Residencial: 35,64m²
Fonte: PORTO REAL CASAS PRÉ-FRABRICADAS – Ref.18
Sob o aspecto ambiental, de reutilização de garrafas PET, a parede experimental reutilizou 24 garrafas de 600ml, portanto, para a construção da residência da Figura 11 seriam reutilizadas aproximadamente 14.040 garrafas PET de 600ml.
O volume reutilizado de resíduos de construção civil não foi determinado, uma vez que, a técnica desprendida neste experimento para a trituração e peneiramento do material foi artesanal e sem equipamentos apropriados; mas como a redução volumétrica é visivelmente grande, acreditamos que a redução de disposição final desse tipo de resíduo seria significativa.

Figura 09 – Vista frontal da parede experimentalFigura 10 – Detalhe de disposição das garrafas

CONCLUSÃO
O projeto demonstrou que a compatibilização do baixo custo, minimização de impactos ambientais e aumento na qualidade de vida das pessoas, é possível: reduzindo cerca de 70% do custo na execução das paredes de uma residência, reduzindo o descarte de embalagens PET e resíduos de construção civil, minimizando a extração de recursos naturais para a produção de tijolos e blocos, criando a oportunidade de inclusão social pela construção da própria casa, criando a oportunidade de qualificação de mão-de-obra para a construção civil, possibilitando maior controle da saúde pública; enfim, melhorando a condição de vida.
Alertamos que para a implantação de projetos sociais utilizando-se esta técnica, seria necessária a avaliação criteriosa dos aspectos culturais da sociedade, pois, na intenção do reaproveitamento das embalagens PET e dos resíduos de construção civil, a sociedade poderia ser estimulada ao aumento do consumo de produtos com esse tipo de embalagem ou de aumentar propositalmente o descarte de resíduos de construção.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] ABIPET. Associação Brasileira da Indústria do PET. 5º Censo da Reciclagem de PET no Brasil. Brasília, 2008. 25p.
[2] FORMIGONI, A. CAMPOS, I.P.A de. Reciclagem de PET no Brasil. UNESP.
[3] BRASIL. MINISTÉRIO DAS CIDADES – MC. Secretaria Nacional de Habitação. Déficit habitacional no Brasil 2006. – Brasília, 2008. 98p.
[4] FANTINELLI, Jane T. A Iluminação Natural Através De Dutos De Sol Em Ambientes Enclausurados. ENCAC-ELACAC. Maceió, 2005.
[5] BROCANELI, Perola. F, STUERMER, Monica. M, Vieira, Jefferson. H. Lâmpadas de Água – Litros Transformados em LUX(Z). São Paulo, 2008.
[6] SABBATINI, F. H. Boletim Técnico: Argamassa de Assentamento para Paredes de Alvenaria Resistente. Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1986.
[7] GUELBERT, T. F.; e outros. ENEGEP – XXVII Encontro Nacional de Engenharia de Produção. A Embalagem PET e a Reciclagem: Uma Visão Econômica Sustentável para o Planeta. Foz do Iguaçu, 2007.
[8] CONAMA. Conselho Nacional do Meio Ambiente. RESOLUÇÃO n. 307, de 05 de julho de 2002. Brasília, 2002.
[9] SIURB. Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras. PMSP. Tabela de Custos Unitários. São Paulo, 2010.
EcoDebate, 24/08/2012
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