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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Os giros oceânicos e as ilhas de plástico, entrevista com Jorge Pablo Castello


Junção de dejetos deu origem no Pacífico Norte à primeira “ilha de lixo”. Após o tsunami japonês, as costas canadenses e californianas foram tomadas por dejetos vindo do Oriente, observa Jorge Pablo Castello
Por: Márcia Junges

Detritos plásticos põem em risco a vida de animais marinhos

A fama de uma ilha nada glamorosa correu mundo via internet. Trata-se da ilha de plástico do Pacífico Norte formada por dejetos pouco degradáveis, entre os quais sacolas, fragmentos de garrafas PET e bolinhas plásticas de cerca de 5mm de diâmetro, matéria prima para a fabricação de outros artefatos, e que caem dos contêineres no transporte oceânico. Com a ação dos ventos e da rotação terrestre, bem como das correntes marítimas, formam-se os “giros oceânicos”, responsáveis por concentrar em um local o que há de dejetos flutuantes. “No Hemisfério Norte temos o Giro do Pacífico e o Giro do Atlântico (ambos no sentido horário) e no Sul os giros do Pacífico, Atlântico e Índico (em sentido anti-horário)”, explica o oceanólogo Jorge Pablo Castello na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O pesquisador fala, também, sobre Kamilo Beach, pequena praia situada no Sudoeste do Havaí que se converteu “num depósito de lixo flutuante transportado pela água, particularmente durante os períodos de alta maré”. Trata-se de uma “coincidência desafortunada entre a geografia da Ilha e o fluxo das correntes marinhas”, completa. Castello menciona o desconhecimento geral das pessoas sobre os oceanos e sua relevância para a vida humana “como fonte de alimento, energia, e o papel modulador do clima da Terra”.
Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de Buenos Aires – UBA, Jorge Pablo Castello é doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG, onde leciona no Instituto de Oceanografia. É autor de Diagnóstico ambiental e oceânico da região sul e sudeste do Brasil (Rio de Janeiro: Fundespa, 1994).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais são os principais problemas que a comunidade científica detectou nos oceanos?
Jorge Pablo Castello – Entre os principais problemas detectados podem ser indicados os seguintes:
– acidificação das águas marinhas (relacionado com o aumento do CO2 na atmosfera);
– aumento do nível médio do mar;
– aumento da temperatura das águas da superfície do mar e suas consequências sobre a distribuição geográfica, reprodução, migração e produtividade das espécies marinhas;
– perda de biodiversidade e, naqueles ecossistemas impactados pela pesca, simplificação/alteração das cadeias tróficas com desaparição dos chamados predadores de topo que funcionam como reguladores do sistema;
– poluição e contaminação, particularmente nas regiões costeiras;
– pressão antrópica e descaraterização dos ambientes naturais costeiras (ocupação imobiliária, obras de engenharia, remoção de areias, dejetos de todo tipo, etc.);
– conhecimento insuficiente das águas profundas, embora esse quadro tenha começado a mudar no presente com o maior uso de ROVs (Remote Operated Vehicles) e minissubmarinhos automatizados e tripulados.
IHU On-Line – Uma “ilha de plástico” foi detectada no Oceano Pacífico. Onde ela fica exatamente e como podemos compreender a formação desse lixão, e o que ele representa em termos de riscos para o ecossistema oceânico?
Jorge Pablo Castello – A chamada “ilha de plástico” é formada por muitos dejetos que flutuam na superfície e são pouco degradáveis. Entre esses plásticos, além das sacolas, seus fragmentos e garrafas PET, encontram-se pequenas bolinhas (pellets) de aproximadamente 5mm de diâmetro, que constituem a matéria prima para fabricação de artefatos plásticos. Esses objetos aparecem na superfície do mar porque caem de navios que os transportam em contêineres e que são perdidos durante temporais. Outros, como as garrafas e sacos plásticos, são levados até o mar pelos rios e as chuvas desde as costas. Outros produtos perdidos pelos navios são mais pesados e afundam; estão presentes nos oceanos, mas não são vistos. Ainda podem ser encontrados panos de redes de espera que foram perdidos pelos barcos pesqueiros e, como ainda possuíam boias e o material pode ter baixa densidade, continuam “pescando”, provocando uma mortalidade indesejada.
Os riscos conhecidos afetam aves e tartarugas marinhas, peixes e até mamíferos que ingerem essas partículas flutuantes (possivelmente confundidas com alimento) provocando danos no sistema digestivo das espécies.
