quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Manejo inadequado na pecuária contribui para a poluição do São Francisco


Veneno que vem do pasto põe em risco o Rio São Francisco
Tambor de agrotóxico abandonado em Martinho Campos e cabeças de gado em Parque de Exposições de Abaeté que lança dejetos em curso d’água são exemplos de ameaça da pecuária ao São Francisco e afluentes

Manejo inadequado na pecuária, com derrubada de mata ciliar e lançamento de dejetos, contribui para a poluição do São Francisco. Alto índice de fósforo preocupa no Centro-Oeste
Mateus Parreiras
Abaeté, Martinho Campos, Pompéu –  Boiadas que tanto inspiraram a obra do escritor João Guimarães Rosa, quem diria, se tornaram ameaça à saúde do Rio São Francisco. Tradição do Centro-Oeste ao Norte de Minas, a pecuária tem contribuído para a poluição do rio mais importante do estado por conta do manejo inadequado em parte das propriedades. Derrubada de mata ciliar, lançamento de dejetos em cursos d’água e pouco cuidado com fertilizantes são algumas das práticas que refletem o crescimento desordenado da atividade e têm reflexo sobre a qualidade da água do Velho Chico. A pecuária é tema da terceira reportagem do Estado de Minas sobre a poluição no Rio São Francisco.
A criação de gado cresce em ritmo acelerado ao longo do rio. Dados do IBGE mostram que enquanto o rebanho em Minas diminuiu 7,5% entre 2004 e 2011, o número de cabeças de gado cresceu 15% nos 43 municípios banhados pelo São Francisco – de 1,97 milhão para para 2,27 milhões de animais no período. O crescimento se torna problemático quando o manejo não é feito de forma adequada. Um dos exemplos está no Centro-Oeste mineiro: a abertura de pastagens em Pompéu, Martinho Campos e Abaeté é apontada como uma das causas para a grande quantidade de fósforo nas águas do São Francisco na região, segundo relatório do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) concluído no terceiro trimestre de 2012.
Rejeitos de frigorífico em Abaeté são despejados sem cuidado e escorrem para o Rio Marmelada, afluente do Rio São Francisco

No ponto de coleta da confluência com o Rio Pará, foram encontradas quantidades de fósforo 430% superiores ao limite de tolerância estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O nível máximo não poderia ultrapassar 0,05 miligrama por litro de água, mas chega a 0,215 no ponto de medição. A presença de fósforo é prejudicial à fauna aquática porque favorece a proliferação de algas e micro-organismos que consomem o oxigênio das águas, além de dificultar a penetração da luz solar no interior do rio. A presença de fósforo também propicia a reprodução de cianobactérias que podem produzir toxinas com efeitos danosos à saúde humana e da fauna.
“Os efeitos das grandes concentrações de fósforo na água são tão nocivos quanto os do esgoto doméstico”, compara o coordenador do laboratório de Ecologia de Peixes da Universidade Federal de Lavras (Ufla), Paulo dos Santos Pompeu. “A pecuária sozinha não é uma vilã, mas é um grande problema quando associada ao desmatamento e à perda ciliar”, acrescenta o especialista. Ele ressalta que há formas sustentáveis de ampliar a atividade, com manutenção florestal. “Isso impede o assoreamento, que torna os rios mais rasos e com menos peixes”, diz.
Fertilizantes
Ao percorrer pastagens de beira de rio entre Martinho Campos e Pompéu é possível constatar que matas ciliares que serviam de proteção para as margens são suprimidas para dar lugar a capim e cercas. No encontro das águas mansas do Rio Pará com o curso turbulento do Rio São Francisco, a água é espessa e há concentração de nutrientes, onde florescem aguapés. Tambores plásticos de fertilizantes ficam espalhados nas pastagens novas e plantações de cana-de-açúcar, alguns deles em meio à água empoçada das chuvas. É com as precipitações que fertilizantes dissolvidos no solo chegam ao leito do Velho Chico e do Rio Pará.
Os currais também não são preparados para tratar excrementos e implementos agrícolas e acabam despejados em valas que correm pelo solo e invariavelmente atingem as águas do rio. Em Abaeté, onde a pecuária é um dos símbolos da cidade de clima sertanejo, nem mesmo o parque de exposições municipal se preocupa com os lançamentos de dejetos. Valas permitem que estrume e urina do gado cheguem diretamente ao Rio Marmelada, afluente do São Francisco.
Em afluente, matadouro e frigorífico são problema
Sem fiscalização, o abate de bovinos também contribui com a poluição no Rio São Francisco ou afluentes. Em Abaeté, no Centro-Oeste de Minas, matadouros clandestinos despejam excrementos, vísceras e sangue diretamente no Rio Marmelada, um dos mais poluídos afluentes do Velho Chico. A reportagem do EM flagrou ainda frigorífico no qual há dejetos manejados sem cuidado. O Rio Marmelada apresenta níveis de coliformes fecais 4.900% acima do limite estabelecido pelo Conama. A água tem  também 117% menos oxigênio, 89% mais manganês e 76% mais ferro que o recomendável.
No bairro de São Pedro, um abatedouro que funciona de forma clandestina, sem respeitar normas sanitárias básicas, faz lançamentos no Rio Marmelada. “Os homens do matadouro trabalham de madrugada, para a fiscalização não ver. O cheiro dos animais mortos e do estrume entra em casa”, relata o aposentado Dalmi Xavier, de 54 anos, vizinho do empreendimento. “Depois que terminam de abater os bois e porcos, cai tudo no Rio Marmelada”, acrescenta.
Ainda na cidade, um frigorífico que aparenta funcionar corretamente, com funcionários vestidos apropriadamente e manejo adequado, também se descuida com dejetos. Na parte de trás, coberto por uma mata onde passa o Rio Marmelada, os rejeitos de cor amarelada são lançados para a coleta, para a qual há até uma estação de tratamento. Mas o material despejado por dutos tem primeiro de ser despejado numa caçamba puxada por trator. No processo, boa parte do líquido vaza da caçamba e escorre diretamente para o Marmelada.
EM entrou em contato com funcionários do frigorífico, que insistiram que todos os seus dejetos são tratados na estação própria. Os representantes da empresa não foram encontrados. Procuradas para se pronunciar sobre a fiscalização de empreendimentos e fazendas, as prefeituras de Abaeté e Pompéu não responderam até o fechamento desta edição. A prefeitura de Martinho Campos informou que não foi notificada pelo Igam sobre o aumento das concentrações de fósforo no Rio São Francisco e afirmou agir por meio de denúncias para coibir desmatamentos e manejos inadequados. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável informou que o planejamento de 600 fiscalizações no Rio São Francisco previstas para este ano  inclui atividades agropecuárias.
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http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/02/19/interna_gerais,351358/veneno-que-vem-do-pasto-poe-em-risco-o-rio-sao-francisco.shtml#.USNoVUAG9I0.gmail
Enviada por José Carlos para Combate ao Racismo Ambiental.
Matéria do EM, socializada pelo blogue Racismo Ambiental, de Tania Pacheco e republicada pelo EcoDebate
EcoDebate, 20/02/2013

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