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segunda-feira, 4 de março de 2013

Lições de uma viagem à Índia: Bonde ou Metrô – Biogás ou Energia Nuclear? artigo de Norbert Suchanek


[EcoDebate] Voltei de uma longa viagem à Índia, dez cidades do norte ao sul do país em 6 semanas. Todas as cidades, de Delhi até Chennai e Mumbai tiveram uma coisa em comum: esgoto aberto nas ruas. No mesmo momento, o Governo junto com os intelectuais da Índia gritam por mais energia. No caso do governo da Índia, o grito é pela construção de mais usinas nucleares para saciar a sede por energia do país. E as minhas conversas com os intelectuais e o movimento anti-nuclear da Índia sempre finalizavam na questão: “Então, qual é a alternativa para a energia nuclear?”
A minha resposta foi simples e clara: Primeiro vocês precisam limpar a suas cidades e usar o esgoto para uma fonte renovável de energia. Esgoto tratado gera biogás (metano), um combustível ecológico que pode gerar energia elétrica. Quando esta fonte de energia renovável e extremamente barata estiver esgotada, podemos pensar sobre outras fontes como o sol, o vento e as ondas do mar. Mas na verdade isto não é o que eu queria escrever agora: Depois de assistir o RJ TV da Rede GLOBO sobre o transtorno do trânsito no Rio e os novos projetos do Governo Cabral, eu quero falar sobre o metrô.
Atualmente o metrô está sendo anunciado no Brasil como a melhor solução de transporte público. Mas na verdade o metrô é um sistema ultrapassado. O metrô não foi criado para eliminar o carro da cidade. Ao contrário: o sistema de metrô foi criado para eliminar o transporte público da superfície e colocar os passageiros na escuridão do subsolo e liberar as ruas da cidade para os carros. O metrô – com custos extremamente altos e riscos ambientais graves para as águas subterrâneas – foi criado no século 20 para dar espaço nas cidades para o novo “deus” – o carro!
Um sistema barato e efetivo, o bonde, foi eliminado e substituído pelo caríssimo transporte subterrâneo. Um quilometro de construção de metrô custa dez vezes mais do que um quilometro de bonde. Um quilometro de metrô custa na Europa de 80 até mais de 200 milhões de Euros. Um quilometro de bonde somente de 8 até 10 milhões. No século 21, nós não podemos mais continuar com esta concepção ultrapassada e altamente insustentável e caríssima.
O conceito verdadeiro para uma cidade verde de qualquer tamanho é diminuir o uso de carros individuais e aumentar a qualidade do transporte público e a qualidade da vida na cidade. A solução número 1 para este gol é o bonde. Cidades modernas, com um alto nível de qualidade de vida como Wuerzburg na Alemanha, Bilbao na Espanha ou Zurique na Suíça mostram isto.
Eles aprenderam muito com os erros de outras cidade européias, que investiram bilhões de dólares em construções de metrôs sem solucionar o problema dos congestionamentos de carros. Claramente os lobbyistas das grandes obras como Norberto Odebrecht ou Andrade Gutierrez e seus amigos vãoargumentar: “Mas estas são pequenas cidades, uma metrópole como Rio ou São Paulo precisa de outras soluções…”
Errado!
A solução de uma pequena cidade de cem ou duzentos mil habitantes pode ser transferida para uma cidade de 5, 10 ou 20 milhões de habitantes sim. Porque cada cidade ou metrópole como Rio, São Paulo, Salvador ou Recife é um conglomerado de bairros: cada bairro pode ser uma cidade como Bilbao, Wuerzburg, Zurique e podem ser conectados com bondes rápidos.
Antigamente, no século 19, os bondes de Paris ou Rio de Janeiro andavam nas cidades com energia dos cavalos. Hoje o bonde é mais rápido porque está usando a eletricidade. Eu, pessoalmente, prefiro o bonde a cavalo do que o bonde movido à eletricidade, gerado pelas usinas nucleares como Angra 1, 2, 3 ou pelas hidroelétricas como Itaipu, Tucurui ou Belo Monte. Mas nós vivemos no século 21, e para pessoas com pressa e que não gostam de cavalos e nem de usinas nucleares temos várias alternativas. A eletricidade dos bondes nas cidades pode ser gerada perfeitamente à base do esgoto da cidade que gera biogás e consequentemente eletricidade limpa.
Eu não falo sobre o biogás dos Aterros Sanitários (BIOGÁS Energia Ambiental). Eu falo sobre o gás à base dos excrementos nossos de cada dia. E que estão sendo jogados no momento, na maioria das vezes, nos rios ou no mar. Excrementos são uma grande fonte de energia limpa e, ainda mais, depois de tratado corretamente ser uma fonte de nutrientes importantes para a agricultura. Quem precisa de mais energia elétrica pode investir em placas solares ou pode usar o vento, energia eólica ou pode usar as academias de ginástica (músculos e gordura humana) para gerar eletricidade, como eu já expliquei em num artigo publicado no portal Ecodebate no último ano.
Voltamos para Índia!
Uma coisa que eu gostei muito na Índia, especialmente em Nova Delhi, foi o Auto Rickshaw com gás natural – que pode ser no futuro próximo substituído tranquilamente pelo biogás à base de esgoto da cidade. O Auto Rickshaw (veja a foto) é um táxi simples, rápido, barato, com pouco gasto de energia e dá muito emprego!

Auto Rickshaw
Auto Rickshaw. Foto de Gurinder Osan, AP

Questão: Por que só os grandes donos e fabricantes de ônibus podem ganhar com o transporte público? O auto rikshaw é barato, pode ser construído em pequenas fábricas, não precisa de muitos recursos de matéria-prima, e não precisa de muito espaço nas ruas. E além disso, é um grande prazer andar com ele, para moradores e turistas. O Auto Rickshaw foi nosso transporte preferido em todas as cidades da Índia.
Bom dia para todos
Norbert Suchanek, Correspondente e Jornalista de Ciência e Ecologia, é colaborador internacional do EcoDebate
EcoDebate, 04/03/2013

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