Os “giros” do Oceano
A primeira “ilha de lixo” foi localizada no Pacífico Norte uma vez que o chamado Giro do Pacífico (que rota no sentido horário) tende a concentrar esse material em seu centro dinâmico. Recentemente apareceram frente às costas de Canadá e da Califórnia muitos dejetos flutuantes (e até um barco de pesca) que foram arrancados do litoral japonês durante o último tsunami. No entanto, um informe recente das Nações Unidas relata que esse fenômeno já não é mais restrito ao Pacífico Norte, estando também presente nos outros oceanos. Isso coloca em evidência a magnitude do problema.
No Hemisfério Norte temos o Giro do Pacífico e o Giro do Atlântico (ambos no sentido horário) e no Sul os giros do Pacífico, Atlântico e Índico (em sentido anti-horário). Em todos os casos os giros oceânicos são o resultado da ação dos ventos que transferem energia à lamina de água da superfície e da rotação terrestre (conhecida como Força de Coriolis). O efeito desses giros é que a água da superfície converge para o centro, fazendo com que as partículas plásticas flutuantes fiquem agregadas.
IHU On-Line – Do lixo encontrado nessa área do Pacífico, 27% é composto por sacolas plásticas. Qual é a responsabilidade das empresas e da sociedade civil nessa realidade?
Jorge Pablo Castello – Sem dúvida, existe uma responsabilidade compartilhada tanto pelos fabricantes (que atendem a uma demanda) como pelos usuários, comerciais e domésticos. Como mencionei, os sacos plásticos que são achados provém da região costeira, levados pelos rios e as chuvas. Mudanças de comportamento, como o uso de sacos biodegradáveis ou simplesmente de papel reciclado, ou ainda o consumidor sempre levando sua própria bolsa ao supermercado, são alternativas indicadas.
IHU On-Line – Que outras áreas além do “lixão do Pacífico” concentram tantos dejetos trazidos pelas correntes marítimas? 
Jorge Pablo Castello – Até onde sei, o do Pacífico é o maior de todos e, também, o que recebeu maior atenção até o presente. No entanto, é possível que com o aprofundamento e maior extensão dos estudos outros “lixões” venham a ser conhecidos. É importante ressaltar que desde longa data existe esse comportamento de considerar os mares e os oceanos como verdadeiros espaços que “podem aceitar qualquer descarte”. Claro que esta é uma percepção completamente errada, mas que se pode entender visto a extensão deles. Assim, depois da I Guerra Mundial, tanto os países aliados como a Alemanha descartaram no Mar Báltico enorme quantidade de barris contendo o princípio ativo do tristemente célebre gás mostarda. Esses barris se depositaram no fundo e, com a ação do tempo e a corrosão da água de mar, começaram a vazar seu conteúdo entre 30 a 40 anos mais tarde. Isso ocasionou inúmeros problemas, particularmente aos pescadores, que tiveram a infelicidade de enganchar os barris em suas redes de pesca de fundo. Grandes cidades (que com frequência se localizam em áreas costeiras) já usaram o mar como depósito de lixo urbano. O caso mais emblemático é o de Nova Iorque.
IHU On-Line – O que explica que Kamilo Beach  tenha se tornado um lixão a céu aberto, recebendo, sobretudo, lixo vindo do Japão e Coreia do Sul? Qual é a responsabilidade dos governos desses países sobre o estado dessa praia havaina?
Jorge Pablo Castello – A praia de Kamilo (pequena, pois tem algo como 500m de extensão) se encontra no extremo sudoeste da Ilha do Havaí e, por uma coincidência desafortunada entre a geografia da Ilha e o fluxo das correntes marinhas, acabou se convertendo num depósito do lixo flutuante transportado pela água, particularmente durante os períodos de alta maré. Quanto à responsabilidade, esta é uma questão de educação e políticas ambientais, ou melhor, da falta delas.
IHU On-Line – Como podemos compreender o surgimento da ilha de Tilafushi, nas Ilhas Maldivas?
Jorge Pablo Castello – Tilafushi é uma ilha artificial “construída” sobre e em torno de um recife próximo aproveitando o corpo lacunar central do atol de Kaafu a oeste de Malé, uma das Ilhas Maldivas (a Oeste da Índia). Ela foi construída em 1990 com o único propósito de instalar ali um lixão municipal. De fato o lixo, transportado por barcaças, provém dos grandes assentamentos e resorts turísticos que se encontram na região e que proporcionam, junto com a pesca, a quase única fonte de ingresso econômico deste pequeno país, a República das Maldivas. Nesse caso trata-se de um efeito indesejado da indústria e dos grandes interesses turísticos. A alternativa ao lixão seria a incineração dos resíduos, mas os custos e a contaminação associada a ela tornaram-na uma opção inviável.
IHU On-Line – Por que a percepção que as pessoas têm do mar é muito limitada? Persiste uma aura mágica em torno dos oceanos, relegando sua importância a um plano muito mais ligado ao turismo do que a sua importância para os ecossistemas?
Jorge Pablo Castello – Em minha opinião, essa concepção limitada é produto de nossa maneira de perceber o ambiente que nos rodeia. O ser humano é essencialmente um “animal óptico” e terrestre. A água, como habitat, é um meio estranho ao ser humano. A visão é o nosso sentido mais precioso, e dele muito dependemos para obter e formar imagens do mundo que nos rodeia.
Assim, a grande maioria das pessoas tem uma noção mais realista das florestas, planícies, rios, montanhas, etc. No entanto, com relação ao mar a situação é diferente. O que vemos do mar se relaciona com suas interfaces: as costas, praias, costões rochosos e a superfície. Esta última se estende por milhares de quilômetros com pouca variação relativa com relação à cor e forma (cor esverdeada sobre as plataformas continentais ou azulada na região oceânica onde a profundidade ultrapassa os 150m) ou uma superfície lisa ou rugosa devido às ondas geradas pelo vento. Já abaixo da superfície, nada se encontra ao alcance direto de nossa visão. Para isso, necessitamos de aparelhos (redes, câmeras de TV, fotografias, minissubmarinhos, instrumentos coletores de água ou de seres vivos). Ou seja, nossa percepção dos mares e oceanos é limitada ou, em todo caso, muito mais limitada que aquela que temos do mundo emerso.
O turismo e lazer são praticados na região de interface costeira (praias, dunas, lagoas, recifes de corais, etc.) e, quando se pratica natação, vela ou navegação, na interface da superfície da água com a atmosfera. Aquilo que é jogado fora ou flutua ou afunda, portanto, só vemos o que flutua… A superfície dos mares compõe quase 71% da superfície do planeta. A relevância dos oceanos para a vida humana, como fonte de alimento, energia, e o papel modulador do clima da Terra são funções e “serviços” do ecossistema marinho são conceitos relativamente recentes na perspectiva histórica da civilização.
IHU On-Line – Em quais aspectos o estudo dos mares precisa recorrer à transdisciplinaridade?
Jorge Pablo Castello – Eu diria que praticamente em todos. A transdisciplinaridade (ou interdisciplinaridade) e a multidisciplinaridade são exigências científicas necessárias para melhor entender o significado dos processos naturais e de como o homem neles eles interfere.
IHU On-Line – Por que o mar é concebido como dotado de recursos inesgotáveis e com capacidade de absorver todos os dejetos? O que essa mentalidade representa para o ecossistema marinho em particular, e à vida em terra firme?
Jorge Pablo Castello – A concepção sobre recursos marinhos inesgotáveis é muito antiga. Na história moderna, um destacado cientista como Sir Thomas Huxley  (grande amigo e defensor de Charles Darwin ) disse, em 1883 na Real Sociedade Britânica, que não havia necessidade de controlar a pesca, pois a capacidade produtiva dos estoques era praticamente infinita. Ou seja, acreditava-se que a pesca não tinha capacidade de comprometer a estabilidade e a reposição dos estoques pesqueiros. Porém, pouco antes das duas grandes guerras foi possível verificar que a pesca, sim, podia exercer alterações profundas na abundância, reprodução e crescimento dos estoques pesqueiros. Essa ação negativa foi acelerada com o avanço das tecnologias de pesca e da localização dos cardumes impulsionadas pelo aumento da demanda para consumo humano e obtenção de farinhas e óleos (indústria de redução de pescado para fabricação de rações para aves, suínos, cultivos de camarões e de peixes carnívoros como os salmões). No presente, é estimado que apenas 25% dos estoques mundiais são bem administrados (de maneira sustentável). O resto se encontra superexplorado, explorado ao máximo ou em colapso.
Efeito perverso
É importante ressaltar que muitas pescarias no mundo desenvolvido e em vias de desenvolvimento recebem generosos subsídios econômicos dos mais diversos tipos: para compra de redes, aparelhos de navegação e localização de cardumes, combustível subsidiado, créditos baratos – do tipo “de pai pra filho”, aquisição de novos barcos, etc. Esses subsídios têm um efeito perverso, porque graças a eles muitas pescarias que seriam economicamente inviáveis, pelos baixos níveis de abundância, são mantidas em atividade prejudicando e inviabilizando a recuperação biológica dos estoques. Embora a sustentabilidade tenha sido concebida teoricamente como um conceito multidimensional – social, econômico e biológico –, o que tem acontecido na prática, ano após ano, e a dominância da dimensão econômica sobre todas as outras, sem entender que sem a sustentabilidade biológica não podem existir as restantes.
(Ecodebate, 22/11/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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